Almas Obscuras - Despertar
6 Capítulo 5 - Garotas Perigosas
Notas iniciais
Eu não conseguia respirar. Podia sentir meus pulmões se espremerem pela falta de ar. Eu gritava por socorro, mas ninguém apareceu.
Água. Água por todos os lados. Até que, novamente, o mesmo toque familiar...
Vai ter que confiar em mim, Melaine, disse a voz, Eu posso salvá-la.
Você me salvaria?
Pude senti-lo sorrir.
Sempre.
– Ah! – acordei sobressaltada devido à sensação de falta de ar no sonho, ao mesmo tempo que dei com a testa na janela. Eu tinha a péssima mania de me mexer durante o sono; e, por causa disso, caía muito da cama, o que fez mamãe instalar grades durante a minha infância.
Acordei confusa. Os acontecimentos da noite anterior ainda sondavam a minha cabeça, e não conseguia parar de pensar na pesquisa e na misteriosa relação de Logan com ela e minha mãe. Seu belo colar de asas descansava ao lado do meu notebook. Ponderei, pesando se via ou não de vez as informações deixadas por ela. Tinha medo de saciar minha curiosidade e me deparar com mais enigmas.
Acabei decidindo por ver logo de uma vez o que quer que fosse, ao mesmo tempo que tia Diana adentrou o quarto e franziu a testa ao me ver escorada à mesinha de cabeceira toda descabelada.
– Na internet logo de manhã?
Sorri sem jeito.
– É...só uma coisinha que tenho que fazer antes de ir pro colégio.
Ela fez muxoxo, deixando-me sozinha para explorar os arquivos secretos de minha mãe. A primeira parte consistia em uma série de figuras aleatórias e desconhecidas pra mim. Em uma, seres alados; noutra, pinturas com significados estranhos. Mais embaixo, um escrito apareceu:
Capítulo XVI – Anjos Caídos
Seres celestiais esplendorosos dotados de extremo poder, que por algum motivo aparente, abandonaram seu lar celestial e residem na Terra. Há relatos que dizem que os anjos caídos andam sobre a Terra desde os primórdios da humanidade. O mais conhecido deles é Lúcifer. Mas nem todos os anjos caídos são maus. Há os que caem por motivos torpes, como inveja; e os que caem pelo prazer da vida humana. São imortais, e, na condição como tal, conservam seus dons naturais; como força, velocidade e sentidos aguçados, além de uma beleza fora do comum. Diversas mitologias os retratam como os responsáveis por gerar uma raça abominável e que não deveria ter existido na Terra, os Nefilins.
Em seguida, apareceram uma série de figuras de anjos em queda, e, logo depois, mais um texto.
O Pecado Divino
Conta-se que há eras atrás, o poderoso arcanjo Miguel enviou tropas de um grupo de anjos chamados Anjos Sentinelas para exterminarem a raça humana da face da Terra. Porém, seu plano falhou quando seus anjos caíram em desgraça ao se apaixonarem por eles, produzindo a raça Nefilim. Entretanto, alguns desses anjos, perversos, permaneceram leais à sua causa e pretendiam dominar a Terra, junto com seus descendentes, que iniciaram um processo de dominação e superioridade. Só que uma grande rebelião se formou, iniciando uma grande guerra que sem estende até os dias de hoje.
Continuei lendo, empolgada.
Nefilim
Raça mitológica de origem divina, os anjos. São dotados de dons incríveis. Segundo registros arqueológicos, seriam uma nação antediluviana, como os atlantes da famosa cidade perdida de Atlântida. Existem poucas provas de sua existência.
Capítulo X – Hestheryta
Não se sabe sua origem ao certo; mas, segundo a lenda, seriam fragmentos ou pedaços altamente radioativos derivados da explosão da queda dos anjos que caíram sobre a Terra.
Ao ir para a próxima página, um arrepio me tomou inteira.
A foto mostrava uma pedra quase que idêntica à mesma pedra no mostruário da feira arqueológica do colégio; dourada-prateada.
Passei a respirar mais rápido à medida que as coisas começavam a se encaixar na minha cabeça. Essa pesquisa estava começando a me assustar de verdade. Porém, não devia me assustar com as atitudes de mamãe.
Uma outra foto, porém, chamou minha atenção outra vez.
Havia uma imagem de um colar idêntico ao colar de Logan.
Peguei o colar e dei uma boa olhada, comparando-o com o da foto. Não eram semelhantes, mas sim idênticos.
Meu coração foi à mil. Não haviam mais dúvidas. Logan me lançou o desafio porque sabia que estava certo. Aquele colar era uma prova de que, de alguma forma, ele estava envolvido com minha mãe.
Dei um meio sorriso, dizendo à mim mesma:
– Ok, Logan. Você venceu.
...[...]...
Uma ideia complicada estava se formando na minha mente. A tal pedra exposta no colégio como prêmio – Hestheryta, ou seja lá o que for – foi retirada de uma das minas que ficava bem perto de um dos Laboratórios da LancasterCorp. E se eles estavam patrocinando a pesquisa, é porque, de alguma forma, eles sabiam o que era aquilo.
Só havia uma pessoa que poderia me ajudar.
Depois de me encontrar com Lauren no corredor, avistei Mary entrando na sala do jornal da escola. Toquei seu ombro quando a alcancei.
– Você por acaso viu um cara hoje na feira?
Ela pensou.
– Caso você se refira a um cara alto e estranho, ele já foi embora. Aliás, eu o flagrei mexendo em um dos meus computadores...olhando uma foto sua. – ela me olhou. — Agora sei porque ele nem sequer me notou... – ela corou.
– Você tá afim dele!
– Não seja ridícula. Ele parecia bem concentrado em admirar a sua beleza, Pom-Pom. – disse ela. – Então, não sou eu a atraente por aqui.
Pisquei.
– O quê? Você acha mesmo que...nós mal nos conhecemos. O que a fez pensar que ele possa gostar de mim?
– Cá entre nós, Melaine – ela disse de forma hostil. – Você faz esse tipo de garota depressiva que todos os caras acham incrivelmente sexy. E meia dúzia dos caras do colégio já babam por você mesmo...o que é só mais um?
De tudo o que ela disse, eu só conseguia pensar em como e porquê Logan teria uma foto minha. Isso só provava que haviam mais segredos além do colar – o que só me empolgou ainda mais.
– Mary, tenho uma proposta pra você.
Ela pareceu ligeiramente interessada e deu de ombros.
– E que seria...?
– Venha comigo nos Laboratórios da LancasterCorp hoje à noite.
Ela ficou confusa.
– E o que eu faria lá?
– Posso te ajudar a encontrar pistas da demissão do seu pai...e eu irei procurar uma coisa pessoal.
Mary se fez de rogada.
– E eu seria sua convidada de honra?
Engoli em seco.
– Ah...quanto à essa parte, não sei se vai concordar comigo – mordi o lábio, receosa. – Nós meio que...vamos invadir.
Ela arregalou os olhos.
– Ficou doida?! – ela disse um pouco alto demais e nos aproximamos dos armários. – Pode entrar lá quando quiser! É a filha do dono!
– Não é bem assim. Não tenho nenhum cartão magnético ou coisa parecida. Nunca estive lá antes.
– Não sei não...é arriscado. Podemos voltar à estaca zero. – ponderou ela.
– Só acho que pode ser uma boa chance pra você. Não tem perigo. Há uma infinidade de labirintos lá, mas seremos diretas e ponto – sorri, orgulhosa de minha barganha. – E aí, o que me diz?
Ela pensou bastante por um tempo. Por fim, ela me deu um leve sorriso.
– Estarei na sua casa depois das dez. E as consequências ficam por sua conta.
À medida que as horas passavam, eu ficava mais apreensiva. Eu me sentia uma agente da CIA em sua primeira missão secreta. Sair às escondida requer discrição.
Esperei um tempo antes de ir para o quarto. Vesti uma calça preta, casaco preto, boné e tênis. Resolvi deixar o cabelo solto; assim seria mais dificilmente reconhecida. Qualquer coisa, eu os prenderia com o boné e o capuz sobre eles. Meus materiais consistiam em meu celular e uma lanterna, além de minha coragem e convicção de que daria tudo certo.
Sentei na cama, esperando. Dois minutos mais tarde, escutei uma pedra bater na janela. Mary estava lá embaixo, também vestida de preto da cabeça aos pés como eu.
– O que está esperando? – ela disse, grosseira como sempre, assim que abri a janela, e fiquei medindo a altura até o chão.
Ela notou e suspirou, revirando os olhos.
– Vamos, qual é. Você é uma líder de torcida. Já foi jogada de alturas maiores que essa.
Tomei fôlego e pulei, caindo um pouco desajeitada. Entramos no carro em silêncio, e dei um sorriso, nervosa. Mas foi ela quem quebrou o silêncio.
– Tem certeza disso mesmo?
Dei a partida no motor.
– Não tem como voltar atrás. E garanto à você: vou dar motivos de sobra pra não confiar na tia Miranda e em nenhum deles.
Seguindo pelas ruas escuras e cada vez menos movimentadas, logo avistamos as placas e outdoors chamativos da LancasterCorp. Chegamos em uma estrada mais estreita e nos aproximamos de terrenos cercados com placas de advertência. A enorme fachada da sede se ergueu na minha visão: um enorme prédio acinzentado, repleto de luzes que piscavam em alerta, com grades de proteção ao redor. Haviam alguns carros no pátio e o único ruído vinha de um gerador de energia.
– Olha só. – Mary apontou para um terreno baldio ao fundo que irradiava um estranho brilho. Eram pequenos contêineres com o inconfundível brilho dourado-prateado.
Descemos do carro e nos aproximamos da grade pra ver melhor. O local parecia estar sendo explorado há um certo tempo.
– Hestheryta. – sussurrei.
– O quê? – ela se virou.
– Hestheryta. É o nome dessa pedra. Achei em uma das pesquisas da minha mãe. – contei.
– É melhor agirmos logo. – aconselhou ela.
Procuramos o melhor lugar para entrar. Achamos uma parte da cerca que estava enferrujada e nos esprememos através dela. Quando Mary cogitou ligarmos as lanternas, fiz “Shh!”, apontando para os seguranças, e corremos para nos agachar atrás de um carro. Calculei o menor caminho até a entrada. Decidimos intercalar entre os carros até chegar lá. A porta de correr com sensor de presença permitiu nossa entrada e paramos, ofegantes.
Nos entreolhamos.
– E agora? – Mary quis saber.
– Vamos por partes – liguei a lanterna e iluminei o corredor escuro até achar o que parecia ser um mapa. – Como eu disse, esse lugar é um labirinto. Primeiro você. Onde seu pai trabalhava?
– Na ala de experimentos – ela correu os dedos pelo mapa. – É nesse corredor, virando à direita.
Demos um passo de cada vez. Tudo estava silencioso e uma estranha sensação me dizia que um alarme poderia soar a qualquer momento.
ALA DE PROJETOS EXPERIMENTAIS. ACESSO RESTRITO À FUNCIONÁRIOS, dizia a primeira placa em vermelho.
– Acho que é aqui... – iluminei a porta para ver o que tinha lá dentro. Além de mesas com inúmeros objetos estranhos, havia uma outra sala, de difícil acesso, onde algumas pessoas trabalhavam.
– Ah, não...o cadeado lê as impressões digitais a laser – disse Mary, se referindo ao fato de que a tranca se tratava de um campo magnetizado de inteligência artificial.
Arranquei um pedaço de fita adesiva transparente que achei em uma das mesas.
– O que vai fazer?
– A última digital ainda deve estar aí – encostei o plástico na leitura. – É só esperar.
E esperamos. Primeiro, uma luz cinza correu horizontalmente pela minha mão, ficando vermelha em seguida. Logo depois, assim que a luz ficou verde, ela soou um apito sonoro e a porta se abriu.
– Voilá. – sorri.
– É, você é boa – admitiu ela.
Estávamos protegidas das pessoas da outra sala graças a um vidro fumê que havia entre nós. Haviam câmeras de segurança espalhadas e procuramos não esbarrar em nada. Haviam cápsulas com amostras, papéis espalhados com uma linguagem química e diversas grades; algumas cobertas, além de armários. Vasculhamos o mais silenciosamente possível.
– Meu pai... – Mary puxou uma ficha. – Aqui não diz nada! Só que ele falhou em uma experiência.
– Experiência? – iluminei o armário com uma mão e vasculhei os papéis com outra.
Concentrada em minha procura, não percebi que Mary parou para me olhar depois de um tempo.
– Olha, sobre o tal rapaz...talvez você esteja certa.
Ela se interrompeu; mas, de qualquer forma, eu não teria escutado o resto. Uma sensação estranha foi tomando conta de mim. Algo que nunca senti antes e que parecia ferver em minhas veias.
Ciúmes? Não!
– Sei reconhecer quando perco – Mary continuou. – Ele parece ter gostado de você e eu não teria nada, de qualquer forma.
Suspirei.
– Mary, Logan e eu não temos nada. Ele deve me conhecer por causa da minha mãe. Não é o que está pensando. – apressei-me em dizer. – Ele me devolveu meu diário de bordo quando o perdi e foi quando decidi investigar os enigmas deixados por ela. Por isso tenho que resolver esse mistério. Acho que estão interessados nas pesquisas dela.
Ela fez muxoxo, mas não disse nada. Voltei a me concentrar, esperando que aquela queimação no peito cessasse. Balancei a cabeça. Por que e me sentia assim ao falar de Logan? Eu mal conhecia o cara! Eu não poderia gostar dele, poderia? Eu não podia ignorar ou descarta qualquer hipótese, mas Logan carregava consigo um grande mistério. E aquilo me amedrontava.
Assim que voltei a mexer nos papéis, meu coração deu um salto ao ver três fichas. Pareciam fichas criminais. Nelas, haviam uma foto minha, de mamãe – e pasmei – de Logan. Eram fotos espontâneas; distraídas, tiradas sem que a pessoa soubesse. Na ficha de mamãe rabiscaram um “X” na foto e escreveram a palavra “ELIMINADA” grafada em letras grandes. Na de Logan, desenharam uma seta apontando para sua foto e rabiscaram a palavra “PERIGOSO” também em letras grandes. Não havia nada na minha.
Tirei fotos das fichas e as coloquei de volta, quando Mary disse:
– Olha!
A porta da outra sala foi aberta. Assustadas, recuamos rápido demais e esbarramos em uma mesa, fazendo o maior barulho e as amostras tilintaram. Todas as câmeras se moveram ao mesmo tempo e o alarme soou, pintando toda a sala de vermelho, e um gás branco começou a fluir no ar.
– INTRUSOS! INTRUSOS! – berrava uma voz eletrônica.
Com o coração à mil, escutamos passos pesados e vozes que gritavam, ao mesmo tempo que as portas se fechavam simultaneamente.
Eu peguei na mão fria de Mary.
– É hora de correr.
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