Almas Afins

46 Capítulo 46 - Fora de controle...


Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Espero que gostem do capítulo e desculpem-me se houver algum erro. Boa leitura. =D

Dentre todas as coisas das quais Quinn se absteve desde a adolescência, ela tinha certeza de que chorar por alguma perda estava no apogeu delas. Ela detestava chorar. Detestava o aperto na garganta e a água salgada escorrendo pelo rosto, molhando-o, deixando a pele rubra e os olhos inchados. Detestava a secreção que tentava controlar pelo nariz e, sobretudo, o motivo pelo qual a fazia chorar.

Chorar por dor.

O pranto desmedido começou na adolescência, quando engravidou. Depois, ao ter de entregar Beth para Shelby. Tinha chorado com isso. Chorou como nunca tinha chorado antes. Anos mais tarde, sentiu a mesma dor quando Rachel se foi e se viu sozinha e assustada no momento em que Audrey apresentou os primeiros sinais da doença que levaria a visão dela. Quinn chorou, porque, diante de tantas características que a compõem, sabia que era sensível. E embora achasse que ser detetive mudaria um pouco aquele fato, estava enganada. Ainda continuava quebrável e capaz de derramar lágrimas facilmente. Era inerente. Quinn odiava isso. Chorar trazia lembranças ruins que tentava não pensar frequentemente. Porém, ainda que tentasse, ela chorava quando algo atingia o seu coração.

E era o que estava acontecendo naquele instante.

Quando todas as possíveis evidências foram recolhidas, todas as devidas fotos tiradas e todo o ambiente do crime examinado, os legistas levaram os corpos. Quinn suspirou pesadamente ao ver Kevin sendo guardado no saco plástico mórbido. Sua cabeça reforçando constantemente que ele estava morto. O Homem Sem Coração havia encontrado-o, como ele sempre dissera que aconteceria.

Santana xingou em alto e bom som quando viu a aglomeração de pessoas e repórteres na frente da casa. A polícia tentava afastá-los, mas sem sucesso.

— Eu falhei com ele. — Ela deixou que a cortina cobrisse a janela e se virou quando Quinn se pronunciou. — Ele sabia que seria pego, e eu me senti tão confiante de que nada aconteceria com ele. Eu falhei com Kevin, Santana. Eu falhei com ele, e agora a minha casa é a droga de uma cena de crime! — Elevou o tom de voz e arrancou com força as luvas descartáveis. — Rachel viu toda essa merda! Ela deve estar arrasada e horrorizada, e a minha filha não pode voltar para a própria casa!

Santana trocou um olhar rápido com David, que parou de guardar a câmera para focar a atenção em Quinn. Ambos sabiam que ela estava perdendo o controle momentaneamente. Isso sempre acontecia quando algo a atingia profundamente.

David se aproximou e a abraçou, e ela ainda repetia que era culpada no instante em que a primeira lágrima escorreu, e a segunda, a terceira e assim por diante. Estava tão nervosa. O Homem Sem Coração entrou na sua casa. No lugar que deveria ser fonte de segurança para sua filha. E deixou dois corpos no seu sofá. Kevin morreu. Tinha falhado com ele. A contagem regressiva estava acabando, e temia por Rachel. Mal conseguia imaginá-la caminhando sozinha pelas ruas de Ohio. Algo poderia acontecer com ela.

Quinn chorou por alguns minutos antes de se recompor. Se sentia inútil e sem saber para onde ir. Margo era uma chance. Poderia arrancar mais informações, mas agora ela estava morta. Tudo estava escorrendo por entre seus dedos. As chances de acabar com aquele serial killer estavam se esvaindo.

— Eu sei que Kevin abandonou a noiva grávida, e ele merecia pagar por isso, mas não dessa forma. Ele era um homem gentil, e isso dói, mas precisamos desvendar toda essa merda.

— Como você quer que eu faça isso? Eu não tenho mais casa, Santana. Está tudo fora de controle. — Quinn respondeu com a voz rouca e baixa e agradeceu quando David estendeu um lenço na sua direção.

— Há a minha casa, a casa dos seus pais, dos seus sogros e da sua irmã. Vocês não estão sozinhas, Q. E nós falhamos com Kevin, mas não vamos falhar com a Rachel.

Quinn respirou fundo e olhou ao redor. Sua sala de estar. Cada móvel que escolheu com Rachel posicionado minuciosamente quando se mudaram para aquela residência agora andavam lado a lado com um crime horrendo.

— Preciso pegar as nossas coisas.

— Você sabe que podem liberar a cena do crime mais cedo, não sabe? A casa é sua e...

— Eu sei. — Quinn interrompeu Santana. — Mas a Rachel não conseguiria por enquanto.

Santana entendeu e a ajudou no processo de organizar tudo em algumas malas. Era apenas o necessário por enquanto. Coube para David a tarefa de levar o carro para a área dos fundos, garantindo o mínimo de privacidade para que colocassem os pertences no porta-malas.

Já era fim de tarde quando Quinn deu partida no veículo, deixando que Santana e David fossem na viatura para a delegacia. Ela pegou um caminho diferente, maldizendo os repórteres que tentavam segui-la em busca de informações, e finalmente conseguiu pisar no acelerador.

Ela logo estava na frente da casa dos sogros e retribuiu o abraço de Hiram quando ele abriu a porta, se permitindo desfrutar do afeto. Ele sempre foi extremamente amável. Era mais do que o pai da sua esposa. Era um amigo.

— Rachel ainda está dormindo. — Ele comunicou depois de ajudá-la com as malas.

— Isso é ótimo. Quanto mais ela puder descansar, melhor. Eu vou ligar para a escola Shawnee e explicar tudo, embora eu tenha certeza de que todos já saibam. Está nos noticiários.

Hiram assentiu.

— E você, Quinn? Como está se sentindo?

— Eu parei de me fazer essa pergunta desde que esse caos começou, Hiram. O controle já não me pertence, e eu não sei para qual direção ir. Não há pista ou testemunha alguma. Eu preciso ir para a delegacia ver as fitas de segurança da minha casa, mas eu tenho certeza de que não vamos encontrar algo relevante. Ele sabe o que fazer e como fazer.

— Eu sinto muito, Quinn. Muito. — Hiram inspirou pesadamente. — Há algo que eu possa fazer?

— Cuide da Rachel e da Audrey.

— Rachel pode ser uma das... — A frase não foi completada, mas Quinn soube que era uma afirmação. Hiram era versado sobre tudo o que lia. Sabia perfeitamente encaixar peças antes de todos, e a preocupação latente e aflita que brilhava nos olhos dele através dos óculos de grau a fizeram encolher os ombros em lamentação.

— Como você soube o padrão?

— Lima é muito pequena. Todos sabiam que Jason tinha abandonado David, e depois Elijah Puckerman. A única semelhança entre eles era o fato de terem deixado pessoas importantes para trás. E a Rach...

— Rachel deixou para trás Audrey e eu, mas nada justifica tudo isso, e eu não vou deixar que ele encoste um dedo nela. Eu prometo, Hiram.

Quinn não tinha costume de fazer promessas que não podia cumprir. Ela sabia que o Homem Sem Coração estava cada vez mais perto e sabia que prometer a segurança de alguém era arriscado, especialmente para o pai desse alguém, mas ela precisava se fixar na ideia de que a sua promessa deveria ser cumprida.

E Quinn faria de tudo para que fosse.

Ela chegou no departamento cerca de quinze minutos depois de deixar a casa dos Berry e não se surpreendeu com a quantidade de pessoas alarmadas no local. Foram duas mortes. E todos os pares de olhos focaram-na ao passar pela porta. Alguns colegas tentavam sorrir em solidariedade. Outros, no entanto, apertavam o seu ombro gentilmente. Quinn também odiava aquilo. Os olhares complacentes.

Ela finalmente liberou a respiração que prendia ao entrar na sua sala, mas seu corpo não relaxou ao ver Santana tão irada. Warren e Elaine tentavam acalmá-la.

— O que está acontecendo aqui? — Ela indagou após fechar a porta.

— Sinto muito, Quinn. — Warren disse. Era a segunda vez que ouvia isso em um intervalo curto de tempo. E tinha certeza de que odiaria o que viria. — Mas o caso foi entregue aos federais.

— O quê?! Você está brincando comigo!

— Fomos comunicados há pouco tempo. O temor sobre esse serial killer está atingindo todo o país. Eles não iriam deixar um caso desse tamanho nas mãos de um departamento em Lima, Ohio.

Quinn apoiou o corpo na porta. Achava que não tinha como ficar pior, mas estava errada. Estava ficando tudo pior. Sabia que quando os federais pusessem as mãos nas evidências, pouca coisa seria divulgada para os detetives dos departamentos. Eles eram, em sua maioria, prepotentes.

Santana puxou bruscamente o braço que era segurado por Elaine.

— Não há nada que possamos fazer? — Ela perguntou, completamente inquieta.

— Infelizmente não. Como a maioria dos crimes aconteceram aqui, eu os convenci a virem para cá e não levarem as evidências. Eles chegam amanhã de manhã.

— Vamos ficar de fora, não é?

— Eles têm os próprios investigadores, então...

— Já entendemos. — Quinn cruzou os braços. — Eles vão querer controlar tudo e resolver tudo, porque virou um risco de nível nacional. Nós sabemos.

Warren aquiesceu lentamente.

— Se precisarem de mim, estarei com o celular ligado. Preciso sair por alguns minutos. — Ele deu meia-volta, mas estancou ao chegar na porta e se virou novamente. — Eu acabei de entrar em contato com a ex-noiva de Kevin. Ela mora em Dakota do Sul e vai demorar um pouco para chegar em Lima, então provavelmente os investigadores que chegarão amanhã vão interrogá-la.

— Não podemos fazer isso? — Quinn perguntou. Os lábios crispados em decepção.

— Infelizmente não, Quinn.

Ele se retirou depois disso, deixando as três detetives sozinhas.

Elaine se certificou de que não havia ninguém por perto do lado de fora da sala para começar a falar.

— Sabem o que precisamos fazer, não sabem? — Ela continuou quando não recebeu uma resposta. — Precisamos fazer uma cópia da chave da sala de evidências, porque no momento em que os federais chegarem, eles vão cercar tudo. A minha sala em Cincinnati não será invadida. Vocês podem ficar lá, e nós vamos levar tudo o que organizamos.

— E por que exatamente você quer isso? — Santana arqueou as sobrancelhas.

— Porque eu também faço parte disso e odeio aqueles carrapatos. Nós precisamos capturar o assassino.

Quinn fitou Elaine por longos segundos antes de mover os olhos para Santana.

— O que temos a perder?

Santana suspirou.

— Vamos lá, então.

...

O organograma e os painéis foram deixados no porta-malas do carro de Quinn, assim como a cópia de todos os documentos de todas as vítimas, incluindo fotos e laudos. Infelizmente, não poderiam levar as evidências encontradas nas cenas dos crimes, mas teriam acesso à elas com a cópia da chave que conseguiram há uma hora. Eram os itens mais importantes.

Ela estava voltando para a delegacia quando foi parada por uma das policiais científicas, responsável pelo Departamento de Identificação.

— Detetive, nós terminamos a identificação da foto encontrada na vítima do sexo masculino. O capitão Warren pediu para que eu o entregasse pessoalmente quando voltasse, mas preciso sair, então pode entregá-lo por mim?

— Por que ele pediu esse documento?

— Não sabemos, detetive.

Quinn analisou o envelope amarelo, assentindo enquanto a sua cabeça processava a informação adquirida. Warren tinha dito que a noiva de Kevin estava indo para Lima e agora pedia para que aquele documento fosse entregue para ele. Não havia contado esse fato. Por quê? O que ele escondia? Sabia que aquele procedimento era padrão. O Departamento de Identificação sempre fazia isso com as fotos encontradas nas vítimas, mas Warren nunca se importou em pedir o resultado de um desses processos.

— É claro. Eu posso entregar. Pode deixar. — Quinn sorriu cordial e pegou o envelope.

A mulher de meia-idade retribuiu o sorriso, agradecida, e caminhou apressadamente até o próprio carro.

Quinn não hesitou em ir para a sua sala.

— Pronta para ver a fita de segurança? — Santana perguntou ao vê-la entrar.

— Graças ao Dylan, nós temos acesso ao quarteirão, mas eu tenho certeza de que não há nada. Ele não seria relapso. — Quinn respondeu e puxou uma cadeira para se sentar ao lado de Santana e Elaine. — E eu peguei isso. — Mostrou o envelope. — Warren não fez contato algum com a noiva de Kevin e pediu o resultado da identificação da foto sem nos comunicar.

— Por que ele faria isso? — Elaine perguntou, levemente aturdida.

— É o que precisamos descobrir. — Quinn abriu o envelope.

A primeira coisa que ela viu foi a foto da mulher. Diferente da imagem que Kevin guardava, os traços estavam mais maduros e firmes. Era uma fotografia atual. Embaixo dela, uma ficha com os dados pessoais. Nome, endereço, telefone, e-mail para contato. Até mesmo tipo sanguíneo e profissão.

— Devemos pedir para ela vir aqui? — Santana questionou quando finalizou a leitura do documento.

— Não. — Quinn negou com a cabeça. — Vamos entrar em contato com Candice Cooper longe daqui, mas vamos ver a fita antes disso.

Todas concordaram e deixaram que a filmagem transcorresse normalmente na tela do laptop. No entanto, Quinn resfolegou quando viu o carro cruzar a faixa de pedestre e parar no acostamento rente à sua casa.

— Esse é um New Beetle vermelho? — Santana questionou.

Quinn não respondeu, mas a sua respiração também parou quando o Homem Sem Coração saltou para fora. Estava calmo e tinha um andar suave. O sobretudo com capuz o cobria, exceto o par de tênis casuais. Os mesmos que tinham usado na noite em que a fez adormecer na casa de Kevin. Nenhum fio de cabelo visível. A mão coberta pela luva puxou um celular do bolso, e a tela ficou escura pouco tempo depois.

— Como ele fez isso? — Elaine perguntou.

— Provavelmente ele conseguiu invadir a minha rede sem fio e conseguiu desligar as câmeras. — Quinn respondeu.

— É um homem. — Santana afirmou. — A altura, o tamanho do pé, da mão, os ombros. É um homem.

— Pode ser o... — Quinn interrompeu a si mesma, notando que Elaine prestava atenção.

— Quem? Eu preciso saber disso se querem minha confiança.

As amigas suspiraram e contaram tudo. Os corvos, a noite na casa de Kevin e o que Russel tinha dito.

Quando finalizaram, Elaine ainda tentava perfilar as ideias na sua cabeça.

— Você está me dizendo que também vê corvos como o Kevin Mostow? Que ele não estava delirando?

— Exatamente. Esses dois corvos, o mais escuro, principalmente... ele faz com o que eu o siga até os corpos. É por isso que sabemos antes de todos.

— E você possivelmente tem um meio-irmão que pode ser o assassino?

— Provavelmente.

— Puta merda. — Elaine se recostou na cadeira. — Eu sempre achei que um dia faria parte de algo grande na polícia, mas isso é um labirinto.

— E não sabemos para onde ir.

— Certo. Vamos tirar cópias dessas fitas também. — Ela se levantou, mas pareceu pensar por alguns segundos. — Por que vocês ficaram tão assustadas com o carro que ele estava dirigindo?

— Porque eu tive esse carro quando era adolescente. Eu o ganhei no meu aniversário de dezesseis anos.

— Primeiro o carro idêntico ao que você ganhou e depois a sua casa. Ele está querendo brincar. Sam está querendo brincar. — Santana disse. — E precisamos ir até ele.

— Mas um ataque direto é o pior. Vocês vão entrar em contato com a Candice Cooper, e eu vou procurar todos os New Beetle vermelhos de Ohio. Eu acho que ele não seria tão estúpido em usar o próprio nome como dono do carro, mas preciso tentar. Amanhã cedo vocês vão levar tudo o que guardaram no carro para Cincinnati.

Quinn e Santana concordaram e também fizeram uma cópia do documento da identificação de Candice, deixando o original na sala de Warren antes de saírem.

...

O carro de Quinn parou na frente da residência de Santana perto das oito horas.

— Você vai ficar bem? — A latina perguntou.

— Eu tenho certeza que não.

Ambas saíram do veículo, e Quinn fitou na casa do final da rua. Ainda que a noite deixasse a rua mais escura, era possível ver a faixa amarela adornando a área.

— Vamos entrar.

Elas conversaram um pouco com Brittany, que não hesitou em permanecer abraçada com a amiga. Os olhos azuis tão claros quanto o céu em uma manhã ensolarada estavam temerosos e complacentes. Aquela complacência foi aceita por Quinn, acompanhada do afeto que recebia. Sabia que precisava ir para a casa de Hiram. Queria saber como Rachel estava e queria ver Audrey. Tudo estava desmoronando. Tudo estava fora de controle.

Quando Brittany voltou para a cozinha no intuito de terminar o jantar e recusou a ajuda oferecida, Quinn ainda passou um curto período dialogando com Blanca. A garotinha sentia falta de Audrey, e Quinn invejou a inocência dela por um segundo, desejando voltar a ser criança para que não precisasse encarar toda aquela bagunça.

Por fim, Blanca se direcionou à cozinha, animada em auxiliar a mãe no jantar, e as detetives foram para o escritório.

Elas se sentaram no sofá de dois lugares e ligaram para Candice Cooper.

Bastou três toques sonoros para que a chamada fosse aceita, e a voz feminina e educada preencheu o ambiente.

Olá. Boa noite. Com quem desejam falar?

— Boa noite. Estamos falando com Candice Cooper?

Estão sim. O que desejam?

— Aqui é a detetive Quinn Fabray e a detetive Santana Lopez. Estamos ligando para informar sobre o fatídico falecimento de Kevin Mostow.

Houve um breve momento de silêncio até a mulher responder.

Desculpe. Eu não conheço nenhum Kevin Mostow.

— Ele foi o seu noivo. Talvez não se lembre. — Santana disse. — Quando eram mais novos. Ele a abandonou grávida e foi para Ohio se tornar detetive.

Oh! Eu acho que está acontecendo algum engano, detetives. — Candice respondeu. — Eu tenho uma filha, mas o pai dela não se chama Kevin Mostow. Eu não fui abandonada por ele.

— Mas a senhora foi abandonada por alguém?

Sim, eu fui. Eu fui abandonada por Warren Morton.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. Bom domingo e começo de semana para vocês. =D https://twitter.com/yasagron