Almas Afins
37 Capítulo 37 - Probabilidades...
Notas iniciais
Quinn parou o carro no acostamento, fitando a casa média adornada por árvores e com um pequeno playground no jardim.
Santana suspirou.
— Vamos, Kevin. — Ela chamou e soltou o cinto de segurança.
— Tem certeza de que não vou incomodar? — Ele indagou receoso no banco de trás.
— A casa vai ficar vazia até o final da tarde. Até lá, vamos criar uma lista com possíveis vítimas enquanto a Quinn vai até um dos nossos amigos conseguir mais câmeras de vigilância e escutas. Precisamos organizar tudo na sua casa. — Ela explicou, fitando a amiga em seguida. — Nos vemos depois?
— Claro. Eu vou até a OSU, mas voltarei logo.
Santana apenas assentiu e olhou para o homem de meia-idade.
— Agora vamos. Eu ainda quero saber os detalhes de como você conseguiu esconder essa tatuagem.
Kevin deu de ombros timidamente.
— Eu soube que estavam procurando alguém com essa tatuagem, então comprei algumas maquiagens para que pudesse escondê-la. Estou fazendo isso há alguns dias.
— Tudo bem. — Ela saltou para fora do carro com Kevin, e Quinn afundou o rosto no volante.
Aos seis anos, ela começou a ouvir as histórias de Russel. De como ele protegia e resolvia casos aparentemente impossíveis. Quinn sempre o admirou e contava os minutos até ele chegar do trabalho para continuar a narração envolvente. Era como um universo dentro da sua cabeça, onde o seu pai era o herói. Ela também queria ser uma heroína, que defendia vítimas e resolvia situações difíceis, então cresceu e finalmente se tornou detetive. Era um sonho realizado. Contudo, os casos que surgiram não foram realmente grandes. O maior, antes do Homem Sem Coração, tinha sido de uma garota raptada aos oito anos pela babá. A funcionária havia criado um afeto fora do comum pela criança. O caso mobilizou a cidade, mas foi solucionado em poucos dias. A mulher não era realmente boa em ocultar a própria localização. Com isso, eclodiu uma frustração latente por nunca ter tido a oportunidade de achar um caso gigantesco.
Mas agora, enquanto se mantinha de olhos fechados e pensava sobre o serial killer que estava chocando todo o país, Quinn desejava que os casos pequenos voltassem e que o Homem Sem Coração nunca tivesse existido. Ela odiava ver os corpos sem coração, capturados por alguém que agia como Deus.
E se todos se arrependessem futuramente? Se Zach voltasse para a família dele? Se Jason retornasse para fazer parte da vida de Thomas? Se Elijah decidisse se estabilizar em uma família depois de ter o perdão de Noah, Ethel e Jake? Eram infinitas possibilidades de redenções para aqueles homens, mas isso nunca aconteceria, unicamente porque o assassino os matou sem se importar com isso. Era vil, cruel e de uma frieza desmedida, mas era o esperado de um assassino em série. Ele achava estar fazendo o certo, livrando o mundo de pessoas que, de acordo com a sua cabeça, não aparentavam benevolência por terem abandonado as próprias famílias.
Porém, Rachel e ela mesma entravam nesta lista.
Quinn tinha pressa. Se a teoria de Kevin estivesse correta, ainda teria tempo para livrar Rachel das mãos do assassino, mas o homem de meia-idade era o próximo. Não podia perdê-lo. Não havia nada que pudesse fazer quando encontrou os primeiros corpos, mas agora podia. Podia evitar que Kevin fosse morto. Ela não queria que ele fosse levado diante dos seus olhos e não deixaria. Vigiaria a casa dele vinte e quatro horas se fosse preciso.
Quinn finalmente ligou o carro após alguns minutos, indo até a escola Shawnee. Deveria ir para a OSU, mas precisava falar com Rachel. Agora estava desempregada, e havia a escola de Audrey para pagar, fora os custos básicos da casa e os preparativos do aniversário dela. Deus! Como conseguiu se demitir? Ela quase cogitou aceitar a chamada de Warren quando ele ligou para o seu celular, mas não podia. Não quando ele usou gaslighting em Kevin. Aquela constatação deixava o seu estômago embrulhado, e uma onda de temor passava pelo seu corpo ao pensar no que ele poderia fazer se descobrisse sobre Schatten e Munin. Era uma boa detetive. Sabia que era. Teria outro emprego em breve, mesmo se fosse em Cincinnati, olhando para Elaine dia após dia.
Ao parar o veículo no estacionamento da escola, ela saiu calmamente e entrou no local. Os corredores estavam vazios, assim como as salas de aula. Era hora do almoço, e todos estavam no jardim. Quinn sorriu com amor puro ao ver a filha sentada sobre uma toalha através da janela do térreo. Todas as crianças da classe dela estavam em círculo, com alguns coelhos no centro. Audrey riu quando um deles pulou no seu colo, acariciando o pelo macio enquanto ouvia algo que Hayden falava ao seu lado.
Era uma cena inesquecível, assim como todas as outras que envolviam a garotinha sorridente. Estava tão linda com as roupas que ela mesma escolheu. Quinn adquiriu a rotina de descrever as cores das peças, e era o trabalho de Audrey selecioná-las. Normalmente, ela usava aquelas que denotavam os seus sentimentos, como naquele momento. No segundo em que aprendeu que laranja significava alegria, ela pediu algumas roupas daquela tonalidade. Estava alegre por ter se saído bem na aula inicial de braile. Quinn então comprou mais algumas vestimentas para ela, incluindo a calça fosca de um laranja suave que estava usando.
Quinn se sentia igualmente ou até mais alegre do que ela. À medida em que Audrey crescia, a sua inteligência aflorava de modo impressionante. Ela não se sentia triste por ser cega. Ao contrário disso, ela procurava maneiras de aprender mais em como se adaptar ao mundo, e isso orgulhava Quinn, fazendo-a até mesmo chorar por ter tido uma criança tão sagaz e amorosa. Audrey era o seu bem mais precioso. Era a prova de que não se arrependia de ter vivido o que viveu com Rachel, ainda que sofresse uma mágoa lancinante. Seu casamento trouxe a sua filha, e Quinn não voltaria no tempo se isso significasse não tê-la mais ao seu lado. O amor que sentia por Audrey e o amor que recebia era como a sua vitalidade. Sem isso, ela não existia.
Queria ir até a garotinha, mas precisava encontrar Rachel antes e foi isso o que fez. Ao chegar na sala de aula conhecida, ela parou na porta, observando a judia compenetrada enquanto falava sobre as notas musicais para as crianças do primeiro ano da escola elementar.
Todos pareciam ouvir atentamente o que ela falava, e Quinn sorriu inconscientemente com isso. Rachel sempre foi a melhor pessoa para falar em público. Ela exalava uma confiança magistral, e a dicção era bem articulada. Isso não a surpreendia. Quando a conheceu, havia se assustado com a quantidade de palavras que saiam da boca dela por segundo.
A lembrança a fez rir, atraindo a atenção de alguns alunos e de Rachel. Isso fez Quinn morder o próprio lábio, sentindo o seu rosto corar pela atenção recebida, mas a morena não se importou, abrindo um sorriso espontâneo, acolhedor e amoroso. Ela então conferiu as horas e anunciou o fim da aula. O som de reprovação que escapou das crianças fez o seu peito aquecer. Havia se afeiçoado à elas. E era recíproco.
Gradativamente, todos foram saindo, parando para abraçar a cintura de Rachel, que se agachava para retribuir da melhor maneira que conseguia.
O último a deixar a sala foi um garotinho loiro. Ele pegou a mochila e retirou uma rosa de um dos bolsos. Estava levemente enrugada, mas ainda inteira. Ao entregar para Rachel e receber um longo abraço, ele sorriu, tímido e com as bochechas rosadas, correndo para fora da sala em seguida.
— Parece que você tem um admirador. — Quinn brincou, entrando no ambiente vazio.
— Você viu isso? Foi algo tão encantador. — Rachel sorria enquanto segurava a rosa.
— Você está gostando de trabalhar aqui?
— Eu estou adorando. É tudo calmo e caloroso. Eu só não gosto de conviver com a Hayden na sala dos professores e quando vou ver a Audrey. Essa é a pior parte.
Quinn riu, sem saber exatamente como entrar na conversa que pretendia ter com a esposa. Mais cedo, naquele mesmo dia, ela acordou com os braços aferroados à cintura dela, abraçando-a como se a sua vida dependesse disso. As duas pareciam dispostas a não se separarem durante a noite, mas quando a realidade do momento íntimo caiu sobre na sua cabeça, a detetive se afastou delicadamente e foi para o próprio quarto. Não deveria ter dormido com a judia, mas foi impossível evitar. E ambas não tocaram naquele assunto desde então.
Rachel continuou.
— E o que você está fazendo aqui? Achei que estaria no departamento. — Ela perguntou, guardando alguns materiais dentro da sua bolsa.
— É por isso que eu vim até aqui. — Quinn encarou os próprios pés. — Eu... me demiti. — O tom de voz estava extremamente baixo.
— O quê? — Rachel achou não ter ouvido direito.
— Eu me demiti. — Quinn a encarou dessa vez. — Santana e eu nos demitimos.
— Mas... vocês adoram o que fazem. — Rachel estava confusa.
— Adoramos o que fazemos, mas não onde fazemos. Eu vou explicar tudo. Vamos para outro lugar.
A morena assentiu, ainda atordoada, e seguiu a esposa até a sala dos professores. Estavam nos últimos dias ensolarados até que o outono resolvesse intensificar, então todos os docentes se encontravam na área externa, o que era apreciado por Quinn.
Ambas se sentaram quando Rachel pegou o almoço na geladeira, comendo o arroz integral com a vagem e a salada.
Quinn negou educadamente quando ela ofereceu um pouco da comida.
— Você precisa comer.
— Mas... é tudo tão verde. — Ela fez uma careta.
— Mas verde significa saúde e esperança. Com essa confusão em Lima, você precisa e vai comer. — A judia aproximou o garfo da boca da mais alta.
Quinn sorriu. Rachel estava estudando as cores e se adaptando ao mundo de Audrey tanto quanto ela. Todo o seu conceito sobre objetos, cores e sentimentos passa a ter outra fórmula quando você passa a conviver com uma criança cega. Desde o modo de ver até sentir.
Ela então comeu a porção oferecida, resmungando com o sabor dos vegetais, e a morena riu.
— Quer começar a falar agora? — Rachel questionou gentil, comendo mais um pouco e repetindo o mesmo processo com a esposa.
Quinn aquiesceu, narrando os acontecimentos que aconteceram depois de ter conhecido Kevin. Quando mencionou a família de corvos, os olhos da judia duplicaram de tamanho. Nunca tinha ouvido nada parecido, tampouco imaginado inúmeros corvos convivendo juntos. Sua curiosidade era maior do que ela mesma, fazendo-a cogitar a possibilidade de conhecer o homem de meia-idade. Ele parecia ser gentil.
A loira, no entanto, deixou de fora a linha de raciocínio montada por Kevin. Se a revelasse, Rachel juntaria as peças do quebra-cabeça rapidamente até chegar na conclusão de que seria a vítima número três. Quinn não queria vê-la preocupada ou horrorizada. Iria capturar o assassino antes que ele pudesse chegar perto dela.
Ao finalizar o relato, seus ombros caíram. O efeito de estar desempregada se tornando mais intenso.
— Eu me sinto tão estúpida. A maior parte de mim concorda com a minha decisão. Se eu continuasse trabalhando com Warren, seria como aprovar uma técnica psicológica repugnante. Enquanto eu não sabia disso, eu não podia escolher um lado, mas agora que eu sei, trabalhar com ele seria impossível. Mas... há aquela parte mínima que está evitando pensar na certeza de que não terei mais um salário para pagar as despesas. — Quinn suspirou pesadamente.
Rachel abandonou o talher sobre o prato e buscou a mão da esposa, apertando-a entre as suas em um misto de apoio e amor.
— Lembra quando nos casamos? Nossos pais ajudaram até certo ponto, porque você queria pagar tudo por conta própria, e encontrou um emprego simples em um pet shop nos finais semana enquanto estudava de segunda à sexta. Eu não trabalhei porque não achava um rumo para mim após a rejeição de NYADA, e você não se importou. Eu vou fazer o mesmo agora.
— Mas não éramos mães de uma criança, Rachel. Éramos apenas nós duas. Audrey precisa estudar, precisa de roupas e precisa de um aniversário digno. Eu quero fazer uma boa festa para ela.
— E nós vamos. Você acha que os meus pais não vão ajudar? Eles dariam a vida pela Aud. Todos os nossos amigos vão ajudar, incluindo Frannie, Cassandra e os seus pais.
— Eu...
— Eu sei que você tem esse orgulho Fabray dentro do peito, mas deixe-o de lado agora e apenas faça o melhor para a nossa garotinha. Todos vão nos auxiliar nisso. Eu não quero que você volte para um lugar onde aprovam a prática desse abuso psicológico. Eu não quero você fazendo algo que não vai deixá-la feliz, assim como você não quis me ver fazendo algo que me deixaria triste quando NYADA me rejeitou. Nós estamos aqui juntas. — Rachel sorriu complacente, segurando o rosto de Quinn e afagando as maçãs evidentes e delicadas. — Eu amo você, Q, e estou orgulhosa por ser tão justa e bondosa com as pessoas.
Quinn espelhou o sorriso de Rachel, se permitindo aspirar o cheiro doce das mãos dela. Ela tinha certeza de que teria o apoio de Frannie e Cassandra se as contatassem, assim como teria o de Santana, Brittany e dos seus pais, mas o apoio de Rachel era como um alento ao seu corpo, aquecendo-a e proporcionando a segurança de que sempre a teria, acima de tudo, como uma amiga. Antes mesmo de iniciarem um relacionamento, elas se tornaram amigas. Tão amigas que Quinn desabafava sobre Beth com ela, algo que só fazia com a mãe ou com Frannie. Rachel era a sua amiga leal, companheira e divertida. A garota que chamava de RuPaul no primeiro ano do ensino médio se tornou essencial no seu cotidiano até o ponto em que passou a ser o amor da sua vida. E vendo-a tão solícita naquele instante, Quinn sentiu como se a sua amiga estivesse de volta, como um amuleto, pronta para garantir que tudo ficaria bem. Não era uma tarefa relativamente fácil olhar para Rachel como a sua esposa depois de tudo, mas conseguia olhá-la como uma amiga.
O brilho de agradecimento que surgiu nos olhos verdes foi o suficiente para Rachel puxar Quinn para um abraço, enroscando os seus braços no pescoço dela e aproveitando o contato quente e atrativo. Suas unhas rasparam na nuca exposta por causa do rabo de cavalo, e ela sorriu ao ouvir a esposa quase ronronar, descansando a cabeça no seu ombro.
O contato durou minutos. Quinn rodeava a cintura da mais baixa e degustava do carinho recebido. Estava confortável. Ambas estavam confortáveis. Rachel ficaria ali o resto do dia se pudesse, mas quando alguns professores entraram no local, a loira quebrou o afeto.
— Nós... conversamos melhor em casa. — Ela tentou sorrir, embaraçada pelos olhares curiosos e silenciosos dos outros funcionários.
— Eu acompanho você. — Rachel ofereceu, saindo com Quinn até caminharem pelo corredor.
Elas pararam na sala de Audrey, que estava extremamente concentrada passeando os dedos pelos pontos de alto relevo em um livro de letras. Hayden orientava outras crianças, acompanhada das assistentes, vez ou outra se aproximando da garotinha e instruindo-a corretamente.
Rachel sempre lamentava o fato de que ela era uma boa professora. Nunca errava e sabia com perfeição o que fazer ou dizer. Era como uma mãe para todos eles. A judia odiava nunca ter encontrado um defeito sequer no âmbito profissional dela.
Ela seguiu a esposa, vendo-a entrar na sala de aula discretamente e parar ao lado da filha ao se ajoelhar no carpete de borracha.
Audrey, entretanto, não foi discreta em saudá-la, literalmente pulando sobre a mãe.
— Mamãe! Eu consegui. Olha! — Ela se separou de Quinn para voltar ao que fazia, dedilhando os pontos de alto relevo. — Esse é o ''I'' e esse é o ''E''. — Sorria animada.
Quinn também sorriu, pegando-a para que pudesse beijá-la várias vezes.
— Você conseguiu, meu amor, e eu sempre vou dizer o quanto você é inteligente. — Ela continuou com o afeto, ouvindo Audrey rir. — Está usando o Ian e o Enard?
— Sim! — A garotinha maneou a cabeça. — Eu gosto deles.
— E eles de você.
Um pouco mais distante, Rachel observava tudo com um largo sorriso, mas revirou os olhos ao ver Hayden se aproximar. Ela não fazia esforço para mostrar contentamento ao estar perto dela, e isso parecia ser recíproco.
— Elas são lindas. — Hayden se pronunciou.
— Sim, são. A minha família é linda.
— Eu me pergunto como alguém tem coragem de abandonar uma família assim.
— E eu me pergunto como alguém tem coragem de querer flertar com uma pessoa casada. — Rachel rebateu rapidamente, e as duas se encararam. A tensão tangível no ar, como sempre acontecia.
Quinn se despediu da filha com abraços e beijos e caminhou até elas.
— Oi, Hayden. — Ela a cumprimentou.
— Quinn. — Hayden desfez a expressão debochada, abrindo um sorriso caloroso e abraçando-a.
Rachel rolou os olhos novamente quando a esposa a correspondeu, o que não passou despercebido para Quinn.
— Eu vim apenas para conversar com a Rachel, mas já estou indo. — A detetive comentou quando se afastaram.
— Não quer ficar? Você seria ótima com as crianças e me faria companhia.
— Eu acho que você já tem muita companhia por aqui. — Rachel respondeu por Quinn.
— Eu não posso, Hayden. — Quinn disse, ignorando a rispidez da judia. — Mas obrigada. Eu prometo passar a tarde aqui em breve. A Audrey vai adorar.
Ter incluído o nome da filha na sentença mostrou que não iria para estar com Hayden. Isso aliviou Rachel. Ela não podia fazer Quinn perder contato com a professora, mas a ideia de vê-la próxima de Hayden a assustava. Seu casamento não estava bem. Ele estava se reconstruído em uma velocidade impressionantemente lenta, e ter a outra mulher interferindo poderia prejudicar. Não tinha forças suficientes para reivindicar nada de Quinn. Não era plausível.
Quando Quinn se despediu de Hayden e foi embora, Rachel a acompanhou, deixando-a empertigada sobre o porquê de ter ficado calada de repente.
— Rachel? Você está bem?
— Estou. Eu só... nunca me sinto bem quando a Hayden age daquela forma.
— Eu sinto muito por isso.
— Tudo bem. A culpa é toda minha. — Rachel abriu um sorriso triste. O arrependimento se materializando na sua consciência e segurando a sua mão outra vez, causando na sua garganta o gosto amargo familiar.
— Não se martirize por isso. Se você não tivesse partido, talvez o nosso casamento não aguentasse aquela fase. Você estava frustrada, e Audrey passaria por tudo aquilo. Talvez nós não estivéssemos juntas hoje em dia.
— Nós estamos juntas? — Rachel a encarou rapidamente.
— Você entendeu. Eu digo... juntas fisicamente. Poderia ser pior, entende? Eu não sinto mais ódio por você, mas poderia ter acontecido algo muito pior sem a sua ida para Nova York. É tudo uma questão de probabilidade. Havia uma probabilidade de estarmos divorciadas atualmente e com um sentimento ruim emanando de uma para a outra e...
— Havia a probabilidade de estarmos bem, felizes e criando a nossa filha desde o momento em que ela nasceu. É essa a probabilidade que me causa insônia e culpa. Uma culpa que quase me machuca fisicamente.
— Você precisa parar com isso. Precisa apenas se concentrar no presente e no tempo que ainda terá com Audrey. O aniversário dela está chegando. Será a primeira comemoração em que você estará presente. — Quinn parou de andar e a encarou.
— Eu só vou ficar bem quando você concordar em reatar o nosso casamento.
— E se isso não acontecer?
Rachel respirou fundo com aquela probabilidade real e assustadora. Ela não temia tanto o assassino quanto temia não conseguir ter a sua esposa inteiramente de novo. Era uma ideia excruciante.
— Então... — Ela umedeceu os lábios com a ponta da língua. — Eu vou infernizá-la até que isso aconteça.
Quinn não segurou a risada, fazendo com que o som melódico e rouco dançasse nos ouvidos de Rachel.
— Como quando você me infernizou para que eu mudasse a posição daquela líder de torcida na pirâmide porque ela sempre parecia tentar flertar comigo? — A loira arqueou a sobrancelha.
— Aquilo... foi idiotice minha. — Rachel abaixou a cabeça, envergonhada pela lembrança de anos atrás.
— Eu achei adorável, mas você deveria ter confiado em mim.
— Eu confio. Eu só não confiava nela e queria um motivo coerente para beijá-la na frente de todos.
— E você realmente fez isso.
— Eu poderia fazer mais uma vez. Aqui mesmo. — Rachel olhou ao redor, vendo os professores caminharem ao redor delas.
Quinn quase deixou que ela a beijasse ao olhar os lábios grossos e tão convidativos. O gosto de Rachel era inebriante, capaz de diluir os seus pensamentos e fazê-la esquecer do mundo lá fora.
Mas ela quase deixou.
O toque do seu celular interrompeu a sua hesitação. Ao puxá-lo do bolso interno da jaqueta, o nome de Santana piscou na tela. Deveria estar voltando da OSU, mas ainda nem havia chegado lá. Tinham muito trabalho a fazer.
— Eu preciso ir agora. — Ela rejeitou a ligação e guardou o aparelho eletrônico.
— Há a probabilidade de você me dar um selinho? — Rachel segurou a jaqueta da esposa, puxando-a para perto.
— Há apenas a probabilidade de um beijo na testa. — Quinn grudou os lábios na pele macia. — Até mais tarde, Rach. — Ela se afastou, andando até sair da escola. Sabia que se acatasse o pedido, o selinho se transformaria em um beijo tórrido e não podia nublar os seus pensamentos naquele momento.
Rachel inspirou com força. Ainda conseguia sentir os lábios de Quinn pressionados na sua testa. Era um beijo protetor que ela costumava dar quando ainda eram adolescentes.
Um beijo antigo, repleto de sentimentos e que voltava a ser usado depois de tanto tempo.
Um beijo que exibia a probabilidade de Quinn estar cada vez mais acostumada com a sua presença e com o laço que as unia.
E aquela probabilidade estava favorecendo-a.
Fale com o autor