Almas Afins
38 Capítulo 38 - A voz na escuridão...
Notas iniciais
O sorriso de Rachel foi uma mistura de surpresa com felicidade quando colocou Audrey na cama à noite. Ela sentiu o peito aquecer e o coração acelerar ao ver a filha tão serena, mas a sensação de novidade não a assolou como todos os dias. Todo aquele ambiente estava se tornando habitual, irradiando felicidade através de todo o seu interior.
Ela continuou sorrindo após plantar um beijo na testa de Audrey e sussurrar que a amava, saindo do quarto quando Quinn repetiu o mesmo processo.
Ambas foram para a cozinha e lavaram todas as louças. Aquilo também não era mais algo novo para Rachel. Era algo que fazia todos os dias e sabia exatamente onde guardar cada prato, copo e talher.
Quinn percebeu o sorriso que parecia iluminar a cozinha e arqueou a sobrancelha.
— Por que você está sorrindo?
— Porque eu amo fazer isso. Eu amo colocar a Audrey na cama e amo lavar a louça depois. Isso já não é mais novo para mim. Eu finalmente sinto como se fosse uma rotina comum.
Quinn assentiu lentamente.
— Eu me senti assim nos primeiros meses de Audrey, mas lavar a louça se torna apenas algo cansativo depois de algum tempo. Você vai notar isso quando os anos passarem. — Ela deu de ombros.
— Isso quer dizer que eu vou ficar aqui por anos? — Rachel perguntou, expandindo ainda mais o sorriso como se fosse cientificamente possível, e Quinn praguejou internamente. Não queria jogar a esperança de um futuro duradouro quando não tinha certeza disso.
— Eu... não quis dizer isso. — Ela desviou o olhar para o prato que tinha em mãos. — Eu só estou dizendo que você vai conviver com a Audrey para sempre porque você é a mãe dela e que tudo se torna mais comum gradativamente.
Rachel ouviu tudo atentamente e aquiesceu.
— Então eu imagino que vamos dividir a guarda dela? Audrey vai passar alguns dias na minha casa toda semana.
— O quê?! Não! Claro que não! — Quinn respondeu rapidamente.
— Mas você disse que vou conviver para sempre com a nossa filha, então se não vou ficar aqui, eu preciso ter a minha casa.
— Isso não vai acontecer. — Quinn largou a louça na pia. — Nem por cima do meu cadáver. Ela não pode ficar longe de mim.
— Então eu vou ficar aqui, certo? Ficaremos todas aqui? Juntas? — Rachel propôs. — Dessa forma, Audrey não vai para lugar algum.
Quinn pensou por longos segundos. Não sabia por quanto tempo se sentiria confortável com a presença de Rachel na sua casa, mas não aguentaria ficar longe de Audrey. Não havia a menor possibilidade de sequer imaginar não vê-la todos os dias.
Por fim, ela concordou.
— Ficaremos todas aqui.
Rachel sorriu externamente enquanto vibrava internamente. Aquela era a resposta que precisava.
— Tudo bem. Agora vamos terminar de limpar isso.
Quinn maneou a cabeça em afirmação, retornando à incumbência diária.
— Eu estava pensando em assistir algo. Você quer me acompanhar? Eu posso esperá-la tomar banho e se trocar. — Rachel sugeriu, fitando as roupas da esposa. Ela ainda estava de jeans e camiseta.
— Eu não vou tomar banho e me trocar. Eu preciso sair. — Quinn caminhou para fora da cozinha.
— O quê? Como assim sair? São quase nove horas, Quinn. — Rachel a seguiu.
— Eu preciso ir para a casa do Kevin. Santana e eu vamos vigiar toda a área para garantir a segurança dele. Ele é o próximo.
Rachel abriu a boca, atordoada com a informação.
— Como... como ele sabe que é o próximo?
— Ele sente isso. — A loira mentiu. Não podia revelar a linha de raciocínio de Kevin. — Ele vem sendo seguido e acha que vai ser o próximo. Santana e eu não podemos deixar que isso aconteça, por isso eu fui até a OSU pegar mais câmeras de vigilância e escutas quando saí da Shawnee. Tudo já está instalado na casa dele, e eu preciso ir agora.
Rachel ouviu tudo, mas preferia não ter ouvido. Sua felicidade se esvaiu rapidamente, sendo substituída por uma tristeza latente, dolorosa e intensa o suficiente para fazer com que lágrimas brotassem nos seus olhos. Ela não queria pensar em Quinn à mercê do assassino durante aquela noite fria e terrivelmente escura.
— Não chore, Rachel. — Quinn se preocupou ao vê-la fungar. — Eu vou observar todos os cômodos dessa casa a cada minuto, e a Britt vai vir ficar com você. Ela já deve estar chegando. — Se aproximou.
— Eu não quero que você olhe os cômodos. Eu quero você aqui, dormindo onde eu sei que estará segura e não lá fora. — Rachel explodiu em um choro copioso e se sentou no sofá. Ela sabia que não havia nada que pudesse fazer, então chorava. Chorava como uma garotinha assustada, porque seu alicerce podia ser atingido a qualquer momento. — Eu não posso perder você. Eu não sei ser uma mãe completa ainda e eu quero ser uma com você do meu lado. — Afundou o rosto nas mãos.
Quinn odiou vê-la aos prantos e se sentiu triste e desolada. Não queria ter causado tamanha melancolia, mas era necessário mantê-la informada. Rachel precisava saber parte da realidade e deveria ver que estavam lidando com algo grande.
— Não chore. — Ela se acomodou ao lado da esposa, puxando-a para os seus braços. — Eu vou levar armas, e vamos capturá-lo. Depois disso, tudo vai acabar. Todos ficarão a salvo.
— Você não pode capturá-lo durante o dia? Tudo parece tão assustador à noite. — A voz de Rachel saiu rouca e baixa enquanto ela afundava o rosto no pescoço de Quinn, sentindo a mão dela acariciar as suas costas.
— Seria assustador durante o dia também. Eu só quero acabar logo com isso. Quero tornar tudo seguro outra vez.
— Eu já estou segura com você aqui.
Quinn sorriu inconscientemente ao ouvir aquela confissão.
— Você vai se sentir segura quando ele for preso.
Rachel não respondeu, tendo a certeza de que nada do que dissesse mudaria a decisão da esposa, então permaneceu no alento que ela transmitia, desfrutando dos afagos e do calor do corpo dela até a campainha soar no cômodo.
Quinn se afastou para ir até o hall e abrir a porta, e Brittany surgiu com uma Blanca sonolenta nos braços, cumprimentando Rachel e partindo para o quarto de Audrey. Depois de acomodá-la ao lado da melhor amiga, ela voltou para a sala de estar.
— Eu também quero chorar, mas optei por brigar com Santana. Eu me sinto devastada e inútil. Se algo acontecer...
— Nós já estamos indo. — Quinn saiu do próprio quarto e fitou as duas mulheres, sem saber exatamente como se portar. — Voltamos logo. — Se aproximou de Rachel, segurando o rosto dela e beijando-a na testa. — Se ouvirem algo suspeito, nos liguem. Vamos atender. E vocês também podem usar isso em alguma emergência. — Retirou o taser do bolso interno da jaqueta, deixando-o sobre a moldura da lareira em uma altura que as crianças não pudessem alcançar.
— Ela está lá fora? — Brittany perguntou, segurando as lágrimas e sentindo a garganta queimar pelo esforço.
— Eu estava. — Santana entrou na sala de estar. — Eu te amo, Britt, e desculpe por isso, mas eu preciso ir.
— Você também precisa ficar com a sua família e continuar viva, mas está agindo como uma idiota. As duas estão.
— Se não fizermos isso, ninguém mais irá, e então esse louco vai continuar propagando o caos em Ohio. Nós precisamos detê-lo.
Brittany se limitou em assentir, incapaz de falar algo. Estava encolerizada e sentindo a dor excruciante se misturando com a preocupação ao ver a esposa sair àquela hora. Ela nunca, de fato, aprovou a profissão de Santana, mas também nunca brigaram por causa disso, porque nenhum caso foi tão severo quanto esse. Enquanto ela não se arriscava demais, tudo estava bem. Mas agora a realidade do trabalho das detetives caía sobre terra, acertando todas em cheio, o que incluía Rachel, que ainda soluçava ao seu lado.
Diante do silêncio de Brittany, Santana suspirou e se ajoelhou na frente dela.
— Nós vamos pegá-lo, e tudo vai ficar bem. Eu amo você, Britt.
Demorou cerca de dez segundos até Brittany se jogar nos braços da latina, apertando-a o máximo que podia. Queria ajudar, mas não podia. Não sabia o que fazer. Se sentia estupidamente impotente.
— Não se machuque, certo? — Ela sussurrou, trilhando beijos até a boca da mais baixa, onde plantou um selinho demorado e amoroso. — Você é o amor da minha vida, Santana.
— Eu não vou, Britt. — Santana afagou o rosto da esposa. — Eu amo você mais do que qualquer coisa no mundo.
Enquanto ambas se mantinham em uma bolha amorosa, Quinn encarou Rachel. Ela estava encolhida e mantinha a cabeça baixa.
— Ei! Não é o fim do mundo. Eu preciso fazer isso. — Quinn se agachou na frente dela.
— É o fim do mundo para mim. A preocupação e a incerteza do que vai acontecer está me dilacerando.
— Eu te dou a minha certeza de que tudo ficará bem. — Quinn segurou as mãos dela.
— Eu amo você. — Rachel murmurou, mirando os seus olhos vermelhos e molhados nos verdes firmes e decididos.
— Eu... — Quinn umedeceu os lábios com a ponta da língua. — Eu acho que nunca deixei de amar essa família. — Confessou, se levantando depois de beijar as mãos unidas.
Ela se despediu de Brittany com um abraço apertado e saiu da casa com Santana.
Ainda que as palavras não soassem nitidamente, a frase proferida por Quinn abriu em Rachel uma imensidão de luz na tempestade que sentia ao vê-la sair da residência com Santana. A família atual que mencionara não era apenas Audrey. Não mais. Não podia criar expectativas falsas, mas tudo indicava o que pensava.
— Ela acabou de dizer que a ama também sem realmente dizer. — Brittany deu voz aos seus pensamentos, rindo levemente ao vê-la tão inerte e perdida nas palavras de Quinn.
Se houvesse algum benefício no caos do Homem Sem Coração, ele estava sendo a reaproximação de Quinn e Rachel.
E Brittany chegava a ser grata por isso.
...
Quinn pagou o táxi e saltou para fora com Santana. Elas não quiseram usar o carro. Seria melhor não levantar suspeitas de que estavam ali, principalmente porque não podiam agir como detetives enquanto não tinham um emprego.
— Está com medo? — Quinn perguntou após Kevin abrir o portão.
— Claro que não. — Santana respondeu, passando pelo jardim e sobressaltando ao ouvir alguns corvos crocitarem. — Malditos corvos.
Quinn riu e sacou o celular do bolso quando ele vibrou, lendo rapidamente a mensagem recebida.
— David acabou de chegar. Ele vai fazer companhia para elas.
— Ótimo. Eu fico mais tranquila com isso. Ele vai saber como agir se algo acontecer.
Elas chegaram até o interior da casa com Kevin.
— Me desculpem por isso. — Ele fechou a porta. — Eu me sinto péssimo por vocês estarem aqui à essa hora. — Comprimiu os lábios.
— Não se sinta assim. É por uma boa causa. — Quinn respondeu.
— Querem algo para beber ou comer?
Quinn negou com a cabeça.
— Vamos ficar aqui com os laptops monitorando toda a área. Pode apagar as luzes. — Se sentou no sofá com Santana.
Kevin assim o fez, permitindo que a escuridão se tornasse proeminente.
— Eu vou para o meu quarto. Se precisarem de algo, é só me chamar.
— Tudo bem. Não tire a escuta da sua roupa. Ela é importante.
— Pode deixar, detetive. — Ele caminhou até a escada, subindo os degraus até os quartos do andar superior.
— Isso é bem estranho. — Santana comentou, analisando toda a área externa. O infravermelho das câmeras deixava os corvos com um ar mais sombrio do que já aparentavam.
Quinn concordou. Ela achava as aves interessantes e misteriosas, mas tinha de concordar que era muito esquisito ver todas elas através das filmagens.
— Então, você e a Hobbit... — Santana iniciou um diálogo. — Já estão juntas?
— Não estamos juntas. Eu só estou protegendo ela. — Quinn respondeu sem tirar os olhos das câmeras da área interna.
— E toda essa proteção está aproximando bastante vocês duas. — A latina brincou. — Vocês já transaram, não é?
— Como... não, claro que não. — Quinn empertigou o corpo com a pergunta.
— Eu não preciso ver o seu rosto para saber que ele está vermelho como um tomate, então essa é a confirmação que eu precisava. — Santana riu. — Eu posso adivinhar a quantidade de teias de aranha que vocês acumularam entre as pernas durante esse tempo.
Quinn bufou, segurando o laptop e se afastando até a outra extremidade do sofá. Não conseguia evitar ficar constrangida, principalmente quando as piadas envolviam a sua vida sexual.
Santana cessou as risadas.
— Foi bom?
— Eu não vou falar disso com você.
— Por que não? Você me contou quando sentiu as mãos do Frodo pela primeira vez. Está voltando para o celibato?
— Santana!
— O que foi, Q? Eu só quero deixar a conversa mais descontraída. Eu me preocupo com você e com os seus sentimentos. Se vocês transaram, significa que algo reacendeu. Isso pode ser bom, mas também pode ser ruim. Vocês conversaram depois?
Quinn respirou fundo, ainda encarando o laptop de modo analítico.
— Não, não conversamos.
— E você sabe exatamente como está se sentindo depois de tanto tempo sem tocar a Rachel dessa forma?
— Não, eu não sei com precisão.
— Então eu sugiro que saiba, porque quando você disse que amava a sua família hoje mais cedo, o rosto da Berry se iluminou mais do que o ego dela quando ganhava o solo principal no clube Glee.
O cômodo se tornou tácito depois disso. Quinn não retrucou. Ela não soube o que retrucar. Sua intenção foi unicamente fazer com que Rachel se sentisse melhor e menos triste, mas não pensou que a frase dita poderia causar esperanças nela. Amava sua família e a amava também. Sabia disso. Porém, também sabia que só amor não era suficiente. Que o amor é sempre uma porcentagem de um pacote repleto de fundamentos necessários para fazer uma relação prosseguir. Quinn sentia amor, mas não tinha confiança. Enxergava Rachel com um amor grande e único, mas ainda sofria do medo diário de ir até a Shawnee para buscá-la e descobrir que ela havia pedido demissão e partido outra vez. Era uma cogitação que abordava o seu coração sempre que entrava no carro e partia em direção à escola.
E sabia que nada funcionaria se aquele medo sempre estivesse presente. Nem mesmo se tivesse amor.
— Quinn. — Santana a tirou da redoma de pensamentos.
— O que houve?
— Há algo lá fora. Os corvos se agitaram e um dos arbustos se mexeu, mas eu não consigo identificar o que é pela câmera. Eu acho que vou até lá.
— Eu vou com você. — Quinn ia se levantar, mas Santana a impediu.
— Não. Você fica aqui. Vamos nos comunicar através das escutas e dos microfones. Eu volto já. — Ela largou o laptop na mesa de centro, se erguendo e deixando a residência.
Quinn pôde ver perfeitamente através da tela do objeto quando ela desceu os poucos degraus de concreto e caminhou cautelosamente até os arbustos com a arma em punho. Estava pronta para qualquer eventualidade, exceto algo que não pudesse ver.
Quando algo a atingiu e fez com que caísse de joelhos, Quinn xingou todo o universo por isso, se levantando no mesmo instante.
— Kevin, fique no quarto! Não saia daí. — Ela ordenou, usando o microfone da escuta presa na lapela da sua jaqueta.
— O que aconteceu, detetive? — Ele estava alarmado.
— Apenas fique aí e use a arma que deixei com você se for necessário. — Quinn pegou o seu próprio revólver do coldre e saiu pela porta dos fundos.
Ela desejava capturar quem quer que fosse de modo fortuito, mas também queria chegar até Santana. Seu coração martelava, fazendo com que ouvisse-o zunindo nos seus ouvidos à medida em que a adrenalina corria pela sua corrente sanguínea e a preocupação se alastrava na mesma dimensão.
A noite estava horrivelmente escura, e os corvos começaram a crocitar sincronizadamente, deixando-a desconfortável diante dos ruídos incômodos. Não havia nada. Nada atrás dos arbustos e nada em cada metro quadrado do jardim mal-ajambrado.
Ao chegar perto de Santana, Quinn a virou e colocou a cabeça dela no seu colo.
— Santana! Acorda! — Ela examinou o corpo da latina, procurando algum ferimento, mas não encontrou nada que se parecesse com isso. Ao contrário do que esperavam, o pescoço dela tinha uma leve saliência. Ao tocá-lo, Quinn conseguiu sentir o furo minúsculo.
Seus olhos fizeram esforço para focarem no chão coberto de plantas e raízes até encontrar o responsável por aquilo. Era uma seringa, porém menor. Muito menor. Quinn sabia perfeitamente o que tinha dentro dela e sabia que Santana estava apenas dormindo pelo efeito rápido do tranquilizante.
Com isso, parte do seu temor se foi, entretanto o maior ainda predominava. O assassino estava perto. Precisava sair dali o mais rápido possível. Estava exposta naquela área vasta. No entanto, não podia deixar Santana ali.
Todavia, ao se pôr de pé com ela nos braços, seu corpo se curvou para frente quando algo o atingiu, e o latejar constante fez os seus músculos relaxarem. O corpo de Santana voltou para o chão sem o mínimo de delicadeza. Não tinha mais forças para segurá-la, tampouco para ficar ereta.
Quinn também caiu e mal conseguiu mover a mão para pegar a arma ao seu lado. Ela só conseguiu piscar várias vezes na tentativa vã de se manter acordada.
— Detetives? Oh, meu Deus, detetives! — A voz de Kevin soava no seu ouvido através da escuta. — Eu vou chamar a polícia. Vou chamar ajuda.
Quinn abriu a boca, tentando formular uma frase e contrariar a dormência nos lábios, mas tudo estava lento demais. Acontecendo gradativamente demais.
Ela conseguiu ouvir passos fundos e fortes se aproximando, quebrando alguns galhos no chão e se misturando com o crocitar incessante dos corvos. Sentia medo, mas sobretudo, sentia raiva. Ainda estava minimamente consciente, mas nada conseguia fazer.
Seus olhos pesavam, sua boca estava seca e sabia que poucos segundos tinham se passado. Era como estar em câmera lenta enquanto tudo se desenvolvia normalmente ao seu redor.
Sua cabeça repousou no chão, fitando os tênis casuais escuros ao seu lado.
O Homem Sem Coração não fez qualquer movimento para atacá-la. Contrariando o que esperava, ele apenas deu meia-volta, caminhando até a entrada da casa de Kevin. Estava indo buscá-lo, Quinn constatou. Não podia permitir que isso acontecesse, mas não conseguia se mexer. Nem mesmo conseguia gritar.
Antes de se afastar completamente, no entanto, ele se pronunciou, e Quinn pôde ouvir a voz dele pela primeira vez.
Infelizmente, ela era conhecida.
— Boa noite, Quinn. Nos vemos em breve. — A gentileza emanando na noite fria de Lima parecia estranhamente sincera, como uma melodia alegre, mas com uma letra triste. Era um paradoxo infernal.
A voz do assassino em série que deixava o país em alerta adentrou os ouvidos de Quinn como um vírus, fazendo-a trincar a mandíbula.
Mas ela ainda conseguiu a proeza de tentar chamá-lo antes de fechar os olhos.
— Sam?
Não passou de um sussurro falho, mas ele ligou o nome familiar com a voz sempre doce que era direcionada na sua direção quando conversavam.
O Homem Sem Coração sempre aparentou ter um coração. Bondoso, gentil e divertido.
Sam Evans sempre foi um excelente amigo.
Mas era um assassino.
Quinn se rendeu à escuridão interna.
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