Almas Afins

36 Capítulo 36 - Por conta própria...


Notas iniciais
Dia de capítulo! Espero que gostem e desculpem-me se houver algum erro. Boa leitura. =D

Todos na sala de estar ouviram Santana explicar sobre o plano que tivera, e Quinn negou com a cabeça quando ela parou de falar.

— Não vamos fazer isso.

— Qual é o problema?

— O problema é que você quer deixar o Kevin aqui enquanto espera o assassino. É como deixar alguém perto de um leão faminto.

— Ele não vai estar sozinho, Q. — A latina retrucou. — Policiais estarão rondando o quarteirão, e teremos câmeras espalhadas pela casa.

— Não sabemos como o assassino age, Santana. Não sabemos se ele tem cúmplices ou se tem algum método diferente. É como um tiro no escuro.

— Um tiro no escuro que pode clarear tudo. Precisamos arriscar, Quinn.

— O que precisamos fazer é comunicar tudo isso para Warren e exigir que Kevin seja levado para outro lugar com policiais acompanhando-o. Ele precisa estar protegido. Depois, nós vamos criar uma lista com possíveis vítimas do assassino baseada na primeira letra dos nomes e dos estados onde nasceram.

— Não vamos precisar fazer isso se Kevin ficar aqui com a devida proteção. Se pegarmos o assassino, tudo vai acabar.

— Não, não podemos arriscar a vida do Kevin desse jeito. Tudo pode dar errado. — Quinn estava irredutível.

— Ou pode dar certo.

— Não vamos fazer isso, Santana.

— Você não é a minha superior, Quinn. — Santana se irritou e se levantou. — Você não tem a decisão final.

— E nem você. — Quinn também se ergueu. — Não vamos fazer isso. Quando contarmos ao Warren, ele vai ver que esse plano é uma loucura.

— Ou vai ver que é uma boa jogada. Você é sempre meticulosa demais.

— E você impulsiva demais.

— Então vamos falar com ele.

— Vocês podem parar com isso? — David se pronunciou. — O senhor Mostow nem mesmo disse se vai aceitar esse plano.

Isso fez com que os três pares de olhos focassem na direção do homem de meia-idade, que coçou a barba.

— Eu já disse que não tenho medo de morrer e que quero esse assassino capturado.

— É a resposta que eu precisava. — Santana sorriu presunçosa.

— Isso não foi um sim.

— E nem um não.

— Parem de discutir. Não estamos mais no ensino médio. — David bronqueou.

— Não estamos discutindo. Eu só não aceito a Quinn agir como se fosse superior. Você não dita as ordens aqui. — Santana cruzou os braços.

— Eu estou sendo sensata, diferente de você. Nesse trabalho, nós não podemos agir pensando que tudo ficará bem, porque qualquer erro pode ser fatal.

— Eu sei perfeitamente como agir nesse trabalho, e às vezes é necessário um impulso de emergência. Pare de ser tão analítica.

— Pare de ser tão irresponsável. — Quinn rebateu, mantendo o peso da tensão no ar.

— Então você me acha irresponsável?

— Sim, você está sendo irresponsável agora.

— Então talvez eu mereça uma parceira irresponsável também.

— Talvez mereça. Talvez mereça até uma melhor amiga irresponsável como você.

— Seria ótimo, assim eu não precisaria discordar de alguém que ainda acha ser a capitã das líderes de torcida.

— Talvez eu me ache assim por ser melhor como capitã.

— Talvez, só não engravide depois. — Santana foi extremamente sarcástica.

O silêncio foi unânime depois disso, e a latina se arrependeu ao ver o brilho de mágoa que passou pelos olhos da amiga, mas não se desculpou, permanecendo com a expressão impassível.

Quinn abriu um sorriso forçado.

— Se eu engravidar de novo, pode ter certeza de que não vou contar com o seu apoio. Foi exatamente assim há nove anos. — O tom saiu duro e carregado de uma raiva contida.

— Quinn... — Santana se livrou da postura inabalável, mas Quinn a cortou.

— Kevin vai vir conosco, e nós vamos relatar toda a conversa que tivemos para o Warren. Ele vai decidir se esse plano vai ser levado adiante ou não. Vamos? — Ela migrou a sua atenção no homem mais velho, que assentiu.

— Vamos.

— Quinn... — A latina tentou segurá-la pelo braço, mas foi repelida, e Quinn caminhou até sair da casa.

— Nós vamos voltar, certo? — Kevin indagou.

— Se Warren não aprovar o plano da detetive Lopez, você vai ter de ir para outro lugar, Kevin.

— Certo. — Kevin suspirou e olhou os corvos alinhados sobre os muros. — Vocês vão me seguir, tudo bem?

Como se a situação não pudesse se tornar mais incomum, todas as aves começaram a crocitar de forma simultânea. O coro era extremamente incômodo aos ouvidos de Quinn, que fez uma careta, contudo, para Kevin, era motivo de felicidade.

— Isso foi uma resposta positiva.

— Obrigada por esclarecer.

David era uma mistura de surpresa e uma fascinação latente enquanto passeava os seus olhos por todos os animais sincronizados.

— Quer levá-los para a sua casa? — Santana brincou ao lado dele.

— Não, eu só... gosto da história deles. Isso não te deixa fascinada?

— Não. Isso me deixa curiosa. Não é muito normal.

— O mundo está longe de ser algo normal, detetive Lopez. — Ele foi irônico.

— Você acha que ela vai continuar me chamando assim?

— Eu acho que vocês agiram mal, mas você pisou em uma das feridas dela. Não foi algo bom. — Ele apressou o passo para ir até o veículo quando Quinn o chamou.

Santana respirou fundo, se sentindo estúpida por ter entrado em um assunto delicado de modo tão provocativo. Não era certo, e ela se arrependia, mas era alguém difícil de se desculpar. Esperava, então, que Quinn pudesse perdoá-la sem um pedido oficial, o que parecia impossível ao ver os olhos dela tão gélidos.

Quando todos saltaram para fora do carro e entraram na delegacia, alguns olhares se voltaram para o homem de meia-idade com a aparência desgastada pelo tempo. Seus passos eram pesados e firmes, denotando o quanto algo exterior pode ser extremamente oposto do interior. Kevin era gentil, de acordo com Quinn, tão diferente do homem robusto que aparentava ser.

Ele tinha a expressão séria, mas a mudou rapidamente quando David se dirigiu para o laboratório do departamento e as detetives continuaram o trajeto, parando na porta da sala de Warren. Quinn percebeu rapidamente a cor fugir da face de Kevin apenas para voltar segundos depois em um tom escarlate de cólera quando receberam a confirmação para entrarem no local.

— Você... — Ele murmurou. — Eu sabia que depois da morte do Brandon um policial experimente seria escalado para o cargo dele, mas justamente você?

— Kevin... — Quinn tocou o ombro dele, sentindo-o tremer pela ira.

— O que ele veio fazer aqui? — Warren perguntou. Ele parecia ter sido atingido com as mesmas reminiscências de Kevin.

— Ele sabe algo sobre o assassino. Vocês se conhecem? — Santana estava nitidamente confusa, assim como Quinn.

— Ele é um ex-policial. Agora, é apenas um louco que não teve o tratamento necessário.

— Ele não é louco. — A loira rebateu antes que Kevin pudesse sequer abrir a boca. — Ele é um homem...

— Um homem que foi demitido por seguir corvos. — Warren se calou depois disso e pensou por alguns instantes, arregalando os olhos como se houvesse descoberto um segredo guardado há muito tempo. — O homem que Noah Puckerman afirmou ter seguido Elijah dias antes da morte dele é o Kevin, não é? Tudo faz sentido agora.

— Não, não é ele. Kevin não tem nada a ver com isso. — Santana mentiu.

— Então se eu olhar para a mão dele agora, não terá uma tatuagem de corvo?

— É claro que não. — Kevin levantou as mangas do sobretudo, exibindo as mãos inteiramente limpas. — Agora diga. Diga para elas como você usou o gaslighting em mim. Diga como você foi vil e asqueroso. — Se aproximou do outro homem, que se afastou.

— Eu só fiz com que todos vissem a sua loucura. Só isso. — Warren se defendeu, tentando não esmorecer diante da altura considerável de Kevin.

— Foi você? — Quinn mal podia acreditar no que estava ouvindo. Warren parecia sempre tão complacente. Sua cabeça processava tudo o mais rápido que conseguia, ao tempo em que Elaine entrava na sala sem fazer barulho.

— Sim, foi ele. — Kevin respondeu. — Eu estava sendo cotado como o mais provável para subir de cargo quando comecei a ver os corvos, então fui contar para o Warren. Ele era o meu melhor amigo. Foi um erro grotesco. No dia seguinte, todos estavam sabendo. Ele o culpado por me fazer duvidar da minha sanidade mental. O resto vocês já sabem.

— Ninguém em sã consciência segue corvos. Você é um louco!

Warren mal teve tempo de discernir quando sentiu a sua cabeça doer consideravelmente com o soco desferido por Kevin. Seu corpo paralisou por um momento até cair no chão, conseguindo apenas apoiar as mãos no concreto antes que a sua testa se chocasse nele.

— Eu quis fazer isso desde o momento em que todos souberam do meu segredo. — Kevin sorriu, mal sentindo a mão latejar pelo golpe forte.

Santana foi a responsável por puxar Kevin para trás, temendo que ele pudesse continuar com a agressão física, e Quinn se colocou na frente dele quando Elaine ajudou Warren a se levantar com um pouco de dificuldade.

— Você é mesmo um louco. — O capitão tocou a própria boca, sentindo a textura do sangue nos seus dedos. — E vai ser preso por agressão. Prendam ele, detetives! — Demandou.

Quinn e Santana não se moveram diante da ordem que receberam, e novamente Elaine se encarregou em fazer algo.

— Não, você não vai prendê-lo. — A latina disse.

— Você vai me impedir?

— Se for preciso, sim.

— Se eu não prendê-lo, essa função será feita por outro policial. É isso o que querem?

— Não, não é o que queremos. — Quinn respondeu, fitando Kevin com culpa e melancolia. — Leve-o, mas vamos pagar a fiança. Ele é réu primário.

— Não se preocupe com isso, detetive. Eu fiz o que sempre quis fazer. Apenas... cuide deles se eu não sair. — Kevin sorriu, parecendo tão leve quanto podia estar, e saiu com Elaine sem utilizar as algemas. Não era necessário.

— Quando eu ditar uma ordem, o esperado é que vocês obedeçam. São minhas detetives. — Warren se sentou na sua cadeira, massageando a mandíbula.

— Eu não sou mais a sua detetive. — Quinn retorquiu. — Eu me demito.

— O quê?

— É isso o que você ouviu. Eu não vou trabalhar para alguém que usa gaslighting e que não sente um pingo de arrependimento. Isso é baixo e imperdoável. — Ela retirou o distintivo do cós da calça, pondo-o sobre a mesa ao lado da sua arma. — Eu me demito. — Deu meia-volta e caminhou até a porta, mas parou ao ouvir Santana se pronunciar.

— Eu também me demito. — A latina repetiu o processo, deixando os seus pertences ao lado dos de Quinn. — Espero que consiga prender o assassino com as poucas informações obtidas até agora.

— Vocês não podem fazer isso! São as minhas melhores detetives! — Warren apertou as mãos. Estava ficando nervoso.

— Não somos mais. — Santana respondeu, e elas deixaram a sala sob os chamados de Warren.

— O que aconteceu? — David surgiu em uma velocidade impressionante na frente das amigas. — Eu vi o Kevin sendo levado pela Elaine e não consegui entender nada.

— Nos demitimos.

— Vocês...

— Foi Warren quem usou gaslighting no Kevin. Não sabemos o que ele poderia fazer conosco, então nos demitimos antes que tudo saísse do controle. Não podemos continuar trabalhando com alguém tão inescrupuloso. — Quinn suspirou.

— O quê? Warren? — David trincou a mandíbula. — Eu vou me demitir também.

— Não, não vai. Você não trabalha diretamente para ele. Fique e fotografe qualquer coisa suspeita. Precisamos de você aqui dentro. — Santana respondeu.

— E o que vocês vão fazer agora?

— Agora? Nós vamos pagar a fiança do Kevin e conversaremos com ele. Eu quero saber o porquê da tatuagem não estar na mão dele como deveria. Talvez ele tenha usado algo. Precisamos falar com ele sobre isso. Depois, vamos seguir com o plano que Santana elaborou.

— Nós vamos? — A latina se surpreendeu.

— Vamos. Eu ainda acho algo irresponsável, mas Warren não vai se importar em exigir a segurança de Kevin. Nós precisamos capturar esse assassino. Estamos por conta própria agora.

Santana sorriu, mal conseguindo ocultar a felicidade por ter o apoio de Quinn.

Quando David voltou para o trabalho, elas recolheram os seus pertences pessoais na sala que dividiam, organizando tudo em uma caixa mediana. Era uma questão de tempo até a papelada da demissão ser feita, então queriam e iriam agilizar tudo.

Elas saíram da delegacia sendo alvo de olhares curiosos dos policiais, mas não pararam para conversar com nenhum deles e guardaram os objetos no porta-malas do carro de Quinn.

A loira não deu partida no automóvel quando se acomodaram. Ela observou como as folhas secas do estacionamento se reviravam pelo vento constante de novembro, finalmente discernindo que estava desempregada.

Um suspiro saiu dos seus lábios.

— Me desculpe. — Ela ouviu Santana dizer e virou a cabeça para encará-la. — Me desculpe por ter dito aquilo mais cedo.

— Você foi uma idiota, mas eu também me exaltei e disse coisas ruins, então me desculpe.

— Eu ainda sou a sua melhor amiga? — Havia um temor intenso e sincero nos olhos escuros da latina.

— Eu ainda sou a sua parceira?

— Sim, você é. Sempre.

— Nós somos melhores amigas. Sempre vamos ser.

Santana sorriu aliviada, sendo retribuída, e puxou Quinn para um abraço em um ato de impulso. Eram melhores amigas e tinham um sentimento fraternal gigante e inquebrável. Quinn a amava. A amava como amava Frannie. E sabia que era recíproco. Tinham crescido juntas. Embora o começo do ensino médio houvesse afastado-as, nunca ousariam repetir esse erro outra vez. No final de tudo, Quinn sabia que Santana a seguiria para qualquer lugar.

— Vamos pegá-lo, não vamos? — Santana perguntou após quebrarem o afeto.

— Vamos. Vamos pegá-lo. Temos a linha de raciocínio do Kevin, temos armamentos nas nossas casas e vamos ter outros equipamentos. Dylan vai nos ajudar também. Nós vamos capturá-lo sozinhas.

Era quase uma promessa. Precisavam que fosse. Precisavam capturar o assassino.

Notas finais
Acho que depois de inúmeros capítulos relativamente longos, esse foi o mais curto, porém igualmente necessário. Capítulos pontes são sempre essenciais. Espero que tenham gostado. Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. Bom final de semana pra todos vocês. =D twitter.com/yasagron