Almas Afins
35 Capítulo 35 - Linha de raciocínio...
Notas iniciais
Quinn sabia que o medo poderia provir de duas camadas principais.
O medo quando algo envolve somente você mesmo e o medo que envolve alguém próximo. No entanto, ambos caminhavam em uma linha tênue de igualdade. Eram separados por poucos detalhes, mas ainda assim semelhantes.
Rachel era próxima de Quinn. Tão próxima quanto podia ser. Se algo acontecesse com ela, atingiria não só a detetive mas também Hiram, Leroy, seus ex-colegas do coral, Audrey e até mesmo Shelby. Todos seriam acertados com os estilhaços. Porém, Quinn também sabia, se ela mesma fosse atingida, Audrey iria sofrer de uma forma inimaginável. Ela mal podia cogitar a ideia de deixá-la.
No entanto, a garotinha sofreria pelas duas mães. No final, ambas tinham de sair dessa situação caótica. Quinn tinha de proteger Rachel enquanto tentava proteger a si mesma.
E tinha medo. Sentia medo de falhar. Ninguém poderia se quebrar nesse processo envolvendo o Homem Sem Coração. Contudo, não podemos optar como ou quando vamos quebrar, tampouco quem vamos quebrar.
Isso fica ao acaso.
Quinn odiava o acaso.
Ela o achava estúpido e cruel, porque dependia dele, parcialmente, para que tudo ocorresse bem. Era uma porcentagem dividida, e essa equação também contava com a sua competência em elaborar um plano que pudesse capturar o maldito serial killer.
Todavia, o acaso também poderia ser um forte aliado. Kevin Mostow era uma obra do acaso, quase literalmente caindo na sua frente com informações importantes, assim Quinn esperava que fosse. Ele prometeu ter detalhes urgentes para tratar com ela, então precisaria ir até o homem de meia-idade.
Ela possuía uma série de deveres, incluindo a organização do aniversário de Audrey e a conversa que pretendia ter com Shelby a respeito das atividades de Beth. Precisava organizar o que fazer primeiro. Sabia que a sua família estava sempre proeminente, mas sabia, acima de tudo, que o assassino também era um assunto dela desde o momento em que o motivo pelo qual ele matava pessoas inseria o erro de Rachel e até o seu próprio erro em não ter procurado Beth. Tudo, no fim das contas, envolvia a sua família.
Depois de deixar Beth em casa com o aviso dado à Shelby sobre o diálogo que precisavam ter, ela partiu para a própria residência. Queria ter conversado com ela naquele mesmo instante, mas o sol já havia se despedido e Audrey ressonava no carro. Não podia passar mais tempo sem colocá-la para dormir, então se despediu de Beth com um abraço apertado, sentindo as batidas fortes do seu coração por ela estar mais acessível e confortável na sua presença. Era uma grande conquista.
Ao parar o veículo na garagem e inserir a senha do alarme, ambas entraram, com Quinn segurando Audrey nos braços.
— Você pode dar banho nela? Eu preciso conferir algumas coisas.
— É claro. Não precisa pedir. — Rachel sorriu e pegou a filha delicadamente.
— Beti. — Audrey murmurou. — Cadê a Beti?
— Ela está em casa, meu amor, e nós estamos na nossa. — Quinn respondeu docemente.
— Eu queria ter dado tchau pra ela. — Audrey bocejou.
— Nós vamos vê-la outras vezes, então vocês poderão se divertir como hoje.
— Promete?
— Eu prometo. — Quinn plantou um beijo na cabeça dela.
— Tudo bem, agora vamos tomar banho. — Rachel caminhou para o quarto da filha, e Quinn ainda ouviu perfeitamente quando Audrey resmungou.
Ela se dirigiu ao próprio quarto, se sentando na cama e erguendo a tampa do laptop. A hora seguinte passou rapidamente enquanto observava as filmagens da frente e dos fundos da casa, agradecendo por não ter tido movimentos suspeitos. Não havia ameaça alguma por perto. Pelo menos por enquanto.
Quando ela deixou o objeto eletrônico de lado, Rachel entrou no cômodo sem bater na porta. O aroma do sabonete impregnou o seu nariz, e o pijama evidenciou que tinha tomado banho.
Audrey estava com os braços enroscados no pescoço dela. Trajava roupas semelhantes, exceto pela estampa de ursinhos. Nos pés, calçava pantufas de tartarugas. Presente de Brittany.
— Estou ficando boa nisso. Consegui tomar banho simultaneamente com essa mocinha aqui. — Rachel sorriu, aspirando o cheiro suave da bochecha da filha, que mexia na ponta dos seus cabelos.
— É, eu acho que você está ficando profissional. — Quinn se levantou. — Agora, eu preciso tomar banho também.
— Sim, você precisa. Dessa vez, nós estamos conseguindo sentir o seu mau cheiro. — A judia provocou, e Audrey riu.
— Mamãe cheira ruim.
— Sim, a mamãe cheira mal. — Rachel corrigiu indiretamente. Ela havia lido recentemente que é sempre preferível corrigir os filhos sem um contato direto. Eles iriam, eventualmente, aprender ao ouvir os adultos falarem da forma correta.
Quinn arqueou a sobrancelha.
— Eu não estou cheirando mal. Eu sou a pessoa mais cheirosa dessa casa.
— Que absurdo! — Rachel fingiu um tom indignado. — Ouviu isso, Audrey? Sua mãe acha que ela é mais cheirosa do que nós duas.
— Mamãe é mentirosa! — A garotinha acusou.
— Eu não sou mentirosa. — Quinn se defendeu.
— É claro que é! Nós sabemos que a pessoa mais cheirosa daqui sou eu. — Rachel se gabou, recebendo um aceno negativo da filha.
— Não, não, mama Reichel.
— Não? Então quem é?
— Sou eu. — Audrey sorriu inocentemente e escondeu o rosto na clavícula da judia.
— Você? Tem certeza? — Quinn se aproximou. — Esse pescocinho aqui está cheiroso? — Aspirou a pele macia, ouvindo Audrey rir abafadamente pelas cócegas.
— Está cheiroso ou não? — Rachel espelhou a ação da esposa do outro lado.
— Eu não estou conseguindo saber. Vamos colocá-la ali. — A detetive segurou a garotinha e a deitou na sua cama. — Agora vamos analisá-la. — Tirou a pantufa dos pés pequenos. — Esse pezinho aqui está cheiroso, Rachel?
— Vamos ver.
Audrey gargalhou ao sentir as mães inalando o aroma dos seus pés, subindo até suas mãos e parando nas suas bochechas. Sentia cócegas. Isso a fazia empurrar as duas, porém sem obter sucesso.
— Para! — Ela se contorcia. — Para, mamães!
Era a primeira vez que ela chamava ambas ao mesmo tempo, e Quinn cessou o que fazia para encarar Rachel, que também ria. Ao analisar o cenário em que estavam, ela viu que era uma cena típica de uma família. Algo que sempre observou e admirou no mundo utópico da televisão até vivenciar isso, ainda que por pouco tempo. Depois que Rachel se foi, ela passou a sentir uma dor interna excruciante ao ver Frannie e Cassandra agirem dessa forma com Kate e Kyle, e então, como se pudesse recompensar o tempo perdido, o acaso fazia com que vivenciasse isso de novo sem que pudesse discernir inicialmente. Sentia que tudo havia transcorrido de modo natural e de modo amoroso, e embora um lampejo de felicidade a atravessasse, ainda sentia a dor conhecida e que detestava.
Quinn respirou fundo e beijou a barriga da filha.
— Eu vou tomar banho agora, e depois podemos preparar o jantar.
— Podemos pedir pizza? — Rachel perguntou, ganhando a atenção da esposa. — Foi Audrey quem me pediu isso enquanto estávamos no banheiro. — Acusou, apontando para a garotinha.
— Por favor, mamãe. Só hoje. — Audrey se sentou na cama, focando o seu rosto onde sabia que a mãe estaria. Ainda que não possuísse expressões nos olhos extremamente claros, Quinn nunca conseguia negar nada quando ela pedia dessa forma. Era a sua maior fraqueza.
— Só hoje. — Ela tentou soar firme, e Audrey comemorou, ao tempo em que Alice entrava no quarto e subia na cama, deitando exatamente ao lado da garotinha.
Quinn estreitou os olhos na direção dela.
— Folgada.
...
Após tomar banho e vestir o próprio pijama, a loira entrou na cozinha, inspirando profundamente para sentir com mais intensidade o cheiro da pizza siciliana. Ela adorava o sabor dos champignons misturados com o bacon. Era, sem dúvidas, a sua favorita.
Porém, antes de ir até a comida, ela olhou através da janela da cozinha.
— O que está fazendo? — Rachel franziu o cenho.
— Observando.
— Observando o quê?
— O movimento.
— Movimento? Qual movimento?
— A falta dele. Quero saber se o entregador de pizza é mesmo um entregador de pizza.
— Ele era apenas um garoto.
— Um serial killer não tem uma idade padrão, Rachel.
— O que é um serial ki... ki... — Audrey tentou pronunciar a segunda palavra, mas acabou falhando e recebeu um beijo amoroso de Rachel no topo da cabeça.
— Não é nada, meu amor. Apenas algo do trabalho da sua mãe. Eu vou cortar a pizza para você, tudo bem? — Ela mudou o rumo do diálogo, e Audrey aquiesceu.
Quinn ainda passou alguns segundos encarando o jardim, mas direcionou a sua atenção na figura próxima que voava até pousar do lado de fora da janela.
Schatten a fitou com os olhos dourados, e ela não sentiu um arrepio cortar a sua espinha, ou uma sensação ruim. Ela apenas suspirou, achando um absurdo vê-lo como um conhecido e não como uma ave que indicava cenas de crimes brutais.
Quiçá estivesse se apegando a ele como David estava. Ter zombado dele com Santana fez com que acabasse sentindo a mesma coisa pela ave.
Maldito carma.
Rachel comeu metade da pizza vegana enquanto auxiliava Quinn, que levava porções do alimento até a boca da filha. Ela limpava o canto dos lábios de Audrey, e a esposa esperava que a comida fosse ingerida para que repetisse o processo. Era uma ação contínua, conjunta e familiar. Tão familiar que a fez sorrir, se emocionando automaticamente. Uma evolução acontecia a cada dia. Evolução como mãe, como esposa e como alguém que tentava se redimir de um erro estúpido. Rachel se sentia mais próxima da sua família, fazendo parte dela como uma peça importante. Ela ouvia com clareza Audrey falar sobre como Beth era legal, vez ou outra tentando pegar a pizza com a mão, mas sendo impedida por uma das mães. Se ficasse suja, teria de tomar outro banho e poderia contrair um resfriado.
Os olhos de Audrey já estavam pesados quando ela terminou de comer, e bebeu um pouco do suco. Isso acontecia com frequência ultimamente. Ela estava mais elétrica conforme o seu aniversário se aproximava, não conseguindo permanecer acordada por muito tempo depois do jantar. Então, era sempre levada para a cama quando já estava praticamente dormindo, como agora.
— Eu amo você, meu amor. — Quinn pegou o elefante de pelúcia, colocando-o sob o braço direito da garotinha. Ele foi o primeiro objeto que ela recebeu de presente após nascer. A detetive o comprou na loja do hospital depois de Rachel ter dado à luz. Era o seu animal favorito e queria compartilhar isso com Audrey. — Até amanhã. — A cobriu com a grossa coberta depois de beijá-la na testa.
Rachel entrou logo atrás, repetindo o ato amoroso.
— Boa noite, meu amor. Eu te amo tanto. — Ela beijou a bochecha da filha e deixou a babá eletrônica sobre a mesa de cabeceira. Ainda que houvesse passado da idade, Quinn ainda a mantinha no quarto da filha, e Rachel achou aquilo necessário assim que soube. Qualquer ruído ou chamado de Audrey poderia ser ouvido.
Elas saíram do cômodo, parando no corredor, e Rachel fitou a esposa.
— Obrigada por hoje.
— Não há o que agradecer. Foi um bom dia.
— Você ainda precisa me contar o que havia no arbusto.
— Eu já disse. Não era nada. — Quinn afundou as mãos nos bolsos da calça moletom.
— Certo. Eu vou fingir que acredito nisso. — Rachel se aproximou. — Tem certeza de que não posso dormir com você? É para a minha segurança.
— Eu tenho. Você está segura aqui nessa casa. — O olhar de Quinn caiu diretamente para a boca da judia, que percebeu e sorriu internamente com isso.
— Eu sei que estou, mas segurança nunca é demais. — Rachel envolveu o pescoço da mais alta, beijando-a com fervor.
Quinn quase gemeu quando sentiu a língua da morena tocar o céu da sua boca e retribuiu, chupando-a quando os seus lábios se fechavam e se separavam lentamente. No entanto, eles logo se chocavam novamente em movimentos rápidos, cadenciados e completamente libidinosos.
À medida em que o beijo prosseguia, a detetive podia sentir o seu baixo ventre apertar e a sua vagina latejar, pronta para começar a molhar a sua calcinha, mas interrompeu a prática calorosa, praguejando internamente ao ver os lábios da morena tão vermelhos e inchados, como um convite mudo para continuar beijando-a e avançar todas as barreiras pela segunda vez enquanto se perdiam uma na outra.
— Eu... preciso ir dormir. — Ela estava nitidamente atordoada e começou a se afastar, mas a sua cintura foi segurada firmemente.
— Boa noite, Q. — Rachel mordeu o lábio inferior da esposa, chupando-o levemente para logo depois soltá-lo. Ela piscou o olho e se virou, rebolando propositalmente até ir para a escada.
Cada movimento foi visto e apreciado por Quinn, que a xingou mentalmente enquanto observava o modo como a calça de flanela moldava o traseiro empinado, relembrando como era adepta em tocá-lo, apertá-lo e passear os seus lábios sobre ele em um passado que parecia tão distante.
— Merda. — Quinn fez uma careta ao sentir a sua calcinha molhada. — Merda, Rachel.
Ao entrar no próprio quarto, ela teve de tomar outro banho, evitando se tocar para não dar razão ao seu desejo desenfreado. Deveria e iria se controlar para não se transformar na Quinn de anos atrás, sempre sedenta pelo corpo de Rachel. Não teria com ela outra noite ardente e sentimental preenchida por emoções adormecidas. Foi fraca em se deixar levar por um longo período sem sexo. Isso não iria acontecer de novo.
Com essa sentença, ela se acomodou na cama após se trocar e fechou os olhos, tentando dormir. Começaria uma nova jornada de trabalho no dia seguinte e precisava descansar.
Estava quase conseguindo ressonar quando ouviu um barulho consideravelmente alto no andar superior e não pensou em nada antes de saltar para fora da cama e pegar a sua arma reserva na gaveta da mesa de cabeceira, literalmente correndo até o quarto de Rachel.
Ao entrar bruscamente, ela assustou a morena, que pôs a mão sobre o peito ao vê-la apontar a arma para cada metro quadrado do cômodo.
— Há alguém aqui? Viu algo suspeito?
— Não, nada. Eu desci para pegar um copo de água e acabei tropeçando ao chegar aqui. Deixei tudo cair no chão.
— Você se machucou? — A preocupação de Quinn pareceu aumentar. Ela deixou a arma na cama ao caminhar até a judia, analisando-a minuciosamente.
— Não, eu não me machuquei. — Rachel sorriu docemente.
— Tem certeza?
— Absoluta. Já pode se acalmar agora. — A morena apoiou as mãos nos ombros da esposa. — Eu estou bem, e você precisa dormir. Amanhã vai ser um longo dia.
— Tudo bem. Eu vou. — Quinn pegou a arma. — Me chame se precisar de algo, e amanhã limpamos tudo isso.
Rachel concordou, observando-a sair do seu quarto, então suspirou e se deitou na cama. O colchão estava frio, fazendo-a se sentir terrivelmente sozinha com a falta que sentia de Quinn. A noite que passou dormindo sobre ela, abraçando-a e sentindo o corpo dela foi como enxergar uma luz depois de tanta escuridão. Estiveram unidas depois de um longo período. Ter experimentado aquela sensação a fez sentir saudade daquele contato todas as noites que se sucederam. Era sempre ruim vivenciar algo bom sem saber se aquilo aconteceria mais uma vez.
Era engraçado pensar tudo isso era algo comum entre elas anos atrás. O desejo desenfreado, o ato de fazerem sexo repetidamente. Agora, entretanto, restava para Rachel apenas a vontade de ter outra oportunidade de um novo momento como aquele.
Ela apertou os olhos, mas sobressaltou brevemente ao sentir a presença conhecida e o calor aconchegante ao seu lado.
— Quinn?
— Isso é para a sua segurança.
Quinn se acomodou embaixo da coberta.
Rachel sorriu, incapaz de medir o tamanho da felicidade que a assolou. Ela deitou a cabeça entre os seios da esposa e a enlaçou pela cintura.
— Isso também é para a minha segurança.
— Sim, é para a sua segurança. — Quinn confirmou e rodeou o braço ao redor dos ombros da judia.
Ambas sabiam que aquilo não era para a segurança de Rachel, mas, naquele momento, elas não queriam pensar nisso. Queriam apenas sentir o corpo uma da outra.
...
Na manhã seguinte, Quinn parou o carro no endereço descrito no cartão de Kevin e saiu do veículo com Santana e David. Quando contou tudo o que tinha acontecido, o amigo não hesitou em acompanhá-las. Ele havia entrado naquele ciclo enigmático e não iria sair.
— Isso parece... — Ele procurou alguma palavra que se encaixasse perfeitamente com o que via.
— Um cemitério. — Santana completou.
— Uma casa rodeada por um cemitério. — Quinn corrigiu.
Havia uma residência no centro de uma área extensa com muros altos de concreto ao redor. Os portões duplos enferrujados garantiam uma vista parcial do jardim de gramas secas. O mais estranho não eram os corvos perfilados acima do muro, fitando-os como se estivessem inquirindo algo, e sim as lápides pequenas no chão, quase sendo ocultadas pelas folhas.
— Tem certeza de que ele não é o assassino e que não vamos ser capturados em uma armadilha quando entrarmos aí? — Santana fez uma careta quando um dos corvos crocitou.
— Ele se denomina O Pai dos Corvos e perseguiu Elijah Puckerman dias antes da morte dele. O verdadeiro assassino não faria isso. Ele não é do tipo que persegue. — Quinn respondeu, vendo Kevin passar pela porta de entrada da casa.
— Detetives. — O homem de meia-idade acenou com a cabeça ao abrir o portão para eles. — E você é David Karofsky. Eu pesquisei um pouco sobre todos os funcionários que compõem o Departamento de Polícia de Lima atualmente. Vamos entrar.
— Quem está enterrado nessa área? — A latina questionou enquanto passavam pelo jardim, verdadeiramente curiosa.
— Meus meninos e meninas.
— Meninos e meninas?
— Os corvos. — Quinn respondeu por ele.
Kevin assentiu, e todos entraram na casa. Diferente do lado externo, o interior do ambiente era bem estruturado e limpo, porém as esculturas de corvos, assim como as fotos deles, deixaram Quinn um pouco tensa, juntamente com as aves sobrevoando o cômodo, fazendo com que tivesse de se abaixar para não ser atingida por alguma delas.
— Eu definitivamente odeio corvos. — Santana murmurou, seguindo Kevin até a sala de estar.
— Desejam tomar algo? — Ele perguntou gentil.
— Não, obrigada. Nós só queremos conversar e esclarecer tudo isso. — Quinn respondeu, se sentando no sofá de três lugares com os amigos.
— Certo. — Kevin pegou uma cadeira e a colocou posicionada de frente para o sofá. — Antes de começar, eu gostaria de dizer que sinto muito, detetive Fabray.
— Sente muito? Como assim? — Quinn arqueou as sobrancelhas.
— Eu passei um longo tempo seguindo e reunindo informações sobre as vítimas do assassino após o primeiro homicídio, e tudo foi escolhido minuciosamente por ele. Todas as vítimas. A letra inicial dos nomes e dos lugares onde nasceram têm muito a dizer, e eu sou o próximo.
— O próximo? Você... — A loira se surpreendeu.
— Eu também abandonei pessoas importantes. Não há como saber com precisão quando ele vai agir, mas eu sei com quem ele vai agir, detetive.
— E onde a inicial dos nomes das vítimas e dos lugares onde nasceram se encaixa nisso? — Santana perguntou, agora compenetrada no que o homem tinha para falar.
— Cada letra corresponde a um número, mas eu analisei somente as iniciais. O "Z" de Zach é o número vinte e seis. Ele nasceu na Pensilvânia, e a letra "P"indica o número dezesseis. Se subtrairmos os dois números, teremos o resultado dez. Ele foi a décima vítima, o que significa ser a primeira em uma ordem decrescente. Ao repetirmos o mesmo processo com Jason, vamos obter o resultado nove. Ele nasceu no Alabama. O ''J'' é o número dez e o ''A'' é o número um. Jason foi a nona vítima.
— Elijah é o número oito, não é? O ''E'' é o número cinco e o ''M'' é o número treze. — Quinn atalhou a linha de pensamento. — Ele nasceu no Missouri.
— Sim, ele é a vítima número oito. Se subtrairmos o cinco do treze, teremos o resultado oito. E então chegamos em mim. A letra inicial do meu nome corresponde ao número onze. Eu nasci na Dakota do Sul. O ''D'' representa o número quatro. O resultado vai ser sete. — Ele abriu um sorriso triste.
— Não, Kevin... não. — Quinn balançou a cabeça, processando tudo o que ele havia dito. — Isso pode estar errado.
— Os números estão decrescendo, detetive. Não é apenas uma coincidência.
— Mas e o Robert Miller? Pelo depoimento obtido no dia da morte dele, ele nasceu aqui em Ohio. O ''R'' é o número dezoito, e o ''O'' é o número quinze. O resultado seria três. Não faz sentido. — David tentou quebrar o esquema feito por Kevin. Era um tiro no escuro.
— Ele não se encaixa nisso. Robert foi morto com um tiro. A razão da morte dele é diferente.
— Como você sabe disso? — Santana perguntou.
— Eu já fui detetive há muitos anos e ainda tenho alguns amigos que trabalham no departamento. Eles me falam sobre como anda o caso, e eu reuni essas informações. Eu não pensei em contatá-los. Não queria ser chamado de louco. Mas depois de ver que dois dos meus corvos pertencem à família da detetive Fabray, eu decidi contar.
— Por que não continuou trabalhando como detetive? — Quinn estava curiosa.
— Porque quando comecei a ver todos esses corvos me indicando pistas, eu fiz a tolice de contar para um amigo do departamento. Ele achou que eu estava enlouquecendo e aplicou em mim a técnica do gaslighting. Já ouviram falar sobre isso?
— Sim, é um abuso mental. Normalmente, apenas sociopatas fazem isso, tentando manipular as suas vítimas contra elas mesmas. É doentio, Kevin. — Quinn respondeu, surpresa diante de tudo o que ele relatava.
— A maioria das pessoas não acreditaram em mim e fizeram com que eu duvidasse da minha sanidade em seguir corvos. Fui demitido e perdi tudo. Eu colhi o que plantei em abandonar a minha noiva na Dakota do Sul quando ela estava grávida. Eu nunca mais voltei, então não sou uma boa pessoa.
— Pessoas boas também cometem atitudes ruins, Kevin. Nos contar tudo isso prova que quer capturar esse assassino.
— Eu quero, e ele precisa ser capturado. Eu não tenho medo de morrer, mas não quero ver outras vítimas, principalmente a sua esposa. Se ele seguir realmente essa ordem...
— Rachel vai ser a vítima número três. — Quinn interrompeu o homem de cabelos ralos, vendo-o assentir com uma expressão melancólica. Ela omitiu o fato de saber que seria a vítima número dois. Kevin não precisava saber disso. — E o resto?
— Eu não sei. Talvez a vítima número um seja ele mesmo. Talvez ele tire a própria vida no final. Esse assassino é muito analítico.
— Isso não vai acontecer. Eu vou pegá-lo antes disso e vou garantir a sua proteção, Kevin. — A loira afirmou.
— Não precisa...
— Precisa, e nós iremos. — Foi Santana quem cortou a fala dele, se curvando para apoiar os braços sobre as coxas. — Tudo isso me deixou com uma sensação horrível, mas nós temos uma linha de raciocínio espetacular. Vamos pegá-lo.
— E como vamos pegá-lo?
A latina trocou um olhar significativo com Quinn, fazendo-a entender e negar com a cabeça.
— Não.
— O que houve? — Kevin indagou.
— Santana acha que devemos usá-lo como uma espécie de isca.
Fale com o autor