Almas Afins

3 Capítulo 3 - Reminiscências...


Notas iniciais
Dia de capítulo! Espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

Quinn se manteve na mesma posição e não sabia dizer se tinham se passado apenas minutos uma hora completa, mas Rachel se calou de repente.

Uma respiração profunda foi a única coisa que ouviu, e então a voz dela retornou aos seus ouvidos.

Eu posso dormir no sofá, Quinn. Amanhã poderíamos conversar melhor. — Ela tentou outra vez.

— Eu já disse que você não vai ficar aqui! E não há nada que faça com que eu mude de ideia! — Quinn foi firme e decisiva.

Um suspiro ecoou do outro lado.

Eu não vou desistir. — Rachel falou por fim. — Se você quer que eu fique aqui por horas ou dias, eu ficarei. Eu não vou embora novamente de Lima a não ser que vocês estejam comigo e quero recomeçar com você e com a Audrey. Como tudo deveria ter sido. — As palavras saíam calmas e determinadas.

— Mas eu não quero recomeçar! — Quinn balançou a cabeça, ainda que a judia não pudesse ver. — Você vai embora e então volta como se nada tivesse acontecido? Acha que eu estaria esperando por você no momento em que decidisse voltar? Eu não confio mais em você, e tudo de bom se vai quando a confiança acaba, Rachel! E ela acabou há dois anos.

Então diga que não me ama! — Rachel quase gritou. — Se disser, eu levanto agora e vou para a casa dos meus pais.

Quinn sentia a própria respiração pesar cada vez mais, talvez pelo desafio repentino de Rachel, talvez pelo esforço do choro que produzia minutos atrás. Tudo contribuía para se sentir cansada.

— Amor não é o suficiente aqui, Rachel. Não estamos mais no colégio. — Pôs as mãos na cabeça, sentindo-a latejar.

Para mim é o suficiente, Quinn. Quando se tem amor, o resto pode vir aos poucos. Eu errei e me arrependi. Eu vou fazer você confiar em mim novamente.

Quinn respirou profundamente. Sua barriga implorava por comida, e a sua mente por um descanso. Eram tantos sentimentos confusos. Raiva, decepção, melancolia. Ainda amava Rachel? Ela foi, de fato, o seu primeiro amor. Nunca amou Finn, tampouco Noah ou Sam, embora compartilhasse uma ligação imensurável com o rapaz que exibia o moicano no ensino médio. Tiveram uma filha juntos. Todavia, ela não o amou. Namorava os rapazes para manter a sua classificação alta na pirâmide escolar.

Quando Finn tentou algo com a judia no segundo ano do ensino médio, a loira iniciou uma perseguição contra ela. Mas o ciúme que sentia não era por ver Finn desejando outra garota e sim essa garota ser justamente Rachel.

Todos os apelidos maldosos, slushies e provocações duraram até Rachel descobrir que Finn havia mentido sobre ser virgem, quando na verdade tinha transado com Santana, e terminou com o rapaz. Quinn liquidou o seu relacionamento com Sam naquela mesma semana, mas não tentou ficar com o quarterback, o que fez a judia se surpreender e ter uma síncope quando a capitã das Cheerios propôs uma trégua entre ambas. Ela nunca escondeu a admiração que sentia por Quinn. A imponência que ela possuía ao desfilar pelos corredores do McKinley. O medo que todos sentiam da Rainha de Gelo. Tudo era motivo para a morena se sentir hipnotizada por ela.

A judia aceitou a trégua, e as duas iniciaram uma amizade, descobrindo que possuíam mais coisas em comum do que imaginavam. Filmes, livros e opiniões de assuntos em geral. O tempo passava com rapidez quando estavam juntas. A companhia uma da outra se tornou algo leve. Era como se as almas se conectassem a cada diálogo. Quinn realmente não se importava quando todos olhavam torto ao vê-la caminhando com Rachel pelos corredores.

Se tornaram amigas inseparáveis antes de um sentimento maior eclodir.

À medida em que os dias e as semanas iam passando, ambas não conseguiam se afastar e sabiam que algo iria acontecer mais cedo ou mais tarde.

E aconteceu.

Quinn correu após o primeiro beijo, e os dias pareciam meses enquanto ignorava Rachel, até que ela foi na sua casa enfrentá-la. A loira finalmente confessou que estava apaixonada e chorou. Chorou com o medo da rejeição da cidade pequena onde moravam. Entretanto, Judy e Russel estavam prontos para apoiá-la. Foi um choque no começo. Ambos nunca imaginariam que a filha caçula pudesse ser homossexual. Não depois de ter engravidado aos dezesseis anos. Contudo, estavam com as mentes mais abertas depois de tudo o que houve, principalmente quando Quinn foi expulsa de casa. O patriarca já havia aprendido lições dolorosas demais quando se viu sem a presença da caçula ao seu lado e deixá-la no momento mais temeroso da sua vida era algo que nunca conseguiria esquecer e nem se perdoar. Naquele momento, o seu conservadorismo já havia sido liquidado, principalmente quando Frannie também tinha se assumido algum tempo atrás. O casal Fabray agora tinha duas filhas homossexuais e as amava incondicionalmente.

Após conversas, abraços e uma promessa de que sempre estariam juntos, Quinn pôde liberar os seus sentimentos pela primeira vez na sua vida.

E todo o McKinley entrou em colapso quando a capitã das Cheerios adentrou a escola de mãos dadas com a líder do coral no último ano do ensino médio.

Aquele foi o melhor ano das suas vidas. Elas compartilhavam planos, sonhos, e a vitória nas Nacionais trouxe felicidade para todos.

No entanto, tudo acabou quando a morena recebeu a carta de NYADA rejeitando-a e a apatia se tornou presente no seu dia a dia. Quinn apenas desejava que a tristeza da namorada acabasse e tentou de tudo. Propostas para irem à Nova York e até quem sabe residirem na Big Apple, contatar novamente Carmen Tibideaux. Mas Rachel recusou e havia se conformado em passar a sua vida morando em Lima. Quinn parou de tentar quando a viu tão resignada e a pediu em casamento depois de dois anos.

Tudo foi perfeito no começo. Rachel não demonstrava mais estar triste. Ela sorria, demonstrando felicidade, e até ponderou sobre se inscrever na Universidade Estadual de Ohio para estudar Belas Artes, optando pelo curso de Artes Cênicas, quem sabe assim se tornando professora de teatro. Ela adorava isso, afinal.

Quinn a apoiou bravamente, mas qual foi a sua surpresa quando a morena decidiu adiar essa decisão e compartilhou o seu desejo de fazer uma inseminação? A loira passou dias inquirindo se a esposa tinha certeza, recebendo sempre respostas positivas. Então ambas procuraram uma clínica e após escolherem um doador anônimo que possuísse as mesmas características de Quinn, a inseminação foi feita.

Os homens Berry e os Fabray, juntamente com Frannie, Cassandra, Brittany e Santana vibraram quando ambas os noticiaram com a gravidez bem-sucedida de Rachel. Hiram e Judy quase não saíam de perto da judia.

Quinn fazia tudo o que Rachel pedia. Os desejos, as reclamações por sentir dores. Ela massageava a esposa com amor e sempre saía no meio da noite para comprar algo peculiar para que ela pudesse comer. Então Audrey nasceu. Aquilo foi a maior felicidade para ambas. Quinn via o amor refletido nos olhos de Rachel sempre que observava a filha em seus braços. Com ela não foi diferente. O casamento era maravilhoso, até que tudo mudou.

Rachel achou que poderia suprir as lacunas vazias do seu coração ao engravidar. Achava que se possuísse um bebê para cuidar, sua vida iria fazer sentido novamente. E isso aconteceu. Pelos menos por alguns meses. Mas tudo o que é bom, realmente dura pouco tempo.

A judia começou a assistir as performances da Broadway enquanto Audrey dormia. Suas cartas para a Universidade Estadual de Ohio foram aceitas, mas ela não se sentia plenamente satisfeita com isso. Não queria ensinar. Queria estar no palco. Atuando. Enquanto Quinn estava feliz cursando direito na universidade, Rachel se via cada vez mais afundada em sonhos falidos. A garota sempre sorridente e iluminada que caminhava pelos corredores do McKinley havia sumido, restando apenas a esposa e mãe aos vinte e dois anos.

Seu sonho não estava em Lima. Estava em Nova York, e Quinn soube disso quando chegou da universidade à noite e viu a esposa de malas prontas. Rachel estava decidida, e mesmo com Quinn implorando para que não fosse, ela não recuou. A loira então arrancou a aliança de seu dedo anelar e em seguida se trancou no quarto, que a partir daquele momento seria apenas seu.

E Rachel foi embora, levando com ela a felicidade e o coração da jovem Fabray.

Foram meses até que Quinn saísse de casa novamente. Ela recebeu o apoio de todos. Judy e Russel praticamente moraram na sua casa, enquanto Frannie a visitava todos os dias. Até mesmo Hiram e Leroy passaram todos aqueles meses emanando apoio e cuidando da neta. Os dois homens Berry nunca aprovaram a atitude de Rachel e tinham Quinn como uma filha. Santana também permanecia sempre ao seu lado com Brittany. As duas já estavam casadas e tinham uma filha, fruto da inseminação que a latina carregou por nove meses. David estava praticamente na mesma situação. Jason, seu marido, havia ido embora alegando que ser pai tão jovem era um erro e desejava aproveitar mais da sua vida vida, deixando-o sozinho com Thomas. Ambos passavam horas conversando. Quinn não imaginava que o rapaz agressivo do ensino médio pudesse ser tão amável depois de finalmente assumir a sua sexualidade. No final, ele se tornou o seu melhor amigo.

Essa rotina desoladora durou até Audrey completar um ano de vida.

Quando a filha começou a chorar mais do que o normal, Quinn soube que alguma coisa estava errada. E então vieram os olhos vermelhos demais e as piscadelas longas e ininterruptas. Audrey passava as mãos pequenas constantemente sobre as pálpebras como se algo estivesse incomodando, e de repente, uma trilha de sangue escorreu, sujando o rosto alvo. Quinn entrou em pânico.

Ela tinha visto os seus antigos companheiros de coral pela última vez no dia do nascimento de Audrey, com exceção de Finn e Noah, que nunca apoiaram o seu relacionamento com Rachel plenamente. No entanto, quando a filha teve de ser internada, todos estavam ali, juntamente com a sua família e os homens Berry, ocupando a sala de espera. A angústia por notícias a deixava sufocada, e a dor de ter sido abandonada por Rachel deu lugar ao desespero de perder a sua garotinha.

O diagnóstico foi dado horas depois. O maldito retinoblastoma era genético, e embora nenhum dos parentes de Rachel que conhecia possuíssem isso, ela tinha uma mãe distante. O doador anônimo também poderia ter algum histórico em alguma geração. Não tinha como saber. A cirurgia era a única forma de tratamento para o estado em que os tumores estavam, mas ainda que tivessem sido tirado-os rapidamente, a visão de Audrey já havia sido comprometida. A cor das íris permaneceu intacta, porém a sua filha não enxergava mais, e dependia de Quinn ser forte o suficiente para adaptá-la naquela nova vida.

Aquele foi o choque de realidade mais fatídico que já tivera. Após a cirurgia e recuperação de Audrey, Quinn voltou para a universidade e se tornou a melhor detetive que poderia ser. Sua mágoa foi enterrada no fundo do seu coração, e ela não chorava mais por Rachel.

Até aquele momento.

Olhando aquele rosto que não via há dois anos, tudo voltou como um soco bem dado no pé do seu estômago, tirando todo o ar e fazendo-a se curvar de dor. Era como se nada tivesse mudado, exceto pelo vazio que ainda fazia parte dela. Aquilo não sairia por muito tempo. E talvez nunca saísse.

Quinn respirou fundo e soltou uma boa quantidade de ar dos pulmões. Por último, se levantou e abriu a porta. Rachel definitivamente não esperava por isso e se não fosse rápida o bastante, iria cair com as costas no chão.

— São quase oito horas. Eu estou cansada e com fome. Você vai para a casa dos seus pais e depois pode alugar algum apartamento para ficar. Você deve ter dinheiro suficiente para isso. — Quinn determinou, observando a judia se erguer rapidamente, e logo se moveu para sair da casa, mas a mão suave segurou o seu braço.

O choque elétrico foi sentido por ambas. Os corpos formigaram com o contato, mesmo com o tecido jeans da jaqueta que a loira vestia.

A detetive se afastou bruscamente, como se aquilo ardesse como brasa.

— Eu não tenho dinheiro. — Rachel rebateu. — Os cachês de Funny Girl foram gastos com o apartamento que kurt e eu alugamos, e a minha série fracassada não rendeu lucros. Não me faça voltar para a casa dos meus pais. Me deixe ficar aqui. — Pediu.

Quinn encarou a face suplicante de Rachel. Os olhos marejados e os ombros caídos. Aquilo a faria mudar de ideia há dois anos. Agora, não mais.

— Eu vou até a casa de Santana e Brittany saber como minha filha está e ficar lá um pouco. E quando eu voltar, se você ainda estiver aqui, vou colocá-la no meu carro e levá-la à força até a casa dos seus pais. Eu não a quero na minha casa. — Quinn pontuou, caminhando para fora da residência.

Rachel não segurou o pranto quando Quinn se afastou e não evitou entrar novamente na casa apenas para observá-la por alguns minutos, recordando todos os momentos que passou ali. Ela chorou sentada no sofá enquanto abraçava o próprio corpo. Havia estragado tudo. Tudo de bom que tinha na sua vida. Acreditava plenamente que seu sonho estava em Nova York, mas não achava que se sentiria tão vazia enquanto estava nos palcos.

Ela sempre achou que a sensação de pisar na Broadway fosse preencher cada lacuna do seu peito, mas não preencheu. O sonho tão almejado se realizou, mas nunca se sentiu feliz. Aquilo só a fez ter certeza de que a sua felicidade sempre esteve em Lima. Ela só foi egoísta demais para pensar nisso. Sabia que a loira apoiava todos os seus sonhos, e que ambas poderiam se mudar para Nova York quando ela se formasse na universidade. A própria Quinn já havia dito que iria para onde Rachel quisesse, mas a morena não foi capaz de esperar e quando viu em uma fanpage da Broadway que os produtores de Funny Girl estavam procurando uma Fanny Brice para a nova peça, seus olhos brilharam, e a ambição tomou conta de cada parte do seu corpo.

E ela fez a mesma peça de teatro por quase um ano e meio, interpretando a personagem que a mulher que idolatrava também fez. E mesmo quando a própria Barbra Streisand foi na sua peça para assisti-la, Rachel não se sentiu completamente feliz. Quinn não estava ali para assisti-la com Audrey em seu colo, e a judia não tinha para quem correr e abraçar enquanto despejava toda a sua euforia latente de finalmente conhecer a sua inspiração dos palcos. Quem ela mais queria não estava ali com ela.

De repente, o vazio que sentia quando passava o dia todo apenas cuidando da filha em Lima voltou em uma intensidade maior. Uma intensidade estrondosa. Rachel chorava todas as noites abraçando a fotografia contra o peito. A dor foi imensa, mas ela tinha um contrato a seguir e não poderia quebrá-lo, caso contrário teria de pagar uma multa milionária. Como não tinha dinheiro para isso, não teve outra alternativa a não ser finalizar o musical, ainda que não sentisse mais a mínima vontade de atuar naqueles palcos tão longe de casa.

Casa.

Ela sabia que a sua casa era onde Quinn e Audrey estavam. E quando estava pronta para partir, recebeu a proposta de atuar em uma série de Tevê só dela. A Broadway não iria mais fazer parte do seu cotidiano. No momento em que os produtores aceitaram a sua condição de voltar para Lima, ela filmou o episódio piloto em Los Angeles, talvez na esperança de poder se mudar para lá com Quinn e a filha. A cidade era linda, afinal de contas. Mas isso não aconteceria.

A série foi um fracasso. Totalmente nula em audiência. Rachel sabia que aquilo era mais um castigo para os seus atos. Sabia também que ainda pagaria muito mais quando pusesse seus pés em Lima. Não se abandona uma família daquela forma.

Rachel provou apenas uma amostra do que estava por vir. O azedo do arrependimento tomou conta de cada parte do seu interior quando olhou novamente nos olhos de Quinn. O quão bela ela estava. A beleza sempre foi a sua aliada e apenas aumentou com os anos. E Audrey. A judia não fazia ideia de como Audrey estava. Hiram e Leroy nunca a noticiavam sobre a filha. Se recusavam a fazer isso como um protesto a respeito da sua atitude cruel.

O arrependimento apenas aumentou, adotando um tamanho além do imaginável. E ela agora chorava como uma garotinha no sofá da casa que nunca deveria ter saído.

Ela sabia o quanto Quinn estava magoada. Essa mágoa nunca sairia dela. Era algo que enraizou com o tempo, e Rachel sabia que demoraria para conseguir ao menos algum resquício da confiança da detetive, mas ela não iria embora, tampouco iria se deixar abalar pelas palavras que recebia. Ela era sua esposa. Sempre iria ser. Rachel não ganhou o apelido de Diva no colegial por acaso. Ela sabia o que queria e conquistava tudo. Ela conquistaria o coração de Quinn outra vez.

Mesmo que ele estivesse tão distante do seu alcance.

O barulho da porta se abrindo atraiu a sua atenção, mas Quinn não passou por ela. Os olhos castanhos de Rachel se abriram em surpresa, e ela se levantou de imediato do sofá, enxugando as lágrimas quando encarou a figura que fitava-a de volta com ódio estampado em sua face. A atriz a conhecia tempo suficiente para temer aquela postura. Os braços estavam cruzados, e a mandíbula estava trancada. Ela sempre agia desse modo para intimidar as outras líderes de torcida no colégio.

Santana Lopez não havia mudado praticamente nada, exceto o olhar duro e carregado de nojo que jogava na sua direção.

— Vamos conversar, Rachel. — A latina falou com a voz seca.

Notas finais
Espero que tenham gostado. O que será que vai acontecer com essa visita da Santana? Me deem os feedbacks, favoritem e exponham suas opiniões. É muito importante. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron