Almas Afins
4 Capítulo 4 - Santana Lopez...
Notas iniciais
Santana analisava cada traço do rosto de Rachel com os olhos frios. Não era segredo nenhum que nunca gostou da mais baixa desde o colégio. Ela a irritava com o seu jeito petulante e seu ar de diva enquanto soltava inúmeros solilóquios em como um dia iria ser uma estrela da Broadway. Como uma típica líder de torcida, a latina a infernizava diariamente.
Até que Quinn, a sua amiga de infância, acabou se apaixonando por ela. Santana odiou ter de aturar a judia a pedido dela.
Não foi fácil e tampouco confortável. Santana ainda não gostava da morena, o que era totalmente recíproco, mas isso suavizou quando viu que Rachel realmente amava a namorada. O sorriso elétrico da jovem cantora quando fitava a loira fez a latina repensar seus conceitos, e ambas até se tornaram próximas. Todavia, Rachel estragou qualquer resquício de probabilidade de amizade quando largou Quinn e Audrey para ir morar em Nova York. Santana ainda se lembrava do estado lamentável em que a amiga ficou e tinha certeza de que jamais esqueceria. Devastada seria eufemismo. Doía em Santana ver a loira sempre sorridente totalmente dilacerada e com uma filha para criar. Doeu em Santana vivenciar cada sofrimento de Quinn. Foi ela quem passou noites em claro no hospital enquanto Audrey permanecia internada para se recuperar da cirurgia. Foi ela quem viu todo aquele brilho sofrido nas orbes verdes. Ela jurou por céus e terras que quando pusesse seus olhos em Rachel novamente, ela pagaria.
Esse dia havia chegado.
— Santana? — Rachel indagou rapidamente. — Onde a Quinn está?
— Não se preocupe, Berry. — A mais alta descruzou os braços. — Ela está na minha casa. Longe de ver o que vim fazer aqui. — Deu dois passos à frente. Rachel recuou no mesmo segundo.
— E o que veio fazer aqui? — A judia tentava manter a voz firme. — Pode falar o que quiser. Eu sei que fui uma estúpida. Um monstro. Mas eu vim para ficar e não vou embora. — A voz saiu sem tremular.
— Sabe, Berry... — Santana começou. — Quando eu cheguei em casa há alguns minutos e vi o olhar transtornado da Q, eu sabia que havia algo de errado, mas não poderia imaginar que seria isso. — Suspirou. — Qual é o seu objetivo agora? — Arqueou as sobrancelhas. — Você sabe que a Q não é rica. Ela não aceita nada da tia Judy e do tio Russ. Ela vive do salário de detetive, e pode acreditar que não é grande coisa. Então qual a finalidade da sua volta repentina? Se for por causa do dinheiro, eu tento arrumar algo e você vai embora novamente hoje mesmo. Só não se aproxime da Quinn e da Audrey. — Falou tudo lentamente, como se estivesse elucidando algo para uma criança.
Rachel ainda passou alguns segundos absorvendo tudo o que a latina havia dito e quando finalmente conseguiu discernir cada palavra, seu rosto se contorceu em raiva.
— Você acha que eu voltei por causa de dinheiro? — Ela inquiriu irada. — Eu voltei porque cometi o maior erro da minha vida, Santana. Eu não me importo com riqueza. Eu realmente sonhava com a Broadway, porque eu achava que lá era a minha casa, mas aqui é a minha casa. O lugar onde a minha esposa e a minha filha estão. Então não. Eu não quero dinheiro. Nem um centavo. E meu objetivo é conquistar o amor da Quinn e da Audrey. — Sua respiração estava errática.
Santana soltou uma gargalhada tão alta que fez o corpo de Rachel arder em cólera. O riso era completamente recheado de escárnio. A latina bateu palmas várias vezes enquanto respirava fundo, tentando manter uma calma inexistente.
— Belo teatro, Berry. Realmente você sempre teve esse talento medíocre para os palcos. Volte para lá. Aposto que é um ninho de cobras como você. Ninguém vai sentir a sua falta. — A mais alta se aproximava cada vez mais. — Você jogou fora o amor de duas pessoas maravilhosas. As pessoas que deveriam ser o seu porto seguro. Você é o pior tipo de pessoa. Aquela que guarda as garras dentro das mangas para depois pôr tudo para fora e arranhar sem o mínimo de decência quem estiver na sua frente. Leve essa sua bunda de volta para Nova York. E morra lá, sua cadela imunda. — Cuspiu as últimas palavras.
Rachel já possuía o rosto vermelho, tentando em vão controlar a sua fúria, mas não conseguiu impedir a sua mão de acertar o rosto da latina, que virou bruscamente. A face de Santana ganhou uma coloração escarlate à medida em que os segundos passavam.
— Eu não admito que você fale assim comigo! — Rachel esbravejou. — Eu fui uma egoísta de merda, mas eu posso mudar tudo. Todo mundo merece perdão. Todo erro possui conserto. Eu vou consertar tudo! — Apontou o dedo no rosto da mais alta.
Santana ainda mantinha a própria mão sobre o rosto. Seus olhos escuros dilatados em ódio ganhando um brilho mais intenso. Era o mesmo brilho que possuíam quando estava pronta para agredir alguma líder que a provocava por ser lésbica no ensino médio.
— Eu vou matar você. — Foi a única coisa que ela disse antes de avançar sobre Rachel.
A judia sentiu os seus cabelos serem puxados bruscamente, e um grito agudo saiu de sua boca. Santana não pensava em nada. Ela só desejava acabar com Rachel, então a jogou contra o chão sem a mínima piedade, se pondo sobre os quadris da atriz de forma ágil.
O tapa foi revidado quando os seus dedos marcaram a face de Rachel com força. A menor tentava se defender, mas Santana era mais rápida e forte, graças ao treinamento policial e à sua habilidade em agredir as pessoas quando deixava a raiva latente tomar conta dela. Mais outras bofetadas foram acertadas na morena, que já possuía um caminho de sangue saindo da lateral da sua boca.
— Você não merece uma filha como a Audrey! — O tom de Santana era alto e nervoso, e sua mão se chocou novamente contra Rachel.
— Eu amo a minha filha e eu vou provar isso! — A judia rebateu enquanto se debatia na tentativa de afastar a detetive.
Santana a segurou pela nuca com força e estava pronta para socá-la com o punho quando quando a porta foi chutada.
Quinn adentrou a sala com o semblante assustado, que apenas aumentou quando viu a amiga sentada sobre Rachel, que tinha o rosto machucado. Ela correu até a latina, puxando-a pela cintura.
— Vocês não tinham o direito de me prender naquele porão! — Ela bronqueou quando afastou Santana de Rachel. — Está maluca? Violência não resolve nada.
— Você não me deixaria vir aqui por vontade própria. E foi ela quem começou. — Santana apontou para Rachel, tentando avançar novamente, mas sendo segurada por Quinn. — Essa vadia sem coração! Ela não deveria ter voltado. Não agora que você está melhor. Agora que pode ter algo com a Hayden.
Rachel, que já havia sentado no sofá com a respiração errática, apurou os sentidos quando ouviu a última frase da latina. Quem diabos era Hayden? Ela estava com Quinn? Seu peito doeu apenas em cogitar tal possibilidade. Quinn era a sua esposa.
Mas quando seus olhos focaram o anelar da loira sem a aliança, a realização bateu na sua cabeça. Não importava para Quinn ser casada. Não depois de tudo.
— A Hayden é a minha amiga e professora da minha filha. Eu não quero mais relacionamentos, e não interessa quem começou. Nós combinamos que eu resolveria isso! — Quinn quase gritou.
— Você acha que eu ficaria de braços cruzados sabendo que ela está aqui? Depois de dois anos vendo você destruída por causa dela? Ela merece mais do que uma surra!
Quinn suspirou e encarou a amiga. Santana estava apenas protegendo-a, como sempre fazia. Tinham adquirido o instinto de proteção uma com a outra desde que eram apenas crianças e se tornaram amigas. Isso nunca mudaria.
Mas a loira nunca foi a favor da violência. Diálogos sempre conseguiam resolver qualquer situação. Era o que sempre dizia.
Seus olhos fitaram Brittany entrando na sua casa com a expressão aflita.
— Sant? O que houve aqui? — Ela segurou o rosto da latina com as duas mãos.
Santana relaxou instantaneamente com o toque da esposa.
— Berry e eu brigamos. Agora ela sabe que vai ter de ir embora logo.
— Você pode tentar me bater sempre que quiser. Eu não vou embora. Não mais. — Rachel cruzou os braços ao se levantar, tentando manter uma postura firme.
Santana estava pronta para ir até ela novamente, mas Quinn entrou na sua frente.
— Vamos embora, Sant. Nada de brigar. Eu já fui louca o suficiente para concordar com a sua ideia de trancar a Q no porão. Já basta por hoje. — Brittany pôs a mão no braço da latina. — Acho melhor a Aud dormir lá em casa essa noite. Resolva as coisas com calma, tudo bem? Seu rosto está muito abatido. — Apertou o nariz de Quinn com carinho.
Quinn sorriu com a gentileza da amiga. Brittany sempre foi tão doce. O oposto de Santana. Deve ser por isso que ambas se completavam tão bem.
— Tudo bem. Amanhã eu vou buscá-la e levá-la para o colégio. Posso levar a Blanca como agradecimento. — Ela retribuiu o afeto da amiga.
Brittany franziu o cenho.
— Mas... ela não sabe da Audrey... — Sussurrou. — Não acha melhor que ela fique lá em casa por enquanto?
— Ela vai saber algum dia, Britt. Quanto mais adiarmos, pior será. — Quinn respondeu no mesmo tom, recebendo um sorriso repleto de carinho em seguida.
— Certo. Combinado. Até amanhã, Q. — Brittany se aproximou, envolvendo-a em um abraço. — Tenha paciência. Não perca essa virtude. — Murmurou no ouvido da mais baixa.
Quinn aquiesceu enquanto apertava a amiga.
— Obrigada, Britt. — Se separou do afeto lentamente.
Brittany não evitou encarar Rachel após a quebra do abraço, e a morena se sentiu ainda pior quando a fitou também. Os olhos azuis eram sempre tão amáveis e profundos. Como se pudessem ler sua alma. A profundidade estava ali, mas a amabilidade foi trocada e agora transmitiam pena. Brittany amava Audrey como uma filha. Era madrinha da garotinha e faria qualquer coisa por ela. Imaginar que uma mãe teria coragem de abandonar a própria filha fazia uma sensação de tristeza latente eclodir dentro dela. Era triste, porque Rachel não pôde estar ali para ver a sua filha dar os primeiros passos e falar as primeiras palavras, e nem esteve presente quando a pequenina perdeu a visão. E sobretudo, doía porque foi a própria Rachel quem escolheu o seu caminho desastroso.
No final, ela desviou os seus olhos para não falar algo que pudesse prejudicar a situação e apenas saiu da casa de Quinn segurando o braço da esposa.
— Quinn, eu... — Rachel começou, mas a loira a cortou.
— Rachel, eu estou exausta. — Quinn confessou. — Eu passei o dia todo analisando os casos novos que chegaram e eu realmente não quero conversar agora. Há um saco de gelo na cozinha. Você pode passar no seu rosto, e o quarto de hóspedes é a segunda porta à esquerda. Você pode ficar lá essa noite. — Falou com a voz exaurida.
— Eu sei disso, Quinn. — Rachel falou. O tom triste. — Eu morei aqui, lembra?
— Eu prefiro não lembrar. — Aquilo machucou a atriz mais do que os tapas de Santana. — De qualquer forma, eu vou para o meu quarto. Boa noite. — Quinn deu as costas.
Rachel segurou a mão da esposa antes que ela pudesse caminhar, fazendo o mesmo choque percorrer ambos os corpos. Novamente, Quinn se afastou de supetão.
— E essa Hayden? — A voz da judia era carregada de curiosidade e ciúme. — Há alguma chance de você ficar com ela?
Quinn respirou fundo antes de massagear as têmporas.
— Eu poderia ter ficado com qualquer pessoa durante esses dois anos. Você não estaria aqui para ver. Não finja que se importa, Rachel. — Ela riu amargurada. — Eu já me machuquei o suficiente por uma vida. Criar a minha filha é a única coisa que me interessa. E não é porque ainda estou casada com você no papel. Isso vai acabar em breve com o divórcio. Agora você está aqui e pode assinar.
— Você não pode fazer isso. — Rachel respondeu, segurando firmemente o braço da mais alta. — Eu não vou assinar nada. Você é a minha esposa. — Apertou a mão, fincando as unhas no tecido da jaqueta de Quinn.
— Eu não sou a sua esposa! — Quinn puxou o braço. — Eu deixei de ser quando você foi embora, e eu não vou voltar nesse assunto hoje. Eu quero tomar banho e dormir. Boa noite, Rachel. — Se encaminhou até a escada no flanco do cômodo, subindo os degraus lentamente.
Rachel se manteve parada no mesmo lugar. As lágrimas escorriam com força, molhando o seu rosto. Parecia tão difícil conversar com Quinn. Podia imaginar que uma muralha as separava, mas não sabia que era tão gigante. A judia a amava. Tinha errado, mas poderia ser perdoada. Ela repetia essa frase incessantemente na sua cabeça, como se estivesse se convencendo disso.
Agora, além do coração, seu rosto doía. Estava literalmente machucada.
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