Almas Afins
23 Capítulo 23 - Ligações...
Notas iniciais
Quinn entrou na delegacia perto do meio-dia e franziu o cenho ao ver o silêncio predominando todo o ambiente. Alguns policiais conversavam entre si, absortos enquanto tomavam café. Outros, no entanto, migraram os seus olhos na direção dela, que ficou ainda mais confusa.
— Eu acho melhor você ir até a sala do Warren. — Um deles aconselhou, e ela assentiu, ainda sem saber o que havia acontecido, caminhando até o local indicado.
Não foi preciso se aproximar demais para ouvir vozes alteradas ecoarem dali, e ela entrou após bater na porta.
Santana estava sentada em uma cadeira. Um saco de gelo sendo pressionado contra o seu supercílio. Elaine estava no mesmo estado, porém era o seu nariz que sangrava. David mantinha a mão sub cuidados, e Joshua limpava o sangue do canto da boca.
— O que houve aqui? — Quinn ficou alarmada e fitou Warren.
— Estos idiotas no saben de lo que están hablando! Eso es lo que sucedió! — Foi Santana quem respondeu, visivelmente alterada.
— Será que você pode falar inglês? Não estamos no seu país sem graça. — Elaine foi venenosa.
A latina se ergueu da cadeira com a mandíbula trincada, mas Quinn a fez se sentar rapidamente, evitando que outra briga se desencadeasse.
— O que aconteceu é que existe uma troca de ofensas e acusações aqui. — Warren se levantou.
— Eu não ofendi ninguém. Eu tenho certeza de que vocês estão envolvidos com a morte do Robert. — Elaine apontou o dedo para os três amigos.
Quinn sentiu o corpo tensionar e seu instinto defensor gritar, fazendo-a andar até a mais alta.
— O que você disse?
— A ligação. Não havia ninguém invadindo o meu apartamento, mas eu recebi a ligação justamente quando Robert estava vindo. Então ele conversa com vocês e morre horas depois. O que houve? O que vocês fizeram? — Elaine não se intimidou, mantendo a postura séria, embora o nariz inchado evidenciasse que estava sentindo dor. — E pelo que pude ouvir em algumas conversas com os policiais daqui, vocês três sabiam antes de todos que Zach Collins estava morto do outro lado de Ohio enquanto os demais iam para aquele endereço falso. Como sabiam?
— Eles o mataram! É óbvio! — Joshua se pronunciou. — É tão óbvio que recebi essa agressão desse brutamontes quando constatei a verdade. Eu tenho certeza de que ele está envolvido.
— Você merecia mais do que um soco para calar essa boca! — David tentou se aproximar de Joshua, mas foi impedido por Warren.
— Já chega! — O capitão gritou, assustando todos ali dentro. — Vocês não vão brigar novamente e tampouco disparar acusações. — Fitou Elaine. — Quinn, Santana e David trabalham para mim há dois anos e nunca cometeram erros. Você está aqui como a detetive do departamento de Cincinnati, e não a conheço como gostaria. Não vou escolher um lado nessa história, mas confio nos meus profissionais. — Se virou, pondo os seus olhos sobre Joshua. — E você, Josh, eu achei que a sua implicância já houvesse terminado há muito tempo, mas estava enganado.
— Não é implicância. Será que você não vê como tudo se encaixa, pai? — O advogado tentou argumentar.
— Robert podia estar sendo vigiado desde que entrou na delegacia ontem e foi morto por ser uma testemunha. A nossa única testemunha válida. — Quinn disse, atraindo a atenção dos demais. — Não sabemos com quem estamos lidando e nem com quantas pessoas estamos lidando. Eu estudei muito para estar aqui, mas se você quiser se afundar nessa história, podemos ir para o tribunal. Todos nós temos álibis. Vários policiais viram Santana e eu nessa delegacia quando Robert foi morto, e David estava com os pais, então vá em frente e se concentre nas suas suposições. É claro que vamos achar o assassino perseguindo os nossos próprios colegas de trabalho. — Foi irônica no final. Estava com raiva. A sua expressão dura demonstrava isso. — A viatura que entramos no dia da morte de Zach Collins estava quase sem gasolina. Enquanto procurávamos um posto para abastecer, vimos um aglomerado de adolescentes bisbilhotando a janela da casa dele. Foi assim que encontramos o seu corpo antes de todos.
Quinn narrou toda a mentira que havia combinado com Santana e David de forma invejável. Sem hesitar ou se confundir.
Elaine cerrou os olhos.
— E você espera que nós acreditemos nisso?
— Eu não me importo se acreditam ou não. Eu só me importo em achar esse assassino e fazer o meu trabalho, coisa que você não está fazendo. — A loira foi ríspida.
Elaine praticamente rosnou com a resposta recebida e encurtou a distância que as separava, sentindo a respiração de Quinn, que a fitava com os olhos verdes frios semelhantes à época em que era capitã das Cheerios. As esferas brilhavam em uma ira tão intensa que Elaine se sentiu, por um momento, receosa em continuar aquele embate. Por fim, ela se afastou.
— Certo. Vamos achar esse psicopata. — A resignação saiu com um tom fleumático extremamente falso, como se Elaine estivesse fazendo força para dizer aquilo, embora o seu olhar demonstrasse que o assunto não estava finalizado.
— Estamos em um acordo mútuo aqui? — Warren indagou. A voz firme.
— Vocês podem estar, mas eu não. Não sou um subordinado, então não preciso aceitar essas merdas. — Joshua passou as mãos pelo blazer amarrotado.
— Joshua! — O capitão bronqueou.
— Eu vou provar que esse trio perfeito não é tão perfeito assim. — Com essa última resposta, o advogado deixou a sala. A bengala na mão esquerda enquanto mancava levemente.
Warren suspirou e se apoiou na mesa grande de madeira escura, retirando os óculos e massageando as têmporas.
— Não briguem mais. Se isso acontecer, serei obrigado a tomar providências. — Ele alertou.
— E se brigarmos fora da delegacia? — Santana inquiriu, mas saiu do cômodo ao receber um olhar raivoso de Warren, sendo seguida pelas duas outras detetives e por David.
— Vocês se acham realmente espertos, não é? — Elaine perguntou quando chegaram no corredor.
— Nós só falamos a verdade, e você precisa colocar esse nariz no lugar pela segunda vez quanto espera pela terceira, porque ela vai chegar. — A latina respondeu.
Elaine deu dois passos para frente, segurando a tensão que as cercava.
— Eu estarei preparada da próxima vez, então pode ter certeza de que vocês três vão cair. — Ela ameaçou.
— Eu sou ótima com os meus movimentos, principalmente quando envolve destruir uma pessoa caluniadora. — Quinn devolveu a promessa, passando por ela e entrando na sua sala com Santana e David. — Eu não acredito que vocês brigaram com eles. — Se sentou na sua cadeira, apoiando os braços na mesa quando a porta foi fechada.
— Nós chegamos aqui e recebemos acusações infundadas. Quando dei por mim, Karofsky já estava com o punho no rosto do Joshua, e eu aproveitei para quebrar o nariz da Elaine de novo. — Santana explicou.
— Eu agi por impulso, mas ele mereceu. — David disse.
— Isso só serviu para fazer com que eles tenham mais raiva de nós e, consequentemente, procurem mais formas de causar a nossa demissão. Ou algo pior. — Quinn afundou a cabeça nas mãos.
— Mas não fizemos nada, Q. Nada do que eles tentem procurar pode provar o contrário. — A latina retrucou.
— Mas sabemos coisas demais. Coisas que, além da Britt e da Rachel, ninguém acreditaria.
— Falando na Hobbit, por que você contou para ela sobre o corvo? Achei que era um segredo nosso. — Santana cruzou os braços.
— Você contou para a Britt.
— Ela é a minha esposa.
— E a Rachel precisava saber, porque é algo que a afeta indiretamente. Ela pode ser a próxima e necessita ter consciência da nossa situação atual.
— E se ela abrir aquela boca grande?
— Ela não faria isso.
— Ela já fez algo que achávamos que não faria. Por que não fazer de novo?
— Santana! — David ralhou. — A Rachel pode ter cometido um erro, mas não faria isso. Ela sabe que estamos lidando com assassinatos. Somos como aquele organograma ali. — Apontou para o painel, que agora abrigava o nome de Robert Miller, a foto do seu corpo e uma interrogação sobre o seu assassino. — Rachel está ligada à Quinn, que está ligada a você, que está ligada à Brittany, que está ligada a mim, que estou ligado ao Thomas, que está ligado à Audrey, que está ligada à Blanca. Pode inverter a ordem quantas vezes quiser, mas somos todos uma ligação, porque somos uma família.
— Somos uma família, mas a Hobbit não faz mais parte dessa família. — Santana continuou impassível.
— Certo, mas Audrey está se apegando à Rachel, então se algo acontecer com ela, vai afetá-la.
A latina passou alguns segundos em silêncio, revirando os olhos quando não achou um argumento.
— Sabe qual é o seu problema? Você é muito sensível e me faz ficar sensível também. Maldita Hobbit e a sua volta para Ohio!
— Há algumas coisas que vocês precisam saber. — Quinn retirou o rosto das mãos.
— Mais coisas? Eu ainda estou tentando processar todas as informações sobre Robert que recebi de Santana horas atrás.
— Há outro corvo. — A loira foi direta.
— O quê? — Santana arregalou os olhos. — Outro Diablo?
Quinn assentiu e contou tudo o que houve, desde a aparição da segunda ave até a ida de Rachel ao apartamento de Robert. Ao terminar, esperou os amigos processarem toda a recente história.
— Isso está se tornando uma enorme bola de neve, vocês não acham? Cada vez mais essas peças do quebra-cabeça parecem distantes e impossíveis de serem encontradas. — Santana disse, suspirando.
— Schatten aparece para a Quinn, mas o outro corvo só apareceu para a Rachel até agora. — David pensou alto.
— O que você está sugerindo? Que as duas têm dois animais de estimação de cores distintas? — A latina foi jocosa.
— Talvez. É uma possibilidade. De qualquer forma, eles estão ajudando muito até agora. Se não fosse por ele, a polícia estaria com o vídeo nesse exato momento. — Ele respondeu.
— Isso mostra o quanto nós devemos ter cuidado. Estamos na mira da Elaine e do Joshua. — Quinn disse e os amigos concordaram.
— E o que fazemos agora? — David perguntou.
— Agora? — Quinn se virou, encarando o organograma.
— Nada. — Santana ficou de pé. — Robert não tem parentes aqui, e nós não temos nenhuma prova. O porteiro do prédio não viu ninguém diferente entrando no lugar, e todos os moradores não conheciam Robert o suficiente para dizer algo concreto. Estamos parados, esperando que o assassino aja novamente na tentativa de deixar escapar alguma pista para os policiais que estão rondando a cidade incessantemente possam ver algo e nos comunicar.
— Ou então que um dos corvos nos ajude. — Quinn completou.
— Eu nunca me senti tão inútil em toda a minha vida. Nem mesmo quando passamos aqueles cinco meses resolvendo crimes pequenos e com fáceis soluções.
Quinn aquiesceu, concordando com Santana, e sentiu o seu celular vibrar no bolso da jaqueta, ao mesmo tempo em que o da amiga fazia o mesmo.
Era um e-mail. Ela o abriu, lendo todo o conteúdo.
— Isso é sério? — Santana guardou o objeto após finalizar a leitura.
— O que dizia? — David estava curioso.
— Um convite do senhor Schuester. Ele marcou uma reunião no McKinley com todo o Clube Glee. Algo sobre reviver lembranças.
— E vocês vão?
— Talvez. Você vai?
— Eu não fazia parte do Clube Glee.
— Como não? Lembra quando a treinadora Beiste fez todo o time de futebol entrar no Glee? Foi por pouco tempo, mas você fez parte, mesmo sendo um idiota e gay enrustido na época, então você vai conosco e irá ouvir todas as músicas dos anos oitenta que o senhor Schuester achou para cantarmos. — Santana apoiou a mão no ombro do amigo.
— Eu acho que não quero ir. — Quinn fez uma careta. — Essa situação atual não é agradável, e eu não acho que vou estar animada. Não quero estragar todo aquele clima do senhor Schuester.
— Então você vai deixar a Rachel ir sozinha? Finn vai estar lá, sabia disso? — David inquiriu.
— O que quer dizer com isso? — A loira comprimiu os lábios.
— Quero dizer que ele não reagiu bem quando vocês começaram a namorar e não parou de tentar reatar o namoro deles enquanto ela estava com você. O ensino médio acabou, e ele se afastou, mas será que não vai tentar novamente quando olhar para ela?
— Eu não me importo. — Quinn negou com a cabeça. — Rachel sabe o que quer e ela pode fazer o que bem entender.
— Até mesmo cair nas investidas do Finn?
— Por Deus! Pare de colocar essas dúvidas na cabeça dela. A Q não ama mais a Hobbit, então se ela quiser trocar saliva com ele, o problema é dela. — Santana censurou o amigo.
— Você está tentando se convencer de que a Q não ama mais a Rachel por medo dela errar novamente, mas sabe que ainda há amor entre elas. Todo mundo sabe. — David respondeu.
— Em que contos de fadas você vive? Prefere ver a Q sofrer novamente por ela do que vê-la feliz? — A latina se irritou.
— E se a felicidade dela for com a Rachel? Eu não pude ter o meu final feliz, porque Jason realmente não era uma boa pessoa e porque ele foi morto, mas a Rachel está viva e se arrependeu. Tudo pode mudar se elas quiserem.
Os dois começaram a discutir, e Quinn não interferiu. As perguntas de David começaram a rondar a sua cabeça. Será que Finn tentaria algo com Rachel? Será que ela cederia? E de qualquer forma, por que se importava quando sabia que não deveria? Já estava repleta de dúvidas sobre os últimos acontecimentos. Não precisava de mais.
Quando os amigos começaram a erguer o tom de voz, ela se pôs de pé.
— Parem de discutir! — Ela demandou. A sua voz soando mais alta do que a deles, que se calaram gradativamente. — Nós vamos, mas porque eu não quero deixar o senhor Schuester chateado.
David sorriu vitorioso, recebendo um olhar fulminante de Santana.
— Agora... — A loira continuou. — Eu vou na casa da Shelby.
— Espera, o quê? Agora? — A latina indagou.
— Sim, agora. Eu preciso resolver a minha situação com Beth. Não posso deixá-la de lado novamente. Ela é a minha filha.
— Vamos com você. Podemos ajudar. — David ofereceu.
— Não, porque eu não quero que Santana acabe socando Noah e nem que aconteça turbulências. Shelby tem a guarda da Beth. Não pode ficar irritada. — Quinn saiu da sala sem esperar uma resposta.
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