Almas Afins

2 Capítulo 2 - ''Eu vou ficar...''


Notas iniciais
Capítulo bônus. Sexta-feira ainda é o dia de atualização, mas eu decidi postar outro hoje porque a história ainda está no começo e já tenho alguns capítulos prontos. Então espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

Rachel não conseguia mover um músculo sequer e tinha medo de desmoronar caso o fizesse.

Seus olhos estavam fixos nos verdes de Quinn. Os verdes que sempre eram direcionados na sua direção com um brilho de amor e proteção agora possuíam o contrário. Cintilavam a mais pura ojeriza, acompanhada da decepção. Isso fez a dor aumentar de uma forma imponderável.

A judia não sabia o que dizer. Viera preparada e com um discurso na ponta da língua, mas agora estava desarmada. A garganta selada e o corpo imóvel.

Quando finalmente abriu a boca, percebeu o quanto ela estava seca, mas isso não a impediu de respirar fundo e tentar falar alguma coisa.

— Essa... essa é a Audrey, não é? — Ela se virou para encarar os porta-retratos.

Havia inúmeras fotografias expondo a garotinha, mas Rachel fitou a maior, onde a filha esbanjava um enorme sorriso feliz enquanto abraçava um filhote de West Terrier. Os olhos fechados impediram a morena de ver as íris, que ela sabia serem idênticas às de Quinn.

Seu peito ardeu em desgosto e arrependimento. Como pudera ser tão estúpida a ponto de escolher Nova York à sua filha? O bebê que saiu de si há três anos agora era uma garotinha linda. O fruto do seu amor com Quinn. Tinha abandonado as duas pessoas que mais amou.

Idiota! Covarde! Egoísta!

Sua consciência praticamente gritava, fazendo-a encarar a crua realidade de que foi fria o suficiente a ponto de partir sem olhar para trás, enquanto seu coração apenas fazia o que era destinado a fazer. Ele doía. Martelava de dor. E era agonizante e dilacerante.

A pergunta não foi feita porque estava em dúvida sobre quem era a sua filha. Rachel sabia exatamente quem ela era apenas em passar os olhos rapidamente pelas fotos, mas foi a primeira coisa que veio na sua cabeça e desejava ouvir a voz de Quinn outra vez. No entanto, a loira não respondeu a sua indagação. Ainda estava surpresa, custando acreditar que havia voltado. Não podia ser. Não depois de dois anos. A detetive não queria aquilo. Estava indo tão bem para deixar a sua mágoa voltar agora.

— Como você entrou aqui?

A voz rouca e macia adentrou os ouvidos de Rachel com força, fazendo-a perder os sentidos momentaneamente. Como sentiu falta daquela voz! E como a amava! Ao mesmo tempo em que era delicada, possuía um tom imponente. Um tom que a fez se desmanchar em orgasmos tantas vezes naquela casa, acompanhada sempre de uma jura de amor.

As mãos trêmulas passaram sobre o rosto, tentando se livrar dos pensamentos. Não era hora para aquilo. As reminiscências atingiam-na incessantemente, mas deveria manter o foco naquela situação.

— Como você entrou aqui, Rachel? — Quinn perguntou novamente. O tom de voz mais alto e inquieto.

— Eu... eu ainda tenho a chave. — Rachel respondeu com a voz vacilante.

Quinn praguejou baixinho. Não tinha pensado em trocar a fechadura, porque achava que Rachel jamais voltaria e que não carregava mais a chave. Se enganou completamente.

Ela não disse mais nada, e Rachel fez outro questionamento. Aquilo que martelava a sua cabeça há muito tempo.

— Quinn... — Chamou cautelosa, recebendo apenas um arquear de sobrancelha. — A Audrey sabe que tem outra mãe?

— Ela sabe. — Quinn respondeu de imediato. O tom carregado de desprezo. — E também sabe que a sua outra mãe morreu em um incêndio, e todas as fotografias em que ela estava foram carbonizadas.

O peso da resposta foi capaz de fazer os pedaços do coração de Rachel voltarem para o lugar apenas para serem fraturados outra vez. Ela podia jurar ter sentido-o pular dentro do peito.

Sua filha não tinha o menor conhecimento de que a outra mãe estava viva. A judia esperava que Quinn, ou até mesmo seus pais pudessem falar para Audrey quem era ela e quem sabe mostrar algumas fotos. Isso não aconteceu, e Rachel sabia que merecia.

Se sentia vazia. Muito mais vazia do que se sentiu nos dois anos em que passou nos palcos da Broadway ou naquela série fracassada. A lacuna que permanecia dentro dela também doía sem parar. Ela tinha buscado fama, porém quando a encontrou, o sentimento de vazio veio potencializado e intenso. Talvez fosse o castigo de abandonar a sua família, e realmente era. Todo mundo colhe o que planta, e a judia acreditava plenamente nisso. Sua felicidade jamais viria sem Quinn e Audrey. Egoísmo e ambição apenas servem para levar alguém para o fundo do poço.

E ela aprendeu isso da pior forma.

Como o arrependimento poderia machucar tanto? A morena sentia o gosto amargo em sua boca e possuía a plena consciência de que a sua ferida era como um inseto ao lado de uma manada de rinocerontes se comparada com a de Quinn. Rachel não conseguia medir o tamanho do martírio interno que assolou o coração da detetive quando ela a viu de malas prontas e uma passagem só de ida para Nova York. Quinn havia chorado e implorado para que não fosse, mas a judia apenas se foi e desabou em um pranto sôfrego assim que se acomodou no trem que deveria levá-la para os seus sonhos.

Triste engano. Seus sonhos estavam justamente onde sua família estava, e Rachel só foi se dar conta disso quando era tarde demais.

— Quinn, eu sei que fui um monstro. — Rachel começou. Os olhos marejando gradativamente. — Eu sei que o que eu fiz não tem perdão, mas eu também sou a mãe dela e eu estou de volta. Eu não vou embora novamente, e ela precisa saber sobre mim. Ela tem o direito. Eu tenho o direito.

— Direito de quê?! — Quinn esbravejou. — Você perdeu qualquer direito de mãe quando saiu por aquela porta, Rachel! — Apontou para a saída. — E o pior disso tudo é que eu fui idiota em não ter percebido antes. — Diminuiu o tom de voz, sentindo os olhos arderem em lágrimas. — Eu sabia que você não estava totalmente feliz quando fez a inseminação. Aliás, você nunca esteve totalmente feliz desde a carta de NYADA reprovando-a, mesmo tendo se passado dois anos após a formatura do ensino médio. Eu realmente deveria ter desconfiado quando você não quis ir tentar a sorte em Nova York comigo quando eu sugeri antes de ingressar na faculdade de direito. Eu estava disposta a adiar o meu curso para ajudar você e deveria ter insistido quando recebi respostas negativas quanto a isso. — Tomou uma longa respiração. — Mas eu achei, Rachel, que você fosse ser feliz comigo. Que eu poderia fazê-la feliz e fazê-la esquecer da rejeição de NYADA. E eu realmente achei que o mesmo amor que me preencheu quando eu vi a Audrey pela primeira vez também preenchesse você. Eu nunca senti um amor igual. É como se toda a sua vida fizesse sentido quando você observa aquele pequeno ser humano acabando de nascer. E saber que ele é seu. Que você é quem vai cuidar e dar amor. Eu fui estúpida em ter dado Beth à Shelby, mas Audrey é minha, e eu ainda sinto a mesma felicidade todos os dias ao cuidar e amar a minha filha. Você é idiota demais ou cínica demais em achar que tem algum direito sobre ela depois de tudo o que fez. — Finalizou, deixando o choro sair.

Rachel não soube o que responder e também explodiu em um pranto copioso. Sentia como se o seu coração estivesse preso em uma corda e fosse puxado a cada palavra dita por Quinn, fazendo-o parar de bater por alguns segundos e contaminando cada parte do seu corpo com aquela dor. Machucava de uma forma que ela não sabia descrever. Machucava porque conseguia sentir o asco de Quinn enquanto falava. E machucava porque ela havia sentido o mesmo amor, mas trocou tudo isso pelo desejo de se tornar uma estrela da Broadway.

Seus pés se moveram de forma automática até Quinn, tentando abraçá-la, mas ela a repeliu como se estivesse queimando.

— Saia daqui. — A loira pediu, tentando controlar as lágrimas. — Saia da minha casa. Saia. — Passou a manga da jaqueta pelos olhos.

— Eu não vou sair. — Rachel balançou a cabeça em negação, soluçando. — Eu vim para ficar. Eu não vou embora outra vez. — Respirou fundo.

— Você só veio porque a sua série fracassou. Não engane a si mesma, Rachel. Você não ama ninguém.

— Eu amo! — A judia elevou o tom de voz. — Eu sei que vai demorar e que talvez nunca aconteça, mas eu vou tentar fazer você acreditar em mim novamente. Eu amo a Audrey e amo você. Eu nunca deixei de amar. Eu fui egoísta, idiota, ambiciosa e um monstro, mas eu ainda tenho um coração. E ele bate por vocês. — Engoliu a nova onda de choro. — Eu passei esses dois anos morando em um apartamento pequeno com Kurt, que foi tentar encontrar o seu caminho em Nova York e depois acabou sendo aceito em NYADA. Ele me lembrava todos os dias que vocês estavam aqui e nunca apoiou a minha decisão. Eu chorava antes de dormir observando a foto que tiramos no dia do nascimento da Audrey. E eu consegui, Quinn. Consegui ser a Fanny Brice na Broadway. Consegui ser matéria principal no The New York Times, mas eu nunca consegui ser feliz. — Gesticulava de forma exasperada. — Eu jamais consegui sentir o meu coração cheio de amor como senti apenas por vir morar aqui depois de nos casarmos no jardim da casa dos seus pais há cinco anos. As simples coisas que vivemos me fizeram a mulher mais feliz do mundo. Quando eu estava lá, conseguindo realizar o que eu sempre quis, eu não senti um pingo de felicidade. — Soluçou. — Não senti porque ao olhar para a plateia, eu não via você, nem a Aud, nem os meus pais e nem os nossos amigos. E depois veio a série. Ela ter fracassado foi apenas mais um castigo pelo meu ato desumano de ter abandonado vocês. — Se aproximou hesitante. — Eu não conheci ou me envolvi com alguém durante todo esse tempo, porque eu sempre vou amá-la incondicionalmente, e mesmo que não acredite nisso, eu nunca vou desistir de fazê-la acreditar em mim. — Uma das suas mãos buscou a de Quinn, e a outra delicadamente puxou para fora da sua camiseta um cordão de ouro com duas alianças. — Eu sempre guardei as nossas alianças aqui. Quando você jogou a sua no chão naquele maldito dia, eu a peguei e permaneci guardando-a para que um dia você pudesse usar novamente. Na minha cabeça, eu iria realizar tudo, me sentir feliz e iria voltar. Iríamos brigar, e você logo me perdoaria, mas agora eu vejo que isso jamais aconteceria. Foi uma imbecilidade pensar assim, e eu estou disposta a enfrentar tudo para conseguir o seu perdão.

Quinn a observou chorar depois disso. Ela mesma também estava em prantos. Sua cabeça estava confusa. Girava e a fazia se sentir atordoada. Estava no trabalho conversando com Santana sobre o planejamento do Dia de Ação de Graças que passaria com os amigos há algumas horas, e agora estava ali, no centro da sala de estar, olhando novamente para Rachel depois de dois anos.

Ela apenas fez o que tinha vontade de fazer. Separou ambas as mãos bruscamente. Não conseguiria nem se tentasse. A dor que sentia pelo abandono cruel que sofreu era algo que lutava diariamente para acalentar, e de repente a morena estava de volta para bagunçar tudo outra vez. E por quanto tempo Rachel ficaria? Ela não confiava na judia. Nunca confiaria novamente.

— Eu não acredito em você. — A sentença de Quinn foi o suficiente para agravar o choro da atriz. — Eu não acredito e nunca vou acreditar. Não se abandona quem ama, Rachel. Você poderia ter pedido o divórcio. Ainda doeria, mas não como um abandono. Você abandonou a sua filha. — Suspirou. — Eu não vou contar à Audrey que você é a mãe dela. Hoje você está aqui, mas e amanhã? Você é volúvel. Eu não vou deixar que ela sofra. Não por você. — Se afastou. — Agora vá embora.

Rachel sentiu cada palavra atingi-la como um soco. Parecia que vidros a cortavam lentamente. Ela não iria embora. Não mais. Porém, sabia que Quinn não acreditaria. Ela teria de ser firme. De ser a Rachel Berry do ensino médio. Aquela por quem a capitã das Cheerios havia se apaixonado. A líder do coral mandona e impetuosa. Aquela que jamais desistia do que queria.

— Não. — Rachel respondeu firme. — Eu sou a sua esposa. Temos uma filha, e eu não vou embora. Você pode exigir, gritar e até me bater, mas creio que essa última opção não será feita. Você jamais agiria com violência. Nos conhecemos desde a época da escola. Eu aguentei slushies e apelidos maldosos. Aguentei a sua negação quando nos beijamos pela primeira vez. Eu aguentei isso tudo para ter você e eu aguento coisas muito piores. Não importa o quão difícil e dolorosa seja essa caminhada. Eu errei e estou disposta a consertar tudo. Nem que eu morra tentando.

Quinn maneou a cabeça e deu alguns passos para trás.

— Eu vou ligar para os seus pais. — Ela retirou o celular do bolso da calça.

— Pode ligar. Eu deixei uma mensagem na secretaria eletrônica deles avisando que estava de volta e que iria morar no lugar de onde eu jamais deveria ter saído. — A judia cruzou os braços.

— Morar? — Quinn só conseguiu prestar atenção nessa palavra.

— É claro. Somos casadas. Eu não vou sair daqui, Quinn. Eu vou ter de volta o que eu nunca deveria ter perdido. — Rachel decretou.

Quinn trancou a mandíbula. A raiva eclodindo aos poucos. Aquela mulher não ficaria na sua casa, e ainda agia como se tivesse algum mínimo direito. Ela caminhou rapidamente até a mais baixa até estar a poucos centímetros dela. A respiração engatada pela cólera.

— Saia, Rachel. — A detetive ordenou lentamente.

— Não, eu não vou sair. — Rachel respondeu sem hesitar. — Se me quer fora daqui, então me tire à força. — Desafiou.

A loira atendeu aquilo e ignorou qualquer coisa, até mesmo o formigamento intenso que sentia nas mãos ao tocá-la, e a colocou sobre os seus ombros. Não foi difícil levá-la para fora enquanto arrastava a mala com a outra mão, deixando por último a tarefa de colocar a morena na varanda da sua casa, que ainda se debatia e tentava se soltar.

A porta foi fechada rapidamente, e Quinn se apoiou nela enquanto respirava com dificuldade. Estava tão fraca emocionalmente que mal conseguia manter os olhos abertos.

Quinn! — Rachel chamou, batendo na madeira com força. — Eu tenho a chave e posso entrar novamente. Eu só quero que entenda que eu não vou embora outra vez.

Quinn fungou e deixou o pranto escapar outra vez. Rachel não podia vê-la, então agora poderia deixar o seu sofrimento sair em forma de lágrimas. Tinha jurado a si mesma que nunca mais choraria pela morena, mas estava fazendo justamente isso. Ela a xingou inúmeras vezes enquanto se arrastava lentamente pela porta até sentar no chão frio.

Os chamados de Rachel continuavam, e Quinn tampou os ouvidos como uma criança temerosa pelos trovões em uma tempestade. Mas agora não havia trovões. Havia algo pior.

Havia Rachel Berry.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Rachel está realmente arrependida? Comentem e me deem os feedbacks. Exponham suas opiniões. É muito importante. Favoritem também. Tudo isso me alegra bastante. Bom começo de semana. =D twitter.com/yasagron