Almas Afins
19 Capítulo 19 - Outra mamãe...
Notas iniciais
Quinn parou o carro no estacionamento da escola Shawnee antes do sinal tocar. Santana estava logo atrás. Ambas se encararam quando saíram dos veículos. Compartilhavam da mesma sensação e da mesma perturbação desde a morte de Jason. Nenhuma delas disse algo sobre Robert depois de deixarem a delegacia. No momento, tudo o que precisavam era do abraço caloroso e amoroso das suas filhas.
A loira esperou ansiosamente a sua garotinha aparecer após o som do sinal ecoar, mas se surpreendeu quando a viu.
Audrey caminhava segurando o bastão e se apoiava somente nele. Os poucos degraus que ela desceu com extrema habilidade fizeram o coração de Quinn saltar tão forte que ela temeu senti-lo sair pela sua garganta. O temor em ver a filha cair a assolou, mas isso não aconteceu, e com a direção de Hayden, que a indicou onde a mãe estava, Audrey andou pacientemente até a detetive.
As lágrimas que caíam dos olhos verdes eram grossas e pesadas. A sua garotinha estava aprendendo a andar com confiança cada vez mais e se adaptando à sua deficiência com uma facilidade admirável. Quinn não hesitou em se agachar e embalar os seus braços ao redor do corpo pequeno e esguio, trazendo-a para o seu peito.
— Isso foi uma surpresa para mim? — A voz da mãe saiu rouca e trêmula.
Audrey assentiu e espalmou as mãos no rosto da mais velha.
— Você gostou, mamãe? Por que tá chorando?
— Eu estou chorando de felicidade, meu amor. É apenas isso. — Quinn explicou e limpou as lágrimas com as costas da mão. — Você é o meu maior orgulho, e eu a amo mais do que tudo nesse mundo. Sabe disso, não sabe? — A beijou na testa.
A pequenina aquiesceu novamente e apoiou a cabeça no ombro da mãe.
Quinn se ergueu, fitando Santana, que observava a cena com algumas lágrimas presas nos olhos. Thomas estava ao lado de Blanca. No entanto, a latina adotou um olhar inquisidor quando viu Rachel passar pela porta da escola.
A loira verbalizou uma resposta apenas com o mexer dos lábios, e Santana apenas balançou a cabeça em concordância, sabendo que conversariam depois. Ela cumprimentou Hayden depois disso e passou a prender Blanca e Thomas nas cadeirinhas.
O veículo da latina se foi em segundos, e Quinn fixou os seus olhos nas duas mulheres à sua frente.
— Eu espero que tenha gostado da surpresa de Audrey. — Hayden disse enquanto sorria.
— Meu Deus, Hayden, eu amei! Você está fazendo um ótimo trabalho com as crianças. — Quinn retribuiu o sorriso.
— Eu amo o que eu faço e amo essas crianças. — A professora foi gentil e estendeu a mochila e a lancheira da garotinha para Quinn, porém Rachel foi mais rápida em segurá-las.
— Pode deixar comigo. Eu posso guardar tudo.
— Certo. — Hayden forçou um sorriso para a judia. — Então... Quinn, eu posso falar com você? A sós? — Complementou a pergunta ao notar a atenção da morena sobre si.
— Sim, é claro. — A loira mirou os seus olhos na filha. — Você pode ficar com a Rachel um segundo, meu bem?
— Você vai demorar, mamãe?
— Claro que não, meu amor. Vai ser rápido. Eu prometo.
— Mas... — A garotinha tentou contestar. A expressão triste por ter de ficar longe da mãe novamente.
— Você não quer me contar o que fez hoje? — Rachel se pronunciou, afagando os cabelos da pequenina. — Podemos conversar sobre o que você quiser.
Audrey assentiu, de repente ficando entusiasmada em narrar à Rachel sobre o seu dia.
Quinn as deixou sozinhas após entregar a garotinha para a esposa e caminhou com Hayden até a porta da escola.
— Algo aconteceu? Você e Rachel e brigaram outra vez? — A detetive estava curiosa e preocupada.
— Não. Não é isso. — Hayden a tranquilizou. — É que o aniversário da Audrey está chegando, e eu queria saber se posso ajudar com a festa.
— É claro que pode. Você sempre ajudou. Por que está perguntando isso agora?
— Não é nada. Rachel e eu estávamos conversando e entramos no assunto. Ela mencionou que você a deu permissão para preparar tudo.
Quinn abriu a boca, sem saber ao certo o que dizer. Não havia comentado nada com Rachel e tampouco dado permissão para isso. Na verdade, estava tão enérgica sobre os últimos acontecimentos que nem havia pensado sobre o fato do aniversário de Audrey estar chegando. Precisava começar a preparar tudo o quanto antes.
— Você pode ajudar também. É sempre um prazer contar com a sua ajuda. Você quer?
— Eu não negaria isso por nada no mundo. Eu faço qualquer coisa para estar sempre na companhia da Audrey... e da sua. — Hayden sorriu.
Quinn sentiu o rosto corar com a sentença, mas não evitou sorrir também.
— Obrigada, Hayden. Eu tenho certeza de que Audrey vai ficar muito feliz.
— E você? Também vai ficar?
Quinn demorou alguns segundos para responder, mas quando o fez, causou na professora uma onda forte de esperança.
— Sim, eu também vou ficar feliz.
Ambas se despediram, e Hayden beijou a bochecha de Quinn, sentindo o olhar de Rachel queimar sobre elas.
A detetive continuou sorrindo. Sentia o rosto esquentar pelo rubor. Sabia as intenções da mais baixa e não mentiu sobre o fato de ficar feliz com a sua presença. Adorava como ela conseguia distrair a sua cabeça dos problemas. No entanto, não sentia a reciprocidade dos sentimentos que recebia, porque o seu maldito coração ainda batia forte perto de Rachel.
Contudo, isso podia mudar.
Quando Quinn voltou para o carro, Rachel não a dirigiu a palavra durante todo o caminho e permaneceu no banco de trás, ouvindo Audrey falar sobre as suas atividades em sala de aula. Estava com ciúme, encolerizada e chegando ao seu limite, quase cogitando marcar um lugar para se encontrar com Hayden e enfrentá-la de uma vez por todas por mostrar as suas intenções tão descaradamente. No entanto, havia uma parte da sua mente que também gritava frases que não queria ouvir, como a realidade de que Quinn não se importava em ser a sua esposa no papel ou como Quinn permitia os afetos de Hayden. Essa era a parte racional. A parte que tinha razão. Mas essa parte parecia não saber, entretanto, que a culpa era inteiramente sua pelo que estava acontecendo. Se tivesse de mudar tudo isso, precisava ignorar o fato de Quinn querer o divórcio. Deveria focar nas sensações que ela ainda sentia, porque eram a fenda que emanava feixes de luz, indicando-a que aquele era o caminho para ter a sua família de volta.
O veículo parou na garagem quase trinta minutos depois, e Rachel deixou que Quinn levasse Audrey para dentro. A garotinha narrava o seu dia para a mãe de forma eufórica.
Ela se encarregou de deixar a mochila e a lancheira da pequenina no quarto dela antes de tomar banho no banheiro social e vestir uma roupa mais confortável, pronta para preparar o jantar. Estava confiante dessa vez. Havia visto inúmeros programas de culinária e pesquisado receitas na internet.
No quarto da detetive, Audrey se mantinha em silêncio enquanto sentia a mãe secá-la. Tinham tomado banho, e agora o cansaço começava a se fazer presente.
— O que acha de irmos na casa da vovó Judy e do vovô Russel esse final de semana? — Quinn inquiriu, vestindo a filha com trajes confortáveis.
— A Reichel também pode ir? — Audrey devolveu a pergunta, erguendo os braços para que a loira a vestisse com a camiseta.
— Eu acho que não, meu amor. Ela tem alguns compromissos.
— Mas eu quero que ela vai com a gente, mamãe. Ela é legal.
— Ela não pode viver conosco o tempo todo, Aud. Rachel só está aqui até encontrar uma casa. — Quinn começou a pentear os cabelos escuros após se vestir com um short e uma camiseta larga de algodão.
— Não, mamãe. Não deixa ela ir. — A garotinha pediu. — A Reichel é legal. Ela prometeu que vai me ensinar a tocar aquela coisa que meus vovôs tocam.
— Ela disse que ensinaria você a tocar piano? — A detetive se surpreendeu.
— Ah-hã. — Audrey assentiu. — Ela pode ser a minha outra mamãe?
A pergunta pesou sobre Quinn mais do que a situação que vivia ultimamente no trabalho. Ela não pensou em Robert, Jason, Schatten ou o assassino em série.Ela encarou a filha por tempo demais enquanto absorvia a sua indagação. Audrey queria que Rachel fosse a sua outra mamãe. Audrey queria que a sua mãe fosse a sua outra mamãe. Quinn sabia que não seria difícil ganhar a garotinha, ainda mais se tratando de Rachel. Elas eram parecidas em aspectos especiais e partilhavam de assuntos em comum. Quinn só não sabia que Audrey já desejaria algo desse tamanho em tão pouco tempo, contradizendo o que respondeu na conversa que tivera com Judy ao alegar veemente que não queria outra mãe. Agora ela queria. E queria que fosse justamente Rachel. Toda essa realização fez a sua cabeça ir até Hayden repentinamente, que esteve mais presente do que a judia. Ainda assim, a filha nunca pediu isso.
— Mamãe? — Audrey tornou a chamar.
— Mas... — A loira tentou focar na filha, o que era difícil, porque a sua mente não parava de girar e o seu interior se revirar. — Lembra do que você respondeu para a vovó Judy? Que não gostaria de ter outra mamãe?
— Mas a B disse que é legal ter duas mamães, então eu quero ter duas também. — Audrey estava convencida. — Eu posso chamar a Reichel de mama? A B chama a tia Sant de mama.
Pela primeira vez, Quinn não sabia o que responder diante da garotinha, e batidas na porta chamaram a sua atenção. Ela fitou Rachel entrando no quarto de forma tímida.
— O jantar está pronto.
— Reichel. — Audrey chamou.
— Oi, meu amor. — A judia se aproximou da filha.
— Eu posso chamar você de mama? — Audrey soltou a pergunta inocentemente.
O mundo pareceu cair sobre as costas de Rachel Berry, e ela se sentou rapidamente na cama de casal, porque as suas pernas se tornaram fracas demais para suportar o seu corpo.
— O que... o que você disse? — A atriz achou não ter ouvido direito.
— Eu posso chamar você de mama? — Audrey repetiu o questionamento. — Vai ser legal ter duas mamães. — Sorriu.
Mil vezes sim! Rachel queria gritar que queria ser a sua outra mamãe e então pegá-la nos braços enquanto a apertava na tentativa de fazê-la sentir todo o seu amor, mesmo sabendo que aquele sentimento tão puro e intenso nunca poderia ser mensurado.
Mas ela apenas se contentou em deixar o seu choro sair, porque estava emocionada e feliz por sua filha desejá-la como mãe.
— Reichel? — Audrey estava confusa. Ninguém estava respondendo-a.
Quinn então voltou a realidade e a puxou para o seu colo.
— A Rachel está emocionada com o seu pedido, meu amor. — Ela encostou a testa no topo da cabeça da filha.
— Mas ela quer ser minha mama?
— Ela...
— Eu quero. — A voz da judia saiu firme, ainda que estivesse em prantos. — Eu quero muito, Aud.
A garotinha comemorou diante disso e esticou os braços na direção de Rachel, que a pegou sem hesitar.
Audrey a beijou na bochecha.
— Mama Reichel! — Ela sorriu animada e pôs as mãos pequenas e delicadas na face da judia, que fechou os olhos com o contato. — Posso contar um segredo?
— Claro que pode. — Rachel tentava cessar as lágrimas.
— Eu não quero dividir a mamãe. — A pequenina sussurrou.
Rachel soltou uma risada abafada pelo choro e concordou.
— Você não vai dividir a sua mamãe. Eu prometo. — Abriu um sorriso. Um sorriso com tanto amor que Quinn não controlou as suas próprias lágrimas, que caíram sobre as suas coxas descobertas.
O jantar foi feito em silêncio por parte da detetive, que respondia as perguntas da filha quando ela iniciava algum diálogo. Rachel, em um aspecto oposto, sorria a cada segundo. O sorriso largo que parecia carregar uma força imponderável. Estava feliz. Feliz como não se sentia desde o nascimento de Audrey.
A garotinha foi colocada na cama quase uma hora depois de terminar o jantar, quando dormiu no sofá com a cabeça no colo de Quinn e as pernas sobre Rachel. Novamente, a loira se via em um momento em família. O momento que deveria ser corriqueiro e não novo na sua vida.
Ela fez todo o ritual de cobri-la, desejar boa noite e beijá-la na testa antes de se virar e encarar Rachel se aproximar. A judia repetiu todo o processo, e ambas saíram juntas do quarto.
— Você não deveria ter concordado. — Quinn disse.
Estavam na cozinha, e a mais alta guardava as louças usadas no jantar.
— Eu não podia recusar, Quinn. E eu nem queria recusar. — Rachel a fitou. — Eu a amo. Você sabe que eu a amo.
— Eu sei, Rachel, mas eu ainda estava cogitando em contar sobre você, e agora acontece isso.
— Isso foi algo positivo, Quinn. Ela já me aceita sem saber quem eu sou. Eu tenho esse direito. Ela é tudo o que eu tenho. Tudo o que não consegui destruir completamente. Audrey é o motivo pelo qual eu não me entreguei ao sofrimento ainda, que anda lado a lado com o fio de esperança que eu tenho de fazer você ser minha novamente.
— Isso não vai acontecer, Rachel. Eu já disse. Nós podemos tentar uma amizade e...
— Eu sei o jeito que você ainda me olha, Quinn. Eu sei porque eu olho para você do mesmo modo. Talvez demore muito, mas eu vou estar aqui. É onde eu devo e quero estar. É onde Audrey quer que eu esteja.
— Então agora você vai usar Audrey para ficar? — Quinn começou a se irritar.
— Talvez. — Rachel foi sincera. — Se essa for a forma de ficar perto, garantindo o meu direito de mãe, eu vou permanecer, porque Audrey não vai gostar se eu for embora, e eu morreria por dentro se ficasse sem ela e sem você. — A judia chegou perto da esposa, tomando as mãos dela nas suas.
Quinn suspirou e encarou a atriz. Sua cabeça voltando para os assassinatos recentes e acima de tudo, o motivo deles. Se a motivação fosse derivada do abandono familiar, Rachel estaria nessa lista, e tê-la morando em outra casa seria muito arriscado, porque não poderia garantir que ela ficaria bem.
A judia precisava ficar em segurança. Quinn precisava que ela ficasse em segurança.
Por fim, ela assentiu, e Rachel sorriu com isso, abraçando-a com força. Seu dia não poderia ficar melhor. Era isso o que achava até sentir os braços da loira ao redor da sua cintura, retribuindo o afeto.
O abraço era apertado, profundo e carregado de sentimentos enormes. Rachel queria ficar ali para sempre, sentindo o calor conhecido que a aconchegou por tantos anos e sentindo o perfume suave e delicado, exatamente como a pele macia da pessoa que amava incondicionalmente.
Quinn fechou os olhos, se permitindo permanecer naquele afeto. Não estava agindo de forma impensada como o beijo trocado no banheiro. Era consciente. Havia desejado sentir o abraço de Rachel durante os dois anos em que em que ela esteve fora. É horrível fazer o seu interior se acostumar com mudanças bruscas. Em um dia, sentia o carinho da esposa, e no outro, não. Foram incontáveis meses sem aquilo. Quinn odiava se sentir bem com o abraço e igualmente magoada com ele.
O som da campainha finalizou o momento compartilhado entre elas, e a loira se afastou lentamente sem dizer uma palavra, fazendo o seu percurso até a porta.
Seu rosto adotou uma expressão confusa ao abrir a porta e ver uma garotinha loira aparentemente sozinha parada com os braços cruzados.
Quinn não entendeu o que ela poderia estar fazendo ali e a encarou minuciosamente. A postura que emanava a fez se lembrar da sua própria postura quando mais nova e seria capaz de reconhecer aqueles olhos verdes misturados em uma imensidão de avelãs em qualquer lugar, sem falar na mandíbula marcada, o nariz fino e os cabelos loiros. Ela era uma composição sua com Noah.
Não. Não podia ser.
— Você é Quinn Fabray? — O tom da garotinha saiu confiante.
— Eu... — Quinn estava atordoada pela segunda vez naquele dia. — Sou.
— Eu sou Elizabeth Corcoran, e você é a minha mãe biológica.
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