Almas Afins
20 Capítulo 20 - Lamentações...
Notas iniciais
O vidro que separava Quinn do berçário embaçava esporadicamente ao receber lufadas fortes de ar enquanto ela tentava inutilmente secar o rosto com a manga do roupão lilás. Estava tão cansada. Nunca tinha ficado com os cabelos bagunçados em público, mas agora se encontrava exatamente assim, porque não teve tempo para cuidar da sua aparência depois do parto. Tudo o que importava naquele instante era a recém-nascida que sacudia as pernas do outro lado daquela barreira transparente.
Quinn sempre teve a convicção de que bebês eram iguais e que era impossível reconhecê-los, mas estava totalmente enganada. Ela reconheceria a sua filha em qualquer lugar, porque o rosto dela já estava enraizado na sua cabeça. E por Deus! Era linda! Quinn nunca achou que algo tão bonito pudesse sair dela, mas saiu. Com os seus cabelos e o seu tom de pele. Contudo, sabia que os olhos seriam de Noah. Não seria justo um bebê se parecer apenas com um dos pais.
Ela sentiu uma movimentação ao seu lado e tentou enxugar a face molhada mais rapidamente. Ainda era Quinn Fabray. Detestava demonstrar fraqueza para quem quer que fosse, incluindo o pai da sua filha.
Noah passou alguns minutos em silêncio, e Quinn não virou o rosto para fitá-lo. Sabia que ele estava tão fascinado pelo bebê envolto na manta rosa tanto quanto ela. O sentimento maternal era irreal, avassalador e, sobretudo, assustador.
— Ela é linda. — Ele se pronunciou. — E se parece com você.
Quinn assentiu lentamente antes de responder.
— Eu acho que ela vai ter os seus olhos. — A voz saiu rouca.
— Como você sabe disso?
Ela pôde sentir o olhar dele na sua direção, mas se manteve na mesma posição.
— É assim que funciona, não é? — Fungou. — Se um bebê se parece demais com um dos pais, sempre haverá algo nele do outro. E ela vai ter seus olhos.
O silêncio voltou, mas não durou muito. Noah suspirou pesadamente.
— Nós podemos ficar com ela. Eu posso trabalhar e encontrar um lugar para morarmos. Você, Beth e eu. Como uma família.
— Nós dois sabemos o que vai acontecer, Puck. — Ela finalmente o encarou. — Vamos ficar com ela, então você começa a trabalhar e a nossa casa parece perfeita. Tudo parece perfeito até o momento em que isso desmorona. Você provavelmente vai conhecer uma garota e vai levá-la para cama sem pensar duas vezes. Vai chegar em casa com o batom dela na sua roupa e vamos brigar. Beth vai acordar chorando, e você vai perder a paciência, saindo e voltando apenas no dia seguinte. Esse ciclo nunca vai parar, sabe por quê? Porque nós não nos amamos. — A explicação foi calma, e ela se sentiu, pela primeira vez, sensata ao pensar no seu próprio futuro.
— Eu acho que amo você, Quinn. Eu sei que sou um caso aparentemente sem solução, mas a única garota que faz o meu coração bater com força é você. Nós podemos tentar. Por Beth. — Noah insistiu.
— Houve um tempo em que eu estava insegura sobre quem eu era e sobre os meus próprios sentimentos. Estava perdida e não tinha com quem conversar sobre isso. Mas você estava sempre perto, tentando ter a minha atenção. E mais do que isso, você me deixou bêbada para transar comigo. Isso não é amor, Puck. E eu acho que nunca vou conseguir amar você, porque eu acho que nunca vou conseguir amar alguém. Eu não amava o Finn e o traí, eu amo a Beth e vou deixá-la. Amando ou não, meu castigo é machucar todos ao meu redor com as minhas ações.
Noah não soube o que responder, porque não era bom com palavras e porque não sabia o que dizer para convencer Quinn de que realmente imaginava um futuro com ela e Beth. Um universo paralelo pairava na sua mente, fazendo-o fantasiar com um futuro onde os três estivessem juntos, felizes e com amor. Ele sentia falta de amor na sua vida e com Quinn isso podia mudar. Contudo, ela não o queria. Talvez aquele universo ficasse apenas na sua memória.
A enfermeira saiu do berçário e sorriu para ambos.
— Vocês podem vê-la. Ela é muito saudável. — Foi gentil.
Quinn hesitou por alguns segundos, mas decidiu se deixar guiar pelas suas emoções, caminhando lentamente até entrar no local. Havia segurado Beth durante o parto por alguns segundos, todavia agora podia pegá-la à vontade e assim o fez, segurando-a delicadamente após a enfermeira orientá-la. Era a primeira vez que segurava um bebê recém-nascido.
Beth soltou um grunhido baixo, mas não abriu os olhos e continuou ressonando.
As lágrimas voltaram aos olhos de Quinn em uma mistura de amor arrebatador e a tristeza que seria a sua companheira sempre que lembrasse da filha. Ela seria sempre o seu ponto fraco, capaz de desmoroná-la.
Noah apenas observava a cena e recusou o convite de segurá-la, porque temia derrubá-la. Quinn então permaneceu embalando-a, como se soubesse fazer isso há anos.
— Eu amo você. — Ela sussurrou para o bebê. — Eu sempre fui uma garota que preferia não sentir o coração acelerar, porque achava que isso era ser fraca, mas com você o meu coração parece querer fugir pela minha boca. Eu sinto todo esse amor e queria poder transmiti-lo para você antes de fazer o que tenho de fazer, mas é impossível, então eu espero que me perdoe um dia, Beth, porque eu espero ter coragem para procurá-la e ser, pelo menos, a sua amiga. Uma amiga próxima que vai estar ali para ajudá-la com o que você precisar. — Ela respirou fundo, tentando engolir com força o bolo na garganta. — Eu sempre vou amá-la incondicionalmente.
Quinn queria prolongar aquele momento e fazê-lo durar para sempre, mas ao fitar a porta do berçário, ela viu Shelby entrar, então soube que não poderia. Era a coisa certa a se fazer, pensava, tentando se convencer disso após beijar a testa da filha.
— Você tem certeza? — Noah inquiriu, sem fazer questão de ocultar o rastro de lágrimas no rosto.
— Ela merece o melhor, não é? — Ela perguntou, recebendo um aceno positivo como resposta. — E o melhor não somos nós, Puck.
Shelby se aproximou. A expressão triste, porque sabia, mais do que qualquer outra pessoa, como era deixar uma filha.
— Eu já assinei os papéis.
— Então parabéns. — Quinn forçou a voz, mantendo-a firme como podia. — Você agora é a mãe dela.
— Você também é a mãe dela, Quinn, e eu não vou impedi-la de vê-la.
— Eu preciso encontrar o meu caminho antes de entrar na vida da Beth. Preciso amadurecer. Ela vai ser feliz com você.
Entregar o bebê para os braços de Shelby doeu como ser quebrada em milhões de pedaços, mas Quinn entregou, porque sempre foi ensinada a ser forte em situações necessárias. No entanto, isso não a impediu de sentir a pior dor da sua vida. Estava abrindo mão do seu único bem mais precioso.
Beth começou a se remexer, e o par de luvas que tinha nas mãos caiu no chão.
Noah as pegou e entregou para Quinn.
— Eu posso ficar com elas?
— É claro. — Shelby abriu um sorriso carinhoso.
Quinn inalou o cheiro da sua filha no tecido e o apertou contra o peito, se movendo para sair dali antes que perdesse as forças mínimas que ainda exibia.
Antes de deixar o berçário, ela se virou, vendo Shelby distribuir palavras afetuosas para Beth. Ela seria sim uma boa mãe.
Russel, Judy e Frannie estavam no final do corredor. Quinn não quis que entrassem no berçário para apoiá-la. Ela desejava fazer aquilo sozinha. Contudo, naquele instante, ela se permitiu desabar, se jogando nos braços do pai sem pensar duas vezes enquanto chorava copiosamente.
— Você poderia ter ficado com ela, Quinn. Eu errei em expulsá-la de casa, mas me arrependi. Ela é a minha neta e faz parte de você, minha filha. — Russel afagava os fios loiros da caçula com amor.
Quinn negou com a cabeça, ainda tentando cessar o pranto sôfrego, e fitou o pai.
— Eu não seria uma boa mãe, papai. — Voltou a chorar.
Judy se juntou ao marido, enviando afeto para a filha através de palavras e gestos, enquanto Frannie fitava o final do corredor, vendo Shelby sair com a sua sobrinha nos braços. Esperava que um dia o destino pudesse juntar Quinn e Beth outra vez.
Mas Quinn nunca esteve preparada para procurar a filha e acima de tudo, nunca soube, de fato, qual seria a cor dos olhos dela.
Nove anos depois, fitando Beth, ela sabia que tinha acertado ao dizer que seriam idênticos aos de Noah.
Rachel caminhou até parar ao lado da esposa, vendo-a chorar silenciosamente enquanto ainda mantinha os olhos na garotinha. Ela mesma não soube entender como Beth estava ali. Havia participado da vida dela somente até os dois anos, mas iniciou uma convivência esporádica quando foi para Nova York. Shelby não mencionou que iriam para Lima em nenhuma ligação ou chamada de vídeo.
— Rach? — Beth franziu o cenho. — O que você está fazendo aqui?
— Eu é quem deveria perguntar isso, não acha? Onde Shelby está? — A judia cruzou os braços.
— Ela... ela está vindo.
Um olhar da atriz foi o suficiente para Beth suspirar. Não sabia mentir.
— Ela não sabe que eu estou aqui. Eu posso entrar?
Quinn assentiu, saindo da porta para que a filha pudesse entrar enquanto ainda a analisava. Estava graciosa com aquele vestido rodado e os cabelos loiros presos em uma trança.
Elas chegaram na sala de estar.
— Eu vou ligar para Shelby. Ela deve estar louca de preocupação.
— Não, Rach. Eu não quero ser levada embora. Eu quero conversar com a Quinn. — Beth retrucou.
— Eu tenho certeza de que Shelby vai deixar vocês conversarem pelo tempo que precisarem, mas ela precisa saber onde você está. — Rachel se retirou sem esperar uma resposta. Sabia que aquele momento era de uma delicadeza extrema e queria deixá-las sozinhas.
A detetive passou as mãos no short, sentindo-as suarem pelo nervosismo.
— Você pode se sentar.
Beth balançou a cabeça em concordância e se acomodou no sofá de três lugares, sendo espelhada pela mais velha.
— Então você é a minha mãe biológica. — Foi uma afirmação.
— Como... como você sabe disso?
— Mamãe e eu fomos visitar o tio Hiram e o tio Leroy ontem, e eu ouvi uma conversa deles na cozinha. Eu sabia que era adotada, mas não sabia quem era a minha mãe biológica. A mamãe Shelby nunca me disse. Então eu ouvi o seu nome e procurei na lista telefônica. Consegui andar até aqui. — Beth explicou tudo calmamente.
Quinn não conteve um sorriso espontâneo. Beth era, sem dúvidas, a sua filha com Noah. Era astuta e dona de uma firmeza absurda.
— Por que você não me procurou? — A garotinha perguntou.
— Eu queria muito, Beth. — O sorriso de Quinn se desfez. — Eu engravidei aos dezesseis anos e foi muito difícil. O seu pai não era o pai que eu queria para você naquela época, e eu não era a mãe que você merecia. Shelby estava lá, pronta para dar todo o amor e proteção que você precisava, então eu a entreguei. Foi doloroso demais, mas foi o certo. Depois disso, eu encontrei o meu futuro e não quis mexer nessa história, porque eu achava que você não merecia toda essa turbulência emocional.
— Então você nunca ia me procurar? Você não queria saber como eu sou? — Beth estava começando a se irritar.
— É claro que eu queria. — Quinn respondeu rapidamente. — Eu pensei em como você seria durante nove anos desde que a entreguei para Shelby. Se ainda teria cabelos loiros ou se tinham escurecido. Mas eu não sei se procuraria você. Shelby foi para Los Angeles e estava sempre longe. Eu sentia isso como um aviso de que seria melhor manter distância. — Brincava com os próprios dedos. — Talvez o meu maior defeito tenha sido ser covarde o suficiente por nunca ter procurado você.
— Você me abandonou. — Beth acusou.
— Eu não abandonei. — Quinn tentava evitar chorar na frente dela. — Eu fiz o que achei ser certo para você.
— Abandonou sim. Você não me quis na sua vida e nunca iria querer. — A garotinha cruzou os braços, afundando o corpo no sofá e virando o rosto.
Quinn enxugou as lágrimas que fugiram sem permissão e se ajoelhou na frente da filha, segurando o queixo delicado suavemente para que pudessem se encarar.
— Eu sempre vou amar você, e você vai ser sempre a pessoa capaz de me deixar sem muros, porque eu sou a sua outra mãe. Aquela que a entregou para uma mulher que também é mãe e que a desejava mais do que qualquer outra coisa no mundo. E dói, Beth. Eu queria ter dado para você todo o meu amor, mas eu não pude. Eu só quero que você me perdoe por isso. Eu tive medo. Tive medo da sua rejeição ao me ver. Tive medo de embaralhar toda a sua vida. Eu sempre vou ter medo quando o assunto for você, porque eu sinto como se fizesse tudo errado.
— Você pode fazer certo. — Beth deixou a raiva enfraquecer. — Mamãe e eu vamos morar aqui em Lima.
— Vocês vão? — Quinn se surpreendeu.
Beth assentiu.
— Eu amo a mamãe Shelby, mas eu quero conhecer você. Você não quer me conhecer?
— É a coisa que eu mais quero na vida, Beth. — A detetive foi sincera.
Houve alguns segundos de silêncio até a garotinha quebrá-lo.
— Por que a Rach tá aqui?
Quinn se sentou novamente no sofá.
— Rachel é minha... minha esposa.
Beth arregalou os olhos.
— Vocé é casada com a minha irmã?
A mais velha riu.
— Acho que somos cunhadas também, não é? — Brincou.
Beth sorriu pela primeira vez, fazendo o coração de Quinn derreter.
— Você tem outros filhos?
— Eu tenho uma filha de três anos chamada Audrey. Ela está dormindo agora.
— Eu posso conhecer ela?
— Claro que pode. Se Shelby permitir, você pode vir aqui esse final de semana brincar conosco, o que acha?
— Eu acho que seria divertido.
Quinn sorriu, ficando animada ao pensar naquilo. No entanto, precisava, antes de tudo, explicar sobre a deficiência visual de Audrey, mas o barulho da campainha cortou a conversa.
Rachel passou pela sala de estar, indo até a porta.
— Graças a Deus. — Shelby entrou no cômodo, respirando aliviada ao ver a filha. — Eu quase enlouqueci quando procurei você e não encontrei. Não faça mais isso, Elizabeth! — Ela bronqueou, verdadeiramente chateada.
— Desculpe, mamãe. Eu só queria conhecer a Quinn. — Beth argumentou.
— Como você sabe sobre a Quinn?
— Ela ouviu a sua conversa com Hiram e Leroy, então procurou o meu nome na lista telefônica e veio até aqui. — A detetive esclareceu.
Shelby ficou surpresa com a ação da filha.
— De qualquer forma, eu espero que isso não se repita, ouviu? — O tom de voz continuou firme.
— Sim, mamãe. — A garotinha abaixou a cabeça.
— Vamos embora. — Shelby estendeu a mão, que foi segurada por Beth quando ela se levantou do sofá.
— Shelby, nós podemos conversar? — Quinn perguntou quando todas chegaram na varanda da casa.
— Claro. — A mulher mais velha encarou a filha. — Você pode esperar no carro, meu amor?
Beth assentiu e se despediu de Rachel com um abraço. Gostava dela e das conversas que tiveram quando se falaram algumas vezes por chamadas de vídeo. Porém, ao parar na frente de Quinn, a garotinha não soube como se comportar.
Quinn queria abraçá-la, mas não podia. Não tinham uma intimidade, então retribuiu o aceno recebido.
— Tchau, Quinn.
— Tchau, Beth.
A garotinha saiu correndo até o carro de Shelby, entrando e se sentando no banco de trás.
— Me desculpe por isso, Quinn. — Shelby começou. — Eu não fazia ideia de que Beth iria vir até aqui e...
— Está tudo bem. — A loira a interrompeu. — Nós conversamos um pouco, e eu gostaria de saber se ela pode vir aqui esse final de semana brincar com Audrey. Talvez nós pudéssemos conversar um pouco mais.
— Eu não sei, Quinn. — A mais velha crispou os lábios. — Eu iria vir aqui essa semana para dizer com calma, mas diante de todo esse momento inesperado, é melhor que saibam agora.
— Dizer o quê? — Rachel se pronunciou ao lado de Quinn.
— Noah visita Beth em Los Angeles há algum tempo, mas nunca falamos quem ele realmente era para ela até que houvesse uma conexão entre eles. Nós nos aproximamos com o decorrer das visitas e vamos nos casar.
Rachel abriu a boca diante da súbita notícia, sem saber ao certo o que responder.
Foi Quinn quem falou primeiro.
— Uau! Parabéns, Shelby. Eu fico feliz por vocês.
— Obrigada, Quinn. Nós decidimos voltar para Lima porque Noah queria ficar perto da família, e eu recebi uma boa proposta da Carmel.
— Você vai treinar o Vocal Adrenaline? De novo? — A judia questionou.
— Contanto que o salário seja ótimo, eu vou. — Shelby respondeu. — Mas não é sobre isso que eu quero falar e sim sobre Beth se aproximar da Quinn. Noah não acha uma boa ideia.
— Espera, o quê? Puck acha que não é uma boa ideia eu me aproximar da Beth?
— Ele acha que o fato de você não ter procurado ela durante todos esses anos significa que não a ame. Talvez seja verdade.
— Isso não é verdade! — Quinn se irritou. — Eu amo a Beth e já expliquei para ela porque não a procurei. Isso envolve muitos sentimentos, Shelby, e só eu sei como doeu em mim não ter entrado em contato, mas eu tenho esse direito.
— Não, Quinn, você não tem. — A mais velha contestou. — Você assinou um documento que abre mão da Beth. Eu sou a mãe dela.
— E toda aquela história de que eu também era a mãe dela? Onde está aquela mulher? — A loira estava se controlando para não explodir.
— Isso foi há nove anos, Quinn, e eu procurei você, mas sempre recebi respostas negativas.
— Você me procurou no último ano do ensino médio, Shelby. Eu ainda era uma garota assustada. Depois disso, quando finalmente consegui entrar nos eixos, você se mudou para Los Angeles.
— Los Angeles não é tão longe. Você poderia ter ido até lá. Noah foi.
— Noah não tinha uma filha que ficou cega, exigindo cuidados especiais e o dobro de atenção. — Quinn aumentou o tom de voz.
— Eu sinto muito por Audrey, mas se você não está capacitada para ter Beth ocupando o seu tempo, então é melhor não se envolver nisso.
— Eu estou capacitada e quero ela na minha vida.
— Noah e eu não achamos que você esteja.
— Então é isso? Você vai se submeter a um noivo? Vai deixar ele controlar a sua vida? Eu esperava mais de você, Shelby. — Rachel praticamente cuspiu as palavras.
— Noah é o pai dela.
— E eu sou a mãe.
— Eu sou mais mãe do que você, Quinn. Noah esteve lá por Beth durante muito tempo e sempre vai estar.
— Eu posso estar lá por ela também! Eu a amo!
— É tarde demais, Quinn. Eu sinto muito. De verdade.
— Isso é ela quem decide, Shelby, e não você.
— Eu tenho os direitos dela, Quinn, e Noah vai tê-los em breve também. Você não tem poder algum nesse círculo. Eu lamento.
— Saia daqui! — Rachel demandou. — Saia. Nós é quem deveríamos lamentar por você ter se tornado uma mulher sem poder próprio. Eu estou com nojo de você.
— Você não deveria sentir nojo de mim, Rachel, porque foi você quem abandonou a sua família.
— Eu acho melhor você sair! — Quinn quase gritou. — Eu não vou permitir que você fale da minha vida, tampouco de Rachel! Agora saia, antes que eu perca a cabeça e faça você entrar naquele carro!
Shelby apenas ergueu as mãos em rendição e deu meia-volta, caminhando até o carro.
Beth acenou novamente enquanto o veículo se afastava, e Quinn retribuiu, sentindo o coração bater rápido pela raiva ocasionada por Shelby e Noah e, principalmente, pela vontade de ver a filha novamente. Ela foi compreensível e gentil, coisa que nunca imaginaria que ela seria ao saber da verdade.
Beth era especial. Era a sua primogênita. Era a sua pessoa especial, assim como Audrey. Quinn as amava.
Rachel fechou a porta quando a esposa entrou em casa e a seguiu silenciosamente até o quarto, vendo-a pegar uma caixa pequena no armário. Sabia o que era.
Havia um par de luvas minúsculas, fotos de ultrassonografias e apenas uma fotografia de Beth recém-nascida dentro da caixa. Eram poucas lembranças, mas era tudo o que tinha da sua primeira filha.
Quinn aproximou o nariz das luvas e buscou algum aroma. Não havia nada ali, mas ela jurou ter sentido o cheiro natural de bebê. O cheiro de Beth.
— Eu errei em não ter entrado em contato, mas não é tarde demais para fazer parte da vida dela. Ou é? — Os olhos verdes marejados fitaram a judia na entrada do quarto.
— Não, não é. Nada é tarde demais quando se tem amor e vontade. — Rachel respondeu, tentando não chorar ao ver a esposa tão frágil.
A loira assentiu, fungando com força e deitando na cama enquanto ainda segurava o par de luvas.
— Você quer ficar sozinha? — A atriz inquiriu. A voz preocupada.
— Não.
Foi apenas uma palavra, mas essa palavra confirmou que Rachel podia ficar, e ela imitou a posição da mais alta após se deitar na cama, fitando-a com amor.
— Eu lamento por tudo isso. Por toda essa confusão que parece crescer cada vez mais. — Quinn disse.
— Mas nós amamos as mesmas pessoas, e esse é o lembrete de que podemos ter um final feliz. — Rachel retrucou.
— Talvez eu não tenha nascido para ter um final feliz.
— Você nasceu, porque é uma pessoa incrível, forte e genuína, Quinn. — A morena aproximou o rosto, colando ambas as testas. — Você nasceu para ser feliz, e eu quero garantir a sua felicidade. Vê-la feliz me faz feliz, porque eu amo você.
Quinn não respondeu e apenas fechou os olhos, deixando aquele sentimento de lamentação se apossar do seu corpo.
Ela lamentava por ter entregado Beth, lamentava por não ter procurado-a anos depois, lamentava por ter se deixado enganar por sentimentos insuficientes que sentia por garotos que nunca gostou de verdade. A sua vida sempre foi carregada de lamentações. Se não fosse pelo apoio recebido de Rachel durante o ensino médio, pelo sentimento descoberto sentir por ela e por Audrey, ainda poderia ser a mesma garota recheada de lamentações. Audrey não era a sua lamentação.
Ela sentiu a mão da esposa no seu rosto em uma carícia suave e respirou fundo.
Ainda que Rachel tivesse errado, ela também não era a sua lamentação.
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