Almas Afins
18 Capítulo 18 - Aviso ignorado...
Notas iniciais
— Eu preciso ir ao banheiro. — Santana disse de repente, fazendo com que Quinn estancasse no meio da delegacia e Elaine se virasse, encarando-a com o cenho franzido.
— Agora?
— É, agora. Eu comi algo que não me fez bem. Vocês podem continuar sem mim. — A latina abriu um sorriso pequeno e deu meia-volta, sumindo ao virar à direita em outro corredor.
Elaine deu de ombros e pousou os seus olhos sobre Quinn.
— Vamos?
— Claro.
Ambas entraram na sala de depoimento. Elaine estava claramente ansiosa, porque batia o pé no chão de forma incessante. Precisava descobrir quem eram as duas pessoas que estavam no local onde o corpo foi encontrado. Se achassem-nas, teriam uma pista crucial e poderiam chegar mais perto do assassino.
Quinn não estava diferente dela, mas o seu nervosismo era causado pelo fato de que se Santana não conseguisse impedi-la de ouvir o depoimento, elas estariam encurraladas. Como explicar que sabiam antes de todos sobre a morte de Jason? Não havia uma resposta plausível e principalmente, convincente. Contar sobre o corvo seria um atestado aberto para que pudessem acusá-las de algo. E isso estava fora de cogitação.
Estava começando a ficar impaciente quando Elaine puxou o celular do bolso. O aparelho vibrando fervorosamente. Ela logo atendeu a chamada e ouviu algo do outro lado da linha antes de arregalar os olhos, despertando a curiosidade de Quinn.
— O quê?! — Elaine quase gritou. — Você tem certeza disso? Não, eu... eu estou indo aí. — Desligou.
— O que houve? — A loira inquiriu, verdadeiramente preocupada.
— Alguém invadiu o meu apartamento. Eu preciso ir. Droga! Isso não poderia acontecer justamente agora.
— Você precisa ir. Nós vamos guardar cada informação que ele der e passamos para você o mais rápido possível. — Quinn tentou soar gentil.
Elaine aquiesceu ainda um pouco atordoada e saiu da sala rapidamente em seguida.
Quinn soltou todo o ar dos pulmões, sentindo um peso gigante sair das suas costas e fechando os olhos pelo alívio repentino. Ela pôde ouvir a voz de Santana do lado de fora da sala.
— Não precisa. Quinn e eu podemos cuidar de tudo. Obrigada.
A silhueta conhecida passou pela porta, fechando-a logo depois. Um sorriso crescendo nos lábios cheios.
— O que você fez? — A loira também sorriu.
— Eu não sabia ao certo o que fazer. No começo, eu iria disfarçar a minha voz na ligação, mas encontrei um garoto com bebidas alcoólicas e ameacei levá-lo para a delegacia. Ele quase chorou, então eu o fiz ligar para o número de Elaine do telefone público e falar sobre a invasão do apartamento. Ele fingiu ser um dos filhos de algum dos vizinhos. Eu duvido que ela conheça todos.
— Certo. — Quinn continuou sorrindo, mas pensou por alguns instantes. — Mas você sabe que a invasão é uma mentira. Elaine não vai suspeitar de nós?
— Nós podemos lidar com ela. É a palavra dela contra a nossa, e Warren sabe o quanto ela implica conosco. Não vai levar a sério.
As duas sorriram cúmplices depois disso, mas adotaram uma expressão séria quando a porta foi aberta. Um policial entrou no cômodo ao lado de um homem que deveria ser Robert Miller. Aparentava ter a mesma idade que elas e as fitou de um modo que confirmou as suas dúvidas.
Ele sabia que eram elas em Cincinnati no dia da morte de Jason.
...
Rachel organizou as partituras sobre o piano e suspirou. Havia se saído relativamente bem na sua primeira aula. Ainda não ensinaria as crianças com deficiência visual, embora desejasse aquilo. Queria poder passar o mundo da música para eles, mas ainda teria de receber autorização para aquilo. Se os pais assim desejassem, ela receberia o treinamento adequado e teria assistentes para ajudá-la. Era um ensino diferente, que exigia um esforço mais árduo e, consequentemente, mais atenção.
Ela estava feliz em ter visto o sorriso animado nos rostos das crianças, o que incluía Blanca, que falava em Audrey sempre que aprendia sobre uma nota musical na expectativa de mostrá-la tudo aquilo. O gesto doce da filha do casal Pierce-Lopez fez a judia sorrir e pensar na garotinha. Esperava, sobretudo, poder transmitir para ela o amor que sentia pela música.
Agora estava ali, pensando previamente na próxima aula, ainda que houvesse bastante tempo para isso. Tendo essa constatação em mente, ela decidiu dar uma pausa e ir até a sala de aula em que Audrey estava, parando na porta para observá-la.
Os pés da pequenina se moviam com cautela, e o bastão estava firme na mão pequena enquanto ela desviava com maestria dos objetos colocados propositalmente no seu caminho. Aquilo fez o coração de Rachel inchar de orgulho, porque a sua garotinha estava aprendendo cada vez mais a se locomover com segurança. Ela não perdeu tempo em puxar o celular do bolso e registrar aquele momento.
Mas o seu sorriso morreu parcialmente ao vê-la chegar até o outro lado da sala e Hayden a abraçar com força, fazendo-a rir em uma animação latente.
Foi impossível não sentir ciúme, porque ambas pareciam íntimas e ela queria toda aquela intimidade com a filha também, mas deveria ir com calma. Contudo, saber disso não amenizava a sensação ruim na boca do estômago ao vê-la gargalhando nos braços da professora.
Ela respirou fundo quando o sinal tocou, indicando o intervalo das aulas. Todas as crianças saíam para a área externa, então aproveitou aquele tempo para entrar na sala de aula, se aproximando da figura pequena que encolhia o seu bastão.
— Será que eu posso fazer companhia para essa garotinha? — Rachel sorriu, se ajoelhando ao lado da garotinha.
— Reichel! — Audrey se virou, seguindo a voz e sabendo exatamente para onde direcionar a sua atenção. Ela estendeu os braços, e a mãe a segurou delicadamente. — Eu aprendi a andar em zigue-zague e não caí. — Sorriu orgulhosa.
— Eu sei, porque eu estava observando você da porta e estou muito orgulhosa. — A judia a beijou na testa, aspirando do cheiro doce do shampoo infantil dos cabelos escuros.
Cada assistente saiu, segurando a mão de uma das crianças, e Hayden ficou por último, pegando a lancheira de Audrey e só então percebendo a presença da atriz no recinto. Ela abriu um sorriso forçado e chegou perto das duas.
— Olá, Rachel.
— Hayden. — Rachel maneou a cabeça em cumprimento. Já era rotineiro aquele comportamento de ambas.
— Você vai ficar comigo lá fora, Reichel? — Audrey atraiu a atenção da mãe, cortando a tensão que se instalou.
— Claro que eu vou. — A judia respondeu animada, saindo da sala com a filha nos braços e com a professora seguindo-as.
Toda a área externa era ampla, e as crianças interagiam entre si. Parte das assistentes empurravam delicadamente alguns garotinhos nos balanços e outras mostravam os animais que ficavam dentro de um cercado para eles. A escola fazia questão de proporcionar o intervalo para todos ao mesmo tempo. Sem distinção.
Blanca estava sentada em um dos bancos de madeira e aguardava a amiga com a sua lancheira em mãos, não perdendo tempo em correr até ela quando a viu. Rachel sorriu e pôs a filha no chão delicadamente, que teve a sua mão segurada pela pequena latina.
Juntas, ambas foram caminhando lentamente com as duas mulheres logo atrás, monitorando-as.
— O aniversário de Audrey está chegando. — Hayden se pronunciou.
— É, está. — Rachel foi lacônica.
Embora o clima na cidade estivesse em puro alerta, a morena sabia que faltava menos de um mês para o aniversário da filha e não iria se privar de fazer uma comemoração para ela. É claro que estava preocupada com os assassinatos e com o motivo das mortes, mas não poderia viver temerosa. Confiaria em Quinn. Ela era uma profissional competente e não deixaria algo atingi-la.
— Eu não sei se a Quinn mencionou com você, mas desde que Audrey passou a ser minha aluna, nós planejamos a sua festa. — Hayden foi provocativa.
— Eu tenho certeza de que esse ano vai ser diferente. — Rachel entrou no jogo da professora. — Quinn e eu já conversamos sobre isso, e ela me deu permissão para planejar tudo. — Mentiu.
— Ela deu? — A loira se surpreendeu.
— Sim — Rachel assentiu, adorando ver a expressão surpresa da outra mulher. — Agora que eu estou de volta, posso organizar os aniversários da minha filha.
— A filha que você abandonou.
Rachel teve de contar até dez mentalmente para não rebater aquilo, porque Audrey e Blanca estavam mais à frente e porque aquele não era o local apropriado. Ela novamente lamentava por isso.
— A filha que eu planejei com a Quinn. — Rachel encarou a professora. — A filha que nos fez passar nove meses comprando móveis, roupas, acessórios e tantas outras coisas. Eu cometi um erro, Hayden, mas isso não muda o fato de que Audrey é a minha filha também. O meu nome está na sua certidão, e eu tenho todos os direitos. Ninguém nunca vai tirar isso de mim. — Parou de caminhar, vendo as duas garotinhas sentarem sob a sombra de uma árvore.
— Você é a mãe dela, Rachel, e eu não digo o contrário. — Hayden retrucou. — Mas você foi embora antes de conhecer as suas características internas. Você sabia que Audrey é alérgica a coco? Aposto que não. Há várias coisas que você precisa saber antes do aniversário dela, ou então pode acabar estragando tudo.
— Eu tenho certeza de que não vou estragar. Eu vou aprender todos os detalhes sobre a Audrey, porque tenho muito tempo para isso. Eu não vou embora novamente, Hayden, então espero que esteja preparada para não ser mais do que a professora dela de agora em diante.
— Você acha mesmo que isso vai acontecer? — A professora pareceu adotar uma expressão irritadiça.
— Eu não acho. Eu garanto isso. — Rachel se afastou, indo até as pequeninas e se sentando ao lado delas.
...
Robert se acomodou na cadeira e pôs os braços sobre a mesa, sorrindo para as duas detetives. Toda a euforia de ter interceptado Elaine se foi rapidamente ao observarem a expressão do homem.
Santana limpou a garganta e se apresentou.
— Eu sou a detetive Santana Lopez, e essa é a detetive Quinn Fabray. É um prazer conhecê-lo, Robert. — Estendeu a mão.
— O prazer é meu, detetives. — Ele disse a última palavra com um leve tom de ironia e apertou a mão da latina.
— Pode nos dizer o que viu na tarde de quinta-feira, há três dias? — Quinn inquiriu, sentando de frente para o homem com o laptop em mãos, pronta para registrar tudo o que ele tinha para dizer.
— Eu trabalho em um restaurante. Sou garçom e encarregado de levar o lixo para fora, mas o nosso container ficou cheio naquele dia, então fui procurar outro e vi duas pessoas próximas de um beco. Fiquei escondido, esperando para ver o que faziam e puder observar o momento em que queimaram algo e saíram de lá, cada qual em um carro. Depois disso, me aproximei de onde estavam e quando abri o container, me deparei com aquele corpo horrendo.
— Certo. — Quinn ainda terminava de digitar tudo. — E como eram essas pessoas?
— Eram vocês. — Ele foi direto, fazendo com que a loira entrasse em alerta instantaneamente. — Não é difícil reconhecer duas mulheres tão bonitas. — Sorriu, mostrando os dentes perfeitamente alinhados.
Santana apoiou as mãos na mesa, adotando uma postura firme e dura.
— Se tentar soltar alguma gracinha, eu quebro todos os seus dentes. — Ela respirou fundo. — Há alguma prova de que tenha nos visto realmente?
Robert alargou o sorriso, ainda que tivesse sido ameaçado, e puxou o celular do bolso. Ele mexeu no aparelho por alguns segundos antes de atirá-lo sobre a mesa, fazendo com que deslizasse e parasse perto das duas detetives.
O vídeo reproduzido mostrava perfeitamente as duas conversando, queimando os objetos e indo embora.
Quinn praguejou em um tom baixo. Seus olhos presos no celular.
Robert riu.
— Podem ficar com esse celular. Eu tenho o vídeo em outros lugares. Será que agora podemos conversar sobre o que vão ter de fazer para que eu mantenha a polícia longe desse vídeo?
— O que você quer? — Santana praticamente cuspiu as palavras.
— Eu quero cem mil dólares. — Ele não hesitou em responder.
— Impossível. Não temos todo esse dinheiro. — Quinn disse.
— Eu pesquisei sobre você. É uma Fabray. Seu pai trabalhou em casos enormes fora de Ohio e acumulou uma boa grana. Acho que ele pode dar um jeito nisso. — Robert se levantou. — Cem mil dólares até o próximo sábado, ou então todos vão ver esse vídeo. — Saiu da sala sem esperar uma resposta.
Quinn ainda se manteve estática, processando o pedido dele, enquanto Santana pegou o celular, jogando-o na parede em um gesto de raiva. O objeto quebrou facilmente.
— Eu vou segui-lo com o meu carro e desfazer aquele sorriso debochado. — A latina tentou sair do cômodo, mas a loira foi rápida em segurá-la.
— Quer colocar tudo a perder batendo nele? Eu tenho certeza de que amanhã Warren estaria vendo esse vídeo. — Quinn puxou a amiga para longe da porta. — Eu tenho quase cinquenta mil dólares no banco. Acho que o meu pai pode me emprestar o resto.
— Não, Q. Nós podemos dar um susto nele. — Santana replicou, soando mais calma. — Ele vai borrar as calças e então...
— Não, Santana. Nós não somos assim. Deus! Me desculpe por ter colocado você nessa situação. Isso não deveria estar acontecendo. — Quinn a soltou e se jogou na cadeira.
— Isso não é culpa sua. E eu sei que você faria o mesmo por mim. — A latina se sentou ao lado da amiga. — Somos amigas desde o primeiro ano do ensino médio. Entramos nas Cheerios juntas, saímos das Cheerios juntas. Entramos na faculdade juntas, nos formamos juntas. Entramos aqui juntas e se tivermos de sair, vamos sair juntas. Tudo bem?
Quinn assentiu e sorriu, ainda que estivesse em um caos interno.
— Tudo bem.
...
Robert não parava de sorrir e desceu do ônibus ao chegar no seu ponto de destino. Finalmente largaria o emprego de garçom. Não aguentava mais servir as pessoas. Queria sair de Ohio e aproveitar ao máximo o dinheiro que receberia das duas detetives e principalmente, queria morar em outro lugar que não fosse aquele prédio velho e decadente em que residia.
Ao entrar no seu apartamento, os seus olhos caíram sobre a ave parada em cima da sua televisão. A janela estava aberta. Provavelmente ela teria entrado por ali, mas não foi isso que chamou a sua atenção e sim o fato do animal ser um corvo.
— Eu achei que vocês vivessem em cemitérios. — Ele sorriu, achando-o exótico, e se aproximou.
Schatten não deixou que Robert o tocasse e saiu de onde estava, sumindo ao passar pela janela.
O homem deu de ombros e tentou ir fechá-la, mas sentiu uma pancada forte na nuca, caindo no chão em seguida. Um gemido de dor saiu da sua boca. Ao passar os dedos no local atingido, pôde sentir a textura do sangue, que começava a sujar os seus cabelos.
Estava de bruços, e quis se virar, porém sentiu outra pancada forte na cabeça. A visão ficando turva quando conseguiu mexer o corpo, deitando com as costas no piso de madeira desgastada. Seus olhos conseguiram focar o agressor, que ergueu a mão coberta pela luva de couro preta e exibiu a arma com o silenciador acoplado no cano.
— Por favor. — Robert pediu. Os olhos marejados e a cabeça latejando constantemente.
A risada alta ecoou no apartamento minúsculo, e Robert perdeu a sua vida quando o dedo apertou o gatilho, perfurando a sua cabeça com o calibre trinta e oito.
...
Quinn se mantinha na sua sala, ainda tentando encontrar uma forma de não perder o seu emprego, quando Schatten pousou na janela, fazendo com que ela o fitasse.
— Agora não, amiguinho. — Ela andou até a janela, fechando-a após gesticular para que ele fosse embora. — Eu já entrei em uma confusão enorme por ter seguido você.
Talvez fosse melhor não ser tão apressada. Às vezes, era preciso deixar que o universo corresse normalmente
Com esse pensamento, Quinn voltou a sua atenção para o laptop, tentando não pensar em Schatten.
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