Almas Afins

16 Capítulo 16 - Feliz Dia de Ação de Graças (Parte II)...


Notas iniciais
Dia de capítulo! Espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

O sol indefeso da manhã ainda predominava quando Quinn avistou a placa de boas-vindas, adentrando Cincinnati com Schatten logo na frente. Ainda que fosse outono, não fazia muito frio, exceto à noite, quando a temperatura parecia descer uma ladeira sem fim. Era confuso, e ela odiava toda essa alteração climática.

E sobretudo, odiava Cincinnati.

A cidade era bela, isso era inegável. Porém, há um ano, quando o sequestro de uma garota de oito anos ocorreu e todos os departamentos tiveram de trabalhar juntos para resolver o caso, houve uma série de desavenças e discussões, terminando com Santana quebrando o nariz de outra detetive. No final, conseguiram prender o sequestrador e recuperar a criança, mas Quinn ainda nutria sentimentos negativos por todo o Departamento de Polícia de Cincinnati.

E agora, seguindo Schatten pelas ruas pouco movimentadas, ela já tinha uma prognose daquele dia. E não era nada boa.

Assim que o corvo dobrou à direita e entrou em um beco sem saída, a loira parou o carro no acostamento da rua e saltou para fora, sacando a arma e caminhando com cautela até observá-lo parado sobre um container de lixo. Tudo cheirava mal ali.

Schatten saiu de cima do container quando ela se aproximou e pousou sobre o seu ombro, causando uma onda de arrepios na sua espinha dorsal.

— Há alguma coisa aqui, não é? — Quinn indagou, mas não esperou uma resposta e guardou o revólver, buscando um lenço de tecido do bolso interno da sua jaqueta.

Ela ergueu a tampa de metal do objeto grande e pesado, e o cheiro de lixo intensificou, fazendo-a tossir algumas vezes e cobrir o próprio nariz com a mão enquanto ainda segurava a tampa com a outra.

Contudo, não havia apenas lixo ali dentro. O corpo encontrado foi rapidamente identificado pela detetive, que soltou a tampa bruscamente e se afastou, momentaneamente desnorteada.

— Droga! — Ela se curvou, apoiando as mãos nos joelhos e tentando respirar normalmente depois do choque inesperado. Precisava telefonar para alguém. Alguém que pudesse ir até onde estava sem hesitar com os equipamentos necessários, então puxou o celular do bolso, ligando para quem ela sabia que a ajudaria.

Santana atendeu no segundo toque.

É bom que seja importante, rubia. Eu estou ajudando a Britt com o jantar e...

— Schatten apareceu novamente e me trouxe até Cincinnati. — Quinn foi direta.

Ela pôde ouvir um xingamento baixinho em espanhol do outro lado da linha e em seguida a voz da latina falando com Brittany sobre precisar ir até o quarto.

Tudo bem. — O barulho de porta fechando ecoou na ligação. — O que ele mostrou para você dessa vez?

— Eu estou na avenida Kellogg. É o Jason, Santana.

Alguns segundos de silêncio se passaram até que Quinn pudesse escutar um suspiro longo da amiga.

Merda! Eu... eu estou indo aí. — Santana desligou.

O trajeto de Lima até Cincinnati não era curto, e Quinn passou as duas horas seguintes sentada na calçada com as mãos apoiadas na cabeça. Deveria estar com Audrey agora, brincando com ela enquanto preparava a torta de abóbora. E onde Rachel passaria a Ação de Graças? Provavelmente com os pais. A lembrança dela dormindo no seu braço a fez voltar para a conversa que tivera com Cassandra mais cedo. Estaria pronta para cravar um ponto final recheado de concreto e sem esperanças no seu casamento? Ver o corpo de Jason fez a sua cabeça voltar até a morena em uma velocidade impressionante, porque talvez estivesse com medo. Se tudo indicasse o que estava pensando, aquele assassino não pararia tão cedo.

O carro de Santana se fez presente quando ainda estava perdida nos eventos atuais, e ela se levantou rapidamente ao vê-la se aproximar segurando as duas maletas de alumínio.

— O que disse para a Britt? — Quinn questionou, seguindo a amiga para dentro do beco parcialmente iluminado após segurar um dos objetos.

— Que eu iria ajudar você com as compras no supermercado. — A latina se aproximou do container, mas parou ao ver o corvo. — Não achei que ele ainda estivesse aqui. — Gesticulou com as mãos, fazendo-o voar até parar novamente no ombro da loira.

— O que foi? — Quinn franziu as sobrancelhas ao ver o olhar de Santana.

— Você e esse corvo. Tudo isso é muito estranho. Eu preciso mesmo visitar a minha abuela. — Ela pôs as luvas nas mãos e a máscara descartável no rosto.

— Ele apenas gosta de mim. — A loira espelhou a ação de Santana e pegou a lanterna.

— Isso não é normal, Q. Ele ter aparecido de repente para você. De onde ele veio? Nós não sabemos.

Quinn revirou os olhos e chegou mais perto, parando ao lado da latina e erguendo outra vez a tampa pesada, usando a mão livre para clarear o espaço escuro do container.

Dessa vez, além do rosto, ela conseguiu analisar todo o corpo de Jason. Não foi surpresa alguma ver o buraco vazio no lado esquerdo do seu peito, juntamente com a frase escrita em vermelho na parede de metal do container.

— Abandonar não é uma opção. — Ela sussurrou.

Santana fez uma leve careta, ainda sentindo o aroma desagradável impregnar na sua máscara, e usou a pinça novamente, puxando o papel da boca levemente aberta do homem morto.

Ambas se afastaram do container, e a latina desdobrou o objeto que segurava. A foto de Jason e David com um Thomas de poucos meses perfeitamente envolto em uma manta azul era conhecida, porque foi Quinn quem havia capturado aquele momento no Dia de Ação de Graças há três anos quando Jason ainda não havia ido embora. Quando Rachel ainda não havia ido embora.

Santana virou o papel. A frase estava lá. Com as mesmas letras garrafais, exibindo a mensagem característica do assassino repugnante que aparentemente colecionava corações.

— O que vamos fazer agora? — Quinn arrancou a máscara do rosto. — Hoje é Dia de Ação de Graças, e Dave estava tão animado com tudo.

— Precisamos chamar a polícia, Q. — Santana dobrou a foto novamente e se aproximou do container.

Quinn a observou levantar a tampa de metal e sabia que ela estava colocando a foto no lugar onde foi encontrada.

— Vamos colocar fogo nas luvas e máscaras. — Santana disse após fechar a tampa e caminhar até a amiga. — Se aqueles filhos da puta souberem que estávamos aqui, vão desconfiar.

A loira assentiu. Queria ficar e recolher as provas para analisar tudo no laboratório, mas não podia. Sua cabeça girava com as hipóteses que criava sobre o caso que parecia ganhar uma intensidade consideravelmente grande a cada segundo. Havia duas mortes, ocasionadas da mesma forma. Tudo aquilo era um padrão, e ela tinha o desejo de conseguir descobrir quem seria a próxima vítima antes que o número aumentasse, embora soubesse que responderia a um interrogatório se permanecesse ali. Então depois de retirar as luvas e a máscara, as jogou em uma lata de lixo menor, onde Santana já havia despejado o álcool e o fósforo riscado.

Quinn suspirou.

— Vamos ligar para a polícia do telefone público e depois ir para a casa do Dave. Logo entrarão em contato, e ele não pode ficar sozinho.

Santana aquiesceu. O caminho até a casa de David pareceu ser mais longo do que a ida até Cincinatti, e quando chegaram lá, já o encontraram aos prantos na sala de estar.

A latina correu até o quarto de Thomas, garantindo que o garotinho ainda estaria dormindo, e voltou segundos mais tarde, vendo os amigos abraçados no sofá.

Demorou cerca de dez minutos até o pranto de David cessar totalmente, restando apenas os olhos vermelhos e inchados.

— Ele está... morto. — A voz dele saiu rouca e baixa.

Quinn assentiu, enquanto Santana apenas alisava suavemente as costas do mais alto.

— Schatten me levou até Cincinatti. Não queríamos chamar a polícia. Esse dia deveria ser animado.

— Vocês viram? — Ele fungou, enxugando o nariz no lenço de papel.

A loira trocou um olhar significativo com Santana e novamente maneou a cabeça em concordância.

— É o mesmo assassino. Ele estava da mesma forma que o Zach Collins. — Foi a latina quem respondeu.

David soltou um grunhido. Ter imaginado o marido naquele estado o fez se sentir pior.

— Eu sofri muito quando ele disse que se arrependia de ser pai e queria aproveitar a vida, mas nunca quis que ele morresse. — David respirou fundo. — A morte machuca muito.

— Nós sabemos, grandão. — Quinn puxou a cabeça do amigo para o seu ombro. — E nós vamos estar aqui até você se recuperar totalmente, então pode chorar e colocar tudo para fora.

Não era uma promessa visível, mas Quinn cumpriu o que dissera. Ela foi com David até Cincinatti para a identificação do corpo, enquanto Santana se encarregou de ficar com Thomas e levá-lo até a sua casa para que ele não percebesse o que estava acontecendo.

A noite chegou rapidamente, trazendo o frio e aumentando o clima mórbido que se instalou.

Brittany não cancelou o jantar por causa das crianças, mas ver David forçando sorrisos para o filho enquanto lutava contra as lágrimas foi mais doloroso do que o dia em que Jason havia deixado-os. Depois de Audrey, Blanca e Thomas dormirem, Quinn checou o seu celular. Havia algumas ligações perdidas dos seus pais e uma mensagem na caixa postal deixada por Rachel.

Oi, é a Rachel. Eu... eu não vou passar o Dia de Ação de Graças com os meus pais, porque não acho que esse feriado se encaixe comigo agora, então só queria dizer que... eu vou ficar em casa. Na sua casa, se não se importar. Estou estudando algumas partituras para a minha primeira aula. E... estou nervosa. — A judia riu um pouco. — Então é isso. Eu só queria dizer também que eu te...

Ela não pôde completar a sentença, porque o tempo da mensagem expirou, e Quinn não sabia se ficava aliviada ou frustrada. Havia uma parte dela que desejava ouvir aquelas três palavras, mas era colocada em uma redoma e trancafiada pela sua mágoa, que estava feliz pela mensagem ter sido cortada. Ela sabia as sensações que aquela afirmação causava no seu coração e não gostava de senti-las. Todavia, por mais que tentasse, não evitou sentir uma paz repentina se apossar do seu corpo ao ter ouvido a voz serena e doce de Rachel depois de tantas turbulências durante o dia.

— Dave dormiu no quarto de hóspedes. Amanhã tudo deve estar mais calmo. — Brittany abriu um sorriso triste. — Não quer dormir aqui hoje também?

— Eu adoraria, mas preciso organizar alguns papéis. — Quinn mentiu. Não queria dizer que talvez quisesse saber como Rachel estava depois de ver com os próprios olhos o ex-marido do seu melhor amigo morto.

Depois de ir até o quarto de Blanca e plantar um beijo na cabeça das crianças, ela se despediu das amigas e dirigiu até o final da rua, parando o carro na garagem da sua casa.

Ela encontrou Rachel sentada no carpete da sala. Trajava calça moletom e uma camisa da OSU, que estava com o tecido desgastado. Quinn achava que tivesse perdido-a, porque não a encontrava desde a partida de Rachel. Agora sabia que ela havia levado para Nova York.

A judia ergueu o rosto das partituras espalhadas na mesa de centro e fitou a detetive. Parecia terrivelmente exausta e os olhos verdes mal piscavam.

— Quinn? — Ela chamou, despertando-a de seu torpor momentâneo.

A loira deixou a jaqueta no braço do sofá e se sentou ao lado de Rachel, surpreendendo-a. Nada foi dito, e ela conseguia sentir os olhos castanhos na sua direção.

— Você está bem? Onde Audrey está?

— Ela acabou dormindo na casa da Sant e da Britt. Eu achei melhor deixá-la com elas.

— Você podia ter trazido-a. Eu poderia colocá-la para dormir. — O rosto de Rachel se contorceu em uma expressão triste. Havia acordado e Audrey não estava em casa, e passar o dia sem vê-la acarretou em uma enxurrada de saudade no seu peito.

Quinn suspirou e pendeu a cabeça para trás, fitando o teto.

— Jason morreu.

— O quê?! — A judia abriu a boca surpresa. — Jason... o pai de Thomas?

— O pai de Thomas, ex-marido de David e o cara que abandonou a família. — A detetive respondeu, finalmente fitando a mais baixa. — Eu o encontrei em Cincinnati hoje.

— Como você... como? — A morena ainda estava atordoada. Tanto pela notícia brusca e quanto pelo fato de Quinn ter encontrado um corpo em uma cidade longe de Lima.

Quinn fechou os olhos. Não queria contar tudo à Rachel, mas não podia deixá-la no escuro. Por esses fatores, ela iniciou a narração. Desde a primeira aparição do corvo, passando por Zach Collins, a sua ex-namorada e o fato ocorrido pela manhã. Tinha receio em contar sobre Schatten, porque talvez fosse chamada de louca, mas por mais que tentasse ocultar, confiava em Rachel para contar aquilo. No entanto, a história ainda era incomum, então ela esperou a síncope que a judia provavelmente teria ao ver a sua expressão horrorizada.

Mas isso não aconteceu.

A ex-capitã do Clube Glee passou alguns minutos em silêncio processando palavra por palavra. Era tudo surreal demais, ilógico demais, incoerente demais. Qualquer coisa que pudesse processar aquela situação fora do normal.

— Você acha que estou louca por confiar em um corvo?

— Não. — Rachel respondeu convicta. — Você não está louca. Eu o vi.

— O corvo? — Quinn se assustou.

— Ele estava parado na janela da cozinha no dia em que Judy e Frannie estiveram aqui, e eu senti arrepios horríveis por todo o meu corpo. E quando você se machucou, eu... eu quase desmaiei. Foi terrível, Quinn. — Rachel sentiu os olhos marejarem. — Esse assassino... esse monstro mata pessoas que abandonam as suas famílias. Ele...

— Ele não vai vir até você, Rachel. — Quinn interrompeu a esposa. — Eu não vou deixar, ouviu bem? Ele vai para o inferno antes disso acontecer.

Ela falava com uma certeza tão absurda que foi impossível a judia controlar as próprias lágrimas. Depois do choque inicial, o medo pareceu se fazer presente, deixando-a temerosa pelo que poderia acontecer.

— Talvez eu mereça isso. Talvez...

A loira a calou novamente, mas dessa vez com a própria boca. Ela praticamente avançou sobre Rachel, chocando os seus lábios nos dela. O beijo era faminto, e a judia não perdeu tempo tentando entender o que tinha acabado de acontecer e retribuiu com afinco, grudando as mãos no rosto da esposa e exigindo cada vez mais dela, do gosto dela, da essência dela.

Por Rachel aquele beijo duraria dias, semanas, meses ou anos, mas Quinn o quebrou tão rápido quanto começou e pôs seus olhos na mais baixa. A respiração estava errática. Tê-la ouvido dizer que merecia morrer fez com que o seu peito apertasse. Apertou porque doeu imaginá-la morta, sabendo que nada poderia trazê-la de volta. A mágoa ainda estava lá, intacta e praticamente indestrutível, mas a morte machuca qualquer pessoa e sobrepõe qualquer lacuna. Ela não havia pensado com coerência e beijá-la foi a única alternativa de impedi-la de terminar a frase. Agora estava com o gosto dos lábios dela nos seus.

— Você não merece morrer, Rachel. — Quinn disse. A voz calma. — E eu vou fazer qualquer coisa para pegá-lo, nem que seja a última coisa que eu faça nessa vida. — Cada sentença era dita de forma firme. Os olhos verdes presos nos castanhos. Ela deitou no carpete da sala assim que terminou de falar, sentindo pela segunda vez a sensação de que aquilo já havia acontecido antes.

Rachel a imitou e colocou o braço ao redor da cintura da esposa em um gesto de ímpeto, afundando o rosto no pescoço pálido. Quinn não a expulsou ou fez menção de sair daquela posição. Estava cansada demais, partida demais pelos acontecimentos recentes.

— Eu amo você. — A atriz murmurou.

Ter ficado parcialmente aliviada pela mensagem eletrônica cortada momentos mais cedo não impediu Quinn de ouvir aquela sentença, e novamente não sabia dizer as sensações que as palavras causavam no seu interior, por isso apenas envolveu os ombros da esposa com o seu braço, tornando a posição mais confortável para ela. Durante aquele período de tempo, Quinn não queria reviver as feridas do seu coração e nem relembrar o abandono de Rachel. Naquele instante, ela só queria encarar o teto da sua casa, sabendo que estava segura enquanto sentia a morena aferrada ao seu corpo, porque estava com medo. Medo dos próximos passos do assassino.

E principalmente, estava temendo que ele pudesse chegar até Rachel.

Notas finais
Mais uma morte. Me deem o feedback e comentem as suas opiniões. Favoritem também. É sempre importante. Ah, e já leram minha nova fanfic? Ela está em fase inicial e provavelmente será atualizada domingo. O link dela é esse: https://fanfiction.com.br/historia/709490/Vermillus/ Espero que tenham gostado do capítulo. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron