Almas Afins

15 Capítulo 15 - Feliz Dia de Ação de Graças (Parte I)...


Notas iniciais
Dia de capítulo! Espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

Quinn bateu na porta da residência July-Fabray cedo naquela quinta-feira.

Depois de acordar no carpete da sala com Rachel ressonando sobre o seu braço, ela a deixou no quarto onde ocupava no andar superior e levou a filha até a casa de Santana e Brittany para que pudesse passar a manhã com Blanca. Era Ação de Graças, e ninguém teria compromissos profissionais nesse dia.

Frannie atendeu a irmã ainda de pijama e estranhou a sua presença ali, porém não controlou o próprio sorriso, atacando-a com um abraço apertado.

— Os gêmeos ainda estão dormindo, e estamos preparando o café da manhã. Você já comeu? Vamos fazer ovos e bacon. Eu sei que você adora isso.

A mais velha estava nitidamente eufórica, e Quinn se sentiu culpada, porque havia muito tempo que não pisava naquele lugar sem que houvesse uma comemoração que a fizesse estar presente. Tudo naquele ambiente trazia lembranças do seu passado com Rachel.

Quando ambas se beijaram pela primeira vez, a casa de Frannie foi o seu refúgio enquanto chorava no colo dela por ter medo de ser gay. E embora Judy e Russel tenham aceitado a situação rapidamente, aquela residência marcou o início do seu relacionamento. Os amassos no sofá enquanto a irmã estava fora e as promessas trocadas de que teriam uma casa tão aconchegante quanto aquela marcaram algo que a quebrou, e nunca esteve, de fato, pronta para voltar no começo de tudo. Contudo, agora se sentia estúpida por ter se recusado a visitar Frannie fora das datas especiais. Era uma péssima irmã.

— Eu queria me desculpar. — Quinn disse enquanto seguia a pediatra até a cozinha, onde Cassandra já preparava uma grande quantidade de ovos mexidos.

— Se desculpar? — Frannie se virou. O rosto contorcido em confusão.

— Sim, me desculpar. Eu não visitei vocês em um momento que não envolvesse datas comemorativas e coloquei as minhas emoções acima do meu amor por você, então me desculpe. Me desculpe também, Cassie. — A detetive fitou a cunhada, que sorriu e se aproximou após desligar o fogão.

— Nós entendemos totalmente, Quinn. — A obstetra parou ao lado da esposa. — De verdade. Não houve um momento sequer em que não sentíssemos falta do seu senso de humor ou das nossas reuniões, mas sobretudo, entendemos que foi uma longa e árdua caminhada para você.

— Isso quer dizer que você vai voltar aqui mais vezes? — Frannie questionou. O rosto ganhando um sorriso esperançoso.

— Eu posso vir aqui todos os dias se for necessário. Por mais que eu sentisse que estava progredindo durante esses dois anos, não ter visitado vocês significava que eu ainda estava deixando algo me parar, e eu não posso mais fazer isso só porque tenho uma mágoa.

A irmã não respondeu. Ela apenas a envolveu em um abraço apertado, e Quinn sorriu com isso, correspondendo com vigor. Sempre se sentia a mesma garotinha que Frannie apertava e acalentava quando estava triste. Ela era mais do que a sua irmã mais velha. Era o seu alicerce pessoal. Nunca se perdoaria se rompesse o elo forte que as ligava.

Quando as duas quebraram o afeto, a detetive abraçou Cassandra com afeto. Adorava a cunhada. Era uma mulher incrível. Ela era grata por tê-la como amiga também.

— Eu também quero um abraço! — A voz fina e animada de Kate ecoou na cozinha, e ela correu até a tia, que a pegou nos braços. — Eu senti saudade, tia Q.

— Eu também senti. Deus! Você está enorme! O que colocaram na sua comida? — Quinn analisou a sobrinha.

— Eu já sou uma mocinha. — Kate sorriu orgulhosa.

— Uma mocinha que logo vai estar interessada em algum rapaz ou em outra mocinha.

O comentário divertido de Quinn acertou Frannie em cheio, que fechou o sorriso.

— Se você acha que isso vai acontecer, é bom parar de tomar tanto café. Está causando alucinações na sua cabeça.

— Ela não pode falar isso. Eu apostaria todo o meu salário que Audrey e Blanca ainda vão ultrapassar a barreira da amizade. — Cassandra piscou o olho, voltando a preparar o café da manhã.

Foi a vez de Quinn transformar o sorriso em uma careta.

— Eu não acho que isso vai acontecer.

— Como pode ter tanta certeza? Audrey e Blanca irão se tornar lindas adolescentes e vão sempre segurar a mão uma da outra, então...

— Tudo bem, já chega. — A detetive tinha uma expressão de desgosto estampada no rosto. — Eu posso ser rígida quando necessário, e Santana também. Não vamos deixar que isso aconteça, então é bom que ambas só segurem a mão uma da outra. Nada além disso.

— Eu também vou ser uma adolescente linda? — Kate entrou na conversa.

— Vai, e é por isso que eu me arrependo de não ter entrado para a polícia. Com o meu estetoscópio, o máximo que posso fazer é asfixiar algum garoto ou garota que ouse ultrapassar limites. — Frannie apertou o nariz da filha.

— Legal! Eu também posso fazer isso?

Kyle irrompeu na cozinha. Estava vibrante pela sentença que a mãe tinha acabado de dizer.

— Não! — Cassandra respondeu. — Sua mãe está apenas brincando.

— Tia Q! — O garotinho loiro correu até a mais velha, que deixou Kate no chão para pegá-lo. — Eu posso ver o seu distintivo?

Quinn sorriu e se sentou em uma cadeira vazia da mesa, mostrando o objeto dourado e reluzente para o sobrinho, que o observava com os olhos brilhando. Ele adorava fazer perguntas sobre o cotidiano de um policial, e a tia estava pronta para responder qualquer coisa, ocultando as partes mais violentas.

Depois disso, as horas passaram rapidamente em um café da manhã divertido com conversas alegres, provocações entre as irmãs e gargalhadas altas. Quinn se sentia leve. Aquela era a sua família também.

Os gêmeos foram para a sala de estar após a detetive prometer que contaria uma história para ambos quando finalizasse a tarefa de ajudar Frannie e Cassandra com a limpeza da louça.

— Eu acho que vou contar para Audrey sobre Rachel. — Quinn comentou de repente, guardando o que restou das frutas e do suco na geladeira.

— Você tem certeza? Isso seria uma notícia intensa para a Audrey, e há sempre a possibilidade da Rachel ir embora novamente. — Frannie inquiriu.

— Infelizmente, eu a conheço. — Quinn se apoiou no balcão. — Cada emoção e sensação que ela sente eu consigo perceber. Eu percebia a tristeza e a raiva quando o senhor Schuester passava algum solo para Mercedes ou Santana. Ou quando Finn mentiu sobre a própria virgindade. Ela não contou para ninguém, mas eu percebi a infelicidade dela, assim como percebi todo o desânimo voltar depois de Audrey nascer. Os olhos dela nunca foram capazes de esconder aquilo que ela disfarçava com sorrisos. Isso é a única coisa que eu ainda admiro nela. — Respirou fundo. — Audrey pediu para desejar boa noite à Rachel ontem antes de dormir, e eu não consegui evitar a minha curiosidade em ouvir a conversa. Rachel tinha um tom tão amoroso e ao mesmo tempo tão partido que é impossível não perceber o seu arrependimento e o desejo de fazer parte da vida da nossa filha...

— Mas você sabe que ela procurou esse caminho, não sabe? — A pediatra interrompeu e ganhou um aceno afirmativo em resposta.

— Eu sei. E sei que eu jamais vou ser capaz de esquecer o que ela fez, mas se o coração dela estiver sendo sincero, Audrey merece saber que tem outra mãe caso algo aconteça comigo.

— Nada vai acontecer com você. — Frannie foi rápida em contestar, soltando um suspiro em seguida. — Você sabe que mamãe e eu conversamos com a Rachel quando fomos até a sua casa. Eu disse para ela seguir o próprio coração.

— Você disse isso? — Quinn ficou surpresa. — Eu achei que você a odiasse, exatamente como a mamãe odeia.

— A mamãe não a odeia. Ela só quer que a Rachel se afaste por temer que ela faça mal à Audrey ou a você e não vai aceitar tão bem a notícia de que talvez a veja participando da vida da neta novamente. E eu não a odeio, Lucy. Eu odeio o que ela fez. Você nunca foi feliz desde que engravidou de Beth, então se apaixonou pela Rachel e conheceu o amor, mas ele foi tirado de você por um erro que ela mesma cometeu. Eu odeio o quão baixa ela foi, mas não a pessoa que ela é. No fim das contas, ainda pode ter uma luz nisso tudo.

— Eu não acho isso. — Quinn negou com a cabeça. — Eu passei cinco anos com a Rachel e mais dois tentando esquecê-la, então ela volta e invade a minha vida outra vez. Está na hora de focar em outras coisas.

— Você quer dizer dar uma chance para a Hayden? Ela gosta de você.

— Eu não posso pensar nisso agora. Primeiro preciso pedir o divórcio.

— E você está pronta para isso? — Cassandra se pronunciou. — Quando Rachel foi embora, vocês ainda tinham uma ligação. O casamento. Não parece muito, mas é. É um pedaço de papel que une os seus sobrenomes e os seus bens materiais. Eles ligam vocês. O divórcio significa desatar todos esses laços definitivamente. Você está pronta para se ver divorciada? Está pronta para dizer no fundo dos olhos da Rachel que vocês nunca mais serão um casal? Nem em um papel e nem na vida?

Quinn achava que já havia passado por todas as fases possíveis de realidade. Primeiro a ficha caindo sobre a volta de Rachel e depois a determinação dela em reconquistar tudo o que abandonara. Mas a pergunta de Cassandra a fez se sentir novamente estática e sem saber ao certo o que responder. Estava machucada. Queria o divórcio. Não podia mais se ver atada à Rachel, contudo, teria força suficiente para liquidar qualquer esperança que ela achava ter em ser novamente a sua esposa em qualquer sentido que essa palavra se referisse?

Por fim, a detetive abriu um sorriso triste.

— Eu preciso tentar, não é? Eu preciso encontrar a minha felicidade.

— E se a Rachel for a sua felicidade? — Cassandra insistiu.

— Ela não pode ser, porque eu não me sinto mais feliz perto dela e duvido que isso voltaria.

— Você não pode ter tanta certeza, Quinn. Nós não podemos ter certeza sobre nada, porque a vida é sempre recheada com surpresas. Em que universo você se imaginaria apaixonada por Rachel Berry aos dezoito anos? Em que universo você se casaria com ela e teriam uma filha? Você não pode dizer que algo nunca vai acontecer. Talvez aconteça.

— Eu vou fazer não acontecer.

— Então você não a ama mais? — Frannie questionou, cruzando os braços.

— Há uma ponte que separa o amor da confiança. Eu não confio mais nela.

— Mas ainda ama?

— Isso não tem importância.

— Para mim tem.

— Isso não vai fazer diferença alguma.

— Claro que vai.

— Eu não quero responder.

— Ama ou não ama?

— Talvez sim! — Quinn elevou o tom de voz, mas se arrependeu logo depois. Seus sobrinhos estavam no cômodo ao lado. — Talvez sim, satisfeita?

— Muito. — Frannie se aproximou. — Porque isso prova que a sua história com ela ainda não tem um ponto final.

— Eu... eu não sei o que fazer. — Quinn fitou a irmã. Os olhos cheios de lágrimas. — Eu não a quero por perto, porque sinto o meu coração doer, mas ele também bate rápido quando ela sorri para Audrey. O que eu devo fazer?

Ela estava suplicante. Não aguentava mais sentir tantas emoções desenfreadas em ritmos incessantes. Dor, ressentimento, tristeza, melancolia e talvez, só talvez, um pouco de amor.

— Apenas dê um tempo, certo? A sua vida está uma bagunça, e você precisa reorganizá-la. Pela Audrey e pelo seu coração. Eu admiro a sua maturidade em enfrentar toda essa situação, mas, por enquanto, deixe o tempo passar. Se Rachel se mostrar alguém digna de ser apresentada para a filha, você saberá com toda a certeza. Sem dúvidas ou receios. — Frannie a abraçou.

Quinn não tardou em se encaixar no conforto que a mais velha podia proporcionar e sorriu, deixando algumas lágrimas escorrerem e molharem a camiseta de algodão dela. Não sabia qual o rumo certo que deveria escolher, mas sabia que, seja qual fosse, Frannie estaria lá, segurando-a quando caísse.

...

— Prometa que virá jantar conosco amanhã. Estou morrendo com a falta que sinto da Aud.

— Eu prometo. — A detetive abraçou a cunhada, repetindo o processo com a irmã. — Feliz Dia de Ação de Graças.

— Feliz Dia de Ação de Graças.

Quinn sorriu e se despediu dos sobrinhos antes de descer os poucos degraus da varanda, ouvindo a porta se fechar atrás dela. Ainda precisava preparar a torta de abóbora. Era a única receita que sabia fazer com maestria, quiçá perfeição, por ter aprendido com a sua avó alguns anos antes do seu falecimento. Adorava prepará-la, porque a fazia se lembrar da doçura que a idosa emanava. Com certeza ela seria apaixonada por Audrey se houvesse tido a chance de conhecê-la.

Com um sorriso nostálgico, a loira caminhou até o carro, mas estancou no caminho ao ver o corvo, ou melhor, Schatten, parado sobre o capô. A ave bicava as suas próprias penas escuras, mas parou o que fazia, pondo os seus olhos sobre a loira.

— Oh, Deus, o que você está fazendo aqui? — Quinn chegou mais perto do veículo. — É Dia de Ação de Graças. Não pode ir embora apenas hoje?

A cabeça de Schatten pendeu para o lado, como se estivesse confuso, e em seguida ele bateu as asas, mantendo o voo baixo o suficiente para Quinn vê-lo. A mesma cena que se repetiu duas vezes.

Ela respirou fundo e entrou no carro. Não poderia mandá-lo embora, então apenas pediu para que aquela surpresa repentina não acabasse com o feriado de todos ao seu redor.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Acho que estava na hora da Frannie e a sua família aparecerem um pouco mais. Gostaram disso? Me deem o feedback. Deixem suas opiniões e favoritem também. É sempre importante. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron