Almas Afins

14 Capítulo 14 - Tempestade...


Notas iniciais
Dia de capítulo! Espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

Rachel não sabia o que dizer. Se antes ela sentia que Quinn estava distante, então agora podia jurar que havia uma grande e indestrutível muralha entre elas. A loira mal a olhou ou tampouco iniciou algum assunto desde que chegaram em casa. Agora estava ali, sentada e em silêncio enquanto alimentava Audrey delicadamente.

O bolo de carne foi preparado por Brittany, que se mostrava sempre preocupada com a alimentação de Audrey e Quinn. Rachel achou adorável o afeto que a professora de dança emanava, mas se sentiu desconfortável, porque não sabia cozinhar tão bem a ponto de preparar um jantar digno de uma criança em desenvolvimento. No começo do casamento até o nascimento de Audrey, ambas sempre pediam comida em restaurantes diversos, então Rachel foi para Nova York dividir o apartamento com Kurt. Sua alimentação não mudou e contava sempre com as refeições veganas que eram entregues em Bushwick. Contudo, agora havia uma garotinha que precisava ser alimentada da melhor forma possível com proteínas e vitaminas. Ela precisava, mais do que nunca, aprender a cozinhar corretamente.

Audrey falava sobre seu o dia, animada com o que estava aprendendo. Seu mundo ganhava vida com as atividades que Hayden sempre colocava em prática, e Rachel não queria, mas tinha de admitir que a professora era boa no que fazia. Isso aumentava a sua insegurança, porque a cada vez que a filha mencionava Hayden com tanta euforia, ela sentia um belo e forte soco no estômago. Tinha medo. Quinn realmente poderia gostar da professora mais do que deveria.

Entretanto, a detetive correspondeu ao beijo trocado há alguns dias. Quase transaram. Isso poderia ser o fio de esperança que precisava. Rachel tinha certeza de que se Audrey não tivesse chamado-a, ambas passariam horas em uma redoma de prazer, suadas, enquanto passeavam os dedos nos corpos uma da outra até que o ápice chegasse. De novo, de novo, e de novo.

Quinn a desejava e aquilo já era algo grande. Algo maior do que esperava receber ao voltar.

Quando mãe e filha terminaram de comer, Rachel se encarregou de lavar as poucas louças enquanto a loira levava Audrey para o quarto. Ela não evitou sentir inveja com isso. Queria colocar a filha para dormir, contando histórias engraçadas e fantasiosas, mas não deveria. Quinn não gostaria.

O melhor a se fazer era respeitar e entender.

Audrey apoiou a cabeça no ombro da mãe. Estava com sono.

— Não quero escovar os dentes. — Ela murmurou.

— Você precisa, meu amor. — Quinn alisou as costas da filha suavemente, entrando no quarto dela logo depois.

— Mas eu com sono, mamãe. — Audrey bocejou.

— Eu sei que está, mas é necessário que você fique com a boca limpinha.

— O que é necessário?

— É algo que você não pode deixar de fazer. — A detetive chegou ao banheiro, pondo-a de pé sobre o banco na frente da pia. — Abra a boca. — Pediu.

A garotinha acatou o pedido, e Quinn passou a escovar os seus dentes delicadamente. Após terminar, Audrey cuspiu o excesso da espuma, repetindo o processo com um pouco de água dessa vez para se livrar dos vestígios.

— Deixe-me ver esses dentinhos.

Audrey sorriu ao ser pega novamente, mostrando todos eles, e Quinn espelhou o sorriso dela, beijando a ponta do seu nariz. Ela não evitou pensar quando começassem a cair. A filha provavelmente correria para contar à Blanca.

Depois de colocá-la na cama e cobri-la com a grossa coberta, a loira se sentou na borda do colchão.

— Eu amo muito você.

— Eu também te amo, mamãe. — A garotinha bocejou novamente.

Quinn sorriu com amor e a beijou na testa.

— Boa noite, meu amor.

— Boa noite, mamãe.

A detetive levantou da cama e caminhou até a porta, mas o chamado da filha a fez se virar.

— Eu posso dar boa noite pra Reichel?

O questionamento tímido da pequenina a atingiu em cheio, fazendo com que se desse conta da situação como um todo pela primeira vez. Audrey estava se acostumando com a presença de Rachel e isso não era bom. Cada minuto em que a judia permanecesse perto, era um minuto a mais para Audrey achar normal a convivência entre ambas.

E Quinn não queria que isso acontecesse.

— Eu... — A loira engoliu o nó repentino na garganta. — Acho que ela está um pouco ocupada agora, meu amor.

— Por favor, mamãe.

Como negar o pedido da garotinha? Como dizer não para algo que parecia tão simples quando na verdade não era? Audrey queria desejar boa noite para a amiga da sua mãe. Parecia normal para ela, mas era errado. Rachel era a sua outra mãe. A mãe que abandonou a própria filha.

Por fim, Quinn assentiu, mesmo sabendo que a mais nova não veria.

— Eu vou chamá-la. — Foi a única coisa que disse, tentando soar como se não estivesse sentindo uma bigorna presa no seu esôfago.

Rachel estava na sala de estar. Os olhos perdidos no canal de culinária quando Quinn adentrou o cômodo com uma expressão pensativa e dolorosa. A morena se preocupou.

— Quinn... o que...

— Audrey quer desejar boa noite. — Foi direta.

Demorou cerca de trinta segundos para a judia processar as palavras da esposa e menos de dez para abrir um sorriso. Um sorriso carregado de amor e felicidade. Audrey queria vê-la. Queria desejar boa noite. A sua garotinha pediu isso.

Ela então levantou do sofá como um raio, indo rapidamente para o quarto da filha enquanto Quinn se sentava na poltrona na lateral da sala e apoiava as mãos no rosto.

Audrey estava quase ressonando, mas abriu os olhos quando ouviu a porta sendo aberta. Rachel entrou sem retirar o sorriso do rosto. Era o modo de mostrar a sua felicidade, porque estava feliz. Muito feliz. Depois de todo o ocorrido do dia e de toda a tensão que sofreu, receber aquele pedido de Audrey era como um arco-íris depois de uma tempestade. Belo e apaziguador.

— Eu soube que uma princesinha queria me ver. — Ela se aproximou, sentando na cama.

A garotinha sorriu.

— A mamãe sempre me chama de princesa.

— Isso é porque você é uma princesa. — A atriz pôs a mão cuidadosamente no rosto pálido, sentindo a maciez contra os seus dedos. — A mais linda de todas.

— Você vai ser a professora de música da escola?

— Sim, eu vou. Você gostou de saber disso? — Rachel estava curiosa.

A filha maneou a cabeça concordando e continuou os questionamentos.

— Você sabe tocar aquela coisa que os meus vovôs tocam pra mim?

— Você quer dizer o piano? — A judia ainda afagava lentamente a face delicada.

Ah-hã.

— Eu sei sim.

— Você pode me ensinar, Reichel?

— É claro que eu posso.

Audrey levantou os braços em comemoração, animada e querendo falar a novidade para Blanca o mais rápido possível.

— Você é legal, Reichel.

— Você realmente me acha legal? — A judia não queria, mas sentiu os olhos marejados. A sua filha era muito inteligente e tinha uma capacidade enorme de se expressar adequadamente, e ela sentia tanto amor que não evitou deixar a água salgada escorrer no seu rosto. Mal podia discernir o tamanho do seu arrependimento naquele instante.

Audrey assentiu, fechando os olhos ao se deixar vencer pelo sono. Rachel soube que era a hora de deixá-la dormir, então ajustou a coberta sobre ela.

— Amanhã nós podemos conversar mais sobre isso. Boa noite, meu bebê.

— Boa... — A garotinha bocejou novamente. — Noite. — Se remexeu, deitando de lado.

Rachel se aproximou e beijou a cabeça da filha demoradamente, saindo do quarto logo depois.

Ela encontrou Quinn sentada no carpete da sala com as costas apoiadas no sofá. Lágrimas caíam depressa dos seus olhos, assim como as suas, e soube então que a esposa havia escutado toda a conversa que tivera com Audrey. Lentamente, se sentou ao lado dela, e ambas permaneceram em silêncio, chorando simultaneamente. Era uma cena triste. Como um cristal valioso quebrado.

Foi a detetive quem iniciou a conversa, surpreendendo a judia.

— Era para ser algo do nosso cotidiano. Nós duas colocarmos Audrey na cama e desejarmos boa noite.

Rachel assentiu enquanto soluçava. Era para ser algo normal, típico de uma família feliz. Mas não era, porque ela jogou isso fora, assim como jogou fora muitas outras coisas.

— Eu me arrependo tanto. — A voz da morena era sôfrega. — E dói tanto.

Quinn não respondeu. Doía ver alguém chorar. Doía ainda mais se esse alguém fosse Rachel. Isso nunca sairia dela. O incômodo de ver uma pessoa importante na sua vida desmoronar na sua frente, por isso sempre foi tão afetuosa com David quando o amigo desabava em alguma recaída emocional. Quinn o entendia. Entendia sua dor.

E Quinn entendia a dor de Rachel. Por mais impossível que pudesse ser, ela sabia que doeu para a judia ter deixado-as. Ela entendia, porque se a situação fosse o contrário, sentiria o mesmo arrependimento e a mesma sensação corrosiva, fazendo com que se lembrasse de forma incansável sobre o seu ato estúpido que não poderia ser reparado. A morena nunca foi uma má pessoa e talvez por isso chocou tanto as pessoas de Lima quando descobriram sobre o abandono, porém todas as escolhas implicam em perdas. Não há como conseguir algo completamente, e entre a família e o estrelato, Rachel escolheu a Broadway, mas a dor da perda foi tão imensurável que ela agora sentia todas as consequências de ter optado por isso.

E ela sentia tudo ao mesmo tempo.

Sentia ao olhar nos olhos de Quinn e não ver mais o brilho de amor e admiração que recebia desde o início do namoro, sentia a barreira que as separava, sentia o desconhecimento da filha sobre a sua verdadeira identidade e sentia o desprezo de todos ao seu redor. Todos esses fatores a destruíam. Destruíam como marretadas sobre a sua cabeça.

E Quinn entendia toda essa dor. Ela apenas não conseguia esquecer a escolha feita há dois anos. Não conseguia esquecer como Rachel teve coragem de sair pela porta com a sua mala, deixando para trás a sua filha de um ano.

Quinn não conseguia esquecer como Rachel abandonou o seu coração.

— Talvez tenha sido melhor assim. — A detetive fungou. — Talvez nós não fôssemos predestinadas uma à outra. Talvez aquele site que mostrava o interesse da Broadway por uma Fanny Brice tenha aparecido como um aviso do destino de que não daríamos certo. Talvez não sejamos mesmo almas afins como Santana dizia quando nos casamos. Nós nos encontramos, nos apaixonamos, mas não ficamos juntas.

— Isso não é verdade. — A voz rouca e trêmula da atriz afirmou sem hesitação. — Nós fomos felizes por cinco anos. Se tivéssemos de acabar, teria sido na escola quando alguns obstáculos apareceram. Os alunos, a sociedade. Mas nós aguentamos firmes e juntas. — Buscou a mão da esposa, segurando-a firmemente. — Não deixe um erro meu se tornar algo predestinado.

Quinn observou aquele contraste. O contraste que adorava. A cor da pele de Rachel sempre foi encantadora e combinava com a sua. Eram um contraste bonito, todos diziam. Mas aquele contraste já não fazia mais parte da sua vida.

Ela não a repeliu e manteve as mãos unidas. Aquele não era um momento para a raiva sobressair.

— Mas ele estava predestinado, Rachel. — Quinn replicou e encarou os olhos vermelhos da mais baixa. — Quando eu entrei naquele mesmo site dias depois de você ter partido, o post da Broadway havia sido apagado. Foi tudo uma obra do destino. Um aviso de que nós não teríamos um final feliz.

— Nós podemos ter um final feliz. Eu só desejo. Eu só suplico. — Rachel apertou a mão da loira. — Eu só quero que você me dê uma última chance. A chance de permitir que eu faça parte da sua vida novamente. Eu não vou embora novamente. O que quer que eu diga para você acreditar?

— Nada. — Quinn respondeu com a voz fraca. — Talvez eu acredite em você, Rachel. Talvez depois de ter visto o seu momento com a Audrey, eu acredite que você queira fazer parte da vida dela. Eu só não esqueço do que você fez. Eu não esqueço porque dói. E dói muito. — Fechou os olhos com força.

— Me deixe tirar essa dor de você. — A morena chegou mais perto, segurando o rosto da mais alta com força e colando ambas as testas. — Me deixe consertar tudo.

Quinn continuou com os olhos fechados, tentando controlar o choro que saía livre sem a mínima vergonha e sentindo o toque quente da esposa na sua pele.

— Essa dor nunca vai parar, Rachel. — Ela finalmente encarou os olhos castanhos. Tão próximos e tão recheados de dor. Iguais aos seus. — Essa dor nunca vai embora porque eu nunca vou ser capaz de esquecer o que você fez. — Tomou uma longa respiração. — Mas nós podemos tentar uma amizade aos poucos, e você pode tentar encontrar uma casa nesse bairro. Se tudo ocorrer bem, podemos contar à Audrey que você é a outra mãe dela, mas não vamos dizer nada sobre o abandono. Ela não merece crescer com essa decepção. E depois... — Reuniu forças, quebrando o contato físico com a morena. — Depois iremos nos divorciar.

— Você não pode fazer isso. — Rachel intensificou o pranto, se sentindo terrivelmente estilhaçada e dolorida. — Você não pode afirmar que essa dor não vai passar se não permitir que eu conserte as coisas. Se não se permitir se abrir para mim.

— Eu já me abri para você uma vez, Rachel. — Quinn respondeu. — Eu me abri quando chorei pela primeira vez nos seus braços pela dor de perder Beth, quando me permiti ser sua amiga e quando me declarei para você. Eu me abri porque diante de tantas decepções, eu achei que você não seria uma, mas você foi a pior delas.

Rachel não foi capaz de responder. Seu corpo tremia pelo choro forte, e Quinn permaneceu no mesmo lugar. Ela também chorava e não queria esconder as dores que sentia. Uma parte do seu coração estava faltando, e a sua cicatriz interna se abrindo novamente.

Era a primeira vez que ambas ficavam lado a lado desde a volta de Rachel.

— Iria adiantar alguma coisa se eu falasse que ninguém nesse mundo pode amar tanto alguém como eu amo você?

Quinn fitou a esposa, enxugando o rosto encharcado com as costas da mão. Rachel estava encolhida. As pernas dobradas contra o peito. Tão frágil.

— Não. Não iria adiantar.

A resposta foi sincera e já era esperada, mas cortou a morena ao meio da mesma forma. O arco-íris havia ido embora, e as nuvens cinzas voltado, trazendo novamente a tempestade.

Mas essa tempestade Rachel não sabia se conseguiria atravessar.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Me deem os feedbacks, favoritem e comentem suas opiniões. É muito importante. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron