Almas Afins

13 Capítulo 13 - Schatten...


Notas iniciais
Dia de capítulo! Espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

Não foi difícil acompanhar o corvo, que mantinha uma velocidade constante e tranquila. O sol parecia um algoz, castigando Lima com um calor excruciante e fazendo Quinn retirar a jaqueta, ficando apenas com a camiseta azul de mangas curtas.

Quando já estavam próximos de cruzar a placa de saída da cidade, a ave virou à esquerda, adentrando a floresta.

David parou o carro no acostamento, e os três saíram.

— David, fique aqui. Santana e eu vamos ver até onde ele quer nos levar. Se precisarmos, iremos ligar ou mandar uma mensagem. — Quinn disse, mas não esperou uma resposta e se pôs a caminhar.

No entanto, Santana a segurou.

— Você quer mesmo entrar nessa floresta? E se esse corvo estiver nos levando para o assassino?

— Está com medo?

— Estou, mas estou com medo de deixar a minha filha órfã de uma mãe.

— Então faça companhia para David. Eu vou sozinha. — A loira foi firme, se soltando do aperto da amiga e andando até sumir por entre as árvores.

A temperatura subia à medida em que os segundos passavam, causando uma fina camada de suor na sua testa, e as copas das árvores eram altas e próximas uma das outras. O corvo permaneceu voando de galho em galho, e ela o olhava para garantir que estava indo para o lugar certo, mas sobressaltou ao sentir uma mão no seu ombro, se virando bruscamente pronta para avançar em quem a tocou.

— Calma aí. Somos nós.

Quinn revirou os olhos colocou a mão sobre o peito na tentativa de normalizar os batimentos cardíacos.

David olhava para o corvo um pouco distante enquanto a sua cabeça martelava em pensamentos, desde o fato da ave ajudar na procura por pistas até o quanto ele parecia sempre direcionar olhares para Quinn.

— Por que decidiram vir?

— Karofsky não ficaria no carro nem se os federais ordenassem. Ele está com esse fetiche estranho sobre o corvo.

— Não é fetiche. — Ele se defendeu. — Eu só acho essa história fascinante e curiosa. Vocês não?

— Que seja. — A latina deu de ombros. — Eu vim porque se algo acontecer com vocês, não quero me sentir culpada sabendo que poderia ter feito alguma coisa. Mas se eu perder esse emprego...

— Você já disse isso. — Quinn interrompeu a amiga. — E você não vai perdê-lo. Se Warren descobrir sobre o corvo, eu não vou inclui-los nisso.

Santana abriu a boca para retorquir. Ela tinha medo de ficar desempregada. Só Deus sabe como era difícil ser detetive em Lima, mas não deixaria a loira ser a responsável por tudo. No entanto, um barulho chamou a atenção dos três.

Quinn afastou alguns galhos e sacou a arma, pronta para qualquer situação emergencial, mas a única coisa que havia mais adiante era um trailer velho e com uma pintura extremamente colorida.

O corvo estava parado no teto do veículo.

— Ela deve estar aí dentro. — David comentou.

Quinn assentiu e se aproximou da porta de metal ao lado de Santana, batendo com força algumas vezes.

Silêncio.

Não havia barulho de movimentos. Apenas o som incessante e desagradável de insetos que predominavam a floresta.

A latina revirou os olhos e se afastou para olhar através das janelas. Duas pessoas estavam deitadas no chão. Quinn também os fitou.

— Quer que eu arrombe a porta? Eles podem estar mortos.

A loira pensou por alguns segundos. Não possuíam mandado algum, mas não podiam retornar. Eles realmente poderiam estar mortos. Por fim, ela assentiu.

O barulho causando quando o chute atingiu a porta e o trinco se rompeu poderia ter acordado as duas pessoas desacordadas no chão do trailer, mas Quinn constatou que eles não se mexeram ao entrar no local com a amiga no seu encalço.

O cheiro forte de metanfetamina adentrou rapidamente a narina de ambas, fazendo com que tossissem um pouco e cobrissem os narizes com as camisetas.

— Como alguém consegue ficar trancado aqui dentro com esse cheiro?

A loira não respondeu. Estava pensando a mesma coisa, mas não perdeu tempo divagando e foi até os dois corpos no chão, conferindo os seus pulsos.

— Eles estão vivos. Devem ter fabricado a noite toda e agora estão exaustos. — Disse.

Havia equipamentos para a fabricação do cristal, e a bandeja com a grande quantidade de pedras transparentes denunciavam a recente preparação. A garota que tinham visto na foto horas mais cedo foi a primeira a ser reconhecida, ainda que estivesse trajando um macacão amarelo. A máscara que deveria utilizar para fabricar os cristais descansava ao seu lado. O rapaz jovem que dividia o minúsculo espaço com ela estava vestido com as mesmas roupas.

— Vamos ligar para a delegacia. Os policiais precisam recolher as provas do tráfico. Essa não é nossa área. Só precisamos do depoimento dela.

Quinn concordou e saiu do trailer, fitando o corvo, que ainda estava no mesmo lugar, enquanto um sorriso pequeno nascia nos seus lábios. Um sorriso agradecido.

— Schatten. — David disse, parando ao lado da amiga.

— O quê?

— Schatten. — Ele repetiu. — É sombra em alemão. Eu li em um livro na faculdade certa vez e acho que combina com ele ou ela. É unissex. — Deu de ombros.

Quinn encarou a ave novamente, observando-a sair de onde estava e sumir das suas vistas ao sobrevoar toda a floresta.

— Schatten.

...

Quinn se jogou na cadeira giratória e massageou as têmporas. A garota, que agora sabia se chamar Cheryl Crawford, não havia dito algo que pudesse ajudá-la a solucionar o assassinato brutal.

Cheryl era, de fato, a namorada de Zach, mas tinha liquidado o relacionamento há duas semanas e nunca mais o viu. De qualquer forma, ainda permaneceria presa por tráfico de cristal.

Santana analisava novamente o quadro e ligou o nome da vítima com o de Cheryl, dando início ao que se parecia um organograma. Ela queria ligar mais pontos, mas não existia outros. Até então isso era a única coisa que possuíam.

E não era nem mesmo uma grande descoberta.

— Bom... — David se pronunciou. — Ela passou o nome de todos os amigos mais próximos dele. Talvez um deles saiba algo. Algum inimigo que desejava muito a morte do Zach.

— E o que vamos fazer enquanto isso? Permanecer aqui de braços cruzados? — Santana indagou.

— Acho que isso é o que podem e devem fazer no momento. — A voz desagradável e prepotente ecoou no ambiente.

A jaqueta de couro caía bem no corpo definido, assim como a calça justa. Quinn tinha certeza de que nunca odiou tanto uma presença em toda a sua vida.

— O que você quer, Joshua? — Santana inquiriu. O tom levemente raivoso ao vê-lo.

— Você não deveria falar assim comigo, Lopez. O meu pai saiu, então eu estou encarregado de cuidar de alguns papéis importantes para ele.

— Era só o que me faltava. — Quinn murmurou.

Warren era mais do que o chefe do Departamento de Polícia. Ele era gentil e complacente, mas isso também podia ser um conjunto de defeitos, porque o impedia de ver que Joshua era apenas um homem imaturo e arrogante. Quinn ainda se surpreendia em como um dia pudera ser amiga dele. Após se graduar na universidade de direito, ela, juntamente com Santana, iniciou o treinamento para a polícia. Joshua estava lá também, e a amizade iniciou gradativamente, porém acabou quando ambas conseguiram passar para a próxima fase e ele não, ganhando de presente uma bela fratura no joelho que o impedia de fazer tantos movimentos. O seu ego altamente inflado não aceitou ser superado por duas mulheres que haviam se formado em uma universidade pública, enquanto ele estudara em YALE. E mais do que isso, não suportou o fato de não poder tentar outra vez por causa do trauma físico.

Desde então, ele atuava apenas como advogado, mas sempre se mantinha por perto. E Quinn o odiava, porque Joshua era um completo babaca.

— E então? O que descobriram? — Ele se aproximou do agora organograma.

— Não é da sua conta. — Quinn foi cortante.

O sorriso de Joshia vacilou, mas ele o alargou, se virando para encarar a loira.

— Você acha que eu não sei do que está acontecendo? — Ele olhou novamente para o objeto, analisando o nome de Cheryl. — Parece que vocês acharam a senhorita Crawford rápido demais, não acham?

— Do que está falando? — A loira sentiu o corpo tensionar. Santana se levantou do sofá de dois lugares, entrando em alerta.

— O meu pai me disse que estavam procurando a namorada da vítima, então a Fabray retorna hoje e nessa mesma manhã vocês voltam justamente com ela. Estranho, não?

— Eu não acho estranho. — Quinn não pestanejava, caminhando até ele para que pudesse encará-lo. — Detetives com um pouco de experiência conseguem fazer contatos nas ruas. Pessoas que eles salvaram e que podem retribuir a ajuda. Você sabe como é isso?

O tom provocativo no final da sentença fez a expressão do homem se contorcer em uma raiva latente, evidenciando o seu desagrado. Ele não era detetive como queria. Quinn era. Ela havia conseguido. Ele não.

— É melhor você ter noção do que diz, Fabray. Essa atitude foi um strike. Não aja como se fosse superior, porque você não é.

— Eu posso não ser, mas já prendi inúmeros bandidos. Warren não arriscaria me demitir. — Quinn devolveu o olhar irado. — E se você jogar novamente essas acusações malucas e sem nenhum tipo de prova formal, eu vou ser obrigada a agir judicialmente.

— Você pode tentar. O meu pai não deve demorar muito para se aposentar, e então eu vou garantir que o sucessor dele seja alguém apto a me fornecer favores. — Joshua sorriu outra vez. — Não faça isso outra vez. Não queremos ninguém aqui desconfiando do seu caráter inabalável.

Ele se foi rapidamente depois disso, não dando a oportunidade de Quinn rebatê-lo. Mas ela não queria rebatê-lo verbalmente e sim acertando-o com socos incessantemente até que pudesse fazê-lo ter algum tipo de caráter.

— Eu quero acabar com esse filho da puta idiota e mimado! — Santana bateu as mãos em punhos na mesa.

— Acha que ele pode fazer algo conosco? — David inquiriu receoso, ignorando os xingamentos que a amiga ainda soltava.

— Sem provas? Claro que não. — Quinn respondeu. — Não vamos pensar nisso. Não agora. Há coisas mais importantes para discutirmos que não seja o imbecil do Joshua.

Ambos assentiram e novamente iniciaram a análise minuciosa do organograma.

...

Finalmente não estava atrasada. O sol ainda estava se pondo quando parou na frente da sala de aula de Audrey e agachou, chamando-a.

— Mamãe! — A garotinha usou o bastão para chegar até a mais velha, que esperou pacientemente enquanto exibia um sorriso orgulhoso e amoroso.

Quando o corpinho pequeno se chocou contra o seu, Quinn se permitiu suspirar, sentindo toda a tensão do dia se esvair aos poucos. Audrey sempre seria capaz de acalmar a sua tempestade interna e acalmá-la.

A garotinha engatou em uma narração eufórica sobre o que havia feito no dia, e Quinn prestava atenção enquanto enchia a testa dela de beijos carinhosos. Ela quase começou a falar sobre as aulas com argila se não fosse pelo garotinho gritando o seu nome e fazendo-a se afastar da mãe para ir até ele, caminhando lentamente no piso emborrachado.

— Quinn. — Hayden se aproximou e seu sorriso morreu assim que percebeu o hematoma na lateral do rosto da loira. — O que houve com você? — Pôs a mão suavemente sobre a pele pálida.

A detetive sentiu o rosto corar parcialmente pelo toque repentino, mas não a repeliu.

— Alguns idiotas de uma gangue. Eu já estou bem. — Ela sorriu simpática.

— Foi por isso que não veio buscar Audrey nesses dois dias?

Quinn aquiesceu e só então reparou em outro hematoma, que diferente da sua, parecia bastante recente no braço da mulher.

— O que aconteceu?

— Nada demais. — Hayden tentou desconversar.

— Não, Hayden. Isso são dedos. Quem fez isso? — Quinn segurou delicadamente no braço da professora. Estava preocupada.

— Eu fiz. — A voz inconfundível e melodiosa se fez presente no local.

Rachel se aproximou. A bolsa sobre o ombro.

— Você... você fez isso? — Quinn tentava entender. O rosto contorcido em confusão.

— Nós discutimos e nos excedemos, não é Hayden? — A judia fitou a mulher.

A professora maneou a cabeça em concordância, forçando um sorriso.

— Foi algo impensado, Quinn. Não deveria ter acontecido.

— Você não devia ter feito isso, Rachel. — A detetive tentou manter a voz calma. — E o que está fazendo aqui?

— Eu trabalho aqui. Estou dando aulas de piano para as crianças. — O tom da atriz saiu doce ao ser direcionado para a esposa.

Quinn ainda estava atordoada. Eram informações novas vindas rapidamente em um intervalo de tempo pequeno. Queria questionar mais sobre o que aconteceu, contudo, Audrey retornou, afirmando estar cansada. Ela então se virou para se despedir da professora, que fez questão de beijá-la na bochecha demoradamente.

O ato foi acertado em cheio na judia, que respirou tão profundamente que sentiu os pulmões doerem pela força usada. Queria puxá-la para longe de Quinn, mas não o fez. Não podia. Infelizmente.

— A Reichel vai com a gente? — Audrey perguntou.

— É claro que eu vou. — Rachel respondeu. — E então nós podemos conversar sobre músicas, o que acha?

— Eu gosto de músicas.

A morena sorriu com amor. O ciúme e a raiva indo embora aos poucos.

Quinn sentiu desconfortável, porque conseguia perceber a corrente de tensão que emanava entre as duas mulheres e porque não gostava de ver como Audrey parecia gostar de Rachel. Elas são mãe e filha, sua mente gritava. Mas ela ignorava. Ignorava porque não queria pensar nisso. Audrey era apenas sua.

— Vamos? — A atriz inquiriu, e Quinn assentiu, saindo da sala de aula com a filha nos braços.

Rachel caminhou ao lado da esposa e da filha, mas virou a cabeça, sorrindo para Hayden. Um sorriso convencido e que parecia evidenciar que o assunto entre elas ainda não havia acabado.

Isso fez Hayden sentir raiva.

Notas finais
E as provocações entre Rachel e Hayden continuam. Estão gostando? Me digam. Eu preciso saber. Me deem o feedback, expondo suas opiniões. Favoritem também. É sempre importante para a história. Amanhã teremos mais uma aventura sendo postada aqui, e eu espero muito receber o apoio de vocês. É isso. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron