Almas Afins

1 Capítulo 1 - De volta...


Notas iniciais
Eu realmente espero que vocês gostem dessa nova aventura. Não será G!P, e eu estou adorando escrevê-la. Tenho ótimas ideias para o enredo. Desculpem-me se houver algum erro e boa leitura. =D

Era o terceiro copo de café. Talvez o quarto. Quinn não saberia dizer.

O líquido descia pela sua garganta, causando uma sensação de eletricidade e um calor interno satisfatório. O vício pela bebida havia sido adquirido após começar a trabalhar como detetive.

Ela odiava café. Se lembrava nitidamente de ver a sua esposa degustando daquilo diariamente enquanto assistia alguma performance da Broadway no laptop, mas a loira nunca tomou mais do que uma xícara por semana.

E então, depois de se graduar em direito e se sentir pronta para entrar na polícia, as tensões começaram. Isso só piorou quando conseguiu passar no concurso interno do departamento, se tornando uma das melhores detetives de Ohio.

Mas Quinn não poderia reclamar disso. Era algo que seu pai e avô fizeram, então não faria diferente. Adorava ouvir as histórias de Russel ao lado da sua irmã mais velha, Frannie, quando eram crianças. A adrenalina de resolver casos complicados e o mérito que obtinha depois de feito. Tudo conquistou o coração da jovem de olhos verdes.

Judy sempre repreendia o marido por contar tais coisas às suas garotinhas, mas ele não conseguia se manter quieto e sempre falava mais e mais ao ver o brilho admirado nas íris encantadoras das suas filhas, especialmente na sua caçula.

Frannie não seguiu os passos do pai. Se formou em medicina e era a melhor pediatra que já havia conhecido. Quinn não achava isso apenas por se tratar da sua irmã. Era a mais pura verdade. Ela casou com uma mulher incrível chamada Cassandra, que também se formou em medicina, optando apenas por se tornar obstetra, e juntas possuíam um casal de gêmeos. Kate e Kyle.

Às vezes sentia inveja da irmã. Sempre via o amor que Cassandra sentia apenas pelo olhar direcionado à Frannie. Era algo que doía dentro dela. Doía porque já havia sentido um olhar assim, mas que tinha acabado há dois anos. Entretanto, ainda havia alguém que a tirava de órbita.

Audrey.

Sua garotinha.

Quinn fitou o porta-retratos sobre a sua mesa e sorriu com amor.

A fotografia havia capturado com perfeição a felicidade da sua filha, que ria enquanto era erguida pela mãe. Os cabelos pretos voejavam devido à brisa fresca do parque, e a pele pálida era realçada pelos raios de sol que as cobriam. A semelhança entre elas era nítida, em razão do doador anônimo ser tão parecido com Quinn, mas também havia os traços da outra mãe, como as madeixas e o temperamento impulsivo.

Quinn suspirou pesadamente e tomou outro gole do café que já esfriava.

— Você pode morrer por tomar tanto café. — A voz da sua melhor amiga e parceira de trabalho adentrou os seus ouvidos.

Quinn se virou na cadeira giratória, observando Santana de braços cruzados.

— Não é um simples café que vai me derrubar, Santana.

— Espero mesmo. — Ela se aproximou, descruzando os braços. — Ou Audrey vai ficar órfã de outra mãe.

— Audrey não é órfã, porque a única mãe dela sou eu. — A loira retorquiu de imediato.

— Claro. Foi você quem fez a inseminação e esperou nove meses para expelir a garota. — A latina revirou os olhos e se jogou no sofá de dois lugares na lateral da sala.

— Eu faria isso no lugar dela se soubesse o que aconteceria, assim Aud seria apenas a minha filha.

— Eu espero mesmo que ela nunca apareça aqui, ou vai acabar sendo morta. Então você finalmente se tornará viúva. — Santana bocejou. Estava com sono. O trabalho a deixava exausta.

— Ela não é minha esposa. — Quinn bufou. — E eu não cometeria um assassinato.

— Oh, Sherlock, então vocês se divorciaram? Porque eu não me lembro disso. Aquela megera sem coração partiu sem nem ao menos entrar com o pedido, então tecnicamente vocês ainda são duas pombinhas. — A latina respondeu sarcástica. — E eu estou falando de mim. Eu a mataria sem dó. O que ela fez foi desumano. E não esqueça que eu tenho licença para matar, assim como você.

— Apenas em casos de legítima defesa. — Quinn corrigiu. — E nós somos casadas apenas no papel. Agora podemos parar de falar sobre ela? Você sempre volta nesse mesmo assunto. — Estava começando a se irritar.

— Tudo bem. — Santana levantou as mãos em rendição. — Você sabe que o Dia de Ação de Graças está chegando, então eu pensei que vocês pudessem ir para a minha casa. Britt está animada com o feriado, e Blanca é a melhor amiga da Aud. Podemos passar todos em família. Dave também irá com Thomas. — Sorriu.

— Eu não sei. Você sabe que mamãe e papai estão há meses pedindo para que eu vá ficar com eles.

— Mas você já foi no ano passado, e é sempre o mesmo ciclo. Kate e Kyle já estão com seis anos, e Audrey se aborrece porque não pode participar das brincadeiras e dorme cedo, então as suas lembranças voltam sempre que Frannie e Cassandra iniciam os afetos melosos, o que resulta em você levando a Aud para a minha casa. Ela dorme no quarto da Blanca, e Britt e eu ficamos até a madrugada ouvindo as suas amarguras.

Quinn suspirou. Santana estava certa. Ela amava a sua família, mas sabia que não se sentiria completamente bem na casa dos pais. Todos sempre tentavam agir da melhor maneira possível. E até conseguiam, até Judy distribuir algum olhar de complacência na sua direção. Ainda que não fosse proposital, não amenizava o seu constrangimento. Até mesmo a filha se divertia mais na residência das Pierce-Lopez. Blanca era uma ótima amiga e nunca se importou com a deficiência de Audrey. Sempre encontrava alguma brincadeira para que pudessem fazer juntas.

— Tudo bem. — Quinn aquiesceu. — Nós passaremos O Dia de Ação de Graças com vocês. No Natal, podemos ir para a mansão Fabray. — Sorriu.

— Ótimo! — Santana bateu as mãos animada. — Blanca vai adorar saber disso.

Quinn riu pela euforia da amiga, mas a sua atenção logo foi desviada quando David adentrou a sala, chamando-as para averiguarem outro caso importante.

O dia estava apenas começando.

...

O carro preto parou em frente à escola primária, e Quinn saltou para fora, adentrando o local rapidamente.

Estava atrasada e odiava fazer a sua filha esperar.

Seus olhos captaram a figura pequena batendo o pé com os braços cruzados na entrada da sala de aula. A professora permanecia ao lado dela segurando a lancheira em uma mão e a mochila vermelha na outra.

Quinn se aproximou da menor, que ouviu os seus passos e ergueu a cabeça, sabendo que a mãe havia chegado.

— Você demorou, mamãe. — Audrey grunhiu aborrecida.

— Me desculpe, amor. Eu fiquei presa no trabalho. Tentei sair antes, mas não pude. — A detetive se curvou, puxando-a para um abraço apertado.

Audrey ainda pronunciou algo inaudível, mas espalmou as mãos pequenas no rosto da mãe enquanto exibia um sorriso. Quinn fechou os olhos, deixando a filha conhecê-la através do tato. Embora soubesse perfeitamente os traços do rosto da loira, a garotinha fazia isso todos os dias, como uma maneira de sempre manter os detalhes vívidos na sua memória.

Era aquela sensação que fazia Quinn se sentir feliz. O corpo da filha junto ao seu. O afeto desmedido. Seu coração batia rápido de tanto amor, e ela sabia que poderia segurar Audrey assim para sempre. E o faria. Tinha certeza de que a embalaria nos braços até mesmo quando a filha já estivesse adulta. Ainda seria a sua garotinha.

— Eu senti saudade. — Quinn a beijou na testa.

— Eu também senti, mamãe. — A pequenina tocou no nariz delicado da mais velha antes de plantar um beijo no local. — Hoje eu aprendi formas geo... — Fez uma pausa, tentando lembrar o nome.

— Geométricas. Conhecer formas geométricas com as mãos é ótimo. — A professora corrigiu suavemente, e Quinn finalmente saiu da bolha em que estava com a filha para fitar a mulher.

Hayden Fairbanks era jovem, mas muito requisitada nas instituições de ensino, principalmente pela sua capacidade de percepção para a sensibilidade de cada aluno e a facilidade em ganhar a confiança dos pequeninos que possuíam a mesma deficiência de Audrey. Introduzir crianças cegas ao mundo educativo era uma tarefa árdua. Quinn estudou e ouviu inúmeras explicações da oftalmologista responsável pelo caso da filha para que pudesse aprender tudo sobre aquele novo cotidiano. Eram novos métodos. Novas rotinas. Tudo era diferente, mas depois de meses e com o auxílio da família e dos amigos, ela enfim teve a confiança necessária para matricular a garotinha em uma escola com salas de aula especiais quando Audrey chegou aos três anos. O ensino deveria começar desde cedo para que ela pudesse se acostumar facilmente, e Quinn se sentiu extremamente bem quando a filha adorou a sua professora.

Audrey tornou a falar.

— É! E eu andei sozinha com o bastão. Não é legal, mamãe?

— É muito legal, meu amor! — Quinn respondeu animada. — O que acha de irmos para casa? Você pode me contar tudo quando chegarmos.

A menor assentiu ainda contente, e Quinn beijou as suas bochechas, pegando a mochila e passando-a pelo seu braço enquanto mantinha a filha no outro.

— Eu posso levar. Vamos na mesma direção. Estávamos só esperando você. — Hayden se prontificou em levar a lancheira.

Quinn concordou.

— Eu sinto muito pela demora. Não foi fácil sair da delegacia, e eu sei como você deve estar louca para ir descansar desse dia exaustivo. — A loira sorriu, levemente constrangida.

— Não se preocupe. O meu trabalho não é nada comparado ao seu.

— É claro que é. Você consegue ensinar crianças especiais tudo o que elas precisam saber.

— Essas crianças são muito inteligentes. — Hayden respondeu com a voz doce, sorrindo para Audrey, que mantinha a cabeça apoiada no ombro da mãe e brincava com a gola da jaqueta dela. — Audrey aprende tudo muito rápido. Acho que a inteligência é de família. — Fitou a loira.

Mesmo não sendo nada demais, Quinn não evitou corar com o elogio. Hayden era belíssima. Isso era inegável. Os cabelos pintados de um loiro claro eram curtos e tinham algumas ondulações, combinando com a pele marmórea. A detetive sabia qual era a tonalidade natural, porque via a mulher diariamente há meses. Era castanho e igualmente bonito, da mesma cor dos seus olhos. As orbes eram intensas e faziam com que sentisse vontade de encará-la por mais tempo. Entretanto, depois de dois anos sem um relacionamento e apenas focada na filha e no trabalho, Quinn não sabia como agir.

— Eu com fome, mamãe. — Audrey quebrou o silêncio que havia se instalado, e ela agradeceu por isso.

— Eu também estou. — Quinn sorriu para a filha ainda com as bochechas parcialmente rubras. — Logo estaremos em casa. Você veio de carro? — Inquiriu, encarando outra vez a professora.

— Sim. — Hayden assentiu. — Mas agora eu estou pensando em não vir apenas para ganhar uma carona sua. — Sorriu novamente.

Quinn sentiu o rosto esquentar pela segunda vez, e Hayden achou aquilo adorável. A loira era adorável. E era a mulher mais linda que já havia visto. Os fios dourados com a franja caindo pela lateral na altura dos ombros combinavam perfeitamente com a mandíbula marcada, o nariz aristocrata, os lábios finos e os olhos verdes com detalhes em avelã hipnotizantes. Quinn exalava uma beleza indizível. Era atraente de forma natural, e isso deixava Hayden deslumbrada.

— Quando fizer isso, eu terei o imenso prazer em oferecer uma carona. — Quinn se atreveu em responder, sorrindo timidamente.

— Espero que saiba que eu vou cobrar isso. — A professora piscou o olho de maneira divertida. — Até amanhã, garotas.

Audrey respondeu educadamente, assim como a mãe, que ainda sentia as orelhas formigando. Ela observou Hayden caminhar até o carro e acenar antes de partir para logo depois acordar do seu torpor e finalmente prender a filha na cadeirinha cuidadosamente.

O caminho até a sua casa era parcialmente rápido, se não fosse pelo trânsito de fim de tarde.

— Eu não quero dividir você, mamãe. — Audrey soltou de repente quando o automóvel parou em um sinal vermelho.

— Do que está falando? Você não vai precisar me dividir com alguém. — Quinn questionou confusa, desviando os olhos da estrada para fitar a filha através do retrovisor.

Audrey não respondeu, e Quinn notou a expressão insatisfeita no rosto bem desenhado. Logo a realização bateu na sua cabeça, e ela sorriu pelo ciúme que a pequenina mostrava possuir pela conversa de minutos atrás que tivera com Hayden.

— Somos só você e eu, lembra? Isso nunca vai mudar. Nunca.

— Promete, mamãe?

— Eu prometo, meu amor.

A mais nova sorriu com a promessa, e Quinn sentiu o peito inflar de amor. Audrey era uma mistura tão perfeita de duas pessoas e mal parecia ter sido gerada com a ajuda do material de um doador anônimo. Os lábios grossos formando o sorriso eram idênticos aos da outra mãe. Quinn teve de se concentrar na estrada para não afundar em reminiscências.

Quando o carro parou na garagem, a loira franziu o cenho ao observar a luz da sala de estar acesa pela janela. Seu corpo entrou em alerta.

A casa não era grande. Seus pais insistiam diariamente em presenteá-la com um imóvel maior, sempre com a velha conversa sem fundamento de que uma residência mais abastada ajudaria Audrey a se locomover com mais facilidade. Todavia, Quinn sabia que isso não passava de uma mentira. A filha adorava o seu lar e conseguia andar e até correr normalmente, o que causava sempre pânico na mãe.

Russel e Judy adoravam esbanjar dinheiro. Isso era algo que fazia Quinn e Frannie sempre entrarem em discussões com eles. Aquela casa foi comprada com o seu próprio dinheiro. Era algo somente seu. O lugar onde Audrey nasceu. Havia um jardim para a filha brincar, e o bairro de classe média possuía uma vizinhança receptiva e aconchegante. E o melhor de tudo era Santana e Brittany, que moravam no final da rua.

Quinn não trocaria a sua casa por outra.

Mas agora, enquanto observava o seu local de paz, ela sentiu o estômago se contrair. Quem estaria lá dentro?

Em poucos segundos, ela saiu do carro e pegou a filha nos braços, levando-a até a casa das amigas.

— A mamãe esqueceu algo na delegacia e precisa ir até lá.

Foi a mentira que contou para convencer a garotinha astuta, que acabou concordando. Brittany pareceu não acreditar, mas apenas aquiesceu enquanto adentrava a residência com a afilhada.

Quinn voltou até a própria casa e abriu a porta lentamente sem fazer barulho, logo sacando a arma do coldre na sua cintura. Seus passos eram silenciosos e precisos, e os olhos verdes analisavam tudo minuciosamente. Nada foi movido e nada era escutado. Apenas a luz emanava da sala.

Quando adentrou o cômodo, pôde observar a silhueta feminina olhando atentamente os porta-retratos sobre a estante e a mala perto do sofá. Quinn reconheceria aquelas madeixas escuras até mesmo se perdesse a memória.

A mulher se virou, e a loira abaixou o revólver lentamente, ainda entorpecida por olhar naquelas íris depois de dois anos. A morena não estava diferente.

Os olhos castanhos estavam marejados. Pingavam medo e tristeza. Parecia que nada havia mudado. As características físicas eram as mesmas. O mesmo nariz grande e os lábios fartos.

Quinn guardou a arma no coldre novamente, ainda sem desviar a atenção da mulher à sua frente.

— Rachel. — Ela murmurou.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Essa história substituirá O Preço da Volta, como vocês já devem saber. Me deem os feedbacks. Gostaram desse primeiro capítulo? O que acharam dessa Audrey? É de extrema importância o comentário de vocês aqui. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron