Almas Afins

39 Capítulo 39 - O peso do mundo...


Notas iniciais
Olá, como vocês estão? Postar em uma sexta-feira me traz lembranças boas de quando isso era uma rotina semanal. Eu sinto falta. De verdade. E me desculpem por ficar quase um mês sem atualizar essa história. Nós chegamos no ponto principal do enredo, e eu precisava de concentração para continuar, assim como tempo disponível. E eu só consegui toda essa proeza semana passada, justamente quando fiquei doente, então escrevia um pouco todo dia até me recuperar totalmente. Hoje, no entanto, estou aqui e vou aproveitar esses dias para adiantar o máximo de capítulos que eu conseguir. Repito: não vou desistir de qualquer história. Jamais. Enfim, espero que gostem do capítulo e desculpem-me se houver algum erro. Boa leitura. =D

Quinn não tinha o costume de permanecer na sala do coral por tempo demais após o fim da aula, mas ela fingiu procurar algo na sua mochila naquele dia apenas para tentar ouvir o que Rachel e Finn conversavam próximos ao piano.

Desde que a sua recente amiga terminou o relacionamento com o quarterback dos Titans, ele ainda tentava recuperar o que já tinha sido perdido, e as abordagens constantes estavam deixando Quinn encolerizada. Por que ele simplesmente não desistia? Rachel não iria reatar o namoro fracassado de ambos. Ainda que Finn gostasse de estar no clube Glee, ele zelava exclusivamente o seu posto na pirâmide social da escola, e namorar Rachel não o deixava mais popular. Era justamente o contrário. E eles discutiam muito por causa disso. Embora isso não fosse o suficiente para terminar aquela relação, ter descoberto que ele mentiu sobre a própria virgindade foi o estopim para Rachel.

Quando ambas iniciaram uma trégua, Quinn soube exatamente como Rachel se sentia em relação a Finn. Ela podia passar por cima disso. É claro que podia. Rachel conseguia esquecer muitas coisas, mas talvez Finn não valesse a pena. Ela precisava se concentrar unicamente no clube do coral e nas Nacionais. E agora, sendo amiga de Quinn, ela sentia que não estava entusiasmada para estar comprometida novamente.

Quinn sorriu ao ouvi-la falar tudo aquilo para o ex-namorado, mesmo tentando disfarçar milésimos segundos depois. Contudo, continuou satisfeita quando a observou balançar a cabeça, obstinada a negar qualquer reaproximação amorosa de Finn.

Ela nem mesmo notou a presença de outra pessoa.

— Ele não desiste mesmo. — A voz de Sam ecoou ao seu lado, fazendo-a sobressaltar levemente.

— Jesus, Sam! Quer me matar? — Quinn ralhou, pondo a mão sobre o peito.

— Está mesmo tão concentrada na conversa deles que nem percebeu a minha presença? — Ele brincou enquanto sorria.

— Eu... não estava concentrada neles. Eu só estou garantindo que a Rachel não se machuque. Ela é a minha amiga agora. — Quinn se defendeu, migrando os olhos para a sua mochila na tentativa de ocultar as bochechas ruborizadas.

Sam riu contidamente.

— Você mente muito mal, Q. E quer saber? Nós poderíamos estar no lugar deles se eu não fosse sensato em decidir não tentar reatar o nosso namoro. Eu já sabia que isso ia acontecer.

— Sabia? — Ela se surpreendeu.

— Sabia. — Ele assentiu. — Mas eu gostava da ideia de namorar Quinn Fabray. Não por você ser a garota mais popular do McKinley e sim porque a Rainha de Gelo pode ser amável. Eu sempre gostei do seu lado carinhoso. Mas ele está indo para outra pessoa agora.

— Eu... não estou entendendo. — Ela franziu o cenho.

Sam sorriu, sincero e gentil. Era o tipo de sorriso que Quinn gostava. Se ele tinha gostado de ser o seu namorado por causa da sua amabilidade ocultada sob a frieza que sempre emanava nos corredores da escola, ela tinha namorado com ele em razão do quão transparente, bondoso e honesto Sam era. Ele não se importava em demonstrar sentimentos. Era um livro aberto, e Quinn gostava dele. Apenas não gostava o suficiente para continuar o namoro.

Por fim, ele aproximou a boca do seu ouvido.

— Eu acho que você gosta da Rachel.

Não passou de um sussurro, mas foi como um soco forte, desferido contra as suas costelas a ponto de fazê-la se contorcer no seu lugar. Ela abriu a boca, mas nada saiu, e Sam riu, se levantando com a mochila em mãos e saindo da sala do coral.

Quinn ainda permaneceu sentada, ereta, como uma estátua de cera bem desenhada e extremamente bela. O contraste escarlate do uniforme das Cheerios na sua pele marmórea ficou ainda mais evidente quando a cor fugiu do seu corpo.

— Q? — Rachel se assustou momentaneamente ao ver a amiga inerte, sem pestanejar e com a boca entreaberta. — Q, você está bem?

— Ela está bem, Rach. Nós podemos voltar para a nossa conversa? — Finn indagou impaciente.

— Nossa conversa já acabou, e a minha decisão continua a mesma, Finn. Nós não vamos voltar. — Rachel se afastou e caminhou até a loira. — Quinn? — A tocou no ombro.

Quinn sentiu o toque suave e sentiu a temperatura da mão da judia, ainda que fosse sobre o tecido, finalmente despertando do seu torpor e fitando-a.

— Eu... eu estou bem, Rach. — Ela se ergueu. — Eu preciso... Sam. Preciso falar com o Sam. Eu já volto.

Quinn quase correu pelos corredores ao sair da sala do coral, mas parou bruscamente ao ver Sam escorado na parede ao lado do bebedouro. Um sorriso trocista decorando os lábios cheios.

— Como você me diz aquilo de forma tão natural? Está maluco? — Ela se zangou.

— Então estou mentindo?

— Claro! Eu não gosto... — Ela olhou para os lados, garantindo que o local estava vazio. — Não gosto dela. — Murmurou.

— Quando somos donos dos nossos sentimentos, é difícil perceber algo, Quinn, mas quem está de fora consegue ver nitidamente. Eu só estou tentando agilizar as coisas.

— Agilizar? Agilizar o quê, exatamente? Você realmente ficou maluco. — Quinn maneou a cabeça em negação.

— Todos nós sabemos que Rachel Berry consegue superar muitas coisas. Ela superou as slushies, os apelidos maldosos, a implicância de Santana e poderia superar algo que aconteceu quando Finn nem estava namorando com ela. Mas o fato da Rachel não querer superar isso talvez seja porque ela encontrou outra coisa que mereça o tempo dela. E essa coisa é você. Você passou a sentar na fila da frente na sala do coral por ela e também trocou de mesa durante as aulas. Até mesmo conseguiu ser a dupla da Rachel em química. É tudo uma questão de...

— De amizade. Eu fiz isso por amizade.

— Você não fazia isso antes de iniciar uma amizade com ela e sempre foi amiga de todos do coral. Kurt e Mercedes compartilham várias aulas com vocês. Não precisa mentir, Quinn. Você passou por inúmeras situações e merece ser feliz. Talvez seja com uma garota. Talvez seja com a Rachel. E talvez eu seja o padrinho do casamento de vocês. — Sam deu de ombros, dando meia-volta enquanto mantinha o sorriso no rosto e ia em direção à saída.

Quinn teve vontade de gritar que ele estava mesmo louco, teve vontade de ir atrás dele e estapeá-lo por ter dito um disparate tão grande e de forma tão natural, teve vontade de correr para casa e se trancar no quarto, mas, ao contrário do que queria, ela apenas ficou ali, parada no corredor vazio, fitando as portas duplas pelas quais ele tinha acabado de passar. O que ele dissera foi quase incongruente. Era loucura cogitar um possível envolvimento com Rachel. Ela não gostava de garotas.

No final, Quinn se recostou na parede, respirando fundo.

— Que droga, Sam.

Quinn? Quinn? — A voz era distante, preocupada, nervosa e conhecida.

Ela sentiu o toque quente e doce no seu braço. O mesmo que sentiu na sala do coral. Mas não estava mais na sala do coral. O cheiro de éter invadiu as suas narinas, fazendo com que abrisse os olhos com uma dificuldade hercúlea. Se sentia cansada.

Quinn piscou várias vezes quando abriu os olhos, se sentindo confusa momentaneamente, mas conseguiu raciocinar gradativamente ao encarar Rachel parada ao lado da cama. Ela tinha o semblante aflito e choroso.

— Oh, meu Deus! Você acordou. — Rachel cobriu a boca com as mãos, fechando os olhos enquanto lágrimas vertiam dos seus olhos. — Santana acordou primeiro, e eu fiquei com tanto medo.

— San... Santana... — A voz de Quinn saiu rouca. Estava estranhamente esmorecida.

— Ela está bem. — Rachel fungou e enxugou o rosto. — Ela acordou, bebeu um pouco de água e dormiu de novo. Eu fiquei tão preocupada. Vocês dormiram um dia todo.

— Um... um dia? — Quinn se assustou, ao tempo em que as reminiscências retornavam rapidamente. Kevin, corvos crocitando ininterruptamente, o Homem Sem Coração, Sam. — Nós dormimos um dia inteiro?

— Sim, vocês dormiram um dia inteiro. — A morena se aproximou e a abraçou. — Santana acordou primeiro, e a Britt está no quarto ao lado com ela. Quando você não acordou também, eu quase tive uma síncope. Mas... você acordou.

Quinn deixou que ela a abraçasse, embora estivesse preocupada com Kevin. Onde ele estaria? Havia sido pego? Precisava saber.

Sua mão afagava gentilmente as costas de Rachel, aproveitando o calor que ela possuía e o aroma doce e familiar que ela carregava. Sentiu tanto medo. Quando não teve mais controle do próprio corpo, Quinn sentiu medo de nunca acordar, ou acordar e descobrir que o Homem Sem Coração tinha feito algo com a sua família e amigos. Ele não fez. Santana estava bem. Elas estavam bem. Não havia chegado a sua hora, sabia disso. O assassino respeitava a ordem. Sam respeitava a ordem.

Sam.

Ele estava certo anos atrás. Quinn realmente gostava de Rachel e era recíproco. Elas namoraram e se casaram, e ele foi o melhor padrinho que alguém poderia ter, sempre solícito e se tornando um dos tios favoritos de Audrey. Pensar que Sam poderia ser um serial killer causava na detetive uma dor excruciante. Ele era um dos seus melhores amigos.

Ela deixou que Rachel chamasse o médico, ouvindo atentamente quando ele explicou sobre o tranquilizante que se alastrou pela sua corrente sanguínea. Também ouviu sobre ter de ficar em repouso até estar forte novamente e sobre o cansaço que ainda teria. No entanto, não podia dormir. Precisava falar com Santana.

— O que aconteceu com Kevin? — Quinn perguntou quando o médico saiu do quarto.

— Ele conseguiu ligar para a polícia. Quando chegaram lá, ele não estava na casa. Você e Santana estavam caídas no jardim, e os corvos não paravam de crocitar. Elaine disse o quão incomum era o som de todos juntos. Eles ainda estão na casa. Ninguém consegue pegá-los. Eu vim correndo até aqui no mesmo instante em que ela ligou para Brittany na madrugada anterior.

Quinn assentiu lentamente. Kevin não estava na casa, mas o corpo dele não foi encontrado. Ela torcia para que Sam não houvesse matado-o. Era uma esperança que tentava se segurar para não se sentir desolada. Falhara com Kevin. Falhara em protegê-lo.

— E Audrey? Onde ela está?

— Ela está na casa dos meus pais com Blanca e Thomas. David está aqui com os seus pais, Frannie e Cassandra. A polícia também estava aqui. Eles queriam o seu relato, e Warren quer saber o que vocês estavam fazendo com armamentos na casa do Kevin, mas o médico conseguiu fazer com que eles fossem embora. Vocês precisam descansar.

Quinn continuou aquiescendo, suspirando pesadamente. Teria de lidar com Warren e a polícia. Sabia que era errado portar armamentos depois de ter se demitido. Não tinha mais o porte legal. Esperava, contudo, que ele pudesse entender o seu lado.

— Eu posso falar com eles depois? Estou com sono. — Quinn bocejou.

— É claro que pode. — Rachel puxou a poltrona na lateral do quarto para que pudesse se acomodar. — E eu vou ficar aqui a noite toda.

— Você não precisa. Eu estou bem, Rach. — Quinn fechou os olhos.

— Mas eu vou. Eu não vou sair daqui.

— Então nesse caso... — Quinn moveu o corpo, deixando um espaço vazio ao seu lado.

O pedido mudo abriu um sorriso no rosto da judia, que se aconchegou na cama após retirar os sapatos. Quinn foi abraçada pela segunda vez, mas estava sonolenta demais para ponderar algo. Naquele momento, ela só queria pensar que Rachel estava segura. Podia senti-la. E enquanto pudesse senti-la, seu coração estaria em paz.

— Eu fiquei com tanto medo. — Rachel sussurrou, rodeando o braço na cintura da esposa. — Quando o celular da Britt tocou, eu já sabia que algo tinha acontecido. Eu senti meu coração apertar com tanta força que o ar fugiu dos meus pulmões. Eu achei que perderia você para sempre. Foi como se eu morresse por um breve período de tempo até chegar aqui e sentir todo o ar voltar quando o médico disse que você estava apenas dormindo.

— Eu estou bem, Rach. — Quinn murmurou de olhos fechados. — Esse é o meu trabalho.

— Você poderia ter outro trabalho. Eu lembro como você adorava poemas no ensino médio. Poderia tentar ser escritora.

— Eu acho que não conseguiria passar o dia todo sentada com um laptop no meu colo enquanto escrevo ficções. Eu quero viver as ficções.

Rachel pensou em retorquir, mas ela decidiu ficar calada ao ver Quinn bocejar novamente. Ela precisava dormir, o que não demorou para acontecer.

— Eu só não quero perder você, Quinn. — Rachel disse, quase de forma inaudível e para si mesma, repousando a cabeça no travesseiro e observando o perfil bonito e sereno da esposa.

...

Pela manhã, foi Quinn quem acordou primeiro.

Ela ainda sentia o abraço de Rachel, acompanhado do roçar dos lábios dela no seu pescoço. Sua mente não pensou sobre o Homem Sem Coração ao abrir os olhos, e sabia que poderia ficar naquela posição confortável o resto do dia. Todavia, ao sentir o seu pé sendo alvo de apertos, ela focou a visão no final da cama, se assustando ao ver Santana com uma expressão cansada sob uma máscara hospitalar.

Os longos fios escuros estavam ocultados na touca cirúrgica, tornando-a quase irreconhecível, principalmente porque usava roupas idênticas ao do médico que tinha se apresentado no dia anterior.

— O que... — Quinn tentou falar, mas se calou quando a latina apoiou o dedo indicador na frente da máscara em um sinal claro de silêncio.

Santana apontou para a poltrona, onde um traje semelhante ao seu se encontrava, e Quinn entendeu o que ela queria quando a viu bater no pulso com a ponta do dedo.

Ao se afastar de Rachel delicadamente e tentar se levantar da cama, a loira sentiu como se o mundo todo estivesse nas suas costas. Mesmo ignorando o latejar nas têmporas e as pernas fracas, o seu caminho até o banheiro foi relativamente gradativo, gastando mais alguns minutos até se trocar.

Ela ainda conseguiu deixar um recado para Rachel com o bloco de notas encontrado no jaleco. Não queria deixá-la preocupada.

Quinn se surpreendeu quando saíram do quarto e Santana começou a empurrar uma cadeira de rodas ocupada por uma garota que aparentava ter a idade de Beth. O vestido colorido e o semblante animado denunciaram que não era uma paciente, e a latina logo tratou de explicar.

— Eu a encontrei no corredor brincando na cadeira de rodas. Dez dólares foram o suficiente para ela aceitar ser a nossa paciente falsa. Deixa tudo mais realístico.

— Aonde vamos?

— Para algum lugar em que possamos conversar sem que nos interrompam. Nossa família está na sala de espera, Britt dormiu, e a Berry já está dormindo. Temos pouco tempo até que acordem ou até que o horário de visitas comece. Precisamos conversar sobre o que houve. Não podemos adiar isso.

Quinn concordou de imediato. Precisavam, de fato, falar sobre o que aconteceu. No entanto, Santana não ouviu a voz do Homem Sem Coração. Quinn sim tinha ouvido nitidamente. O soar gentil e calmo de Sam ainda reverberava nos seus ouvidos, e ainda era difícil acreditar que ele era um assassino em série. Ela preferia duvidar de si mesma do que ter de afirmar que ele era o autor das mortes cruéis.

Elas conseguiram caminhar tranquilamente por todo o hospital sem que fossem reconhecidas. Os plantonistas estavam ocupados demais tentando se manter acordados, e o pouco movimento de pessoas contribuía com isso.

Ao chegarem em um dos corredores que levava ao lobby, Santana parou de andar, se virando e sacando o dinheiro prometido do bolso.

— Aqui está. E lembra o que nós combinamos?

A garota segurou a nota de dez dólares com um entusiasmo latente, fazendo Quinn sorrir ao se lembrar de Beth.

— Não contar nada para ninguém.

— Boa garota. — Santana sorriu por trás da máscara e se despediu dela, assim como Quinn. — Vamos.

Não foi difícil encontrar um táxi, principalmente nas ruas de Lima. O motorista não indagou nada quando elas não retiraram as máscaras e as toucas, permanecendo em silêncio até o fim do trajeto.

Santana pagou a corrida, saltando para fora do veículo amarelo com Quinn quando ele parou na frente da casa de Kevin.

Os corvos estavam lá. Como se nunca tivessem saído dos seus lugares, mas diferente do habitual, estavam silenciosos e quietos. Desconfortavelmente quietos.

Entretanto, o único que saiu da sua posição foi Schatten. Quinn o reconheceu imediatamente quando ele pousou sobre o seu ombro, fitando-a com os seus grandes olhos dourados. Ela nunca tinha visto-o entre os demais, mas ele estava ali, assim como Munin. Era o único corvo branco visível.

— Você sente falta dele? — Ela perguntou, ainda que não fosse receber uma resposta verbal. Ao contrário disso, sentiu ele encostar a cabeça na sua bochecha. — Eu quero encontrá-lo. Garantir que ele está bem. Nós falhamos com ele, Santana. — Encarou a amiga.

A latina transmitia uma melancolia tão forte quanto a de Quinn ao retirar a máscara e a touca. Estava abatida e triste. A ideia foi sua de seguir com aquele plano, e agora Kevin provavelmente estava morto.

— Vamos entrar.

Elas seguiram caminho até o interior da residência, passando pelas fitas de isolamento da polícia. Aquele local agora era um local onde um desaparecimento tinha acontecido. Porém, sabiam, a polícia demoraria para voltar ali. Já tinham coletado todas as possíveis evidências.

Uma rápida olhada pelo cômodo foi o suficiente para constatarem que as câmeras tinham sido levadas, assim como os laptops e as escutas.

— Era o nosso equipamento. — Santana se sentou no sofá, suspirando pesadamente.

— Eu posso conseguir mais. Dylan está sempre pronto para ajudar.

— Uma parte de mim quer continuar nesse caso, mas a outra quer apenas o nosso velho emprego de volta e não ir atrás desse louco.

— Eu sei como se sente. — Quinn se acomodou ao lado dela com Schatten ainda no seu ombro. — Mas eu não posso desistir, Santana. Ele pode ir atrás da Rachel a qualquer momento.

— E se estivéssemos mortas agora? Eu nunca senti tanta aflição como quando meu corpo parou de se mexer e eu caí sem conseguir apoio. Eu já passei por situações perigosas antes, mas aquela sensação...

— Você não ia morrer. Ele não quer matá-la. Ele só se interessa por quem abandona as próprias famílias.

— E quanto ao Robert? Ele não abandonou ninguém e morreu com uma bala na cabeça.

— Robert deve ter feito algo que o enfureceu. Nós estamos em um labirinto, e todas as pistas criam novos caminhos. Sempre acabamos no mesmo lugar.

— Eu também estou enfurecendo-o tentando pegá-lo, então talvez eu esteja nessa merda toda. Eu estou com medo, Q. — Santana fitou a amiga. — Estou com medo que ele tente me atingir usando a Britt ou a Blanca. Estou com medo que ele machuque a Audrey, você e a Berry. — Apoiou os braços nas coxas, afundando o rosto nas mãos. — Eu sinto como se ele estivesse jogando conosco. Sinto que estamos vulneráveis. Talvez devêssemos sair da cidade...

— Nós não podemos, Santana. Ele vai continuar fazendo novas vítimas. Precisamos pegá-lo.

— Nós nem sabemos para onde ir, Quinn!

Quinn não respondeu. Ela respirou fundo, fitando Schatten por algum tempo até voltar a sua atenção para Santana. Não sabia se tinha ouvido corretamente e não conseguia mensurar as consequências que compartilhar aquela informação poderia trazer, mas precisava de ajuda. Precisava de apoio, e a única pessoa que podia ir até o inferno para capturar o Homem Sem Coração ao seu lado era Santana.

Por fim, ela decidiu contar.

— É o Sam.

— O quê? — Santana ergueu o rosto bruscamente.

— O assassino... é o Sam.

— Quinn, o que você está dizendo?

— Quando eu cheguei no jardim, você já estava inconsciente. Momentos depois, eu senti uma dor aguda nas costas e caí. Eu já estava quase desmaiando quando ouvi voz dele. Eu não confundiria aquilo, Santana. Ele é um dos meus melhores amigos. Ele me desejou boa noite e disse que nos veríamos em breve. Estava tão calmo e tranquilo, como se tivesse todo o tempo do mundo. Talvez realmente tivesse. Talvez ele soubesse que estaríamos ali.

Santana passou longos momentos tentando digerir tudo o que Quinn havia contado. Não podia ser. Sam não podia ser o Homem Sem Coração. Dentre todos os seus ex-namorados fracassados da adolescência, Sam foi o único que se tornou o seu amigo. Ele foi como um cano de escape quando Brittany embarcou em um relacionamento com Artie, mas sempre a fazia rir e revirar os olhos com todas as imitações de filmes. O garoto que teve um cachorro chamado Matthew McConaughey não podia ser um serial killer.

— Você... você ouviu com clareza?

— Eu ouvi como um raio na escuridão daquela noite, Santana. Mas... talvez eu esteja errada.

— Se ele for o assassino, nós vamos descobrir, e eu vou acabar com Sam Evans com as minhas próprias mãos.

Quinn apoiou a cabeça no sofá, fitando o teto velho. O peso do mundo que sentia fisicamente não se comparava ao que sentia emocionalmente ao cogitar a possibilidade de Sam ser um assassino e ter contado algo que não tinha tanta certeza para Santana.

Ela realmente não mensurava o tamanho das consequências daquela informação.

Pelo menos, não ainda.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Será que a Quinn ouviu corretamente? Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. Bom final de semana para todos vocês. =D twitter.com/yasagron