Almas Afins
34 Capítulo 34 - O Pai dos Corvos...
Notas iniciais
Quando Quinn parou o carro no estacionamento da área externa da grande fazenda, Beth já estava praticamente saltando no banco de trás. Ela nunca tinha visto algo tão natural antes. Havia crescido em Los Angeles, mas a imensidão verde que podia ver atrás da janela era muito mais bonita do que o Píer de Santa Mônica ou o aquário de Long Beach.
Ela esperou Quinn tirar Audrey da cadeirinha e colocá-la no chão, mas se surpreendeu quando a garotinha estendeu o bastão e começou a andar por conta própria, sendo instintivamente parada por Rachel.
— Aonde a mocinha quer ir com tanta pressa? — Ela indagou, tentando soar séria.
— Eu sei andar sozinha. — Audrey retrucou, tentando se soltar da mão da judia.
— Eu sei disso, mas que tal esperar para irmos juntas? Eu vou precisar da sua ajuda para me locomover aqui. — Rachel afagou os cabelos da filha.
Audrey hesitou por um momento, mas assentiu com um sorriso.
— Eu posso ajudar. — Ela afirmou.
— Você também pode me ajudar? — Beth entrou na conversa. — Eu não conheço muito bem essa cidade ainda.
Audrey concordou rapidamente, e Beth a segurou pela mão.
— A gente já pode ir?
— Sim, nós podemos. — Quinn se pronunciou. Ela fingiu precisar de mais tempo para pegar a cesta de piquenique porque estava encantada com a cena fraternal se desenvolvendo de forma tão natural na sua frente. Era nítido o quanto Beth queria estar na companhia de Audrey, que parecia retribuir o afeto.
As crianças começaram a andar mais à frente, de mãos dadas, enquanto Beth descrevia tudo o que via, desde o portão duplo alto com a madeira pintada de vermelho, a placa dando boas-vindas, a grama verde bem aparada até a fazenda grande de dois andares com degraus que levavam até a porta de entrada. As árvores não ficaram de fora. Ela narrou como elas eram robustas e recheadas de frutas.
Era uma cena fascinante. A interação afetuosa de ambas fazia eclodir no peito de Quinn um amor tão forte que ela respirou fundo para reprimir as lágrimas. Era um dia sem lágrimas, pensou. Entretanto, era impossível não se emocionar com o modo carinhoso que Beth. Tão doce e paciente, como se já houvesse feito isso antes. Era um sonho realizado. O sonho de ver as suas duas filhas juntas.
Rachel estava semelhante, mas diferente de Quinn, ela deixou que uma lágrima escorresse dos seus olhos, secando-a rapidamente e erguendo a câmera envolta no seu pescoço para registrar aquele momento.
— A câmera foi uma ótima ideia. — Quinn disse, e elas sorriram mutuamente antes de pararem para cumprimentar o responsável do lugar.
Era um homem senil com trajes modernos. Ele conferiu se o nome da detetive estava na lista de visitantes e perguntou se desejavam pagar pelo almoço na fazenda após a confirmação.
— Não, obrigada. Nós vamos comer nas mesas externas. — Quinn mostrou a cesta. Sabia que Audrey e Beth não iriam querer entrar quando começassem a conhecer as frutas.
Ele as deixou sozinhas depois de indicar um pequeno grupo de pessoas aglomeradas na área leste enquanto esperavam o guia, que falaria sobre cada fruta.
— O que acham? Preferem ouvir o guia falar ou fazemos o nosso próprio passeio?
— Que tal uma votação? — Rachel sugeriu.
— Perfeito. — Quinn sorriu. — Quem prefere ver o guia, é só levantar a mão. — Esperou, mas ninguém se moveu. — Agora, quem prefere ir para um passeio só nosso? — Dessa vez, todas ergueram as mãos. — Parece que foi unânime. Vamos sozinhas.
— O que é unânime? — Audrey franziu o cenho.
— É quando todos concordam em alguma coisa. — Beth respondeu, ganhando um sorriso amoroso de Quinn e o retribuindo um pouco tímida.
Elas optaram então por irem para o lado oposto ao do grupo de pessoas, onde uma quantidade considerável de árvores estava ao lado da estrada de terra que escolheram para iniciarem o passeio.
Quinn fez a primeira parada ao avistar o pé de amora, deixando a cesta no chão e levantando Audrey para que ela pudesse tocar os galhos finos e as frutas.
— O que é isso, mamãe?
— É amora, meu amor.
— Como a geleia? — Audrey sentia a textura da fruta nos seus dedos.
— Sim, como a geleia. Quer comê-las?
— Quero.
— Então puxe com força. — Quinn instruiu.
Audrey fez exatamente o que a mãe disse e pegou a fruta na mão, ao tempo em que Beth fazia o mesmo em um dos galhos mais baixos.
Rachel se manteve um pouco afastada para fotografar cada movimento delas, mas se aproximou quando Audrey a chamou, querendo dividir a fruta com as mães.
— É diferente da geleia. — Beth pontuou.
— Isso é porque a geleia é feita em uma fábrica. O gosto fica um pouco mais leve. — A judia explicou.
— É bom. — Audrey pontuou.
Elas voltaram a caminhar. Rachel estava andando com Audrey mais à frente. Ambas conversaram, e Quinn aproveitou a oportunidade para iniciar um diálogo com Beth.
— O que está achando do pomar?
— É lindo. Eu não sei se tem algo assim em Los Angeles, mas tudo é tão bonito e verde. — Beth estava visivelmente animada.
— Meu pai me trazia aqui quando esse espaço era apenas a metade do que é hoje. Minha irmã e eu adorávamos.
— Você tem uma irmã?
— Tenho. Ela é mais velha, assim como você e Audrey. Se chama Francine, mas prefere ser chamada de Frannie.
— Como eu. Não gosto quando me chamam de Elizabeth. A mamãe só me chama assim quando está brava.
Quinn soltou uma risada.
— Então você deixa sua mãe irritada? — Ela provocou, vendo as bochechas de Beth ficarem coradas.
— É que ela insiste que eu faça balé, e eu não gosto muito.
— Do que você gosta? — Quinn ficou curiosa, deixando Beth ainda mais constrangida.
— Futebol. — Ela confessou. — Mas a mamãe fala que é um esporte violento, então o papai sempre concorda com ela. Eles insistem para que eu faça algo mais suave.
Quinn assentiu lentamente. Quando Audrey nasceu, ela tinha prometido a si mesma que nunca a impediria de realizar as vontades que teria durante a infância e adolescência. Conversariam e entrariam em um consenso. Quinn não queria ser uma réplica de Judy, que sempre tentava guiar a vida das filhas de maneira exagerada, ainda que fosse uma boa mãe. Não parecia justo ter uma filha e impedi-la de trilhar o próprio caminho. No entanto, Shelby parecia ter uma visão parecida e isso poderia retrair Beth ao impedi-la de ter liberdade para escolher o que quisesse fazer.
Ela parou de andar e se agachou, ficando na altura de Beth.
— Quando eu tinha a sua idade, todas as garotas estavam aprendendo a jogar tênis. Não era muito radical, e eu não queria aprender. Eu gostava de assistir lutas profissionais com o meu pai, Russel, e decidi que queria aprender mais sobre elas. A minha mãe, Judy, reprovou assim que ouviu a minha escolha, mas ele me matriculou em uma escola de karate sem que ela soubesse. No começo, eu era a única garota naquele lugar. Ninguém queria lutar comigo. Tinham medo de me machucar e me achavam fraca demais. Mas então outra garota entrou, e nós desenvolvemos golpes incríveis. Éramos melhores do que os garotos. Foi impressionante. Hoje, ela é minha melhor amiga. A escola onde eu aprendi a lutar ainda está ativa e tem uma quantidade enorme de mulheres.
— Nossa! — Beth mal sabia o que dizer. Ela olhava a detetive com os olhos brilhando em admiração e uma coragem adquirida. Isso fez Quinn sentir o coração aquecer e uma felicidade repentina preenchê-la. — Você acha que posso jogar futebol?
— Eu acho que você pode fazer o que quiser e quando quiser. Estamos em uma época moderna e não vamos nunca desistir de algo que queremos porque alguém nos disse para fazer isso. Combinado? — Quinn ergueu o dedo mindinho, que foi prontamente enlaçado por Beth.
— Combinado.
— Eu vou falar com a sua mãe, e nós vamos conversar sobre o futebol. Ela vai entender e priorizar as suas vontades. — A detetive garantiu e se surpreendeu quando Beth se jogou nos seus braços em um abraço forte.
— Obrigada. Você é muito legal, Quinn.
Foi como receber uma descarga elétrica de amor, e Quinn desfrutou do momento para aconchegar o corpo da filha no seu, finalmente deixando que suas emoções transbordassem ao sentir algumas lágrimas escorrerem no seu rosto.
Rachel, um pouco distante, fotografou a cena, sentindo o próprio coração apertar tamanha animação. Estava feliz pela esposa. Sabia que o maior desejo dela era ter contato e uma ligação forte com Beth. Estava conseguindo.
Audrey estava sentada em um tronco robusto e comendo pedaços pequenos da maçã cortada por Rachel com a faca que estava dentro da cesta de piquenique.
— Mama Reichel. — Ela chamou. — Cadê a mamãe e a Beti?
— Elas estão vindo, meu amor. Elas pararam para pegar algumas frutas. — Rachel limpou os resquícios de maçã do canto da boca da filha com a ponta dos dedos.
Ao se virar, ela viu Quinn se aproximar com Beth.
— Alguém quer ir ao banheiro? Beth precisa usá-lo.
— Eu não preciso, e você, amor? — Rachel direcionou a pergunta para Audrey, que apenas negou com a cabeça.
— Então nós vamos lá. Enquanto isso, as duas moças podem nos esperar na mesa de piquenique.
Rachel concordou, e Quinn segurou a mão de Beth, indo com ela até a fazenda.
Beth ficou momentaneamente estática ao entrar no local. Tudo era impecavelmente organizado e incrivelmente bonito. Quadros estavam perfilados nas paredes, com pinturas extremamente antigas do primeiro dono daquela área e o pioneiro a começar a cultivar frutas ali. A descendência dele era explicada pelo guia, que ressaltava o número exorbitantes de espécies frutíferas plantadas nos hectares.
Quinn, entretanto, já tinha ouvido tudo aquilo anos atrás, mas ainda assim gostava de admirar a beleza dos móveis antigos. Ela não precisou se informar sobre o banheiro e levou a filha até o corredor no andar superior. Havia uma pequena fila, e ambas esperaram pacientemente.
— Você sabe usar sozinha? — Ela inquiriu após a última pessoa sair do cômodo.
— Eu tenho nove anos, Quinn. — Beth respondeu divertida.
— Eu só quero garantir. Vou ficar aqui. Se precisar de algo, é só me chamar.
— Detetives são sempre assim? — Beth arqueou a sobrancelha. Gesto idêntico ao da mais velha.
— São, mas mães preocupadas também.
Beth não respondeu, mas sorriu com isso e entrou no banheiro.
Quinn permaneceu encostada na parede ao lado da porta. O tempo de espera a fez pegar o celular do bolso interno da sua jaqueta. Havia algumas mensagens de Santana com fotos de Blanca se divertindo na casa dos avós. Ela sorriu ao vê-las, feliz pela amiga ter optado por um dia de descanso depois de tudo o que aconteceu, e guardou o objeto quando Beth saiu do banheiro.
— Lavou as mãos? — Ela perguntou ao fitar a filha.
— Lavei.
— Tudo bem. Vamos voltar.
Elas saíram da fazenda. Quinn sorria enquanto conversava com Beth, mas o seu sorriso esmoreceu ao chegar na mesa de piquenique e ver Rachel rindo ao lado de uma mulher. Ela era morena, com cabelos longos e bastante lisos que iam até a altura dos seios. A pele alva evidenciava a cor azul dos olhos. Era extremamente bonita, mas Quinn não reparou nisso e sim no olhar levemente cobiçador que ela lançava na direção de Rachel.
Durante todos os anos em que passou com Rachel, Quinn sempre fez o máximo de esforço para não ser ciumenta, porque na mesma intensidade em que recebia olhares, a judia também era alvo de muitos, mas vê-la gargalhando com a mulher desconhecida a fez inspirar profundamente para não demonstrar o desconforto forte que se apossou do seu interior, acompanhado sempre da sensação desagradável que a fazia ficar irritadiça.
Beth correu até Audrey, se sentando e iniciando uma conversa com ela. Rachel desviou os olhos da mulher para fitá-la e em seguida migrar a atenção para Quinn, abrindo um sorriso espontâneo e amoroso, mas nem isso foi suficiente para frear o ciúme que ela sentia.
— Ei! — Rachel chamou, e a loira caminhou até as duas mulheres, que se levantaram. — Quinn, essa é a Rose. Rose, essa é a Quinn, minha esposa e melhor detetive de Ohio.
— Quinn Fabray. — Rose estendeu a mão, que foi firmemente apertada por Quinn. — Eu já ouvi falar de você. Seu nome está listado como a detetive responsável pelo caso que está deixando Ohio em alerta.
— Eu não estou nisso sozinha. Eu tenho uma parceira, e ela está tão empenhada quanto eu em capturar esse assassino. — Quinn tentou não ser ríspida.
— E vocês estão obtendo progresso nisso?
— Sim, nós estamos, mas não posso oferecer detalhes. É completamente sigiloso. — A loira forçou um sorriso.
— Oh, certo. — Rose assentiu. — Eu estava falando para a Rachel como admiro o seu trabalho.
— Vocês se tornaram amigas rápido. — A detetive pontuou em mais uma tentativa de ser descontraída e sanar o incômodo que sentia. — Está aqui com a sua família também?
— Sim, eu estou, mas não tenho filhos. Estou aqui com o meu irmão e as minhas sobrinhas.
— Achei que fosse casada.
— Eu ainda não encontrei alguém que despertasse esse desejo em mim. Alguém doce e com a alma alegre. Essas pessoas são difíceis de encontrar. — Rosse sorriu, mais precisamente para Rachel.
Quinn percebeu e passou o braço ao redor da cintura da judia inconscientemente, sorrindo levemente ao sentir a cabeça dela no seu ombro.
— Eu espero que encontre alguém, mas agora nós precisamos almoçar. O seu irmão deve estar procurando você. — Quinn falhou em não soar áspera.
— Na verdade, está. Foi um prazer conhecê-las. — Rose pensou em se despedir de Rachel, mas desistiu da ideia ao ver o olhar gélido e cortante que parecia perfurá-la emanando de Quinn, então apenas puxou um cartão do bolso. — Se precisar de qualquer instrumento musical, é só ir na minha loja, Rachel. — Entregou o papel retangular para ela e acenou quando Rachel agradeceu.
— Instrumentos musicais? — Quinn perguntou quando Rose se afastou.
— Ela mencionou ter uma loja de instrumentos musicais, então eu disse que estava pensando em presentear Audrey com um piano.
— É uma ideia fantástica, mas eu vou ficar com isso. — A loira pegou o cartão, guardando-o no seu bolso. — E quando for comprar, eu vou acompanhá-la.
— Você foi ríspida com ela.
— Não fui.
— Foi sim. Qual é o problema?
— O problema? Não viu como ela estava olhando você?
— Eu disse que era casada quando notei os olhares dela, mas ela não acreditou muito, porque eu não estou usando aliança. — Rachel mostrou o dedo anelar vazio.
— Isso é bobagem. Há milhares de pessoas que não usam aliança e são respeitadas. Ela não a respeitou.
— Você deve saber disso perfeitamente, porque a Hayden faz a mesma coisa.
— É diferente.
— Não é diferente. Ela tenta flertar com você o tempo todo e ainda ousa dar palpites sobre a criação da nossa filha. Eu não gosto disso. Ela não é a mãe da Audrey. Nós somos.
— Ela me ajuda, tudo bem? Mas eu confesso que há limites. Eles serão mantidos por ela. Pelo menos até... — Quinn se interrompeu.
— Até...?
— Até eu capturar o assassino.
— E depois? Vai pedir o divórcio? Você acha mesmo que eu vou dar o divórcio? Depois desse ciúme você ainda quer o divórcio?
— Não foi ciúme.
— Não? Então eu posso chamar a Rose para almoçar conosco? — Rachel desafiou.
Quinn sustentou o peso do olhar, mas não disse nada e praticamente marchou até se acomodar perto das crianças, deixando a judia sozinha.
O almoço transcorreu com diálogos efusivos de Beth e Audrey, mas nenhuma interação entre as adultas. Rachel podia ver o quanto a esposa estava perdida em pensamentos, respondendo apenas quando uma das filhas faziam perguntas ou comentavam sobre algo com ela. Seu objetivo havia sido atingido.
Mais cedo, Rachel a viu se aproximar com Beth e começou a rir propositalmente. Sabia que causaria exatamente essas sensações nela. O ciúme de Quinn sempre foi facilmente inflamável. Rachel não queria usar aquele método, mas obteve um enorme sucesso quando ela a segurou pela cintura. Ela ainda se importava. Se importava o suficiente para cortar as falas de Rose e despejar o olhar frio da antiga capitã das Cheerios na direção dela. Tudo o que Rachel queria era trazer à tona tudo o que foi esquecido pela esposa.
Beth e Audrey não quiseram comer todo o sanduíche. Estavam sem apetite pelas frutas que comeram, então Quinn fez com que elas terminassem de beber o suco, e depois de guardarem tudo, voltaram a andar entre as árvores.
Estavam somente as quatro, e a detetive ainda não falava com Rachel, mas a fitou quando ela segurou a sua mão.
— Está brava?
— Não. — Quinn foi lacônica, porém não repeliu o toque.
— Está. Eu conheço essa expressão. Você sempre ficava assim quando Finn me abordava nos corredores.
— Ele era desagradável.
— Mas eu só tinha olhos para você, exatamente como agora. — Rachel parou de caminhar e passou os braços dela ao redor da sua cintura. — Eu amo você, mesmo que não queira me deixar dormir no seu quarto para garantir a minha total segurança.
Dessa vez, Quinn riu, e isso foi o suficiente para Rachel sorrir e plantar um beijo longo na bochecha dela, movendo os lábios até que pudesse beijá-la como gostaria.
No entanto, a voz de Beth quebrou o contato de ambas.
— O que é aquilo? — Ela se aproximou das adultas enquanto segurava a mão de Audrey.
Quinn olhou para onde a filha mais velha apontava, percebendo uma movimentação suspeita nos arbustos, mas ninguém apareceu no seu campo de visão.
— Eu vou ver o que é. Fiquem aqui. — Ela demandou, e a judia se apressou em ficar mais próxima das crianças.
A detetive tirou a arma do coldre no seu quadril e foi até o amontoado de folhas, adentrando-o e sumindo. Rachel se preocupou, repetindo mentalmente várias vezes que a esposa sabia o que estava fazendo e não havia nada para temer.
Quinn passou pelo arbusto e pisou em outra estrada de terra, mas ainda não havia ninguém. Ela passou alguns minutos conferindo a área para ter certeza de que estava sozinha quando ouviu outra movimentação, e uma figura alta surgiu ao lado de algumas árvores.
— Você está perdido? Não precisa ter medo. Eu sou a detetive Fabray. — Ela se identificou em um tom de voz alto, mas não teve resposta. Conseguia discernir que era um homem, mas estavam distantes um do outro, e ele vestia um sobretudo preto com capuz, ocultando parcialmente o rosto. Quinn iria se aproximar, mas ele começou a correr, e ela o seguiu.
O homem era alto, exatamente como Noah descreveu o indivíduo com a tatuagem de corvo na mão que perseguia Elijah, e foi inevitável não pensar nele ao comparar a descrição.
Contudo, a altura dele não o tornava mais ágil, e Quinn estava pronta para pular sobre ele e fazê-lo parar quando o sujeito cessou a corrida para que pudesse respirar. Ainda assim, ela continuou com a arma erguida, mas finalmente conseguiu ver o rosto dele.
Era um homem de meia-idade, com uma barba longa e parcialmente branca. Não era senil, mas estava cansado.
— Não era assim que eu queria encontrá-la, mas não encontrei outro jeito. — Ele disse após alguns segundos tentando recompor a respiração.
— Quem é você? — Ela perguntou, apontando o cano como se ele pudesse atacá-la a qualquer instante.
O homem ajustou a postura e tirou o capuz da cabeça, revelando cabelos curtos e bem cortados, diferente da barba.
— Meu nome é Kevin Mostow, mas como algumas crianças me chamam, eu sou conhecido como O Pai dos Corvos. — Ele estendeu a mão. — É uma honra conhecê-la, detetive Fabray. Eu sempre quis falar com a mulher que conseguiu ter a proteção de um dos meus meninos. A outra, no entanto, é a sua esposa, não é?
— Do que está falando?
— Dos meus dois corvos primogênitos. Eles agora pertencem à sua família. — Kevin continuou com a mão estendida, e ela o observou.
A tatuagem estava lá. Um corvo. Os traços eram delicados e bonitos, mas ela parecia ser antiga.
— Como vou saber se posso confiar em você?
— Eu mal consigo correr, detetive. Estou velho e extremamente sedentário.
— E por que correu? O que estava fazendo aqui?
— É uma história um pouco longa, então podemos nos sentar e conversar?
— Eu estou com a minha família. Não posso fazer isso agora.
— Certo, eu entendo. — Ele coçou a barba e tirou um cartão do bolso do casaco. — Me procure nesse endereço. Há coisas que precisamos discutir.
— Que tipo de coisas?
— Coisas que envolvem o assassino.
Quinn pegou o papel, observando o nome dele escrito em letras garrafais e um número de telefone logo abaixo. Corvos estampavam o cartão, e ela constatou que ele realmente parecia amar aqueles animais.
— O que você sabe sobre o assassino? — Ela guardou o objeto.
— Eu sei que ele vai agir em breve. Muito em breve. E também sei quem pode ser a próxima vítima.
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