Almas Afins

29 Capítulo 29 - Pertencer...


Notas iniciais
Dia de capítulo! Espero que gostem e desculpem-me se houver algum erro. Boa leitura. =D

Quinn não queria que isso fosse comum, porém não se sentia mais surpresa ao seguir Schatten. Ela dirigia com calma enquanto ouvia Santana murmurar frases em espanhol e virou à direita em alguns quarteirões até pegar a avenida principal que levava à saída de Lima. Quando já estava ultrapassando a placa que indicava o final da cidade, a ave dobrou à esquerda, e ela fez o mesmo, reconhecendo aquela estrada de terra.

Schatten pousou sobre um dos galhos da árvore alta e robusta igualmente conhecida após Quinn parar o carro e sair dele ao lado dos amigos. Não foi preciso uma busca pelo corpo sem vida, porque ele estava visível próximo às raízes da árvore.

O modo como o homem foi morto era o que Quinn já estava acostumada a ver recentemente. O coração faltava, e o chão sem uma poça de sangue mostrava que ele não foi assassinado ali e sim em algum lugar desconhecido.

Ela se aproximou mais. Sua cabeça girando em pensamentos sobre esse caso cada vez mais repleto de incognoscibilidade, mas se surpreendeu ao chegar perto da vítima.

— Eu o conheço.

— Conhece? — Santana franziu o cenho. Estava ao lado de Quinn.

— Eu já vi uma foto dele. Noah me mostrou.

— Puckerman? Por que o Puckerman mostraria uma foto dele?

Quinn não disse nada. Ela se ajoelhou e vasculhou os bolsos da calça do homem morto usando o lenço de tecido que guardava na jaqueta no intuito de não deixar digitais, e procurou a carteira, achando-a rapidamente. Infelizmente, sabia que o assassino não almejava os bens materiais das suas vítimas. Ele só gostava de matar e ficar com todos os corações.

A loira pegou a identidade do homem e a mostrou para Santana.

— Porque ele é Elijah Puckerman. O pai dele.

— Deus! — Santana ficou tensa. — Por que ele o jogou aqui?

— Porque ele sabia que estávamos aqui. — Quinn guardou o objeto no bolso onde o encontrou e analisou o lugar.

— Quem?

— Rachel e eu estávamos aqui dias atrás. Eu a trouxe para que aprendesse a atirar e golpear para se proteger. Ele sabia.

— Droga. — David se pronunciou pela primeira vez, fitando Schatten momentaneamente. Ele ainda se mantinha no mesmo lugar.

— Mas ele não abandonou a mãe do Noah. — Quinn continuou. — Eles se divorciaram quando ele ainda era muito novo.

— Mas ele realmente nunca se importou em visitá-los, não é? — Santana parou para pensar. — Isso se encaixa na definição de abandono do assassino?

— Então descobrimos outra vertente das suas regras? Ele considera abandono alguém que, de fato, nunca se importou com a família. — Quinn complementou, seguindo a linha de raciocínio da latina. — Eu não me importei com Beth.

— Quinn, o que...

— Eu não me importei em ir atrás dela quando amadureci. Quando me estabilizei.

— Você tinha problemas demais. Audrey passou por tudo aquilo, e você estava sofrendo. — David retrucou.

— Não importa. Isso não importa para ele. — Quinn negou com a cabeça. — Eu posso ser a próxima. Ele pode querer o meu coração também. Isso tudo é uma pista.

— Não, Quinn. Isso é só uma merda de coincidência, tudo bem? O lugar onde estamos é uma floresta, e assassinos jogam corpos em florestas. — Santana direcionou a afirmação para a amiga, mas parecia estar tentando se convencer do que dizia.

— E por que justo aqui, Santana? Por que justamente debaixo dessa árvore? Por que não no rio Ohio? Ele quer mostrar o seu trabalho e quer mostrar que sabia onde Rachel e eu estávamos há alguns dias. — Quinn respirou fundo, pegando o elástico que estava envolto no seu pulso para prender os cabelos em um rabo de cavalo. — E nós sabemos que não existem coincidências quando lidamos com um serial killer. Estudamos sobre isso.

Santana sabia. Ela havia feito um enorme relatório sobre perfis psicológicos com casos que aconteceram há muito tempo. Existiam situações onde o assassino matava mulheres ruivas porque foi rejeitado por uma. Ou então onde policiais perdiam as suas vidas simplesmente porque o pai do assassino foi morto por um. Tudo isso era ligado ao trauma. O trauma incurável que funcionava como um órgão extra na cabeça deles, eclodindo um ódio tresloucado por um grupo de pessoas que eram semelhantes aos que o fizeram sofrer, mesmo indiretamente. Ela sabia que provavelmente O Homem Sem Coração tinha sido abandonado por algum parente próximo e agora descontava toda a sua mágoa em pessoas que cometiam o mesmo erro. Porém, também sabia que deduzir o seu trauma não auxiliava muito. Estavam procurando um suposto assassino que sofreu um abandono. Era como tentar achar um peixe específico em um mar aberto.

— E por que ele não atacou quando viu vocês? — David perguntou depois de processar tudo o que estava ouvindo.

— Porque seriam duas vítimas em uma noite só. Ele não quer isso. Ele quer uma de cada vez, e pelo visto demora cerca de uma semana ou mais para atacar novamente. Certamente, ele precisa deixar o lugar que usa para matar limpo outra vez. — Quinn respondeu, puxando o celular do bolso.

— Para quem está ligando? — Santana inquiriu.

— Elaine. Precisamos da polícia para fechar essa área e dos nossos equipamentos também.

A latina assentiu, e Quinn não precisou trocar mais do que quatro frases com Elaine para que ela informasse que logo chegariam.

As duas viaturas estacionaram na floresta cerca de quarenta minutos após o telefonema, e Elaine saiu de uma delas com as duas maletas de alumínio em mãos, entregando-as para Quinn e Santana respectivamente.

— Sua câmera está no porta-malas. — Ela avisou para David, que logo a pegou e retirou a tampa.

Quinn pôs as luvas e pegou a pinça, se aproximando novamente de Elijah para que pudesse abrir a boca dele. O papel que sabia estar lá dentro foi puxado. Ao ver a imagem, seus olhos focaram em um Noah de aparentemente dez anos sentado no colo do pai enquanto a sua mãe segurava uma garotinha da idade de Audrey. Todos sorriam largamente, como uma família. Uma família que não foi completamente unida por muito tempo.

Ela virou o papel apenas para ler a frase que estava escrita no organograma da sua sala.

ABANDONAR NÃO É UMA OPÇÃO!

David fotografou tudo enquanto seguia as ordens das detetives, que enumeravam as pistas.

— Elijah Puckerman. — Elaine leu o nome do homem. — Ele é judeu, não é?

— Sim, ele é. — Quinn assentiu enquanto analisava as mãos dele. — Não há sinais de luta corporal. Ele parece limpo. Extremamente limpo.

— Talvez o assassino use clorofórmio para capturá-los. — Santana ousou inferir.

— É. Talvez. Aparentemente, ele não usou em Zach e nem em Jason. Não resultou nada nos exames toxicológicos. — Elaine pontuou.

— Eu acho isso impossível ele não ter usado. — Quinn retorquiu. — A não ser que seja forte demais para capturar dois homens robustos sem ajuda de algum narcótico.

— Existe o tipo de serial killer que usa a mente e faz tudo milimetricamente sem errar, e existe aquele que usa apenas a força e não se preocupa com nada. — Santana disse.

— Esse assassino sabe usar a mente. Ele sabe como agir sabe quando agir e sabe deixar tudo limpo. Ele sabe onde não pode errar e não erra. — Quinn usou o luminol na tentativa de detectar manchas de sangue.

— Mas ele vai errar. — Elaine parecia confiante. — Ele vai errar, e vamos pegá-lo.

— É o que todos queremos.

Santana se levantou.

— Não há nada em seus bolsos além da carteira. Nem mesmo o celular está aqui.

— E não há nem mesmo sangue seco na terra. Ele foi colocado aqui depois de limpo. — Quinn suspirou com isso e focou a sua atenção nos policiais. — Podem chamar os legistas. O corpo ainda não está em decomposição.

Um deles aquiesceu e se retirou enquanto Elaine anotava tudo o que foi encontrado.

— Eu deixei que observassem tudo antes de perguntar. — Ela fitou os três amigos. — Como diabos vocês sabiam que o corpo estaria aqui?

— Nós viemos aqui para treinar alguns tiros. — Santana começou. — Esse era o lugar onde a Q e eu passávamos o tempo para aprimorar a nossa precisão. Quando chegamos, vimos o corpo. David estava conosco porque saímos de uma reunião estressante na nossa antiga escola e decidimos extravasar um pouco.

Quinn concordou de imediato. Aquela não era uma completa mentira. O lugar era realmente utilizado por elas no passado. Entretanto, tudo o que veio depois disso foi composto por inverdades. Ela apreciava o fato de Santana conseguir pensar em uma resposta rápida e convicta.

— É apenas isso? — Elaine arqueou as sobrancelhas.

— O que mais seria? — Santana cruzou os braços.

— Não sei, mas não confio em vocês.

— Eu lamento por isso, mas você não é o nosso superior, então continue não confiando. Não nos importamos. — Quinn lançou um olhar gélido na direção de Elaine.

— Está ácida hoje, Fabray? O que houve? Problemas com a esposa? Vai ser abandonada novamente como todos andam comentando na delegacia?

Quinn sentiu a postura esmorecer diante da sentença da outra mulher.

— Quem anda comentando algo assim?

— Não se fala em outra coisa que não seja o assassino e a sua amada esposa. Eu soube que estão até apostando para saber quanto tempo ela vai aguentar permanecer dessa vez. — O tom de Elaine foi completamente carregado de veneno. Ela não sabia se estavam apostando, tampouco falando sobre Rachel, mas queria provocá-la, então sondou um dos policiais sobre a história de Quinn.

— O que você disse? — Quinn cerrou os punhos e andou até parar a centímetros de Elaine. — Eu espero que lave bem a boca antes de falar algo sobre a minha vida. Ou...

— Ou o quê? — Elaine suportou o peso da tensão que se formou. — O que vai fazer?

Quinn estava pronta para responder, mas o que se seguiu foi rápido demais. O tempo entre o pensar e o agir foi ocupado por Schatten, que apareceu inesperadamente e deslizou as unhas na bochecha de Elaine.

O sangue sujava a mão dela, mas isso não a impediu de sacar a arma do coldre e apontar para a ave. Antes que pudesse atirar, Quinn a desarmou, fazendo o objeto cair no chão.

— Você não vai matar nenhum animal na minha frente!

— É um maldito corvo! E ele me feriu! — Elaine gemeu de dor quando o rosto latejou. Era possível ver três linhas retas vertendo o líquido escarlate.

— Está brava por um simples ferimento? Achei que fosse mais durona. — Santana foi sarcástica. — E você mereceu.

— Vai se foder. — Ela grunhiu, pegando a arma do chão e indo para uma das viaturas.

Os três se amigos se encararam em incredulidade.

— Isso realmente aconteceu? — Quinn perguntou.

— Eu nunca pensei que fosse dizer algo assim, mas esse corvo superou as minhas expectativas. — Santana observou Schatten pousar novamente sobre o galho da árvore.

— Ele gosta de você, Q. — David guardou a câmera.

— Mais do que isso. Ele pertence à ela. — A latina disse, ganhando a atenção deles. — Eu conversei com minha abuela sobre corvos outro dia. Ela me contou muitos mitos e crenças. Muitos países têm concepções diferentes sobre eles. Os alemães acreditam que corvos são o Diabo, os franceses acham que eles são almas de padres e freiras horríveis. Mas ela acredita que se um corvo proteger alguém, é porque ele pertence à essa pessoa.

— Isso é loucura. — Quinn comprimiu os lábios.

— Será? Ele nos ajudou muito e parece proteger você.

— E aquele corvo branco também. — David adicionou. — Acho que podemos chamá-lo de Munin.

— Munin? Por que Munin? — Quinn ficou confusa.

— Porque foi esse o nome que Ódin deu para um dos seus corvos. Significa memória. Como ele só apareceu para a Rachel até agora, podemos considerar que ele é dela? — David pensou por alguns segundos. — De qualquer forma, ela gosta muito de reviver as memórias de vocês, então é um bom nome.

— Tudo bem. — A loira ficou um pouco atordoada com as argumentações do amigo. — Você já pensou em escrever um livro? Seria bom com fantasias.

— Isso não é fantasia, Q. É a vida real. — Ele começou a caminhar até a viatura. — Mas eu adoraria escrever algo.

Quinn assentiu, olhando para as árvores. O vento fazia os seus galhos mais fracos balançarem e algumas folhas secas caírem. Sua atenção caiu sobre Schatten, que a encarou de volta com os seus olhos dourados e em seguida bateu as asas, sobrevoando as copas até sumir da sua vista.

— É. Essa é a vida real.

...

Quinn parou o carro no estacionamento da delegacia quando o sol já estava se pondo, e Santana ainda falava com Brittany no celular quando adentraram o local.

Elas conversaram por mais alguns minutos, e a loira olhou a amiga de forma interrogativa quando ela estendeu o celular na sua direção.

— A Aud quer falar com você. — Santana elucidou.

Quinn não perdeu tempo em pegar o objeto.

Mamãe? — A voz fina e doce ecoou nos seus ouvidos, e Quinn sentiu todo o seu interior aquecer.

— Oi, meu amor. Você se divertiu com os seus avôs? — Ela indagou, entrando na sua sala com a latina.

Ah-hã. O vovô Roy comprou chocolate pra gente e depois tocou aquele negócio grandão! — Audrey respondeu animada.

— O piano?

Ah-hã. E a mama Reichel tocou também. E ela me ensinou o Dó-Ré-Mi. E depois a gente achou a Alice.

— Alice? Quem é Alice?

A pequenina fez silêncio no outro lado da linha, e depois a sua voz soou um pouco distante.

Mama Reichel, eu contei sem querer.

Está tudo bem, meu amor. Eu vou falar com a sua mãe agora. — O timbre continuava afastado até Rachel se dirigir à esposa. — Quinn...

— Rachel? Quem é Alice? — Quinn se sentou na sua cadeira.

Bom... Thomas achou uma gatinha no quintal, e eles batizaram como Alice...

Igual à Alice no País das Maravilhas. — Quinn conseguiu ouvir Blanca falar ao fundo.

E então eles fizeram um sorteio, e Audrey ganhou. E agora...

— Ela quer ficar com a Alice. — Quinn completou a narração da esposa.

É isso. Ela está muito animada, e a gatinha parece gostar muito dela.

— Rachel, ela pode ser alérgica. Você sabe que...

Sim, eu sei. Hiram é alérgico, mas... — Rachel ficou tácita por um momento, e a detetive ouviu um ruído de porta fechando. — Mas eu não sou, e ela pode ter herdado isso de mim. Nunca vamos saber de quem eu sou filha biológica.

— Tudo bem. — Quinn se deu por vencida. — Observe-a até eu chegar. Se ela começar a espirrar ou ficar com o nariz congestionado, não ficaremos com a Alice.

Eu farei, com certeza. Você ainda vai demorar?

— Eu não sei. A vítima da vez foi Elijah Puckerman. Pai do Noah.

Oh, Deus! — Quinn a ouviu resfolegar. — Isso... isso é horrível. Ele deve estar arrasado.

— Ele odiava o pai.

Mas ainda continua sendo pai dele.

— Você tem razão. Eu preciso desligar agora. Conversamos mais tarde. Diga para Audrey que eu a amo.

Tudo bem. Eu direi e... eu amo você, Quinn.

Quinn abaixou a cabeça com a declaração da morena e ficou reticente por breves segundos.

— Eu sei, Rach. — Ela desligou sem esperar uma resposta e entregou o celular para Santana.

— Aconteceu algo?

— Não. Apenas as crianças que acharam a Alice.

— Britt comentou isso comigo. Audrey ganhou o sorteio, mas eu tenho certeza de que Blanca e Thomas não vão querer sair de perto dela. — A latina sorriu.

Quinn concordou, pensando na conversa que tivera com Rachel. Era satisfatório poder contar com ela para ajudar com Audrey. Brittany e Santana sempre estiveram presentes, mas a loira sentia que estava pedindo demais, ainda que as amigas afirmassem que isso era paranoia da sua cabeça. Com Rachel era diferente, porque ela também era mãe da garotinha.

A porta da sala foi aberta, e Elaine passou por ela. O ferimento na sua bochecha estava coberto por esparadrapos.

— Ethel Puckerman está aqui com Noah Puckerman. Vamos ouvi-los separadamente. — Ela saiu na mesma velocidade em que entrou. Estava irritada.

Quinn e Santana foram até a sala de interrogatórios, e a mulher de meia-idade já estava sentada. As mãos unidas e o semblante triste, porém sem derramar lágrimas.

Ela contou tudo o que sabia, mas nada realmente ajudava com o caso. Elijah havia sumido das suas vidas após o divórcio e não esteve presente nem quando Jake, o seu segundo filho fruto do seu relacionamento com outra mulher, nasceu. Ele nunca foi um pai cuidadoso, tampouco deu a mínima para os seus filhos. Ethel não sabia dizer se ele tinha inimigos, exceto o fato mencionado de que ele adorava participar de torneios clandestinos de pôquer e sempre aparecia devendo alguma quantia quando ainda estavam casados. Quinn sabia que aquele crime não foi feito por um simples homem que queria dinheiro. Era muito mais do que isso.

Quando ela se retirou, Noah entrou e se acomodou no lugar anteriormente ocupado pela mãe.

— Obrigada por vir, Noah. Sentimos muito pelo seu pai. Agora vamos começar com...

— Eu quero ela fora.

— Quem? — Elaine ficou confusa.

— Quinn. Eu quero a Quinn fora dessa sala. Não quero falar nada olhando para ela.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. Bom final de semana pra todos vocês. =D twitter.com/yasagron