Almas Afins
25 Capítulo 25 - A melhor forma de se proteger...
Notas iniciais
Quinn não voltou para a delegacia. Ela passou o resto da manhã e a tarde inteira rondando a cidade com o seu carro, tentando encontrar algum vestígio dos próximos passos do Homem Sem Coração, mas não obteve nenhum resultado. Havia conversado com os policiais que se mantinham a postos, embora eles também não tivessem novidades. Continuavam no escuro, tateando as paredes em busca de algo que iluminasse qualquer caminho válido.
Ela parou o veículo no estacionamento da escola Shawnee perto das quatro horas e encostou na lataria dele para que pudesse esperar Audrey. Ainda estava um pouco inerte. Sua cabeça voltando até os acontecimentos na casa de Shelby. Noah a fez sentir o mesmo ódio de quando ouviu a conversa de algumas ex-policiais do departamento comentando sobre Audrey e como deveria ser um peso para ter uma filha cega. Não era, e Quinn entrou em uma situação desastrosa ao quebrar a mandíbula da mulher com o soco carregado de repulsa. Poderia ter sido demitida, mas Warren não permitiu e transferiu a policial. Quinn nunca sentiu uma cólera tão grande assim antes. Capaz de, literalmente, enxergar tudo ao seu redor se tornar escarlate e sua corrente sanguínea correr mais rápido. Ninguém poderia falar de Audrey daquela forma. Era cruel e revoltante. Quinn soube o quanto foi difícil enfrentar a perda de visão da filha, mas sabia que era ainda mais difícil para ela. Ter de se adaptar em um mundo gigantesco sem poder enxergar era assustador, mas Audrey sempre receberia todo o apoio necessário. Quinn a amava mais do que a si mesma e cuidaria dela, ajudando-a na trajetória gradativa de ser alguém mais confiante para que estivesse preparada para o mundo. No entanto, a detetive tinha plena consciência de que também manteria a pequenina sob as suas asas o máximo que pudesse. Era a sua garotinha. Isso jamais mudaria.
Toda a sua rede de pensamentos foi abruptamente interrompida pelo som do sinal, e ela focou na saída das crianças, que corriam desajeitadamente até os pais, sorrindo ao ver Audrey caminhar de mãos dadas com Blanca e Thomas até se aproximarem. Rachel estava acompanhando-os.
— Tia Q, cadê a mamãe? — Blanca olhou todo o estacionamento.
— E o papai? — Thomas também estava curioso.
— Sua mãe ligou. Ela e David vão ficar até mais tarde na delegacia, assim como Brittany, que precisou ficar no estúdio para cuidar de algumas finanças. — Quinn respondeu gentilmente.
— O que é finanças? — Audrey inquiriu.
— É o rendimento de um lugar. Os custos e gastos. A tia Britt é professora de dança, então as pessoas pagam para aprender, como a escola de vocês. Então ela usa parte desse dinheiro para comprar equipamentos melhores. Mas antes de comprar, ela também precisa analisar todos esses papéis para decidir o que fazer. — A detetive se ajoelhou na frente da filha.
— Isso parece chato. — Audrey contorceu a expressão em uma careta.
Quinn riu e a puxou delicadamente para um abraço.
— É bastante chato. E eu senti saudade.
— Eu também, mamãe. — Audrey apertou os braços ao redor do pescoço da mais velha.
Quinn sorriu, aspirando o aroma doce das madeixas da filha, e passou mais tempo naquele abraço do que os dias anteriores, Rachel constatou enquanto segurava a mochila e a lancheira da pequenina.
O abraço era repleto de amor e saudade, porém havia algo mais. Quinn apertava os olhos e parecia perdida em pensamentos. Estava inquieta. Era nítido para a judia. Os seus olhos, no entanto, não permaneceram fixados no rosto dela e caíram até o punho avermelhado e levemente inchado. Isso a preocupou, mas não deixou transparecer.
Quando o afeto foi quebrado, a loira segurou suavemente o rosto de Audrey, passando os seus olhos por cada detalhe delicado. O nariz reto, o queixo fino, os lábios cheios, as orbes verdes quase beirando o branco, os cabelos escuros. Era linda. Tão linda quanto Quinn sabia que seria ao receber a notícia da confirmação da inseminação. Havia passado os nove meses fantasiando como seria a sua garotinha. Sua e de Rachel. Tinham rido e brincado ao imaginarem quais detalhes ela teria, mas Audrey era muito mais encantadora e bela do que qualquer coisa que poderiam imaginar antes do seu nascimento. Quinn a amava incondicionalmente.
— Eu amo você. Sabe disso, não sabe?
Audrey aquiesceu, abrindo um sorriso.
— Eu também te amo, mamãe.
Quinn espelhou o sorriso que recebia e se levantou para que todos pudessem se acomodar no carro. As três crianças foram devidamente presas graças à terceira cadeirinha que ela instalou após receber a ligação de Santana.
Thomas ainda inquiriu se demoraria para ver o pai. Eram extremamente apegados. Contudo, a detetive não podia dizer que David estava redecorando o quarto do garotinho com Santana. Estragaria qualquer surpresa. Então apenas disse que ele logo o veria.
Todavia, antes de entrar no veículo, Quinn ouviu Hayden chamá-la. Ela se virou, observando-a caminhar na sua direção.
Rachel revirou os olhos.
Ambas trocaram um abraço longo. A professora enroscou avidamente os braços sobre os ombros de Quinn, beijando-a na bochecha quando se separaram.
— Eu tenho algumas ideias para o aniversário da Audrey. Quer ouvi-las?
— Claro, mas agora é praticamente impossível. Blanca e Thomas vão para a minha casa. — Quinn afundou as mãos nos bolsos da jaqueta.
— Você pode me ligar e definiremos o dia. Eu estarei esperando, tudo bem? — Hayden sorriu.
— Certo. — A loira também sorriu. — Você pode ir até a minha casa. Será melhor para que possamos conversar.
— Pode ter certeza de que nós vamos adorar ouvir as suas ideias, Hayden. — Rachel entrou na conversa, parando ao lado de Quinn. — Afinal, eu também estou preparando tudo com a Quinn. Somos as mães da Audrey. — Forçou um sorriso, que foi prontamente retribuído.
— Então nós marcamos o dia, Quinn. Até amanhã. — Hayden enfatizou o nome da detetive, abraçando-a outra vez para se despedir e logo depois indo até o próprio carro.
— Ela não se despediu de mim. É sempre tão simpática, você não acha? — Rachel foi jocosa, e Quinn riu.
— Você também não é gentil com ela. — A mais alta deu de ombros.
— Como eu posso ser gentil quando ela quer roubar a minha esposa?
— Ela não quer roubar a sua esposa, Rachel. Nós somos casadas apenas no papel. Não somos nada fora dele. — Quinn pontuou.
— E aquele beijo que nós trocamos no quarto da Aud? Aquilo é a sua forma de dizer que não somos nada? — Rachel cruzou os braços. — Nós quase transamos.
— Aquilo foi algo estúpido. — A loira sentiu o rosto corar.
— Algo gostoso. — A judia a corrigiu. — Algo recíproco e algo que eu adoraria repetir. — Rachel se aproximou um pouco. Queria atacar a esposa com um beijo famélico ali mesmo, mas não podia. Blanca e Thomas estavam observando-as através da janela do carro.
— Não vamos repetir. — Quinn respondeu, se afastando instintivamente. Não era uma boa ideia ficar tão perto de Rachel daquela maneira.
— É isso o que você pensa.
Aquilo soou como um desafio, e a detetive segurou o peso dos olhares trocados. Rachel sempre seria extremamente determinada e teimosa.
Por fim, ela caminhou até o veículo, ligando-o ao tempo em que a atriz prendia o cinto de segurança.
As crianças conversavam efusivamente, mas Quinn não prestava atenção no diálogo, porque novamente seus pensamentos retornaram até Noah. Ele merecia mais do que um soco no rosto por ter despejado palavras tão cruéis. Quinn tinha o poder necessário para colocá-lo atrás das grades com a ameaça que disparou, mas talvez não tivesse sido uma boa ideia agir com tanta violência. Ele ainda teria a guarda total de Beth e ainda controlaria as suas visitas. Não queria ficar longe da sua primogênita por um capricho estúpido dele.
— Quinn? — Ela ouviu o chamado da judia e balançou a cabeça, tentando dissipar as suas dúvidas.
— Sim? — Não retirou os olhos da estrada.
— O que houve? Sua mão. Ela...
— Noah. — Quinn foi lacônica.
— Noah?
— Noah e eu brigamos. Eu explico melhor quando chegarmos em casa.
Rachel assentiu, se sentindo bem momentaneamente por Quinn não ter usado um pronome possessivo para se referir à casa. Sabia que ela havia dito aquilo por estar perdida nos próprios pensamentos, mas ainda assim não esmoreceu a sua felicidade interna, fazendo surgir uma nova onda de esperança no seu peito.
Ela apoiou a mão na coxa da esposa, tentando passar algum tipo de segurança, ainda que fosse mínima, e a detetive suspirou inaudivelmente, sentindo a sua perna formigar intensamente mesmo através do tecido da sua calça. No entanto, não disse nada, tampouco repudiou o toque, porque se sentia encurralada diante dos problemas que pareciam sufocá-la e lembrar de Noah a fez se lembrar de Rachel auxiliando-a com a sua dor a respeito de Beth no ensino médio. No quanto ela foi amorosa, atenciosa e enxugou todas as suas lágrimas em todas as suas crises de fraqueza. Quinn era grata à Rachel por isso.
O carro parou na garagem vinte minutos depois, e todos entraram na casa após as duas mulheres soltarem as crianças das cadeirinhas.
— A gente pode ir pro quarto da Aud? — Blanca pediu.
— Claro que podem.
Quinn os levou até o cômodo e deixou a porta aberta para que pudesse observá-los esporadicamente, indo até a cozinha com Rachel em seguida.
— Vai me contar tudo agora? — A judia se apoiou no balcão.
A loira suspirou e assentiu antes de tirar a arma do coldre e o distintivo, deixando-os sobre a mesa.
Rachel passou por um misto de sensações à medida em que ouvia toda a narração, mas a raiva sobressaiu. Quinn viu a sua própria raiva estampada na expressão dura da judia. Não havia ocultado detalhe algum da conversa que tiveram, principalmente o que Noah disseram sobre Audrey.
— Aquele desgraçado ousou falar isso da minha filha? Ele abriu aquela boca nojenta e foi maldoso dessa forma? E ainda quis usar Beth para fazer sexo com você? — Rachel espalmou as mãos no balcão, tentando não gritar, tentando controlar a respiração errática e, sobretudo, tentando não explodir, porque as crianças estavam a poucos metros de distância e podiam ouvir.
Quinn a conhecia o suficiente para saber que estava contando mentalmente até dez. Era como Rachel tentava se acalmar antes de deixar a sua personalidade forte assumir o controle. Ela pensou em tentar acalmá-la, mas se surpreendeu quando a viu dar meia-volta e caminhar apressadamente até a saída da cozinha.
— Aonde você vai? — Quinn conseguiu segurá-la pelo braço, fazendo-a parar.
— Vou atrás dele e terminar de estragar o seu rosto idiota. Eu vou bater nele até desmaiá-lo. — Rachel respondeu com uma convicção tão grande que Quinn teve certeza de que se não a impedisse, ela iria mesmo até lá.
— Ele já teve o que mereceu, Rach, e não quero que você entre nessa confusão.
— Essa confusão já é minha desde que ele mencionou o nome da Audrey. Ninguém pode falar assim dela! Ninguém! — A atriz estava visivelmente nervosa. — Ele acha que pode manipular qualquer pessoa e acha que pode ter você. Ele quer tocá-la com aquelas mãos nojentas. — Os olhos estavam dilatados em ira.
— Ele não vai mais fazer isso. Se fizer, eu mesma me encarrego de fazê-lo pagar. — Quinn tentou suavizar a situação.
Rachel continuou alterada, respirando com dificuldade enquanto tentava se soltar, mas Quinn não deixou, e a abraçou com força, fazendo a adrenalina se esvair do corpo da judia rapidamente.
Ela apoiou o queixo no ombro da esposa, sentindo a própria respiração entrar em um ritmo regular aos poucos e sentindo a mão de Quinn alisar as suas costas.
— Ele não pode se casar com a minha... com Shelby. Se ele propôs uma noite com você, então ele não a ama.
— Ele não a ama, mas sente algo por ela. Shelby não vai acreditar se nós contarmos, então só podemos deixar que ela faça o que quiser. Talvez ela enxergue quem Noah realmente é.
Rachel apenas assentiu, apertando os braços ao redor do pescoço da detetive e quebrando o silêncio que se formou depois de alguns segundos.
— Você me chamou de Rach.
— É, eu chamei. — Quinn se sentiu constrangida pela segunda vez naquele dia.
— Eu amo você. Eu amo você desde o ensino médio e nunca vou deixar de amar você.
— Eu sei, Rachel, mas as coisas não se resolvem com amor e sim com confiança. — Quinn ainda afagava as costas da esposa.
— Eu faria qualquer coisa por você. Qualquer coisa. Sem hesitar. — Rachel tirou a cabeça do ombro da mais alta para que pudesse fitá-la. — Você me ama?
A detetive abriu a boca para responder, mas o barulho da campainha foi o suficiente para que se esquivasse da pergunta e caminhasse até o hall ainda um pouco atordoada.
— Oi, Q. — Brittany abraçou a amiga quando a porta foi aberta, sendo correspondida. — Eu sinto muito pelo atraso. Eu estava presa no estúdio e não consegui sair.
— Não há motivo para se desculpar, Britt. Blanca é da família. — Quinn sorriu.
Brittany também sorriu, mantendo-o no rosto ao ver Rachel se aproximar.
— Oi, Rachel.
— Oi, Brittany. — A morena foi gentil.
— Mamãe B! — Brittany mal teve tempo de pensar quando sentiu um corpo pequeno se jogar contra ela, pegando a filha rapidamente.
— Minha gatinha. Eu senti a sua falta.
— Eu também senti. — Blanca abriu um sorriso animada. — A Aud e o Thommy podem dormir lá em casa hoje? — Pediu.
— Depende da tia Q. Você pediu para ela?
Blanca negou com a cabeça e virou o rosto para encarar a detetive.
— A Aud pode dormir na minha casa hoje?
— É claro que pode. — Quinn respondeu, apertando o nariz da pequenina amorosamente.
Blanca comemorou, e Audrey apareceu pouco tempo depois de mãos dadas com Thomas, participando da alegria da melhor amiga, porque os três dormiriam no mesmo quarto, o que significava que poderiam continuar o diálogo que estavam tendo minutos antes.
Quinn se despediu da filha, recusando educadamente o convite da amiga de jantarem na sua casa, e Rachel fez o mesmo, apertando a garotinha contra o seu peito e vendo-a sair de casa nos braços de Brittany enquanto Blanca e Thomas caminhavam ao lado delas.
Elas voltaram para a cozinha, e tudo se tornou tácito novamente.
— Eu vou tomar banho e então podemos começar a preparar o jantar. — Rachel disse.
Quinn pensou por alguns segundos. Não no jantar, mas em algo específico, e os seus olhos encararam a sua arma em cima da mesa.
— Vamos sair.
— O quê? — Rachel franziu o cenho.
— Vamos sair. Preciso levar você em um lugar. — Quinn foi até o próprio quarto, voltando minutos depois e observando Rachel ainda estática no centro da cozinha.
— Aonde nós vamos? Precisamos jantar.
— Jantamos depois. — A mais alta pegou a sua arma e o distintivo.
Rachel não teve outra opção a não ser seguir a esposa, e ambas entraram no carro.
— Não vai me dizer aonde estamos indo? — Rachel estava curiosa, olhando as ruas de Lima iluminadas pelos postes no início da noite.
— A curiosidade matou o gato, Rachel. — Quinn continuou olhando o trânsito.
— E pode matar um Berry também. — Rachel bufou, afundando o corpo no assento. — Aonde nós vamos? — Voltou a perguntar.
Quinn a ignorou o resto do caminho, ainda que recebesse a mesma indagação a cada minuto, e virou à esquerda quando estavam quase saindo de Lima, adentrando a floresta densa.
Embora árvores extremamente altas circulassem o lugar, Rachel pôde ver uma estrada de terra, como se alguém tivesse aberto um caminho para o meio da floresta.
Quinn seguiu justamente aquele trajeto, parando quando avistou uma árvore mais à frente.
— Vamos. — Ela chamou, saindo do carro.
A morena permaneceu imóvel por alguns segundos, achando que aquilo era uma piada da detetive, mas quando ela parou na frente do veículo, sendo iluminada pelos faróis, a judia constatou que não havia brincadeira alguma e saltou para fora.
— Por que nós estamos aqui?
— Você vai aprender algo muito importante. — Quinn caminhou até a árvore, buscando algo atrás dela e sorrindo ao encontrar.
Rachel continuava completamente confusa, mas arregalou os olhos quando os galhos da árvore se iluminaram, tornando tudo mais claro. Havia lâmpadas minúsculas perfiladas em um barbante, e Quinn afastou um pouco das folhas do chão com o pé, abrindo o que seria um alçapão.
— O que é isso? — A atriz se aproximou da mais alta, vendo-a pegar um abafador de ruídos, um óculos de proteção e um manequim de plástico, deixando o último de pé ao lado da árvore.
— Isso é algo que Santana e eu fizemos quando ainda estávamos na academia treinando para passar no teste físico. Não usamos há anos, mas acho que precisamos agora. — Quinn colocou o óculos no rosto de Rachel e o abafador de ruídos na sua cabeça. — Aqui. — Pegou outra arma do bolso interno da sua jaqueta, entregando para ela.
Como se fosse possível, os olhos da judia triplicaram de tamanho, e ela tremeu levemente ao segurar o objeto de metal.
— O que eu vou fazer agora?
— Você vai aprender como se atira corretamente, e depois vamos treinar alguns golpes de defesa. Eu quero você preparada para qualquer eventualidade. Essa é a melhor forma de se proteger, principalmente porque eu vou ensiná-la adequadamente. É uma boa maneira de ganhar tempo se eu não estiver por perto.
Rachel não sabia ao certo como agir, mas abriu um sorriso amoroso, gostando da evidência de Quinn estar realmente preocupada com a sua segurança.
Ela fitou o manequim e logo depois o revólver na sua mão.
Iria gostar daquelas aulas.
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