Almas Afins

22 Capítulo 22 - Preocupações...


Notas iniciais
Dia de capítulo! Espero que gostem e desculpem-me se houver algum erro. Boa leitura. =D

Rachel apertou as mãos no volante quando parou em um sinal vermelho, iniciando logo depois o seu exercício de respiração. Inspira e expira, exatamente como fazia antes de um solo importante no Clube Glee ou quando estava dando à luz com Quinn ao seu lado quase tendo uma síncope.

Ela se permitiu sorrir um pouco com a reminiscência diante do seu estado catastrófico de nervosismo, porque a esposa praticamente entrou em colapso enquanto observava-a pronta para ter o bebê. Foi uma situação cômica vê-la de olhos arregalados quase desmaiando durante o parto. Rachel viveria aquilo novamente se pudesse.

Contudo, o seu sorriso esmoreceu quando o sinal abriu, e o seu pé pisou fundo no acelerador, voltando a seguir o corvo.

O exercício de respiração funcionou até os seus olhos focarem na placa de boas-vindas à Cincinnati. Depois disso, ela se permitiu temer pelo que viria, porque aquela cidade guardava um dos principais crimes das últimas semanas, mas não parou ou recuou. Queria ser corajosa e fazer o que pudesse para tentar ajudar a solucionar os assassinatos. E mais do que isso, não queria morrer antes de contar toda a verdade para Audrey e reconquistar a sua família, então continuou no encalço da ave, passando com o veículo pelos bairros mais abastados de Cincinnati até chegar aos locais menos afortunados.

Havia casas pequenas, prédios velhos e ruelas estreitas que provavelmente se tornariam assustadoras à noite pela aparente falta de iluminação.

Ela achava que o corvo passaria por aquele bairro também, mas ele parou na janela de um dos edifícios, fazendo-a respirar fundo algumas vezes antes de parar o carro e sair, checando o seu celular. O sinal estava bom, então garantiu em deixar o número da polícia como um dos contatos favoritos para qualquer eventualidade. Por fim, a sua atenção foi direcionada para a ave, que estava parada na janela do quinto andar.

O interior do prédio era tão velho quanto a fachada e não havia algum tipo de porteiro. Somente uma televisão pequena ligada em cima de um balcão de madeira escura. Talvez ele tivesse saído. Era a oportunidade perfeita. Rachel não perdeu tempo em caminhar apressadamente até o elevador, suspirando em seguida. Por Deus! O que estava fazendo? Não possuía nem mesmo uma arma? Como se protegeria? Precisaria se proteger? Estava ficando com medo à medida em que os andares passavam rapidamente na tela digital.

O seu corpo sobressaltou quando a porta do elevador se abriu, e ela conseguiu fitar o corvo parado no fim do corredor, iniciando o seu trajeto até ele.

A porta do apartamento na sua frente estava entreaberta, e seu coração martelava com tanta força que conseguia nublar rapidamente os seus sentidos pelo ruído agudo no seu ouvido. Duas batidas na madeira clara foram o suficiente, porém não obteve resposta. Só o que restava era entrar, então foi o que fez, assumindo uma postura receosa.

A primeira coisa que viu foi a quantidade grande de sangue. Aquilo foi o alerta para puxar o celular do bolso traseiro da sua calça, procurando o contato salvo da polícia. No entanto, ao se aproximar mais, ela viu o corpo sem vida com metade da cabeça aberta.

O aparelho eletrônico caiu no chão quando Rachel usou as mãos para cobrir a boca, abafando um grito de horror, e caminhou para trás, encostando na parede para ter apoio. Estava respirando com dificuldade, porque o que via era perturbador demais.

O corvo entrou em um cômodo, na expectativa de ser seguido, e ela teve de passar as mãos pelo rosto para tentar recompor o foco, respirando gradativamente enquanto sentia o aroma forte de ferro antes de correr. Seus passos ecoando na sala de estar silenciosa.

O quarto era como todo o apartamento. Pequeno. A ave estava parada ao lado do laptop. Rachel franziu o cenho, mas pegou o objeto, e o corvo fez outro movimento, dessa vez pousando sobre a mesa de cabeceira. Uma das gavetas era trancada com uma chave, mas ela não perdeu tempo procurando-a. Em vez disso, pegou o abajur ao lado da cama e forçou a fechadura até que pudesse ceder. A madeira velha facilitou no processo. Logo, todo o conteúdo ali estava sendo exposto.

Havia somente um envelope amarelo. Rachel não olhou o conteúdo, porém o recolheu, vendo o corvo sair do quarto. Ao segui-lo, ela conseguiu observá-lo passar pela porta da sala de estar.

Dessa vez, não houve hesitação acompanhá-lo, porque estava ansiando sair daquele lugar que cheirava a morte. Quando ela pegou o celular ainda caído no piso escuro do apartamento e saiu, seu corpo deslizou pela parede do corredor até que pudesse sentar no chão.

Estava tremendo. Nunca viu algo assim tão de perto e, naquele momento, achou Quinn muito mais corajosa do que já achava antes dessa situação. Ela convivia com isso diariamente e via casos muito piores.

O corvo parou nos pés de Rachel, fitando-a como se lamentasse por ter feito ela olhar aquilo, e ela suspirou incontáveis vezes.

— O motivo de você ter me feito dirigir até aqui era por causa desse laptop e desse envelope? Por quê? — Ela perguntou para ele. Sabia que não teria uma resposta, mas queria apenas sanar as suas dúvidas.

Alguns segundos passaram. Não poderia ficar ali, então se levantou, sentindo as pernas parcialmente fracas pelo horror de presenciar aquela cena grotesca.

Ela ligou para a polícia assim que retornou ao carro, desligando antes de se identificar para a atendente. Ninguém poderia saber que estivera ali, e deu partida no veículo após isso, observando o corvo alvo sobrevoar os prédios até sumir do seu campo de visão.

...

Quinn andava de um lado para o outro na sala de estar, tentando ligar para Rachel pela décima vez, porém sem sucesso. Havia recebido um telefonema da escola Shawnee. Aparentemente, a judia não compareceu ao trabalho, e a diretora gostaria de saber se estava tudo bem. Quinn não sabia, porque a esposa simplesmente não atendia as suas ligações.

Estava aflita e preocupada. Brittany dissera que Rachel esteve na sua casa para deixar Audrey com Blanca e saiu depois de comunicar que iria preparar a aula do dia, mas não chegou na instituição de ensino.

A cabeça de Quinn girava e caía sempre no assassino em série. E se ele houvesse capturado-a? Ela se recusava a pensar nessa possibilidade ou então seu coração viraria pó. Seu carro também não estava na garagem, então Rachel o pegou. Mas aonde havia ido?

Eram tantas dúvidas e tantos temores. Ela estava quase emitindo um mandado de busca para os policiais quando o motor do veículo ecoou nos seus ouvidos. Seus olhos capturaram através da janela a figura de Rachel sair do carro enquanto segurava um laptop e um envelope.

A respiração aliviada que soltou fez todo o seu interior relaxar e se livrar da tensão.

— Onde diabos você estava? — Quinn não esperou que ela entrasse na casa, abordando-a ainda na área externa. Estava com raiva por ela ter sumido sem comunicá-la.

No entanto, a sua ira diminuiu ao ver a judia pálida, e se assustou ao receber o abraço forte quando ela largou os objetos no chão sem verbalizar algo. A preocupação só aumentou quando o choro ecoou alto e forte, fazendo o corpo de Rachel tremer. Estava gelada. Quinn passou as suas mãos nos braços dela antes de levá-la para dentro, deixando-a no sofá para que pudesse voltar e recolher os objetos.

O abraço retornou. Rachel não queria largá-la, e Quinn permitiu que ela ficasse com os braços presos na sua cintura, apertando-a. Estava assustada e com medo. Muito medo.

A loira respeitou o momento sem algum diálogo concreto e afagou os cabelos escuros suavemente enquanto tentava transmitir segurança.

— Está tudo bem. Eu estou aqui. — A sua voz era calma e acolhedora.

— Sangue.... tanto.... sangue. — Rachel ainda estava em prantos, fungando e soluçando copiosamente.

— Sangue? De quem? — Quinn se alarmou.

A judia tentava falar, mas não conseguia, então a detetive se separou lentamente dela, indo rapidamente até a cozinha e o próprio quarto, voltando com uma caixa de lenços descartáveis e um copo de água.

— Aqui. Beba.

Rachel ingeriu o líquido com dificuldade. Ainda queria chorar, mas também queria contar tudo o que houve.

Quinn pegou um dos lenços e enxugou o caminho de lágrimas do rosto moreno vagarosamente, esperando-a ter o seu tempo para falar.

— Eu... — Rachel deixou o copo na mesa de centro. — Eu deixei Audrey com Blanca e iria vir aqui para preparar a aula, mas vi o corvo. — A voz estava extremamente rouca.

— O corvo?

— Mas não era o corvo que você viu. Esse era branco. — A judia fungou. — Ele queria que eu o seguisse, então eu fui, porque queria ajudar você com o assassino. Ele me levou até um prédio velho em Cincinnati. Quando entrei em um dos apartamentos do quinto andar, eu vi um corpo repleto de sangue com... com a cabeça totalmente aberta. Foi horrível. — Tentava não chorar outra vez. — Ele quis que eu pegasse essas coisas. Eu peguei e saí antes de ligar para a polícia.

Quinn passou alguns segundos processando o relato da judia. Havia outro corvo. Outro corvo que a levou até Cincinnati. Não era uma situação incomum devido aos últimos acontecimentos envolvendo a ave, mas o fato de existir outro animal a deixou empertigada, e pelo amor de Deus! Por que Rachel ousou segui-lo? Isso a fez sentir raiva.

— Você ficou louca, Rachel? — Quinn se levantou do sofá. — Você o seguiu sem pensar nos riscos? — Elevou o tom de voz.

Rachel se encolheu no sofá.

— Eu... eu pensei, mas não queria ignorar o que ele tinha para me mostrar. — Ela se defendeu.

— E se fosse mais do que isso? E se o assassino capturasse você? Não pensou em como os seus pais ficariam? Em como tudo ficaria? Você é irresponsável! — Quinn continuava falando alto.

— Eu só queria ajudar...

— Você poderia ajudar não se metendo nisso! Isso é algo que a polícia deve resolver.

— Por que você está falando assim comigo? — Rachel estava quase chorando outra vez.

— Porque... — Quinn e fitou. — Se algo acontecesse com você, eu nunca me perdoaria. Eu prefiro vê-la partir outra vez do que vê-la machucada.

A confissão sincera e crua fez Rachel querer explodir em uma nova onda de choro, porque Quinn estava preocupada com a sua segurança. Seu coração começou a bombear sangue com mais velocidade, fazendo-a se erguer para caminhar até ela.

— E eu prefiro morrer do que deixá-la de novo. Isso nunca vai acontecer, Quinnie. — A atriz segurou as mãos da detetive.

Era a primeira vez que pronunciava o apelido carinhoso desde a sua volta. Ela pôde ver que a loira também percebeu isso, porque abaixou a cabeça.

— Não faça mais isso. Se qualquer corvo aparecer para você novamente, me ligue, tudo bem?

— Tudo bem. — Rachel não evitou sorrir. Um sorriso pequeno, mas amoroso, e ela abraçou novamente a mais alta depois, aproveitando que seus muros tinham caído momentaneamente.

O afeto durou alguns minutos. Quinn também a abraçava, se sentindo aliviada por Rachel estar bem e segura. No entanto, o contato foi interrompido pelo som estridente que preencheu o cômodo.

A loira se afastou para que pudesse pegar o seu celular. Era Santana. A conversa durou menos de um minuto, mas foi o suficiente para a judia ver o rosto da esposa ganhar uma expressão atônita.

Ela finalizou a chamada e passou alguns segundos encarando o objeto que segurava.

— O que houve? — Rachel estava curiosa.

— Robert. — Quinn foi lacônica.

— O quê?

Quinn não respondeu. Ela puxou a morena para sentar ao seu lado no sofá e ligou o laptop.

Havia poucas pastas, mas uma delas chamou a atenção de ambas.

— Detetives em Cincinnati? — Rachel perguntou para si mesma, mas Quinn ouviu.

— Ele estava chantageando Santana e eu.

— Ele... chantagem? — A atriz não estava entendendo.

A loira abriu o único vídeo na pasta e o deixou ser reproduzido. O mesmo mostrado por Robert no departamento de polícia. Enquanto Rachel assistia com os olhos arregalados, Quinn abriu o envelope, confirmando o que já suspeitava.

— O desgraçado tirou fotos do vídeo e as revelou. — A detetive jogou as imagens sobre a mesa de centro.

— Então esse Robert estava chantageando vocês porque tinha um vídeo que as mostrava no local onde Jason foi achado? — A morena indagou lentamente, tentando entender tudo.

— Exatamente, e agora ele está morto. Se a polícia achasse esse material, Santana e eu provavelmente estaríamos sendo interrogadas agora. Nos tornaríamos as principais suspeitas e provavelmente perderíamos os nossos empregos. — Quinn disse e encarou a judia. — Obrigada por isso, mas ainda foi errado se arriscar daquela forma.

— Eu faço qualquer coisa para ajudar você, mas se o corvo não tivesse aparecido, eu não teria ideia de como chegar até lá. Tampouco teria conhecimento disso.

— Eu não sei o que ele, ou melhor, eles significam e tenho medo de descobrir.

— Eles estão ajudando. Até esse momento, tudo o que fizeram foi em forma de ajuda. Talvez exista algo que eles possam mostrar que facilite a descoberta do assassino. — Rachel segurou a mão da esposa.

Quinn assentiu, guardando o conselho de Rachel, e apertou ambas as mãos inconscientemente, sentindo o aperto delas entrelaçadas novamente. Ao cravar os seus olhos nos castanhos da judia, elas permaneceram assim, se fitando mutuamente durante algum tempo e deixando palavras mudas sobrevoarem-nas. Embora estivesse quebrada e magoada, Quinn não sentia vontade de distribuir ódio para Rachel. Sabia, entretanto, que ela queria reconstruir tudo aquilo que havia jogado fora.

A pergunta que não sabia responder era se algum dia estaria disposta a tentar novamente depois de uma decepção tão gigantesca.

Diante da indagação silenciosa, ela soltou as mãos e se levantou.

— Eu acho melhor você descansar. O que você viu foi perturbador.

— Não. Eu preciso ir para a escola. Não posso faltar sem algum tipo de explicação.

— Você pode ligar e dizer que está doente. Donna vai entender. — Quinn retrucou.

— Mas eu quero ir. Vai me distrair.

— Rachel...

— Quinn, confia em mim. — Rachel também se ergueu. — Se eu me sentir mal, eu ligo para você.

Quinn assentiu de forma resignada e suspirou.

— Eu vou levá-la, então.

Rachel afirmou com a cabeça, sorrindo internamente pelo cuidado de Quinn, mesmo que ela não estivesse tão consciente disso.

Ambas saíram de casa após tomarem banho e se trocarem. Rachel demorou um pouco mais. Sua cabeça tentava ignorar a cena que havia visto. Quinn presenciava momentos assim corriqueiramente e seguia a própria vida de forma natural, então ela queria fazer o mesmo.

O caminho até Shawnee foi feito com a ausência de conversas. A judia sabia que a detetive estava pensando sobre tudo o que aconteceu e sobre o que faria, então a deixou perdida nos seus pensamentos.

Quando chegaram, Rachel soltou o cinto de segurança.

— Se você não conseguir esquecer aquilo, podemos marcar uma consulta com um psicólogo. Vai ajudar. — Quinn disse.

— Eu não vou mentir. A minha cabeça passa aquela cena várias vezes, mas não estou transtornada. Não como achei que ficaria. Você convive sempre com isso.

— Mas eu passo por avaliações psicológicas. Sempre passei. Talvez você precise agora.

— Eu vou informá-la se me sentir muito mal, então poderemos providenciar isso, certo?

— Certo.

Rachel sorriu e se aproximou, beijando a bochecha da esposa.

— Obrigada.

— Não precisa agradecer. — Quinn virou o rosto para fitá-la.

Estavam perto demais. Os lábios quase grudados. Rachel não controlou o próprio instinto, colando ambas as bocas em um selinho longo que transmitia amor, agradecimento, cuidado, preocupação e tantos outros sentimentos intensos.

Quinn não fez menção de se afastar. Ela deixou a esposa provar os seus lábios e provou os dela, ponderando, com um pouco de certeza, de que precisava daquilo depois das turbulências.

Elas se separaram, e a judia sorriu.

— Eu amo você, Quinnie. Eu amo muito.

Rachel não esperou uma resposta e saiu do carro, deixando a mais alta estática por um período curto de tempo. Ela jurava ainda sentir os lábios grossos nos seus. Quando enfim voltou para a realidade, ligou o carro, desaparecendo ao dobrar a esquina.

Rachel ainda exibia um sorriso no rosto, aumentando-o ao ver Hayden parada na entrada da escola.

O olhar compartilhado entre os dois pares de íris marrons era raivoso e cortante.

— Isso é só o começo. — Rachel disse.

— Você parece ter tanta certeza. No seu lugar, eu não teria.

— Eu tenho certeza porque a amo e isso é recíproco.

— A linha que separa o amor da carência é enorme. É muito fácil se entregar ao lado carnal quando existe a convivência. — Hayden deu meia-volta.

Rachel a acompanhou, segurando-a pelo braço para fazê-la encará-la outra vez.

— Eu estou ansiando o dia em que nos encontraremos fora daqui, porque eu quero muito falar tudo o que desejo sem alguém para interromper. — Rachel praticamente cuspiu as palavras.

Hayden puxou o braço.

— O desejo é recíproco. Talvez nos encontremos mais cedo do que você imagina. — A professora forçou um sorriso, caminhando até as salas de aula.

Rachel inspirou e expirou profundamente mais uma vez naquele dia que estava só começando.

Notas finais
Espero que tenham gostado. No fim das contas, o corvo ajudou bastante. Me deem o feedback. Favoritem também. É sempre importante. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron