Almas Afins

12 Capítulo 12 - ''Eu posso acabar com você...''


Notas iniciais
Dia de capítulo! Espero que gostem e desculpem-me qualquer erro. Boa leitura. =D

Quinn não acreditava em astrologia. Não acreditava no poder dos signos. Na sua concepção, era algo em que as pessoas se seguravam para justificar os seus erros ou falhas. Se alguém for complacente demais, há uma boa resposta para isso se olhar o seu mapa astral. Bobagem, ela pensava. Cada um pode ter a sua cota de generosidade ou maldade, e não há ninguém que consiga desvendar o ato de ser humano, porque sempre existe uma forma de se surpreender com a individualidade alheia. Não há um padrão ou uma forma rápida de conhecer alguém. É impossível.

No entanto, Quinn acreditava que qualquer ação possui consequências. Positivas ou negativas. Ela acreditava porque recebeu presentes do universo. Recebeu o presente de engravidar no ensino médio, consequência de ser uma líder de torcida egoísta e de ter traído Finn. Recebeu o presente de ser expulsa de casa, consequência de ter mentido sobre a paternidade de Beth. E recebeu o pior deles: se descobrir apaixonada por Rachel Berry no segundo ano, consequência de ter embarcado em um relacionamento com Sam apenas pelo medo de ficar sozinha e não por sentir o mesmo que ele.

Ela achou, por meses, que aquilo era um castigo e não uma consequência, porque, ao contrário dos demais, não sabia exatamente como proceder. Ser homossexual aos dezessete anos e morando em Lima era devastador. Quinn realmente achava que aquela cidade abrigava as pessoas mais preconceituosas que já havia visto. Então quase enlouqueceu, tentando inutilmente não pensar no fato de ser gay. Não podia ser. Embora aquilo explicasse o fato de se sentir tão incomodada e apática na presença dos garotos que namorou, era desesperador demais pensar que a resposta era a sua atração por garotas. Contudo, toda a situação mudou quando Rachel retribuiu os seus sentimentos, fazendo-a reformular todo o seu pensamento sobre o que achava ser um castigo. O sentimento que compartilharam se tornou a luz que precisava para entender que podia ser amada com tanta intensidade que arrancava lágrimas involuntárias dos seus olhos.

Mas toda luz pode apagar um dia.

E depois de anos, ela se encontrava novamente com a dúvida latente de que se toda aquela situação onde se encontrava era um castigo, por que estava recebendo-o outra vez? Era uma boa mãe e uma boa detetive, que vivia para ajudar quem precisasse. Talvez os seus erros do passado ainda estivessem impregnados na sua essência. Talvez. Ela não tinha uma certeza.

E foi por pensar demais que decidiu voltar ao trabalho dois dias depois.

Havia aproveitado o tempo em casa para permanecer em uma redoma com Audrey, brincando e contando histórias engraçadas para ela, porém quanto mais parada ficava, mais a sua cabeça girava, retornando desde o dia que mudou a sua vida até o episódio no quarto da filha. Algo que lutava para esquecer, mas sem obter sucesso.

Rachel acendia uma chama dentro de Quinn. Uma chama que há muito tempo se manteve fria e esquecida. E ter deixado-a acesa novamente causava um revirar no estômago da detetive, porque era difícil demais apagar o gosto da judia da sua memória depois de ter provado-o novamente após tanto tempo. E como se isso não bastasse, passar dois dias inteiros com ela não ajudava, ainda que não a direcionasse palavra alguma. Audrey, ao contrário do que esperava, não se incomodava como deveria em saber que uma, até então, desconhecida estava na sua casa e até iniciava diálogos com Rachel. Isso deixou Quinn preocupada e desconfortável. E novamente a sua cabeça pensava sozinha.

Por esses fatores, ela acordou naquela manhã decidida a ir trabalhar, se vestindo enquanto ouvia os protestos de Rachel e se despedindo de Audrey ao deixá-la com Brittany. O caminho até a delegacia foi rápido e calmo.

— Eu vou precisar chutar a sua bunda de volta até a sua casa para que você fique lá? — Santana indagou assim que a viu sair do carro.

— Eu não estou tão mal assim. — Quinn retrucou, e não era mentira. O hematoma na lateral do seu rosto havia diminuído a intensidade da cor para um vermelho suave, e já conseguia caminhar mais rápido. No entanto, o seu braço ainda estava com os pontos recentes, assim como o supercílio.

— Você recebeu duas semanas de folga. Eu quero duas semanas de folga. Estou quase pensando em pedir para alguém me dar uma surra para receber. — A latina cruzou os braços.

— Eu não consegui ficar dois dias em casa com a Rachel sem me sentir desconfortável. Não suportaria duas semanas.

— Ainda não a tirou de lá? Quer que eu faça isso por você?

— E o que você acha que aconteceria depois? Provavelmente ela iria até um advogado. A casa está no nosso nome, Santana.

— Peça o divórcio. — Santana foi firme. — Peça e então a casa será vendida e dividida entre as duas. Você pode pegar um pouco das suas economias e comprar outra. Ainda falta muito tempo para a Audrey pensar no seu futuro acadêmico.

— Eu não posso, Santana. Aquela casa é onde a Audrey está acostumada a ficar. Já pensou em como demoraria para ela se adaptar em outro ambiente? Ela já consegue andar livremente com o bastão. Eu não vou submetê-la a isso sendo tão nova.

A latina bufou, contrariada por Quinn estar certa. Deveriam pensar no bem-estar de Audrey e com certeza levá-la para outra casa iria causar um desconforto enorme nela.

Quinn se aproximou da amiga.

— Eu sei que quer ajudar, tudo bem? E eu agradeço por isso. Mas nós vamos ficar bem. — Sorriu confortante.

— Eu só não quero que ela machuque você novamente. E nem Audrey dessa vez.

— E ela não vai, porque sabe que se fizer algo, vai ter uma latina furiosa pronta para atacá-la.

— Não esqueça de Frannie.

— Certo, Frannie também pode ser assustadora.

— Exceto quando está perto de Cassandra.

As duas riram com isso, e a tensão se dissipou aos poucos.

— Vamos lá, você precisa ver o andamento do caso.

Quinn caminhou com a amiga, entrando na delegacia e cumprimentando alguns colegas que estavam felizes por tê-la de volta. Assim que chegaram na sala que dividiam, se depararam com David organizando algumas fotos em um painel. Imagens capturadas da vítima, da casa e do papel encontrado na sua boca. Um nome chamou a atenção da loira.

— Zach Collins. — Santana pegou uma pasta jogada sobre a mesa e entregou para Quinn. — Foi fácil contatar a família dele. Nada na sua casa foi movido ou roubado.

— E os dois homens do beco?

— Eles faziam parte de uma gangue. Estavam na casa da vítima apenas para cobrar uma dívida. Aparentemente, ele gostava muito de metanfetamina. Foi pura coincidência. Um dos sujeitos ainda está em estado grave no hospital, e o outro no presídio.

— O que você está fazendo aqui? — David se pronunciou, fitando a loira. — Deveria estar em casa.

— É uma longa história. — Quinn ergueu os olhos dos documentos para mirá-los no amigo. — Eu precisava voltar.

— Ela não aguentou ficar na própria casa porque a Hobbit está lá. — Santana disse.

— Vocês já conversaram?

— Não. Eu mal consigo olhar para ela.

— Vocês precisam conversar com calma. Sem palavras jogadas com força. Apenas uma conversa coerente.

— Pare de dar ideias. O que a Quinn precisa fazer é expulsar a Berry de lá. — A latina censurou David.

— E você precisa parar de agir com tanta impulsividade. Se você estivesse no lugar dela, eu tenho certeza de que conversaria com a Brittany.

Santana estava pronta para argumentar, mas Quinn chamou a atenção de ambos.

— Vocês podem parar de falar da minha vida como se eu não estivesse aqui? Tudo isso não vem ao caso agora. Precisamos nos concentrar nesse homicídio. Nunca tivemos algo parecido antes.

— Tudo bem. — A latina concordou. — A mãe da vítima o reconheceu ontem e veio com a esposa dele. Elas moram em Los Angeles.

— Então ele realmente era casado. — Quinn afirmou.

— Sim, ele era. — Santana apoiou o próprio corpo na borda da mesa. — E ele a abandonou há quatro anos quando o segundo filho nasceu. Disse que ia ao mercado fazer compras e nunca mais voltou. Um babaca, não? Os vizinhos disseram que ele tinha uma namorada e que constantemente gritavam um com o outro. Mas ela não voltou para a casa dele depois da última briga.

— Acha que ela poderia ter feito isso?

— É uma possibilidade. Ou talvez tenha pedido ajuda de alguém. De qualquer forma, estamos tentando achá-la. Também entramos em contato com alguns amigos que eles tinham em comum. Algum deles pode saber o endereço dela.

Quinn aquiesceu enquanto fitava o painel.

— É ela?

— Sim.

Quinn duvidava que a mulher tivesse mais do que vinte anos. Parecia consigo mesma ao terminar o colegial.

— Está pensando o mesmo que eu? — Santana perguntou.

— Por que ela estaria em um relacionamento visivelmente abusivo com um homem que provavelmente era um viciado em cristal?

— Eu estou louca para juntar essas peças.

Ninguém falou mais nada depois disso. Quinn podia sentir o seu cérebro trabalhando, assimilando todas as informações e tentando criar alguma teoria. Era isso o que adorava fazer. Investigar mistérios e resolvê-los. Havia sentido falta disso nos dois dias que passara em casa.

Ainda estava parada, fitando o painel detalhadamente quando uma figura conhecida apareceu do lado de fora da janela, chamando a atenção de todos.

Os olhos verdes fitaram o corvo, que também os encarava.

— Ele de novo. — Santana se aproximou da janela. — Vá embora! — Gesticulou, tentando expulsá-lo, mas a ave não fez movimento algum para sair.

— Não faça isso. — David impediu a amiga. — Talvez ele queira nos mostrar alguma coisa.

— Você sabe o que minha abuela fala sobre corvos? Eles só atraem tragédia. Tudo bem que ele nos ajudou da primeira vez, mas tê-lo por perto pode nos trazer coisas ruins.

Quinn não deu ouvidos à Santana e caminhou calmamente até parar perto da janela, abrindo-a em seguida.

A ave sobrevoou todo o ambiente antes de parar sobre o painel, passando alguns segundos parado antes de voar até a janela outra vez, como se estivesse aguardando alguma coisa.

— Ele quer nos mostrar onde a garota está. — Quinn murmurou.

— Você fala com corvos agora? É um tipo de superpoder? — A latina brincou.

— Você quer mesmo escolher não segui-lo depois do que ele nos mostrou? A escolha é sua, porque eu vou. — A loira fechou a janela e caminhou para fora da sala.

David não hesitou em acompanhá-la. Ele havia criado uma afeição estranha pelo corvo, mesmo sentindo arrepios pelo corpo.

— Tudo bem, esperem por mim. — Santana saiu no encalço dos dois. Nunca deixaria de ir até alguma possível pista, ainda que ela estivesse vindo de uma ave.

...

Rachel sorriu para a foto. Ao que parecia, a diretora da escola Shawnee era uma verdadeira fã de musicais e não omitiu o seu fascínio em estar diante da mulher que interpretou Fanny Brice por dois anos na Broadway.

A judia não evitou sentir o seu ego aumentar, mesmo que a sensação viesse acompanhada do tormento que atuar na Big Apple a causava. Após responder poucas perguntas enquanto caminhavam por toda a escola e dar um autógrafo, Rachel agradeceu a recepção da mulher de meia-idade, parando na entrada da sala de Audrey.

A filha se mantinha sentada em um círculo com outras três crianças e duas mulheres, provavelmente as auxiliadoras da professora, e falava de forma animada. Rachel sorriu ao se ver na garotinha quando tinha a mesma idade. Adorava falar o tempo todo.

Estava tão imersa observando a cena a poucos metros que não percebeu uma aproximação.

— Olá, Rachel. — Hayden a cumprimentou educadamente.

— Oi, Heyden. — Rachel perdeu momentaneamente o sorriso quando a fitou.

A mulher de estatura baixa, praticamente da sua altura, estava com o rosto sujo de tinta e parecia extremamente feliz. Isso fez Rachel sentir uma pontada de inveja, porque ela convivia diariamente com Audrey e sabia perfeitamente o que fazer para atender qualquer necessidade que ela pudesse ter. Rachel queria saber agir daquela maneira.

— Como a Quinn está? Ela não veio buscar a Audrey esses dias.

— Ela está bem. Muito bem. — A morena abriu um sorriso forçado. — Eu estou encarregada de ficar com a Audrey também, não se preocupe.

Hayden desviou a atenção da mulher à sua frente para as crianças, voltando a encará-la segundos depois.

— É por isso que veio conhecer a escola por dentro?

— Na verdade, eu vim conhecer tudo porque é sempre bom saber como é o nosso local de trabalho.

— Local de trabalho?

— Sim. Eu vou ensinar piano para as crianças. Eu acho que vai ser ótimo para elas terem algum tipo de contato com isso e vou tentar ter toda a experiência possível para inserir Audrey nesse mundo também. Quem sabe ela não se interesse, exatamente como eu.

— Espero que saiba o que está fazendo, Rachel. — Hayden a direcionou um olhar mais firme.

— Do que está falando?

— Estou falando que você voltou há pouco tempo e que isso deve estar mexendo com a vida da Quinn de uma forma gigantesca. E agora você está aqui, trabalhando na escola de Audrey e tentando ao máximo se encaixar na vida dela. Espero que tenha certeza disso, caso resolva partir outra vez.

Dessa vez Rachel não ocultou a expressão carregada de raiva, segurando a troca de olhares.

— Você não sabe do que está falando, Hayden. Toda essa situação não interessa a você. Eu sou a mãe da Audrey, e você é só a professora dela. Não confunda as coisas.

— Eu estava nos últimos aniversários da Audrey, assim como nos da Quinn. Eu conheci Judy, Russel, Frannie e tenho certeza de que Santana guarda uma ótima simpatia por mim. Eu sou mais do que a professora dela. Eu sou amiga da Quinn, que pode se tornar muito mais se ela permitir. Quem sabe ajudá-la a criar Audrey.

Rachel teve de piscar algumas vezes para ter certeza do que acabara de ouvir. Ela sabia que a professora possuía segundas intenções com Quinn depois de Santana mencioná-la durante a briga que tiveram, mas ouvir aquela provocação da própria Hayden era impossível de engolir, principalmente porque ela mencionou Audrey e o fato de participar da sua criação. A raiva e o ciúme que eclodiram na judia fizeram com que segurasse com força no braço da mulher, puxando-a para longe da sala de aula e empurrando-a contra a parede do corredor.

— Eu juro por Deus que se você se aproximar da Quinn...

— Você vai fazer o quê? Me bater? — Hayden riu em escárnio. — Eu duvido que vai conseguir me acertar.

— Não duvide disso, Hayden. Eu posso acabar com você. Posso jogá-la no chão, pisá-la e depois limpar os meus pés como alguém que tenta tirar a merda de cachorro das solas dos sapatos. — Rachel cuspiu as palavras. Estavam próximas demais. — Eu estou de volta. Aquela casa também é a minha casa e a Audrey também é a minha filha. Eu não permito que você ouse cogitar criá-la. Quinn e eu temos um vínculo e se você acha que vai ser fácil se aproximar dela dessa forma, pode ter certeza de que não vai ser.

— É o que nós vamos ver. — Hayden empurrou a atriz para longe, se recompondo logo depois ao avistar uma das professoras passar pelo corredor ao lado delas. — Eu não queria causar toda essa situação, Rachel. Eu só quero que saiba que a Quinn merece alguém melhor. Alguém que não abandona uma família como uma covarde de merda.

Depois disso, ela entrou novamente na sala de aula, sorrindo para as crianças e olhando os desenhos que tinham feito com a ajuda das auxiliadoras.

Rachel apoiou as mãos na parede, tentando normalizar a respiração. Estava com raiva. Mais do que isso. Ela podia sentir todo o seu interior gritando para acabar com aquela professorinha, mas não faria isso. Não na escola da sua filha.

Por fim, ela caminhou até a sala de música, sentando sobre o piano e iniciando a melodia que sempre a fazia se sentir em casa. Foi o primeiro dueto que cantou com a esposa. Quando ainda não eram amigas. Mal conseguiam concordar com um assunto em comum, mas Quinn tentou a todo custo fazê-la desistir da plástica no nariz quando Finn acidentalmente o quebrou durante o ensaio para as Nacionais.

Rachel mal acreditou que a capitã das Cheerios queria fazer um dueto com ela, mas fizeram, desempenhando uma música calma e que moldava as duas vozes tão diferentes. E principalmente, não acreditou quando Quinn Fabray disse que o seu nariz era bonito dessa forma. O nariz que sempre foi alvo de piadas entre as líderes de torcida.

Rachel sorriu enquanto cantava. Aquela lembrança parecia tão longínqua, contudo, o coração acelerado e as mãos suando no momento em que ouviu aquela sentença ainda era a mesma sempre que recebia o par de olhos encantadores na sua direção.

Ela cantou enquanto deixava a sensação de paz abraçá-la, ainda que em um curto período de tempo.

Notas finais
Espero que tenham gostado. O corvo querendo mostrar algo novamente? Me deem o feedback, expondo suas opiniões e pontos de vista. Favoritem também. É sempre importante. Bom final de semana. =D twitter.com/yasagron