Almas Afins
10 Capítulo 10 - Três novamente...
Notas iniciais
Rachel fechou os olhos e respirou fundo, recapitulando mentalmente o que já havia acontecido nas últimas vinte e quatro horas. A sua volta, o reencontro com Quinn, a briga com Santana, a notícia sobre a perda de visão de Audrey, o café da manhã com ambas, a visita à casa dos pais, a ida até a escola Shawnee, a notícia sobre Quinn estar machucada e agora o reencontro com a sogra e a cunhada.
A judia chegou em Lima com a certeza de que enfrentaria uma tempestade. Só não sabia que tudo iria se transformar em um furacão. Sem data e hora para ter fim.
Judy Fabray nunca escondeu o amor que sentia pelas filhas. Havia errado quando não apoiou Frannie no momento em que ela descobriu a própria sexualidade e quando não moveu um músculo para impedir que Quinn fosse expulsa de casa ao engravidar na adolescência. No entanto, tinha se arrependido, consertando tudo horas depois e abrindo mão da sua religião para ter as filhas com ela outra vez. Russel não agiu diferente. Eles mudaram anos de conservadorismo para se adaptarem em uma nova realidade.
Mas Rachel não.
Rachel não consertou tudo horas depois. Ela esperou dois anos para voltar, e esses dois anos foram os piores da vida de Judy. Nem quando se viu longe de Quinn e Frannie ela se sentiu daquela forma, porque sabia que poderia desfazer o erro. Mas quando Rachel foi embora, não havia nada que pudesse fazer.
Ver o definhamento de Quinn abriu uma ferida na matriarca, e o seu amor maternal gritava todos os dias, lembrando-a do erro de Rachel e do que ele causou em Quinn. E Judy sentia raiva. Deus! Como ela queria não sentir, mas sentia, da mesma forma que sentia por Noah, que usou um momento frágil de Quinn para fazê-la tomar vinho e se aproveitar do seu estado de embriaguez.
Judy e Russel tentaram levar aquilo até a delegacia, mas Quinn não permitiu, porque só queria esquecer e focar na sua gravidez indesejada. Ela passou por algumas sessões de terapia até conseguir se entender depois de se perder por um breve período de tempo durante o ensino médio. Depois disso, o seu coração foi preenchido por Rachel.
Não foi difícil para Judy presenciar momentos de afeto entre as duas garotas. O processo de adaptação já tinha sido concluído quando Frannie começou a namorar uma garota diferente por mês até conhecer Cassandra, e a matriarca se sentia feliz por ver a caçula tão bem com alguém. Rachel era sempre gentil e amorosa.
Então os anos passaram, e Frannie e Quinn casaram. Os filhos vieram logo depois. Judy amava Kate, Kyle e Audrey incondicionalmente. Tudo parecia finalmente bem. Quinn era uma mulher independente, casada e com uma filha. Mas então Rachel se foi, se esvaindo como uma fumaça.
Judy tinha certeza de que não conseguiria perdoá-la por isso.
— Eu estava quase enlouquecendo de tanta saudade, sabia? — Frannie foi a primeira a se pronunciar, caminhando até a sobrinha e a pegando dos braços de Rachel.
A judia sentiu uma frustração latente eclodir rapidamente ao se ver sem o calor do corpo pequeno ao seu, mas deixou que a pediatra levasse Audrey para perto da avó.
A pequenina sorriu, enrugando o nariz quando a tia o beijou, e espalmou as pequenas mãos no rosto da mais velha.
— A vovó tá aqui também. Vovó.
Judy saiu do torpor que a fazia fitar Rachel sem pestanejar e sorriu na direção da neta. Um sorriso carregado de amor.
— Eu estou aqui, meu bem. — Ela se aproximou, segurando-a delicadamente. — Você sentiu minha falta?
A garotinha assentiu e tateou a face da avó.
— A tia Cassie num tá aqui também? E o vovô?
— Infelizmente não. — Judy afastou alguns poucos fios escuros que caíam sobre a testa da neta. — Cassie teve de ficar com Kate e Kyle, mas prometeu vir aqui outro dia, e o seu avô não sabe que estamos aqui. Viemos de surpresa. — Ela sussurrou a última sentença.
— Isso é um segredo? — Audrey indagou no mesmo tom.
— É um segredo. — A avó confirmou. — Está um pouco tarde, e se o seu avô viesse conosco, iria passar horas aqui, então vamos manter esse segredo, tudo bem.?
— Tudo bem. — Audrey sorriu travessa.
Rachel ainda encarava o chão. Estava se sentindo em uma arena medieval, pronta para lutar se quisesse salvar a sua vida. Ela ergueu o rosto segundos depois, percebendo que Frannie a fitava.
Diferente da mãe, os olhos azuis da pediatra exalavam uma mistura de curiosidade e pesar, e Rachel sustentou a troca de olhares, devolvendo os seus castanhos recheados em uma mistura de constrangimento e culpa.
Era isso o que receberia constantemente enquanto estivesse ali. As íris de todos que reencontrou nesse período curto de tempo transpareciam raiva ou pena. E ambos eram desconfortáveis de receber.
— Eu achei que uma certa garotinha iria adorar ouvir corações batendo com o estetoscópio, então eu o trouxe. — Frannie ganhou a atenção da sobrinha. — Que tal irmos até o quarto da sua mãe e ouvirmos o dela?
A resposta eufórica que recebeu foi o suficiente para animar Frannie, que pegou novamente a pequenina.
— Ela está acordada?
A pergunta de Rachel saiu em puro ímpeto, ganhando os dois pares de olhos na sua direção novamente.
— Está. — Foi a única coisa que Frannie respondeu antes de se virar e caminhar até o corredor ao lado da escada.
Rachel queria segui-la e ver com os seus próprios olhos se Quinn estava bem para que pudesse acalmar não somente a sua cabeça mas o seu coração, que batia descompassado dentro do peito, mas Judy a impediu quando tentou andar até o quarto, se pondo na sua frente.
Estavam perto demais e era possível apenas ouvir as suas respirações ecoando na sala de estar. Judy poderia facilmente tentar revidar toda a dor que Rachel causou ao erguer a mão e acertá-la, exatamente como Santana, mas não faria isso, porque não era a favor de violência física.
Ela puxou uma longa respiração antes de se afastar e passar as mãos pelo rosto.
— Eu realmente não sei o motivo da sua volta, mas eu espero que seja por pouco tempo. Eu também espero que não chegue mais perto da minha filha e da minha neta. — A voz saiu calma, porém dura.
Rachel piscou algumas vezes, focando totalmente no início da conversa.
— Eu voltei porque estou arrependida e quero reconquistar a minha família. Eu sei que demorei dois anos, mas surgiram algumas complicações que me impediram de voltar.
Judy a encarou novamente, analisando detalhadamente as íris castanhas. Adorava Rachel no passado. Tinham até mesmo iniciado uma amizade em razão da afinidade que possuíam ao trocarem assuntos em comum, mas sentia que jamais esqueceria o erro que ela cometeu.
— Você ama a Quinn? Ama a Audrey?
Aquela inquisição acertou a morena de surpresa, mas ela respondeu no mesmo segundo, com uma certeza crucial.
— Eu amo. Eu as amo mais do que qualquer coisa.
A mais velha assentiu lentamente. A raiva sumindo aos poucos e dando lugar para a melancolia.
— Eu não entendo como a sua ambição conseguiu se tornar maior do que o seu amor há dois anos e nem como você pôde ir embora, deixando a sua esposa e a sua filha recém-nascida, mas eu acredito em você. Eu acredito que qualquer pessoa pode se arrepender de qualquer erro que tenha cometido.
Rachel achou que não estava ouvindo direito e até balançou a cabeça, tentando se convencer de que aquilo não era uma ilusão do seu cérebro criando falsos diálogos, mas era totalmente real. Não estava ficando louca. De todas as pessoas, Judy era a última que esperava compreensão. E ali estava ela, dizendo que acreditava no seu arrependimento.
— Você... você acredita em mim? — A judia questionou, ainda levemente atordoada.
— Acredito. — Judy aquiesceu. — Eu acredito na redenção de todas as pessoas. Mas eu não acho que seja bom você se aproximar da Quinn e da Audrey.
— Mas eu estou arrependida.
— Eu sei, Rachel, mas a sua permanência fará com que Audrey se apegue a você. E então se um dia você descobrir que essa vida de Lima é realmente enfadonha e decida ir novamente para Nova York, como Audrey ficaria? Você quebraria o coração de uma criança de três anos. — A mais velha explicou calmamente.
— Eu não faria isso. — Rachel rebateu rapidamente. — Eu não vou a lugar nenhum sem elas e ficarei aqui em Lima pelo resto da minha vida se for preciso. Eu não cometeria o mesmo erro novamente. — Estava começando a se irritar.
— Você também achava isso há pouco mais de dois e anos e então deixou a ambição entrar dentro de você, controlando as suas ações e enchendo a sua cabeça com devaneios. E se ela entrar novamente? Não há como prever o futuro, Rachel, mas há como evitar outro momento fatídico, então eu vou pedir para você não se aproximar delas. Não faça isso. — Judy se aproximou, segurando os ombros da morena. — As coisas estão começando a voltar ao normal. Não embaralhe tudo. Não coloque tudo de ponta-cabeça. Se você realmente ama Quinn e Audrey, então não se aproxime delas. Prove o seu amor não criando outra memória traumática.
Rachel abriu a boca, mas nada saiu, e Judy aproveitou essa oportunidade para dar meia-volta, caminhando até o quarto da filha caçula.
Eram tantos ''e se'' ditos por Judy que levou mais ou menos cinco minutos para que a judia conseguisse digerir tudo. A sogra não foi ríspida, tampouco violenta. Ela não a julgou, e o pedido feito ajudou a abrir um universo de pensamentos na sua cabeça pela primeira vez desde que chegara até ali. Seria capaz de ir embora outra vez? A resposta era clara e sem hesitação. Não. Rachel não iria embora. Mas e se o melhor para Quinn e Audrey fosse o seu afastamento perpétuo? Como as coisas ficariam? E principalmente, como Rachel conseguiria viver sem elas? Provaria o seu amor deixando-as? Quinn provavelmente sentiria um ódio gigantesco, mas talvez amenizasse, então esqueceria da sua presença através dos anos. No entanto, era claro que ela poderia conhecer outra pessoa, e essa pessoa tinha nome e sobrenome. Rachel não conseguia sequer pensar em Quinn se casando com Hayden ou qualquer outra mulher. Eram tantas perguntas e poucas certezas. Ela não sabia o que fazer. Estava nadando contra uma correnteza forte demais e sem qualquer apoio.
Ela ouviu risadas vindas do quarto de Quinn e quis ir até lá, mas não o fez. Aquele era o momento em família que não estava incluída, então parou na frente do quarto de Audrey. Ainda não havia entrado ali desde a sua volta. Talvez por medo de não aguentar a ficha caindo de que realmente não esteve presente para ver o cômodo sofrer alterações para adaptar a sua filha.
Rachel lembrava perfeitamente de quando o quarto dela era no andar superior, mas diferente do outro, esse possuía proteções em todas as tomadas e nas pontas dos móveis. A cama de casal em box facilitava muito pela ausência de madeira onde a garotinha poderia se machucar. Ela suspirou e sentiu os olhos marejados, se permitindo chorar silenciosamente. Chorou porque não havia ninguém para vê-la assim. Chorou porque a sua filha nunca iria poder fitar o lilás daquele cômodo, os elefantes estampados no papel de parede e nem os bichinhos de pelúcia. A deficiência visual de Audrey a deixava transtornada sempre que pensava nisso. Pensava em como foi difícil para a pequenina não conseguir mais enxergar o mundo colorido que já estava acostumada a presenciar, em como foi doloroso para Quinn se adaptar a isso e no quão gradativo seria para ela mesma se adaptar. Conseguiria ser uma boa mãe para uma criança cega? Rachel sempre se achou tão preparada para a vida, mas a verdade é que nunca estivera.
As suas mãos trêmulas seguraram um dos animais de pelúcia, e ela lentamente se sentou na cama espaçosa, fitando logo em seguida o pequeno mural de fotos ao lado do armário. Havia poucas imagens, mas a mais recente tinha sido tirada no Natal. Audrey estava com o nariz pintado e com chifres de renas em forma de tiara na cabeça. Ela parecia feliz no colo de Quinn, que também estava igualmente fantasiada. Rachel sorriu enquanto olhava a fotografia, sentindo amor e tristeza por ter feito aquela família de três se transformar em duas.
Batidas na porta a tiraram daquele mundo particular, fazendo-a enxugar as lágrimas com pressa antes de voltar a sua atenção para a porta a tempo de ver Frannie adentrar o quarto e se sentar ao seu lado sem esperar um convite.
— Ela mandou você se afastar, não mandou? — Foi direta.
Rachel assentiu, fungando levemente.
— Como você sabe?
— Foi o que ela fez com Noah quando ele tentou falar com Lucy após Shelby ter adotado Beth. Mamãe não teve uma síncope, mas foi firme em mandá-lo se afastar. Disse que seria o certo e que ele nunca a faria feliz. E ele se foi, sabia? Ele não contestou. Eu sei que a Quinn não o amava, mas ele nem mesmo tentou argumentar.
— O que você quer dizer com isso? — Rachel estava curiosa.
— Quero dizer que ele desistiu, porque nunca a amou também. Mas você a ama, não ama?
— Amo. — A certeza da judia estava ali outra vez. — Amo muito.
— Então você acha que é certo se afastar? Eu não estou dizendo para você ficar, porque se isso acontecer, será como subir uma montanha íngreme. Talvez você não consiga chegar ao topo, mas será que vale a pena deixar o seu cansaço vencer e tomar o caminho mais fácil? A descida que não vai causar nenhum sentimento de satisfação? — Frannie arqueou as sobrancelhas.
— O que eu tenho de fazer então? Eu estou tão perdida. — Rachel fitou a cunhada com os seus grandes olhos molhados e vermelhos. — Eu não quero machucar a Quinn mais do que já machuquei.
— Eu odeio ser tão clichê, mas siga o seu coração. Siga como você seguiu no ensino médio. O modo como você desistiu do Finn e correu para Lucy sem se importar se seria rejeitada ou não. Siga, porque quando seguiu anos atrás, ele garantiu os melhores momentos da sua vida.
Rachel assentiu, não omitindo o sorriso pequeno que ousou demonstrar. Frannie e Judy estavam mesmo surpreendendo-a.
— Só não seja estúpida outra vez, ou eu mesma chamo Santana para irmos atrás de você, e pode ter certeza de que não será um bom encontro. — A pediatra continuou. — Eu tenho uma pontada forte de raiva pelo seu erro, mas talvez você realmente seja o amor da vida da Lucy. Eu não queria que fosse. Não depois do que aconteceu. É difícil acreditar que não haverá outro abandono, mas se você realmente ama como diz que ama, então faça a coisa certa.
— Eu vou fazer a coisa certa, Frannie. Ter abandonado a minha família foi a pior coisa que eu já fiz. Eu jamais vou repetir esse erro.
A pediatra assentiu. Rachel parecia ser sincera, então esperava realmente que tudo pudesse se encaixar aos poucos, mas seria difícil, principalmente conhecendo Quinn como ela conhecia. A mágoa não era dela, nem de Judy ou de outra pessoa. Era da irmã. Foi a detetive quem sofreu o abandono e quem se sentiu sozinha após ser deixada pela sua esposa. Frannie admirava a força da caçula, porque não sabia se conseguiria suportar um terço daquilo se Cassandra a abandonasse. Ser deixado para trás por um amor é como receber centenas de agulhas no coração, e Quinn sentiu uma por uma.
— Eu não posso garantir que Lucy irá perdoar você, Rachel. Eu nunca perdoaria. Mas talvez o coração dela seja maior do que o de todos nós. Só tenha calma. Audrey está no meio de tudo isso, e a situação é muito delicada.
Rachel agradeceu depois de aquiescer. Ela agradeceu pelas palavras, pelo tom complacente e pela quase confiança depositada nela. Agradeceu até mesmo depois de Frannie ter deixado o quarto, porque não sabia que precisava ouvir aquelas palavras até começar a chorar novamente.
Estava rodeada de talvez, mas o único que predominava era que talvez ainda houvesse a chance de transformar aquela família em três novamente.
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