Alleen Botsing
9 Capítulo 9
Notas iniciais

“Ontem foi bem divertido.”
Em seguida recebi uma outra mensagem.
“Quando vamos nos encontrar para terminar o trabalho?”
Pensei por alguns segundos e o respondi:
“Você está livre domingo de manhã?”
Ele me respondeu depois de alguns minutos.
“Sua casa às 10h?”
Digitei um “pode ser” e desliguei o celular, tentando ir dormir mais uma vez. De novo não consegui, acabei ficando por ali, deitada durante longos minutos, só encarando as imagens sem som que passavam pela televisão. Logo uma cena de duas crianças embaixo de uma árvore começou a passar, eu reconheci o filme na hora “Meu primeiro amor”. Lembro-me de ter visto esse filme pela primeira vez com Eric, tínhamos 11 anos. Ele achou tão nojento e desnecessário a cena do beijo, eu ri tanto com a reação dele. Sorrio.
É melhor preparar algo para o almoço, logo Eric terminará de ver seu precioso Tobey Maguire.
–A Senhora Luccas... — murmurei. Havia me esquecido completamente.
Fui em direção à porta principal, destranquei-a e peguei o casaco ao lado, no cabideiro. A tranquei, e atravessei o gramado, em seguida o pequeno pedaço de rua que separava nossas casas. Ao chegar na entrada da casa da Senhora Luccas notei que sua porta estava aberta. Estranhei por um momento, e adentrei até sua sala de estar.
–Senhora Luccas?- perguntei na esperança de encontrá-la em casa.
–Aqui na cozinha, querida- respondeu a voz da velha senhora, vinda do cômodo ao lado.
–Me esqueci completamente de levar seu bolo! Oh, Niea querida, me perdoe- disse enquanto abria apressadamente a geladeira.
–Não tem problema, Senhora Luccas- disse dando uma leve risada- Falando em comida...
–Teria mais algum de seus almoços congelados?- disse envergonhada por pedir.
–Já acabou, Niea?! Eu lhe dei o suficiente para uma semana, como sempre- olhou-me com um olhar confuso- Bom, eu devia imaginar, afinal você está em fase de crescimento.
A velha senhora retirou o bolo da geladeira e o entregou-me. Em seguida pegou alguns potes de comida congelada no freezer e pôs sobre o balcão. Virou-se para mim e disse:
– Aqui tem o suficiente para mais três dias, espero que dure até semana que vem. Qualquer coisa é só atravessar a rua.
– Muito obrigada senhora Luccas, até a semana que vem então- disse ameaçando me virar em direção à sala de estar.
– Mas já? – perguntou-me.
– Sim, senhora. Eric está me esperando.
– Ah... Agora eu entendi — um sorriso lateral formou-se em seu rosto. Tentei esconder o rubor que se formava em minhas bochechas atravessando para o cômodo anterior.
–Até, Niea- ouvi a velha senhora gritar.
–Até, senhora Luccas- respondi elevando minha voz, pouco antes de fechar a porta principal de sua casa.
Ao chegar ao meu gramado notei algumas cartas em frente à porta. “Anastásia Scott”, a maioria eram contas de luz, gás, telefone, entre outras coisas. Menos uma, um envelope grande se destacava entre os demais, ele era consideravelmente pesado, devia ser alguma encomenda ou algo que minha mãe comprara pela internet.
Tranquei a porta, amarrei o casaco em minha cintura e fui para a cozinha, deixando as levas de cartas dentro de uma das gavetas, junto com alguns livros de receitas e listas telefônicas. Pus o bolo na geladeira e os botes da senhora Luccas no freezer, menos dois. “13:35” dizia o relógio no canto da parede. Só 20 minutos no micro-ondas e estará pronto, espero que Eric aguente até lá.
Assim que ouço o bipar do aparelho avisando sobre a refeição já pronta, escuto Eric me chamar do andar de cima. Deve estar com fome, já são quase duas da tarde. Subi as escadas e fui em direção à porta do quarto de hospedes, ela estava entre aberta, do mesmo jeito que havia lhe deixado. Quando entro no quarto, posso vê-lo encarar o monitor, mesmo escuro ainda se podia ouvir vozes vindas de lá. Reparo na mão esquerda de Eric, onde ele segura o telefone sem fio da sala, “como ele o conseguiu pegar? Eu estava o tempo todo lá embaixo”. De repente interrompendo o som dos ruídos, bruscamente arremessa o aparelho contra a televisão, o fazendo se quebrar por todo o chão do quarto. Olho-o perplexa, posso ver alguns pedaços de vidro do monitor voarem para perto da cama, quase o acertando.
–Você está louco? O que deu em você? Porque fez isso?!- pergunto assustada.
–Aquele merda!- responde aos berros- Ele vai vender a casa, Niea! Ele vai me forçar a me mudar.
–Como assim?- pergunto confusa.
–Ele vai me obrigar a morar com ele!- diz ainda gritando, dando voltas pelo quarto.
–Ele não pode fazer isso. Você é emancipado como eu, ele não tem o direito!- respondo enquanto ele joga os travesseiros no chão.
–Ele não me dará escolha. É isso ou rua!- antes de terminar a sentença Eric pega o abajur ao lado da cama e o arremessa contra a parede, o fazendo quebrar em milhares de pedaços.
“Ai!” exclamo alto demais. Alguns dos cacos acertaram com violência a parte de baixo do meu braço esquerdo. Eric não escuta, tento esconder os machucados pondo rapidamente o casaco que se encontrava na minha cintura sobre o meu corpo. Ele está ocupado demais procurando algo que possa arremessar, para me notar.
–Você precisa se acalmar Eric –digo me aproximando- Logo não terá mais nada para jogar contra a parede.
Eric senta na ponta da cama e segura sua cabeça com ambas as mãos tentando se acalmar. Soltando grunhidos de raiva. Ele segura seu cabelo ainda mais forte, tentando transformar sua raiva em dor. Eu não consigo mais ver essa cena.
–Pare Eric, assim você só ira se machucar ainda mais. Já não basta os pontos no seu abdômen!?- supliquei baixo em esperança. Não conseguia realçar minha voz, o sangue começou a manchar o casaco, a dor aguda crescia insuportável.
Ele se levanta ainda alterado, tirando seu olhar aos poucos do chão do quarto até chegar em meus olhos e diz:
–Eu não vou morar com aquele mostro! Eu não consigo suportar nem suas visitas durante os meses. Eu não irei morar com o homem que matou minha mãe! –finalmente as palavras são ditas. Fico em choque por alguns segundos, eu sempre soube o que ele pensava. O real motivo por todas as brigas entre eles, o motivo por Eric sempre sair machucado. Essa fora a primeira vez que seus pensamentos escorreram-se em palavras, palavras cuspidas de tanta sinceridade.
Eu não sabia o que responder, não havia nada a ser dito. Suas lágrimas começaram a cair, uma por uma. Era sempre assim quando lembrava de sua mãe, Caterine. Me aproximo ainda mais, com pesar, e ponho seu corpo junto ao meu. Afagando seu cabelo castanho claro, tentando ao máximo ser gentil, porque se eu não fosse gentil eu tinha medo de que talvez pudesse quebrar a criança frágil dentro de Eric, a criança cuja mãe está morta. Eu tinha que ser forte de novo, eu tinha que ser forte por ele. Eric já havia sofrido tanto por ambos os pais. Eu era a única pessoa que lhe restara. Eu seria o seu porto-seguro, aquela em quem ele se apoiaria, como antes e como agora, eu não soltarei suas mãos. Eu aguentarei tudo, todas as consequências de sua dor. Mesmo que ele me afaste ou não me queira por perto.
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