Alleen Botsing

10 Capítulo 10


Notas iniciais
Espero que gostem...

Ficamos abraçados no chão do meu quarto por longos minutos, apoiados em nossos próprios joelhos. As lágrimas de Eric foram diminuindo progressivamente, seus soluços ficaram inaudíveis, sua respiração desacelerou e a força de seus braços cessaram ao redor do meu pescoço. Ele havia se acalmado, finalmente se acalmado.

–Niea... — sussurrou com sua voz ainda fraca- Eu... Obr... – ele se interrompeu.

Não consegui conter um sorriso, eu sabia o que Eric iria me falar, já era algo pelo menos. O sorriso em meu rosto logo se apagou pela lembrança ainda fresca de sua dor em meus pensamentos.

–É melhor descermos, o almoço já está pronto, você deve estar morrendo de fome- disse ao afasta-lo cuidadosamente e me levantar do chão frio- Vamos?- lhe estendi minha mão esquerda, mas rapidamente troquei para a direita, lembrando-me do ferimento na outra mão.

Ele não percebeu o que se passava, como sempre.

–Pode ir descendo, eu só vou ao banheiro por um segundo- falei ao levanta-lo.

–Tudo bem- respondeu baixo. Virou-se, após alguns segundos recuperando suas forças para o próximo movimento. E andou vagarosamente até a saída.

Reparei em algumas gotas de sangue que se espalhavam pelo chão do quarto assim que Eric atravessou a porta. Apressei-me em direção ao banheiro quando o vi terminar de descer as escadas, e peguei o primeiro pano em que pus os olhos. Limpei as manchas do quarto de mau jeito, com apenas uma das mãos. A ardência persistia em continuar. Levantei a manga do casaco por um breve momento, tentando analisar o ferimento. Um borro de sangue seco se mantinha em meu pulso, e no centro pedaços aterrados dos cacos do abajur. Me direcionei ao banheiro mais uma vez, procurei pelo kit de primeiros socorros que usara com Eric. Ainda havia bastante gaze, pelo menos. Abri a torneira da pia e pus o pulso embaixo da água corrente, a dor quase adormecida explodiu-se em uma erupção vermelha, logo todo o azulejo da pia mudara de cor. Retirei os cacos com muita dificuldade, com medo de ter acertado alguma veia. Por sorte parecia ser um ferimento apenas superficial, pelo menos é o que espero. Apressei-me ao colocar a gaze e me desfiz do casaco, o colocando no cesto de roupas sujas, desci as mangas da camisa me certificando de manter o machucado escondido. Limpei os resticios de sangue deixados para trás. Fechei a porta do banheiro e atravessei o corredor.

– Desculpe a demora — disse ao terminar de descer as escadas.

– Não tem problema — respondeu cabisbaixo — o macarrão estava frio, então eu o pus para ficar por mais alguns minutos. – apontou para o micro-ondas. Virou-se e foi em direção à sala de estar, esperar pelo soar do aparelho.

Assenti para a figura de costas. Esperei até que sumisse pela porta da cozinha, e comecei a arrumar o balcão. Peguei dois pratos no terceiro armário superior da cozinha, em seguida procurei pelo copo verde de seu super-herói favorito, que Eric sempre usava quando éramos menores. Talvez com uma lembrança de nossa infância ele se sinta um pouco melhor, é uma tentativa ingênua, mas já é algo, pelo menos. Arrumei tudo no balcão junto de um pequeno forro branco de mesa para por os pratos e copos por cima. Peguei os talheres e um pouco de suco de morango na geladeira. Só faltava o ressoar do micro-ondas “15 segundos, 14, 13, 12 segundos...” e o bipe soou. Retirei os potes de dentro do aparelho e servi seu conteúdo em ambos os pratos em cima do balcão. Macarrão com almondegas. Eric odiava almondegas, desde que posso me lembrar. Pus as que caíram em seu prato de volta a um dos potes e os devolvi para o freezer.

–Eric... – antes que pudesse terminar de chama-lo sua silhueta se formava no canto da porta da cozinha, me assustando.

Seus olhos se direcionaram quase que automaticamente para o copo verde claro perto de seu prato. O fantasma de um sorriso se formou no canto de seus lábios. Algo dentro de mim se aqueceu com uma pequena esperança ao ver seus olhos se fecharem ao mesmo instante que seus lábios subiam, aqueles pequenos segundos acalentaram a esperança dentro de mim. A esperança de ajuda-lo. Os curtos pares de segundos se passaram, e o olhar triste de seus olhos voltaram, como antes, quase que em um sopro de pesar.

Comemos em silêncio, um silêncio teso e arrastado. Com apenas o barulho dos talheres se chocando nos pratos e os goles difusos do suco descendo por nossas gargantas. ”15:50” dizia o relógio no canto da parede quando terminamos. Eric subiu os degraus sem dizer uma palavra, me deixando para trás. O observei se afastar lentamente, até que sua silhueta desapareceu ao chegar no segundo andar.

Arrumei a mesa sem muita pressa, em seguida lavei a louça manualmente, lentamente como antes. Tentei dar o máximo de tempo para que ele pudesse ficar sozinho lá em cima, eu já o ajudei a se recompor, agora Eric precisava pensar. Não o irei incomodar por alguns dias. Era sempre o mesmo processo, “O menino se enclausurava, o menino se fechava em seu próprio mundo, sua própria cabeça. O menino se recompunha aos poucos, afastado ele juntava seus próprios pedaços, se mantinha são. O menino voltava para a menina, e ela o ajudava a sorrir de novo.” Pensei em voz alta, em meio a um sussurro quase inaudível.

“16:30” dizia o relógio no canto da parede quando terminei de limpar a cozinha. Andei até a sala de estar e peguei meu celular que se encontrava em um dos cantos do sofá; “Nenhuma nova mensagem” avisava na tela. Bloqueei a tela e o pus no bolso de trás da calça. A televisão ainda se mantinha ligada, mas sem som. Procurei pelo controle, levou um tempo até acha-lo perto da mesa de centro, o programa anterior terminara. O jornal das seis acabara de começar.

“Mais uma casa invadida na rua Helmins” anunciou o repórter.

Rua Helmins... Essa era a rua do bairro vizinho ao meu, a cada semana eles se aproximavam ainda mais. Uma onda de choque e pavor subiu por todo o meu corpo, me paralisando no sofá da sala.

Perdi a conta das horas em que permaneci parada naquele mesmo lugar. Uma, duas, talvez três horas?

Levantei do sofá lentamente, e andei até a porta da cozinha ainda pensando no que ouvira no noticiário. Aquelas palavras ditas no final da reportagem ecoavam em minha cabeça, de novo e de novo, elas eram repetidas com o mesmo ar de alerta “tranquem suas portas”, “tranquem suas janelas”, “cuidado”, “cuidado”, “cuidado...”.

“18:00” dizia o relógio na parede da cozinha. Abri a geladeira e retirei o bolo feito pela a senhora Luccas. Cortei um pedaço consideravelmente grande e pus no prato de sobremesas verde retangular. Procurei pela bandeja que Ana sempre mencionava nas historias sobre meu pai. Ele sempre a surpreendia levando seu café da manhã ou algo agradável durante a tarde, e ambos comiam deitados, assistindo a um de seus filmes. Ana odiava seus filmes, ela preferia comédias românticas, o que meu pai abominava, mas acabava cedendo por ela.

Reuni tudo em cima da bandeja, mas antes a cobrindo com um forro decorativo, também verde. Pus um garfo para sobremesa, dois guardanapos em formas de triângulos, uma xicara de café florida. Mas nada de açúcar ou adoçante, Eric detestava, dizia que o gosto amargo do café da tarde é a melhor coisa que poderia provar. Ele é um garoto muito cheio de manias.

Subi as escadas cuidadosamente, tentando não esbarrar em meus próprios pés a cada degrau conquistado. Finalmente, após alguns minutos chegara a meu destino. Atravessei o extenso corredor até o quarto onde Eric iria ficar. Deixei a bandeja em frente à porta e bati uma, duas e na terceira vez ela se abriu lentamente, com o barulho da engrenagem zunindo em meus ouvidos. Não havia ninguém no quarto, estava vazio.

Corri para os outros cômodos da casa, tentando checar em todos os espaços. Ele não poderia ter sumido desse jeito.

Procurei por intermináveis minutos, mas não conseguia acha-lo. Fui até sua casa, e continuei procurando por ele, uma pista, mensagem, qualquer coisa. Seu guarda-roupa fora revirado, varias peças de roupas haviam sumido. Ele fugira, ele fugira por causa de seu pai, para longe de mim. “Como ele pôde? Depois de tudo... Como?” pensei.

Fui em direção a sua cama, já não conseguia mais me sustentar em meus próprios pés. As lagrimas caiam persistentemente por todo o meu rosto. O gosto salgado me fazia afogar em auto desespero. Eu tremia de medo por ele, por mim... eu só o queria de volta ao meu lado. Eric poderia estar em qualquer lugar agora, perdido, com fome, frio. Ele ainda não se recuperou dos machucados, mal consegue andar. Como pode ser tão estupido!

–Onde você está...? – sussurrei aos prantos repetidas vezes.

–Aqui — eu congelei ao ouvir a voz.

–Eu estou aqui.

Notas finais
Vou deixar o meu pinterest para quem quiser seguir, sempre estarei pontando as imagens dos capítulos; https://br.pinterest.com/kadraws/ Até a próxima...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.