Notas iniciais
Espero que gostem!

Naquela manhã fui até a casa de Eric, que estava encostado na escadaria principal, como de costume. Seu cabelo ondulado caia suavemente em seu rosto, deixando um de seus olhos sob uma pequena mexa que se ressaltava. Estava usando um blaiser com o logo de seu colégio, sapatos e calça social, uma gravata azul marinho e um relógio prateado.

Podia sentir meu coração palpitando na medida em que me aproximava enquanto seus lindos olhos verdes me fitavam de cima a baixo, deixando um sutil rastro de indiferença. Chegando aos pés da enorme escadaria, tomei a liberdade de oferecer minha mão em um gesto amigável cujo qual fora rudemente recusado. Já havia me acostumado com seu péssimo temperamento e com seu mau humor inconveniente, sempre demonstrando sua superioridade. Inclinei-me para ajeitar meus jeans quando ouvi seus passos calmos vindo em minha direção. Em poucos segundos ele se encontrara ao meu lado, virei rapidamente para ver seu rosto, quando deparei com sua expressão impaciente. Com certo desconforto o segui até a porta.

Caminhamos em silêncio por alguns quarteirões até que ele parou e tocou minha mão brevemente e se virou em minha direção, me fazendo corar.

–Sua mochila está aberta. Se suas coisas caírem eu não irei te esperar. — Disse apontando para a mochila. Fechei-a rapidamente sem perceber que não havia me esperado.

Andamos por mais um tempo até que nos separamos na entrada do San Judds, o colégio de Eric.

Como somos vizinhos desde pequenos, ficamos juntos o tempo todo. Somos como irmão e irmã, já que ambos são filhos únicos.

Eric sempre estudou nas melhores escolas e tirava excelentes notas, tendo a melhor educação que o dinheiro pode comprar. Quanto a mim, contentava-me com as poucas opções educacionais que tinha já que não possuía as mesmas notas.

Ao chegar à rua do San Marrie encontrei April junto a Kevin, seu novo namorado, o capitão da equipe de natação. Quando éramos crianças, sempre andávamos juntas, mas, depois que conheci Eric, passei a dividir meu tempo entre os dois quando entramos no ensino fundamental, já que ela começou a se destacar entre os garotos. Desde então, nossa amizade foi desgastando-se aos poucos.

Dei um curto aceno a ela, mas estava concentrada demais em Kevin beijando seu pescoço para me notar. Continuei caminhando, em direção à entrada principal, onde um dos professores substitutos discutia com Bruno que, assim como Eric, era como um irmão pra mim. Com seus cabelos tingidos de vermelho caindo por seus ombros, estava usando um macacão preto, uma jaqueta vinho e uma camisa escura.

Ao passar por eles, fui em direção a meu armário, que ficava ao lado do laboratório, que sempre no final da tarde ficava com cheiro de produtos químicos que vinha do mesmo. Peguei meu livro de cálculos e fui caminhando pelo corredor até a sala de Matemática 1, onde seria minha primeira aula do dia. Sentei na ultima carteira da ultima fileira, que era meu assento predileto onde sempre conseguia ver o pátio da escola de Eric.

Assim que o sinal tocou, fora se formando um pequeno tumulto na entrada da sala e entre todos, destacou-se na multidão uma pessoa que eu nunca havia visto até hoje, provavelmente um aluno novo. Era alto, magro e usava um capuz acinzentado que cobria seu rosto, deixando apenas algumas mechas loiras caírem levemente sob sua boca. Seus jeans estavam surrados, quase tanto quanto os meus. Ele se sentou na fileira do lado, deixando apenas um espaço de quatro carteiras entre nós.

Assim que o professor Green fechou a porta, o aluno novo cuidadosamente colocou a mão dentro de sua mochila, apanhando alguns livros e um pequeno jogo portátil e pondo-os sobre sua mesa. O professor logo após ajeitar suas coisas, se direcionou até a lousa e nos deu instruções de um trabalho em grupo. Os grupos seriam de quatro pessoas, sendo que cada um copiaria e faria o trabalho em seu próprio caderno, mas todos deveriam se ajudar para concluir cada questão que ele passaria no quadro. Sendo assim, ele foi citando nomes aleatórios de alunos para formarem seus grupos:

–Niea Scott, Lion Tate, Alison Smith e Gabriela Forght.

Ao ouvir o meu nome, olhei para os rostos dos únicos nomes que reconheci, pois estudavam comigo fazia um tempo, e pude observar que todos os que foram citados se levantaram e vieram arrastando suas cadeiras até mim enquanto o professor escrevia os exercícios que, ao serem resolvidos corretamente, seriam um bônus em nossas notas. De todos os que vieram, me surpreendi ao ver aquele mesmo garoto que havia visto antes e que me intrigava. No minuto em que todos se organizaram, iniciamos o trabalho, debatemos sobre cada questão e procurávamos as melhores fórmulas para serem aplicadas, até que depois de um tempo Alison se manifestou e se direcionou para o garoto de capuz, querendo puxar assunto com ele.

–Oi, você é novo na escola? — Ela perguntou tentando parecer o mais simpática possível. Ele não respondeu, apenas assentiu.

A partir desse momento, a todo instante ela tentava fazer uma pergunta, mas apenas era respondida com pequenos gestos até que, depois de um tempo, acabou desistindo, frustrada.

Devo dizer que ele não estava ajudando muito. A cada exercício que concluíamos, Lion apenas franzia sua testa e olhava para seu jogo com um sorriso torto, cujo qual me lembrava a expressão de superioridade de Eric toda vez que eu fazia algo de errado.

Depois de finalizarmos a última questão, Lion arrancou uma folha de seu caderno e depois de alguns segundos com a cabeça baixa, analisando o pedaço de papel, dobrou-a e entregou-a a mim. Desdobrei a folha com cuidado, meio desconfiada, e virei meu olhar para seu sorriso, novamente torto, lembrando-me ainda mais de Eric. Comecei a pensar que ele com certeza devia ter procurado todas as respostas naquele aparelho dele, de algum modo. Quando fui até a mesa do senhor Green, notei que seu jogo estava desligado, e eu pensando que ele havia colado. Virei o rosto imediatamente e voltei a andar em direção ao professor. Um tempo depois de entrega-lo, ele se levantou carregando uma folha A4 gasta que possuía as respostas das questões, eu presumi. Começou a fazer a correção conosco. Assim que chegou no último problema, se virou para Lion e com a mão estendida o fez entregar seu jogo. Ele com certeza chegou ao mesmo raciocínio que eu, pois eu sabia que ao longo do trabalho ele estava observando a cada um, se assegurando que nenhum espertinho iria passar a perna nele. Arrastando-no até a lousa ele pediu para que terminasse de resolver a questão. Ele fitou o quadro com uma expressão confusa, levou o apagador até o inicio das contas exageradas do senhor Green e recomeçou o problema. Em poucos minutos o quadro estava cheio de números e fórmulas matemática que ainda não tínhamos aprendido. O professor surpreso começou a procurar alguma brecha que fizesse o problema inválido, mas nada parecia ter efeito.

–Muito bem, pode se sentar agora senhor Tate.- Disse o professor Green com um rosto tão abalado que parecia ter levado outro não da senhorita Smith, a professora de biologia.

Ao se sentar olhou para o homem em frente ao quadro, dando levemente o sorriso que compartilhava com Eric. O deixando aparentemente irritado, já que nenhum aluno o tinha superado antes.

Assim que o sinal do terceiro tempo tocou, fui pegar meus livros de química. Assim que abri o armário, tive o sentimento de que alguém estava me observando. Olhei em volta e me surpreendi ao ver Lion com os seus olhos fixados em mim. Coloquei o livro de calculo de volta para o seu lugar, coloquei na minha mochila os livros para a próxima aula e fechei ligeiramente, enquanto sentia seu olhar em minhas costas, até que se desencostou da parede e foi em direção a sua segunda aula, cujo a qual ficava perto do meu armário. O segui em direção a sala de química um, junto com alguns outros alunos.

Quando entrei pude ver a professora Sunnen escrever algo sobre a escolha dos parceiros de laboratório desse semestre. Como em todo inicio das aulas, ela decidia por ordem alfabética e como consequência me sentava desde o nono ano com Niel, até ele sair da escola no ano passado.

–Vocês terão de se reunir no final da sala, antes de começar a divisão dos parceiros.- Deu uma curta pausa- Quem tiver seu nome chamado se dirija a um acento e aguarde seu parceiro.- Disse a senhora Sunnen com uma expressão de desinteresse estampada em seu rosto, como alguém que aparentava fazer aquilo todos os dias por pelo menos quarenta anos.

Vários alunos foram chamados, deixando apenas alguns assentos na frente, quando meu nome finalmente fora anunciado. Ao me sentar notei que quem estava ao meu lado, era Lion, com seu capuz levantado deixando apenas algumas brechas de claridade invadirem a sombra de seu rosto, mostrando-na somente seu pescoço pálido e esguio. Eu demorei meu olhar sobre a figura encapuzada que tinha sua atenção voltada para o jogo portátil escondido em cima de suas pernas. Enquanto a professora Sunnen continuava com sua explicação detalhada a respeito das propriedades físico químicas da matéria, podia-se ver os alunos da escola ao lado darem voltas na quadra de futebol-americano, durante mais uma aula de educação física fora do ginásio.

Notas finais
Continua no próximo capitulo...