Notas iniciais
Espero que gostem e um feliz natal!

O sinal dizendo finalmente o fim do terceiro tempo tocou. Todos começaram a pegar suas coisas para a próxima aula, até que a senhora Sunnen se manifestou:

–Não se esqueçam da pesquisa para amanhã sobre o que discutimos hoje e do trabalho de campo mês que vem. -Disse antes dos alunos se retirarem abruptamente da sala.

Fui novamente em direção a meu armário em busca dos livros da aula de literatura, que começava em menos de um minuto. Enquanto corria até a próxima aula, que ficava a dois andares de distância do laboratório de química, pude ver Lion de soslaio entrando na sala ao lado, para a aula de Historia com a senhorita Poul.

Ao chegar na sala do senhor Boris, encontrei April sentada na primeira fileira como de costume, sua mochila estava guardando o lugar atrás, Kevin se sentou enquanto lhe dava um pequeno beijo na bochecha. O professor não pareceu se importar com meu atraso, então fui em direção aos acentos perto da janela, na esperança de ter alguma distração durante a leitura em grupo de Hamlet.

Passei os últimos dois tempos observando o prédio ao lado, mas sem nenhum sinal dele. Pelo visto tinha passado seu intervalo na sala como sempre. Eric estudava muito, diversas vezes tive de passar minhas noites sozinha graças a seus compromissos com a escola. "Preciso de novos amigos" sussurrei olhando para o acento ao meu lado.

–Ei, a Olive pediu para passar pra você.- Disse Bruno, que eu não havia notado que estava ali, com um bilhete entre as mãos.

"Oi, qual clube vai escolher para esses semestres?... Eu e uns amigos conseguimos com a diretora para fundar um clube de cinema, precisamos de alguns alunos, o que acha? (se quiser coloque seu nome atras do bilhete e passe para frente)"

Peguei uma caneta e comecei a escrever meu nome, me perguntando como seria esse grupo.

"Niea Scott"

O dobrei e entreguei o papel para Bruno novamente, logo depois o professor despertou de seus devaneios tirando brutalmente o papel de suas enormes mãos de guitarrista, deixando Olive surpresa e apreensiva.

–Detenção, senhor Callon.- Ele se virou para mim com um olhar furioso, mas aceitou seu castigo em silêncio.

"Obrigada" sussurrei me virando para o lado. Ele sorriu, me entregando outro bilhete. "Tudo bem, mas vai ter que me reservar um sábado " Fiz que sim com a cabeça, deixando o sorriso esperançoso de Bruno falar mais alto. Ele era um bom amigo, mas sempre me usava para fazer seus trabalhos de escola, alegando que precisava de ajuda.

Quando o sinal da ultima aula tocou, fui junto com ele até nossos armários.

–Então algum plano para hoje, ou vai ficar estudando junto com o seu namoradinho?- Um sorriso malicioso se formou no rosto do garoto quando terminou seu deboche.

–Você sabe que não é bem assim, nós somos praticamente irmãos.- Ri ao ver seus olhos se revirarem. Ele tocou no meu ombro ligeiramente e voltou sua atenção ao seu armário.

–Ok, Ok. Vou fingir que acredito.-Dizia ao guardar seus livros.

Ele sorriu assim que finalizou o que estava fazendo e me apontou a direção da saída. "Anda, vê se não o deixa esperando". Quando olhei para traz, pude ver apenas um pequeno sorriso se formando em seu rosto magro e lívido.

Ao passar pela rua do Nothelo Bart's, vi Eric sentado na calçada conversando com uma garota um pouco mais baixa do que eu, com lindos cabelos loiros perfeitamente moldados em uma longa trança embutida. Ela usava o mesmo uniforme que as outras, uma saia azul marinho e sapatilhas pretas bem polidas. Ela mordia os lábios enquanto olhava em seus olhos. Depois de um certo tempo eles se despediram, me dando uma brecha para me aproximar dele.

–Oi, então... podemos ir?

Fiz que sim com a cabeça, enquanto segurava minha própria mão. Pude ver a garota bufando de raiva quando viramos a rua. Conversamos sobre o novo filme que estreou no cinema da décima avenida, em frente ao Wall's Buggers.

Algumas buzinas nos fizeram seguir para calçadas diferentes. Nos entre olhamos, dei uma leve risada e corri para seu lado. Ele acelerou o passo mantendo uma pequena distancia entre nós. "Grosso" sussurrei.

–O que disse?

–Nada, eu não disse nada.- minhas bochechas coraram no instante em que seus olhos penetraram os meus. Sua mão repousou em minha testa. Ele se aproximou com um olhar preocupado.

–Você esta se sentindo bem? Está meio febril.- Disse Eric com seu tom sarcástico de sempre.

Virei meu rosto, tirando abruptamente seus dedos de minha pele. Ele deu seu sorriso torto e se afastou, o olhei irritada e apressei meu passo. Ele puxou minha mão quando comecei a ultrapassa-lo, me fazendo tombar em seu tórax. "Ai" sussurrei com o susto.

–Não ande tão rápido da uma impressão de que estou te seguindo. O que na verdade é o contrario.-Bufei com suas palavras.

–Você é um grosso sabia.

–Já deveria estar acostumada.- Eric continuou andando, me deixando novamente para trás.

Quando cheguei em frente ao gramado de onde morava, pude vê-lo andando impacientemente até a casa ao lado, na esperança de que não estivesse muito atrasado para o almoço. Seu pai era muito rígido nas poucas vezes que permanecia em casa, por Eric ser seu único filho. Desde que sua mãe morreu ele se transformou completamente, se tornando o adulto responsável que seu pai sempre quis, apesar de ainda ter 16 anos. Minha mãe pelo contrario não se importava muito com a minha vida, só a via durante os feriados por causa de seu trabalho como aeromoça, como consequência tive de morar sozinha e me tornar uma emancipada. Ela conheceu meu pai durante um voo, ele era piloto até falecer antes do meu nascimento.

Entrei em casa deixando as chaves e minha bolsa ao lado da porta na mesinha de centro, como de costume. Fui em direção a cozinha para descongelar alguma comida pronta que a senhora Luccas havia me preparado. Ela era como a avó que nunca tive, sempre me ajudava com as coisas da casa desde que minha mãe decidiu se aprofundar em seu trabalho, me emancipando aos 16 anos.

Fui até o quarto principal, o qual me apossei depois que Anastásia se mudou. Ela não era uma mãe ruim, mas como me teve muito jovem e sem ninguém que a ajudasse, ela acabou me tratando como igual, sem impor regras ou castigos. Ana nunca teve nenhum problema por minha causa, sempre a via como uma irmã mais velha. Ela nunca tentou estar com alguém depois de meu pai, dizia que era o seu primeiro e único amor... Meu celular começa a apitar, vejo que recebi uma mensagem de Eric:

"Abra a janela!"

Corro em direção ao meu antigo quarto, Eric estava tentando abri-la, mas eu havia trancado depois dos rumores sobre assaltos na vizinhança. Eu a abro e ele entra com dificuldade, esta ofegante e possui uma mancha escura na camisa.

–O que aconteceu?-Pergunto preocupada- Isso é sangue?!

–Meu pai...-ele começa-... Esqueça, só pegue uma gaze e álcool. Rápido.

Saio do quarto e entro na porta ao lado, alcanço o kit de primeiros socorros e pego algumas toalhas limpas em baixo da pia. Ele está deitado na cama me fitando enquanto me aproximo. Eric se ajeita e escorrega para sentar na beirada. Ajoelho em sua frente, ele continua a me encarar, estico minhas mão até a borda de sua camisa e a tiro devagar, para não machuca-lo.

–Ainda tem um pedaço de vidro, vai ter que tira-lo- Digo me sentindo meio tonta.

Ele segura minha mão e a poem perto de seu machucado, olho relutante para ele, mas confirmo com a cabeça. Fecho os olhos bem forte e sinto meus dedos alcançarem o vidro.

–Não feche os olhos, enlouqueceu? Você quer que eu morra, por acaso?-Ele diz aumentando sua voz. Nego com a cabeça e abro os olhos depois de um tempo juntando coragem para continuar. Puxo vagarosamente, e logo o sangue começa a jorrar mais violentamente. Ponho um toalha para estancar o sangue, parece funcionar. Depois de um tempo ele deixa de sangrar, então me sinto segura para terminar seu curativo.

No fim ele volta para casa, me deixando ainda mais preocupada com a estadia de seu pai. Sempre que ele aparece por aqui, Eric fica ferido, mas nunca tão grave como hoje.

Me perco em meus pensamentos e logo a noite começa a cair, me apresso para fazer a pesquisa de química e o resto de minhas lições. Como as sobras do almoço de hoje, que a Senhora Luccas havia congelado para mim e leio algumas páginas de Hamlet na sala, para minha aula de amanhã. Acabo apagando no sofá depois de um tempo.

Notas finais
Continua...