Alleen Botsing
7 Capitulo 7
Notas iniciais

Meu coração se acelera novamente, seu toque em minha pele me dá um arrepio quase instantâneo. Assusto-me de inicio com sua aproximidade repentina, mas seu toque é tão delicado que não o empeço de continuar. Ele termina sua inspeção e volta para o meu lado, fitando minha expressão de surpresa e timidez, que se transbordam em um imenso rubor.
–Não mudou muita coisa, mas pelo menos agora ele está mais limpo. –percebo a mancha vermelha metálica que se alastrou pela camisa de Lion.
–Desculpe. –digo em quase um sussurro.
–Pelo que? –mas ele consegue ouvi-lo.
Passo meus olhos por sua camiseta o fazendo a olhar. Ele sorri genuinamente e passa seus olhos por minhas bochechas exageradamente coradas.
–Você está parecendo um tomate. –ele ri de sua própria comparação, aliviando um pouco meu nervosismo. Seu sorriso se alarga por um momento e depois volta a sua expressão serena de antes.
–Você não teria outra camisa, um casaco ou qualquer coisa que eu possa usar? –me pergunta.
Penso imediatamente em Eric, se eu fosse até sua casa, provavelmente estaria dormindo, seria fácil pegar uma camisa e ir embora sem ser notada.
–Claro, vou pegar espere só um momento. –digo indo em direção a porta.
Passo pelo extenso corredor e sigo para á ultima porta a esquerda, onde ficava meu antigo quarto. Quando o abro, percebo que minha janela está fechada, e perto dela o piso estava molhado. Deve ser obra de Eric ao passar para o outro lado. A abro com certo receio, mas consigo passar sem maiores dificuldades. Entro em sua casa, ela também está muito escura, vou direto para o armário dele, sem perceber nenhuma movimentação na cama ou perto dela. Pego o primeiro casaco que consigo identificar e volto para a janela, antes que eu possa acordá-lo.
Quando estou passando para o outro lado, meu joelho se choca com a base de madeira que recobre a passagem. Uma dor cortante me faz dar um longo grunhido de desespero. Assim que ponho meus pés no chão, acabo escorregando na poça que havia ali, mas antes que eu pudesse cair, sou segurada por alguém que me abraça fortemente. Levo um susto de inicio, mas o identifico depois de alguns segundos por causa do cheiro metálico do sangue. Era Eric.
–Achei que estivesse dormindo em sua casa. –digo ao me desfazer de seus braços.
–Eu tentei passar, mas meu machucado ainda dói muito.
–Maravilha — digo irônica.
–O que foi? –me olha desconfiado- Só está agindo assim por causa dele?
–O que?! –coro no mesmo instante.
–Agora peguei no ponto fraco? – Eric dá um sorriso malicioso. –Quem é o bonitão?
–Não é da sua conta, agora vai logo pra sua casa antes que eu peça para o “bonitão” te expulsar a tapas daqui. –o empurro em direção à janela.
Ouço passos no corredor, olho para Eric desesperada, acho que ele percebeu minha expressão, mesmo com a fina luz da lua iluminando o quarto. O ajudo a se esconder em baixo da cama e ando apressadamente até a porta, quando no mesmo instante ela se abre, revelando um Lion preocupado e igualmente nervoso.
–O que ouve? Você caiu de novo? – diz ao repousar suas mãos em meus ombros.
–Não foi nada, é que eu escorreguei em uma poça que estava perto da janela. –aponto para o lugar onde quase cai, antes de Eric aparecer- Mas está tudo bem.
–Está tudo bem mesmo? –confirmo com a cabeça.
–Aqui, olhe, peguei o casaco que pediu. –o estendo para ele.
–Obrigado, mas acho que ele deve ser muito pequeno para mim. –quando o vejo direito, é um dos casacos antigos de Eric, que usávamos para ir para a escola primaria juntos.
–Droga! Peguei o casaco errado. –digo mais para mim do que para ele.
–Tudo bem, mas acho que vou ter que ficar desse jeito mesmo. Ainda bem que está calor por aqui. –diz enquanto ri, sua risada é tão gostosa de se ouvir. Sorrio com o pensamento.
–Vamos? –Me pergunta ainda rindo.
Confirmo com um gesto positivo e o sigo até meu novo quarto.
Ele passa suas mão pela parede do corredor, abrindo caminho até a outra porta. Entramos e posso ver mais sangue em meu machucado devido a luz das velas.
–De novo?!- Lion me pergunta com um sorriso reprovador e cômico ao mesmo tempo.
Mas antes que eu pudesse falar, ele estava lá, limpando novamente o sangue que escorria por minha perna. Seu toque é igualmente gentil como da ultima vez. Seus dedos são firmes e objetivos, como um verdadeiro medico.
–Onde aprendeu a fazer isso? –me surpreendo com minha própria pergunta.
–É que eu estudei em uma escola militar por muitos anos, e lá é obrigatório termos aulas de primeiros-socorros. – disse fitando minha reação.
–Deve ter sido duro, os seus pais que te puseram lá?
–Foi o meu pai, ele era o coronel e ao mesmo tempo diretor da escola, mas agora ele se aposentou. E quanto aos professores, eles eram mais rígidos do que os daqui, mas eu até que gostava.
–Por quê?
–Porque o meu pai se aposentou? –me olha confuso.
–Não, não- dou uma curta risada por causa de sua expressão- Porque você preferia os outros professores?
–É bem simples, é porque lá eles pegavam pesado porque precisavam, aqui é ao contrario, eles são maus porque gostam de ver seus alunos sofrerem –rimos juntos de sua analogia a respeito do Sr. Green.
–Só diz isso porque roubaram seu precioso vídeo game- digo finalmente.
–Em teoria... Digamos que isso é uma verdade.
–Bom, acho que não será hoje que vamos terminar esse trabalho. –comento.
–Isso já se tornou um fato. -rimos juntos.
–Que tal assistirmos a um filme ou algo assim? –ofereço.
–Serio?- me olha intrigado.
–Sim, por quê?
–Não se importa em ter um garo... –Lion interrompe a si mesmo.
–O que foi?
–Nada, esqueça. –Dá uma pequena pausa- Então, quais são as nossas opções para o filme?
Ofereço-lhe minha longa coleção de filmes, desde aos grandes clássicos aos mais atuais. Ele se impressiona com meu armário repleto de longas e curtas-metragens. Acabamos ficando com um filme de faroeste, A Balada do Assassino de Robert Rodriguez com o ator mexicano Antonio Bandeira. Descobri que temos o mesmo gosto por filmes de ação, isso é incrível, pois Eric os odeia, ele prefere mais os atuais por causa dos efeitos especiais. E Bruno, assiste apenas romances policiais, o que não deixa de ser ruim, porque tem pelo menos um pouco de ação.
Em certo ponto do filme, Lion desvia seu rosto, que antes repousava com uma expressão de pura admiração. Agora parecia desconfortável e um pouco tímido. Tirei minha atenção dele e voltei-me para a tela, mas assim que pus meus olhos na cena logo os desviei, ficando extremamente vermelha. Havia me esquecido completamente da parte em que El Mariachi e Carolina estão em um “momento intimo”. O silencio que se alastrava estava ficando cada vez mais desconfortável, “porque justo essa cena tinha que ser tão longa?” pensei.
Quando aquela parte finalmente terminou, voltamos a assistir ao filme tranquilamente, como se nada tivesse acontecido, afinal, era apenas uma cena de amor.
Os créditos começam a cair e ameaço me levantar para desligar o aparelho quando noto a mão de Lion por sobre a minha, nem havia percebido que ela repousava ali, de tão concentrada que eu estava. Sorri com esse pequeno gesto e peguei o controle ao meu lado, sem querer que ele tirasse sua mão de cima da minha.
–Você é uma ótima companhia para assistir a um filme! –ele comentou.
–Serio? Porque diz isso? –indago curiosa.
–Você não fica falando o tempo todo, nem diz o vai acontecer, mesmo já tendo assistido.
–Obrigada, eu acho. –rio de sua explicação.
Ficamos rindo e conversando por um longo tempo, Lion acabou sendo um ótimo amigo, e me distraído completamente a respeito do problema de Eric. Foi bom poder falar com alguém, mesmo não desabafando, eu senti o peso que caia sobre mim, diminuir consideravelmente, quase não sobrando nada. Mas logo me lembrei do que me esperava no dia seguinte, mesmo ele tendo me deixado irritada hoje, ele ainda era o meu melhor amigo, e eu me importo muito com ele, para deixar algo assim enfurecer-me por muito tempo.
–Que tal mais um filme? –perguntou Lion, me tirando bruscamente de meus devaneios.
–Claro, porque não? –ele estava tão animado, como poderia dizer não? Mesmo estando com um pouco de sono.
Desta vez eu o deixei escolher sozinho, nem prestei atenção em sua escolha até que o filme começou a rodar, não o reconheci de imediato, até que o titulo na entrada o denunciou, era Ação Violenta, com Steven Seagal.
Na metade do filme, meus olhos começaram a teimar em se fechar, mas os mantive firmes o quanto eu pude. Até que não conseguia agüentar mais e me entreguei ao sono que persistia tanto em me levar.
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