Alleen Botsing
5 Capitulo 5
Notas iniciais
Acordei fora da cama, Eric pelo visto ainda tinha o mesmo costume de quando éramos crianças, sempre me empurrava para o chão enquanto dormíamos. Ele diz que a culpa é minha, pois tenho sono pesado, mas ele quem é espaçoso.
Quando olhei no relógio, eram nove horas da manhã. Tarde de mais para ir para escola. Pelo visto o despertador do celular de Eric não havia funcionado. O peguei em cima da escrivaninha, ao lado do abajur. Estava completamente sem bateria alguma... Típico. Revirei os olhos.
Demorei um tempo para conseguir acordar ele, tive de arrastá-lo até minha casa sozinha, Eric parecia mais um zumbi, do que um cara machucado. Recebi um aceno amigável da Senhora Luccas ao atravessar o gramado dele para o meu. Fiquei feliz por poder vê-la cuidando de seu lindo e convidativo jardim, cujo qual eu adorava brincar com Eric quando era criança.
Abri a porta e o direcionei até a sala de estar, depositando-o no sofá de três lugares, que ficava ao lado da televisão. Depois de uma ou duas horas ele acordou, já reclamando sobre os seus pontos.
Tive que repor seu curativo duas vezes, porque não parava de se mexer, toda hora resmungando sobre a dor. Na hora do café fiz os biscoitos de aveia que ele tanto adora, fiquei mais de meia hora cozinhando para ele e nem um obrigado recebi em troca, e ainda por cima reclamou que precisavam ficar mais tempo assando no forno.
Quando Eric terminou seu café fui lavar a louça, que não era tanta, já que havia adiantado grande parte enquanto o esperava sair do banheiro. Ele ainda está tendo um pouco de dificuldade para se movimentar, mas está se esforçando, da sua maneira, mesmo reclamando sobre tudo.
–Porque está demorando tanto? -disse enquanto tentava levantar da cadeira.
–Se você está tão impaciente pode... — me interrompi- Esquece... Já estou quase acabando. –Havia prometido pra mim mesma cuidar dele, e se isso incluísse seu mau humor, então que viesse.
Fui colocando os pratos um a um em baixo da pia, enquanto Eric cantarolava uma das músicas que tocava no rádio da sala.
Ao terminar de secar a louça e arrumar a cozinha percebi que ele está agora dormindo no sofá ao lado da Televisão. Andei calmamente em sua direção, me sentei ao seu lado e pus sua cabeça em meu colo, para ter algum espaço. Estava passando o jornal da tarde. Mais uma casa fora assaltada essa semana. No total eram sete e ainda era sexta-feira. Tirei a cabeça de Eric do meu colo e fui em direção a porta. Ela estava destrancada, me assustei ao perceber isso, subitamente a tranquei, com medo do que poderia acontecer. Dois adolescentes; uma garota magrela e um cara doente. E ainda a maioria dos vizinhos eram senhores e senhoras de idade. Seriamos alvos fáceis dentro dessa casa.
Meu celular de repente começa a tocar, atendo no segundo bip.
–Alo?
–Alo Niea. Aqui é o Lion, Lion Tate, temos algumas aulas juntos.
–Lion? Ahh, oi. Como conseguiu o meu número?
–O ruivo, aquele seu amigo, ele me deu seu número. Temos educação física juntos.
–Legal, mas... – ele me interrompe.
–Bem, é que você faltou hoje e a professora de química um, passou uma tarefa pra segunda-feira. E como somos parceiros de laboratório...
–Entendo, é sobre o que o trabalho? Eu posso ficar com a metade e depois juntamos tudo.
–Na verdade, temos que fazer um relatório de trinta paginas sobre a matéria que aprendemos hoje, então terei que te ajudar. –diz meio inseguro.
–Claro, quando você pode vir aqui?
–Hoje seria bom.
–Hoje...? – me virei em direção à Eric deitado no sofá.
–O que foi? Algum problema?
–Não, nada. Que tal as 18 horas, está bom para você?
–Tudo bem por mim, até mais tarde então.
–Tchau. –desliguei a chamada em seguida. Justo quando eu falto tem que ter um trabalho desses.
Voltei para a cozinha, na esperança de ter algumas sobras da comida congelada que a Senhora Luccas sempre mandava. Mas não havia sobrado nada graças ao meu convidado extra.
Peguei meu casaco ao lado da porta e a destranquei, levando as chaves em meu bolso da calça. Ao sair, a tranquei novamente, ponderei por alguns segundos deixar um bilhete para no caso de Eric acordar antes que eu voltasse, mas iria demorar apenas alguns minutos e ele parece estar tão sereno. Atravessei a rua na direção da casa da Senhora Luccas, passei por seu lindo jardim da frente cujo qual ela passara intermináveis horas cuidando. Quando alcancei sua porta, pude ver uma revista sobre jardinagem e algumas cartas na abertura para correspondência, logo as peguei e bati na porta três vezes antes dela se abrir. A senhora Luccas estava com seu avental de gatinhos e com as mãos sujas de chocolate, pelo visto iria faturar algumas guloseimas para depois do jantar.
–Olá Niea, que surpresa agradável- me saldou a velha senhora.
–Oi senhora Luccas, tomei a liberdade de pegar sua correspondência, pareciam ter já sido esquecidas no correio- Ela me olhou com um olhar confuso, mas voltou a sorrir em poucos segundos.
–Bom, entre, entre, minha cara- Deu uma pausa ao arregaçar a porta- Chegou em uma boa hora, estou assando um bolo de chocolate com aquela calda que você almeja.
Sorri animadamente com suas palavras. Apressei-me ao entrar em sua sala de visitas e a acompanhar até sua maravilhosa cozinha.
–Gostaria de me ajudar a fazer a calda?- perguntou em quanto me oferecia um de seus aventais de animas.
Balancei positivamente minha cabeça e recebi mais um sorriso convidativo de sua parte.
–Primeiro... — ela apontou para o armário embaixo da pia, onde ficavam as panelas.
Peguei a primeira que vi e a estendi para que pudesse ver. Recebi um gesto afirmativo e em seguida coloquei-a em cima do fogão.
–Deixe o fogo alto, com esse tipo de calda é necessário sermos rápidas- deu uma curta risada.
–Agora pegue o açúcar, se lembra onde está?
–Lembro sim.
Fui em direção aos armários dos condimentos perto do microondas, peguei o pode de açúcar e despejei uma quantidade razoável na panela. Em seguida liguei o forno, ficou derretendo por um ou dois minutos, depois peguei uma xícara e a enchi até a metade de água, logo a despejei na panela.
–Agora mexa por quatro minutos e ai está pronta, só faltara tirar o bolo do forno.
Mexi pelo tempo determinado. Passei meus olhos pelo relógio na parede da senhora Luccas e me deparei que eram quase 19h, como pude demorar tanto tempo aqui? E Lion? Tenho que ligar imediatamente para ele quando chegar em casa.
–Desculpe, mas eu tenho que ir, a senhora pode me mandar o bolo mais tarde quando estiver pronto?
–Mais já?- indagou à senhora.
–Infelizmente eu tenho de ir, me desculpa mesmo, eu gostaria de ter ajudado mais.
–Tudo bem. Claro que eu te entrego o bolo quando estiver pronto, amanhã bem cedinho eu vou até sua casa.
–Obrigada senhora Luccas, até logo então.
Corri em direção à porta principal, quando a abri, pude perceber que estava chovendo muito, respirei fundo e sai correndo pela chuva. Ao atravessar a rua pude perceber uma figura encapuzada meio embasada por causa das gotas que caiam teimosamente em meus olhos. Diminui a velocidade de meus passos e me aproximei da entrada, era Lion encharcado pela chuva. Ele estava digitando alguma coisa no celular quando notou minha presença, se virou rapidamente, com um sorriso de alívio em seus lábios.
–Oi, pensei que tinha se esquecido de mim.
–Desculpa mesmo pelo atraso.
–Tudo bem, mas teremos que ficar até mais tarde se quisermos o sábado livres. – fiz um gesto afirmativo, e o convidei para entrar.
Destranquei a porta e o esperei adentrar na casa. Por um instante havia me esquecido de Eric dormindo no sofá, o que Lion iria pensar de vê-lo nesse estado?
–Por aqui. – lhe apontei as escadas, rapidamente o levando para fora da vista de onde ficava a sala de estar. Acho que não notou nada, de repente um alivio enorme percorreu por meu corpo.
Ao subirmos os degraus, levei-o para o antigo quarto de minha mãe, que agora é o meu. Lion se sentou em minha cama e começou a tirar o material para o trabalho de sua mochila. Depois olhou para seu casaco e em seguida para mim.
–Se importa se eu tirar isso? Bem, é que ele está ensopado da chuva.
–Não, tudo bem, sem problemas. — Dei uma curta risada.
Lion retirou seu casaco com dificuldade, à primeira coisa em que reparei foram os hematomas que se concentravam na lateral de sua costela, sua camisa branca molhada não as escondiam muito bem. Em seguida foram seus ombros rígidos, mas logo pude perceber seus lindos olhos castanhos e seu maxilar firme. Seu cabelo loiro caia suavemente em seu rosto, dando-lhe uma aparência quase angelical.
–O que foi? –Me assusto com sua pergunta repentina.
–Nada, nada. É... Que tal começarmos logo? –Sugiro.
Lion confirma e pega um dos livros que deixou sobre a cama, me sento ao seu lado, deixando apenas um espaço de alguns centímetros entre nós.
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