Alleen Botsing
4 Capitulo 4
Notas iniciais

Ele atendeu no primeiro toque "Onde você esta? Estou te esperando a uma hora" me desculpo pelo atraso e explico a situação, ele parece irritado, mas assente e desliga sem aviso prévio. Espero por mais alguns minutos até ouvir a porta se abrindo, vou em direção a entrada principal e vejo a senhora Luccas me olhando curiosa.
–Desculpe, estava esperando a senhora- digo sem graça.
–Tudo bem querida, mas o que lhe trás aqui? Ouve algum problema, quer conversar?- ela parece preocupada. Nego e peço seu carro emprestado, suspeita de inicio, mas acaba cedendo.
Ela me dá o dinheiro para abastece-lo e me desejando sorte. Chego as 15 horas no hospital, ele demora para aparecer, então lhe mando uma mensagem de texto:
"Estou aqui fora"
Aguardo por mais um tempo e nem sinal dele. Decido entrar e procurar seu quarto na recepção. Uma moça de cabelos loiros presos em um rígido coque me atende com um extenso sorriso. Pergunto se o paciente Eric Taylor ainda esta no hospital, mas recebo um não como resposta, fico preocupada de inicio, mas o bipe do celular começa e meu bolso treme. "Oi, onde você esta?" ele me pede para voltar para o carro e avisa que esta me esperando faz um longo tempo. Viro e me deparo com Eric encostado no gol vermelho parado em frente a entrada.
–Você esta melhor?- pergunto ao me aproximar.
–O que você acha?- ele passa o braço sobre meu ombro, se apoiando em mim.
–Quando o seu pai vier de novo te visitar você vai se mudar pro meu quarto de hospedes, até que ele vá embora- Eric ri por um breve momento, mas logo começa a reclamar da dor quando o passo pela porta do carro.
–Levou quantos pontos?- digo enquanto faço a manobra para sairmos de lá.
–Quatorze- ele faz uma pausa- Não foi tanto assim, comparado aos pontos que levei por te salvar daquela armadilha de urso quando eramos crianças- estremeço ao lembrar da cicatriz em suas costas.
–Tintim, o meu herói!- dei esse apelido a ele quando menor, pois não conseguia pronunciar seu nome.
–Já disse para não me chamar assim- consigo irrita-lo, mas ainda sim ele continua a rir.
Ficamos em silencio o restante do caminho, mas de vez em quando ele reclamava da dor que sentia, ainda mais quando passávamos por um quebra-molas. Não demorou muito para que eu avistasse a rua Elme, pois o hospital ficava a poucos minutos de distancia de onde morávamos. Estacionei em frente a garagem da senhora Luccas, em seguida ajudei Eric a sair do carro.
–Tudo bem, eu posso andar sozinho- disse me afastando de sua cintura e indo para a direção de sua casa.
–Se você insiste- Em menos de um segundo ele tropeça em seus próprios pés e vai ao encontro da calçada- Acho melhor você ficar lá em casa por uns dias, até você melhorar, é claro- O alcanço antes do estrago ser feito.
Andamos lentamente até a porta principal, algumas vezes ele ameaça se desequilibrar, mas o colo cada vez mais ao lado do meu corpo, o mantendo firme. Eric é 15 centímetros mais alto do que eu, me fazendo parecer mais baixa ainda com os meus 1,65 centímetros de altura. Seu cabelo castanho claro destacava os verdes em seus olhos, o fazendo parecer ainda mais com seu pai, a aparência é uma das poucas coisas que ele puxou dele.
Ao abrir a porta levei Eric até o sofá da sala, ele continuava reclamando sobre a dor que sentia no lado de sua cintura, onde levou os pontos. O corte aparentava ser mais fundo do que eu imaginava. Tranquei a entrada da casa e fui até Eric, ele me fitava a medida em que me aproximava, podia ouvir seus gemidos de dor ao se sentar, ajoelhei em frente ao sofá-cama onde estava deitado para não correr o risco de machuca-lo ainda mais, ele usava um dos braços como travesseiro. Encostei minha testa no braço do sofá e observei por um longo tempo seus lindos olhos verdes, que com o passar dele, foi se fechando lentamente. Continuo estudando seu rosto, ele está tão calmo e sereno, muito diferente de quando permanece acordado. Um pequeno sorriso se forma em minha boca, e coro com o caminho dos meus pensamentos.
Me levanto e subo as escadas para o quarto de hospedes, pego um lençol e forro a cama, em seguida apanho um travesseiro e uma coberta no meu antigo quarto. Quando termino de arrumar a cama vou para o comodo ao lado, escolho uma roupa simples e ando até o inicio das escadas. Pondero a ideia de acordar Eric, mas antes preciso tomar um banho, ainda estou com o cheiro de seu sangue.
Desci para o primeiro andar, podia vê-lo ainda no sofá, dormindo. Entrei no banheiro e encostei a porta, tirei minha roupa manchada de sangue e a coloquei no cesto de roupas ao lado da pia, logo o cheiro se alastrou pelo pequeno espaço. Coloquei uma toalha e abri a porta. Vou apressada até a cozinha, e procuro uma lata de purificador de ar em baixo do balcão.
–Acho que ainda estou dormindo- ouço a voz de Eric próxima a mim- porque estou tendo um sonho... Ou melhor, um pesadelo- levanto rapidamente tentando tampar minha nudez, ainda mais com a toalha.
Ele se aproxima e eu coro violentamente, mas anda com dificuldade, dá um passo em falso e de repente está caindo sobre mim. Tento segura-lo, mas acabo batendo minhas costas na quina do balcão da cozinha, impedindo nossa queda. Seu corpo pressiona o meu, sinto minhas bochechas queimarem, nossos rostos estão a centímetros de distancia, meu coração bate tão rápido que tenho medo que possa ouvi-lo. Ele apoia na superfície do balcão que nos sustenta, se afastando. Fico cabisbaixa, me afastando relutantemente.
–Desculpe- ele diz quase em um sussurro.
–Tu tudo bem- gaguejo ainda cabisbaixa, enquanto vou em direção ao banheiro.
Termino meu banho e vou para a sala, mas Eric não esta mais lá. Subo até o segundo andar, o procuro por todos os cômodos, mas sem sinal dele. Entro no meu antigo quarto, a janela está aberta, posso vê-lo do outro lado. Me sinto aliviada ao ver o sorriso no canto de sua boca.
–Pensei que tinha concordado em ficar aqui por uns dias, até que melhorasse, pelo menos- disse ao me aproximar.
–Pensou errado- seu tom de voz estava mais ríspido do que o habitual.
–Vem logo pra cá, eu já havia preparado a cama do quarto de hospedes- ele nega com a cabeça e se vira, ficando de costas pra mim.
–Ta bom, se você não vem- dei uma curta pausa antes de continuar- eu vou!- terminei e adentrei a janela de seu quarto, Eric me olhou surpreso por alguns segundos, mas logo sua expressão mudou, dando espaço para mais um de seus sorrisos de superioridade.
–Você é muito teimosa, sabia disso!?- ele deu uma leve risada.
–Já deveria ter se acostumado- lembrei de suas palavras do outro dia. Ele reclama da dor ao tentar deitar em sua cama.
–Ok, deixe-me ver isso- me aproximei.
O ajudei a se deitar e troquei seus curativos. Não demorou muito para que ele reclamasse novamente, fui até o andar de baixo e preparei um macarrão instantâneo para nós dois. Comemos rapidamente, lavei os pratos e voltei para seu quarto em seguida. Ele estava encolhido com um travesseiro entre as pernas, ri comigo mesma pela cena e fui até seu armário pegar algumas cobertas. Eric abriu os olhos e de repente quando o cobria, segurou minha mão e me puxou para o seu lado.
–Pode dormir aqui, se quiser- disse sonolento- ou passar a noite no quarto do meu pai, e acredito que você se lembre do cheiro horrível que há nele.
Ponderei por um momento a ideia de ir para o outro quarto, mas acabei deitando ao seu lado, meio relutante, pela situação.
–Não se preocupe, se caso você me machucar eu te expulso da cama — me surpreendi com seu comentário repentino.
–Como...
–Esta estampado na sua cara, agora venha, estou cansado demais para aguentar suas neuras- ele disse indiferente- Mesmo sendo praticamente irmãos, não possuímos nenhum tipo de parentesco, Niea- disse se virando para o outro lado- Não precisa cuidar de mim o tempo todo, essa não é sua obrigação, você não é minha irmã de verdade e nem mesmo minha mãe.
–Ah... Tudo bem- disse sem conseguir esconder a tristeza em minha voz ao lembrar de sua mãe, Caterine.
Fiquei por um tempo acordada, pensando em suas palavras enquanto fitava suas costas. Até que ele vira novamente e se aproxima de mim, passando uma de suas mãos em meu cabelo. Fico surpresa por um momento, mas logo me sinto cansada de mais para relutar.
–Boa noite irmãzinha- ele sussurra.
–Boa noite, Tintim- digo sorrindo.
Esses pequenos raros momentos, em que Eric, abaixava sua guarda e me deixava entrar, nesses pequenos momentos, ele era realmente o meu irmão, aquele que eu amava.
Ele continua passando sua mão por meu cabelo suavemente, enquanto a outra repousa ao seu lado, em cima do travesseiro. Ficamos ali, em silencio, por um tempo, até que o sono vem e adormeço entre seus afagos.
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