All Your Fault
1 I
Notas iniciais
Os pingos de chuva que caíram no quarto por conta do telhado quebrado acordaram Rose. Ela passou a mão retirando o pouco de água que caíra em seu rosto pálido. A pequena brisa fria entrava pelas janelas e balançava as cortinas cor de salmão, fazendo com que Rose se cobrisse por inteiro. Ela esticou o braço direito até o criado-mudo para pegar o celular. Ligou-o e viu a hora. O relógio marcava 7:30, o que parecia bem cedo, mas essa era a sua rotina.
— Rose? Hora de levantar filha – Sua mãe, Kate, chamava-a do lado de fora do quarto.
— Já estou acordada mãe – Bem baixo, ela respondeu. Rose se levantou, mas continuou sentada na cama. Desbloqueou o smartphone e ficou checando seu Twitter. Depois de perder a noção do tempo, calçou as pantufas e foi até o banheiro, onde escovou os dentes. Tomou um rápido banho quente e em seguida vestiu a mesma roupa de sempre: O uniforme do trabalho.
Rose odiava esse lugar. Depois que o seu pai faleceu num acidente na ponte Wickery, o mundo da mãe dela desabou. Kate perdeu o emprego de recepcionista no History Hotel, onde trabalhara por mais de 10 anos, resultando na mudança para um pequeno loft no subúrbio de Waterbury. Longe de tudo e de todos, Rose teve que se separar de seus amigos e praticamente, virar uma nova pessoa.
Ela desceu as escadas cautelosamente enquanto ouvia sua mãe falando ao telefone.
— Bom dia, Emma – Rose cumprimentou sua irmã caçula que estava sentada no sofá revirando a programação da TV a cabo.
— Meninas, eu tenho uma novidade. – Sua mãe afirmou.
— Aí para de suspense, desembucha logo.
— Me ligaram do History Hotel... Eles querem me recontratar. – Kate declarou.
— Que boa notícia mãe! – Rose ficou surpresa, não era de se esperar uma notícia grandiosa em uma segunda feira chuvosa. – Chegou alguma correspondência?
— Eu ainda não chequei. – Kate disse, pegando a pequena Emma no colo e levando-a para escovar os dentes – SEU CAFÉ TÁ NA MESA FILHA – Ela gritou do banheiro.
Rose passou na frente do espelho do corredor e fez um rabo de cavalo em seus cabelos ruivos. Foi até a cozinha e pegou o copo de café que já estava frio e enfiou goela a baixo. Depois pegou sua capa de chuva pendurada num cabide no armário debaixo da escada.
Fazia uns 14 graus lá fora e Rose andou com as mãos para dentro do bolso do casaco até o ponto de ônibus. O 154 estava cheio como sempre, ela sentou ao lado de uma mulher e seu filho, o qual não parava de tirar meleca do nariz.
Desceu do ônibus em frente de uma loja de departamento e costurou seu caminho por meio da multidão que enchia as ruas no início da manhã, na ida ao Pop's, lanchonete onde Rose trabalhava todos os dias.
O Pop's era um restaurante/lanchonete que servia todo o tipo de comida que os americanos costumam comer. Rose ganhou esse emprego por uma coincidência muito boa. Certa vez na volta da escola, ela entrou no apartamento onde morava e deixou a chave do loft cair, e então um garoto magro ajuntou as chaves para ela. Esse garoto, Oliver Pop, gerente do Pop's, que estava entregando panfletos de contratação para a inauguração do restaurante. Desde então, eles tem sido bastante amigos.
Rose adentrou no lugar pela porta de serviço, tirou a capa de chuva e o casaco, guardou-os dentro de seu minúsculo armário e bateu seu ponto como de costume. Passou pela cozinha cheirando a panquecas e waffles e avistou Oliver sentado, tomando seu café matinal e lendo o livro que ela havia esquecido no expediente de ontem.
— Bom dia Sra. Atrasada – Ele disse tirando o livro do rosto e ajeitando seu óculos.
— Foi só alguns minutos Oliver – Ela tira onda – Eu conheço esse livro.
— Eu achei ele em cima do balcão. Por acaso é seu? – Oliver debocha.
— Você é ridículo... – Um som de uma buzina interfere na conversa dos dois, Rose percebe um Corolla prateado parado em frente ao Pop's, com um homem olhando para a direção deles.
— Deve ser o Mr. Davis. É o meu professor da faculdade, que por sinal é um gato. – Ele arruma seus cadernos cheios de glitter na mochila e limpa as lentes do óculos.
— No que você tá se metendo Oli? – Preocupada, ela pergunta.
— O que há demais em um professor dar carona para um aluno? – Ele diz, põe a mochila na costa, dá o livro na mão dela e vai em direção da saída.
· Mais tarde você me conta isso. Sessão de Netflix em casa às 20:00 – Rose
· Tá bom, agora deixa eu babar. Que dizer, estudar. XOXO – Oliver.
Mais tarde naquele dia, depois de um longo expediente, Rose acaba de limpar e estava pronta para fechar a lanchonete quando sente o seu celular vibrar em seu avental. Ela puxa do bolso e o desbloqueia. Um e-mail acabara de chegar. Rose abre a caixa de e-mails e vê do que se trata.
Querida Rose Quinn, gostaríamos de lhe informar que você foi aceita na Universidade Estadual de Waterbury. Queremos a sua presença no dia 19 desse mês, às 15:00.
Atenciosamente, Reitor Kennedy.
ELA SURTOU COM A NOTÍCIA. Primeiro ficou sem palavras, mas depois começou a pular freneticamente dentro do estabelecimento, chamando atenção de uma das funcionárias que estava quase saindo.
— O que foi ruiva? – Maria, a funcionaria mexicana pergunta assustada.
— MARIA! VOCÊ PODE FECHAR HOJE AQUI? PRECISO IR PRA CASA URGENTE.
— Sim, claro. – Ela diz.
Rose agradece dando-a um beijo na bochecha e em seguida pega suas coisas no armário dos funcionários e saí pela porta dos fundos.
O cheiro de óleo usado que saia pelo ralo da esgoto incomodavam ela. Rose percebeu que o clima havia mudado, as nuvens carregadas de chuva já tinham coberto o céu e as pessoas que saíam do trabalho a essa hora abriram os guardas chuvas.
Rose não podia estar mais feliz, depois de tantas coisas ruins acontecendo na sua vida, essa é a primeira vez depois de um longo tempo que tudo está se resolvendo. PENA QUE TUDO DURA POUCO. Ela ouve o seu celular tocando em seu bolso, então o pega e vê quem está lhe ligando, o número é desconhecido.
Alô?
Oi, é Rose Quinn?
É sim, o que deseja?
Eu falo daqui da creche onde sua irmãzinha está, ninguém veio busca-la ainda. Nós ligamos para a sua residência mas ninguém atendeu. Tem como você vim aqui pegar ela?
Claro, chego aí em alguns minutos.
Ela franziu a testa, achou muito estranho o fato de sua mãe não ter ido buscar a Emma na creche, tentou mais uma vez ligar para o telefone de sua mãe, mas não teve resultado. O que deve ter acontecido? – Pensou ela. Então traçou seu caminho, rumo a creche.
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