All I ever wanted
7 A viagem
Notas iniciais
Dulce sentou-se sobre a cama de Juju e sinalizou para que falassem baixo.
— Me diz Dulce, tô curiosa! — continuou Juju, roendo as unhas.
— É que a Ceci foi embora do colégio sem se despedir de ninguém, nem de mim! E eu tô com muuuita saudade dela. — frisou a pequena — Ai eu me lembrei que você grava vídeos na internet e pensei que isso poderia ajudar a achar ela.
Juju coçou o topo da cabeça, indecisa.
— Ai menina, que confusão! Mas será que a Madre não sabe pra onde a Cecília foi?
— Meu papi foi falar com ela hoje, mas já estou me prevenindo — continuou Dulce em um tom sério, o que fez com que a adolescente sorrisse.
— Tá, vou tentar te ajudar. Mas temos que fazer um vídeo em que você não se exponha demais. Nada de postar seu endereço, ou falar quem são sua família, porque é perigoso. Tá bom?
— IUUUUUPI! — comemorou Dulce
Após decidirem o texto, Juju e Dulce Maria passaram para a fase de gravação e edição do vídeo, que ficou pronto antes do almoço.
— Prontinho, Dulce. Prometo que o vídeo estará no meu canal a tarde.
— Oba! Tomara que a Ceci veja e volte pra casa! — respondeu a carinha de anjo, esperançosa.
— É, já que agora ela deve ter acesso à internet, redes sociais... enfim, viver — falou a vlogueira, pensando alto — Bom, eu te levo até o seu apartamento.
— Tá bem — concordou a herdeira dos Lários.
As meninas se encaminharam à cobertura, sendo recebidas por Franciely.
— Menina, já tava indo te buscar! Tá na hora do rango! — exclamou a cozinheira ao abrir a porta.
— Mas eu já cheguei, nem precisou você se incomodar, Franciely — disse a menina, arrancando sorrisos de quem estava no cômodo.
— Tu não incomoda nada, Dulce — continuou Franciely, beijando o rosto da pequena — E tu Juju, quer ficar? Eu descolo um prato da minha feijoada pra tu rapidinho!
— Não não Franciely, obrigada. Fica pra uma próxima, a dona Rosana está me esperando, senão ela vai me matar — agradeceu Juju, gesticulando com as mãos.
Subitamente, Estefânia desce as escadas e cumprimenta a todos.
— Oi, meu amorzinho! — a estilista deu um beijo na sobrinha — Antes de almoçar, não esqueça de lavar as mãos!
— Simpiririm!
Enquanto Franciely levou Dulce Maria para o banheiro, Juju aproveitou a deixa e contou rapidamente o plano da infante para encontrar Cecília.
— Meu Deus, essa Dulce Maria me surpreende a cada dia. Mas será que isso não é perigoso, Juju? — questionou Perucas preocupada.
— Eu pensei o mesmo. Mas me deu uma pena. Aquela carinha é impossível dizer não!
— Concordo com você. Eu teria como visualizar o vídeo em primeira mão? — indagou Estefânia, curiosa.
— Claro, está aqui no meu celular — respondeu Juju, empolgada.
A filha de Rosana colocou o áudio do celular em volume mínimo, a fim de que Dulce Maria não escutasse. Em poucas palavras, a pequena disse estar com saudades de Cecília e pediu que a ex-noviça voltasse para casa.
— Juju, vamos arriscar — decidiu Estefânia em um impulso — O Gustavo me ligou e disse que a Madre não disse uma só palavra sobre a Cecília, e eu duvido que ela não saiba de nada. Em nenhum momento, a Dulce identificou o nome da família ou onde mora, então não vejo maiores problemas. A causa é nobre. Você tem toda minha autorização — concluiu a namorada de Vitor, sorrindo.
— Obrigada, Estefânia! Você é #top — comemorou a vlogueira, abraçando-a.
— Imagina. Vamos torcer pra que a Cecília volte. E que a alegria dessa família também retorne — finalizou Tia Perucas, sonhadora.
[...]
As semanas passaram voando. Embora o vídeo de Juju tenha obtido uma grande quantidade de visualizações em seu canal, a vlogueira não havia recebido nenhuma pista do paradeiro de Cecília, para desânimo de Dulce Maria. Apesar das aulas já terem retornado e a rotina no internato ser bastante animada, a filha de Gustavo continuava triste e apática, para desespero dos Lários.
Gustavo continuava em busca de informações sobre a localização da ex-religiosa, porém sem êxito algum. Embora o Rei do Café agora admitisse seu amor por Cecília, o homem ainda não havia encerrado sua relação com Verônica, desta vez não como tábua de salvação, como anteriormente dissera Gabriel, e sim por falta de coragem. Porém, o empresário já dava sinais de desinteresse por sua secretária, para desespero de sua subordinada, que fingia compreender o momento de turbulência que a família Lários estava enfrentando.
Cecília, por sua vez, continuava firme e forte trabalhando na Supreme Cafeteria e cada vez mais próxima de André, que a convidava várias vezes por semana a jantares, barzinhos e sessões no cinema. A cada dia, a jovem estava mais distante de seu passado e as lembranças da vida no internato iam pouco a pouco lhe abandonando. Entretanto, a saudade de Dulce Maria não cessava.
Em uma tarde de fevereiro, o celular da garçonete havia vibrado no bolso de seu avental. Era uma mensagem de texto de André, convidando-a para irem em um pub que havia sido inaugurado há poucos dias. Cecília rapidamente digitou um sim e como sempre, disse que o encontraria no local. O médico sorriu ao ver a resposta de sua amada. Esta noite, vou lhe pedir em namoro, Cecília. E seremos muito felizes juntos, garanto.
Enquanto isso, nos intervalos do expediente, Lisandra insistia na tese de que a amiga deveria dar uma chance ao pediatra, para que assim, pudesse esquecer Gustavo em definitivo.
— Mas eu não o amo, Lis! — lembrou a morena.
— Mas pode aprender a amar, Ceci! Não é nada difícil se apaixonar por um galã como o André! Queria ter sua sorte — bufou a garçonete.
— Pode ser, mas agora tenho que trabalhar, está bem? — Cecília finalizou o assunto e foi atender um cliente.
Em Doce Horizonte, o presidente da Rey Café não conseguia se concentrar no trabalho, visto que só conseguia pensar em Dulce Maria e Cecília. Seria maravilhoso ter você como esposa, Cecília... Não só por amar minha filha como se fosse sua, mas por ser tão doce, educada, bondosa, as vezes tão geniosa, mas ainda assim, linda... Como não percebi isso antes?
Subitamente, Gustavo tem um estalo.
— COMO SOU IDIOTA! JÁ SEI QUEM VAI ME DAR ALGUMA PISTA DA CECILIA!
O Rei do Café sai em disparada de sua sala e apenas avisa Verônica de que não voltaria para o escritório. Em seguida, entra no carro e se dirige ao colégio da filha.
Ao chegar no internato, Gustavo se depara com a pessoa que mais necessitava conversar naquele momento.
— IRMÃ FABIANA! — gritou o homem, ansioso.
— Olá, senhor Gustavo! — respondeu a amiga de Cecília sobressaltada — Tudo bem? Vou chamar a Dulce Maria.
— Um momento, irmã. Preciso falar com você primeiro — continuou Gustavo, segurando a noviça levemente pelo braço.
— Comigo? — Fabiana arregalou os olhos negros — Juro que a Dulce não aprontou nada, muito menos eu!
Gustavo sorriu.
— Eu sei, irmã. Posso lhe fazer uma pergunta?
— Claro — disse a professora de música, um pouco mais aliviada.
— Você sabe me dizer onde a irmã da Cecília mora?
— Ai, mas como eu sou burra! — ralhou Fabiana consigo mesma — A Cecília só pode estar em Catarina!
— Catarina, a cidade vizinha? — gaguejou Gustavo, incrédulo.
— Isso! A Clarissa mora lá desde que se separou do marido. Mas eu não tenho o endereço... A não ser que... a Cecília tenha deixado as cartas! — exclamou Fabiana, animada.
— Como assim? — o Rei do Café estava ainda mais confuso.
— A Ceci esqueceu alguns pertences aqui no Colégio e eu guardei comigo. Nem falei nada pra Madre — sinalizou a religiosa, pedindo segredo — Entre elas, estão as cartas que a Clarissa mandava!
O sorriso de Gustavo se iluminou.
— Irmã, você poderia me passar o endereço?
— Claro que... não — as feições de Fabiana se fecharam instantaneamente.
— Como assim, não? — Perguntou Gustavo, desesperado
— Primeiro, o senhor vai me responder uma coisa. O que vai fazer se eu lhe der o endereço da Cecília? — indagou Fabiana, lançando-lhe um olhar irritado.
— É claro que vou atrás dela, Irmã! Mas que pergunta!
— E dizer "Olá Cecília, que bom que te achei. A Dulce quer te ver. Apareça lá em casa para nos fazer uma visita, tomar um café com bolinhos. Mande lembranças. Tchau"? — continuou a religiosa, engrossando a voz na tentativa de imitá-lo.
— Não, claro que não! — afirmou o homem, irritado.
— Então?
— Eu preciso conversar com a Cecília, não somente sobre a Dulce, irmã. Mas, isso não é da sua conta! — alfinetou Gustavo, azedo.
— É mais do que você pensa — rebateu a professora — Primeiro, a Ceci é minha amiga. Segundo, eu sei do seu "relacionamento" com a Verônica, que é minha prima. E eu não quero que nenhuma das duas sofram. Por isso, preciso saber das suas reais intenções.
Gustavo suspirou. Jamais imaginaria que aquele relacionamento informal lhe traria tanta dor de cabeça.
— Está certo, irmã. Vou ser franco — ele fez uma pausa, suspirou novamente e recomeçou — Infelizmente, só me dei conta de que a Cecília é a mulher da minha vida depois que ela foi embora. Tentei esquecê-la, mas não consegui. Não tenho nada contra a Verônica, mas pretendo terminar com ela em breve. Confesso que estou sem coragem, pois sua prima é uma boa mulher. Não sou nenhum cafajeste, eu lhe asseguro — garantiu o moreno.
— Assim eu espero. Vou procurar as cartas. O senhor me passa seu celular e logo eu retorno — decidiu a noviça.
— Mas como, se vocês não tem celular? A Madre não vai gostar nada disso! — os olhos de Gustavo estavam tomados de preocupação.
— Isso é comigo, senhor Gustavo — piscou Fabiana, marota — Espero que vocês se acertem. Traga a Cecília de volta. Mais do que eu, a Dulce precisa dela. Não aguento mais vê-la triste — comentou ela, aflita.
— Farei isso o quanto isso, pode ter certeza. Hoje mesmo vou para Catarina — concluiu o empresário.
Fabiana deu um abraço caloroso em Gustavo.
— IUPI! Vou rezar muito pra que vocês dois se acertem de uma vez. Esse colégio precisa de mais um casamento. O coral está afinadíssimo e a sua disposição! — ofereceu a noviça, animada.
— Obrigado, Fabiana. Prometo que se encontrar a Cecília e conseguir convencê-la do meu amor, nós nos casaremos aqui. E você vai poder devorar um bolo sozinha — garantiu o Rei do Café, sorrindo.
— Maravilha! Em meia-hora, eu ligo e lhe passo a informação.
— Ótimo. Mas eu poderia ver a Dulce? — indagou Gustavo.
— Nossa, que cabeça a minha. A Dulce está fazendo a lição de casa. E a Madre é bem rigorosa quanto a isso... — Fabiana ficou pensativa, tentando encontrar uma solução.
— Tudo bem. Não se preocupe. Vou indo, Irmã. Mais uma vez, obrigado — se despediu Gustavo, esperançoso.
O moreno se dirigiu às pressas para casa, a fim de fazer as malas. Não passaria mais nenhum minuto em Doce Horizonte.
Ao ver o primo adentrar em casa correndo, Estefânia levou um susto.
— Gustavo, o que houve? Você está bem? — questionou, preocupada.
— Está tudo bem, mas vai ficar melhor ainda. A Fabiana vai conseguir o endereço da irmã da Cecília! Ela só pode estar com ela, em Catarina! — exclamou ele, incontido de felicidade.
— Que maravilha! — Estefânia o abraçou — Estou tão feliz, primo. Não só por essa notícia incrível, mas por você ter finalmente reconhecido seus sentimentos pela Cecília.
— Já perdi tempo demais, Estefânia. Precisamos dela aqui, do nosso lado, para nunca mais partir — disse Gustavo, apaixonado.
O celular de Gustavo tocou.
— Deve ser a Fabiana! Atende logo! — ordenou uma Estefânia ansiosa.
As mãos de Gustavo estavam tomadas pelo suor. Após enxugá-las rapidamente na própria roupa como uma criança, o homem atendeu a chamada.
— Alô?
— Senhor Gustavo, sou eu, Irmã Fabiana — sussurrou a noviça — Estou ligando da casa da Diana e não posso demorar muito. Mas eu consegui o endereço!
Gustavo comemorou
— Pode falar, Fabiana, a Estefânia está aqui do meu lado com papel e caneta.
— Rua das Flores n. 2405, Apartamento 304, bairro Paraíso, Catarina. Está anotado — disse Gustavo, ao confirmar os dados — Obrigado, Fabiana. E estenda minha gratidão a Diana.
— Relaxa, senhor Gustavo. Foi um prazer. Traga logo a Cecília, eu quero meu bolo! — lembrou Fabiana, arrancando risadas de todos.
— Você ainda vai escolher o tipo, cobertura e sabor — prometeu Gustavo — Até logo.
— Até.
Após requerer a ajuda de Silvestre, Gustavo fez as malas e se despediu da prima e de seus fiéis empregados.
— Até breve, Senhor. E que seus objetivos se concretizem — saudou Silvestre educadamente.
— Até mais, primo. Que Deus te acompanhe e que você volte com a Cecília — se despediu Estefânia, lhe dando um abraço apertado.
— Boa sorte, seu Gustavo. E que vocês se acertem, porque essa casa precisa de uma festa! — exclamou Franciely, acompanhado de seus passos de samba.
Gustavo gargalhou.
— Concordo, Franciely. Só não sei se a Madre Superiora aceitaria uma roda de samba nas dependências do internato — ponderou ele.
Silvestre cutucou Franciely e pela enésima vez, ordenou que a cozinheira fechasse o zíper do uniforme.
— Obrigado por tudo, pessoal. Só peço que não contem nada a Dulce Maria, sem que eu esteja de volta. Ou melhor, sem que estejamos de volta — corrigiu, esperançoso.
— Não se preocupe, Gustavo. Vá tranquilo — finalizou Estefânia.
Gustavo embarcou em seu veículo e rumou à Catarina com um único intento. Vou te encontrar, Cecília. E nunca mais vou deixar você partir. Eu juro.
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