Aline por Aline
15 Capítulo 15 - Cupido faz trabalho voluntário
Yohann não estava no treino, infelizmente, mas o dia não foi de todo em vão... Consegui o telefone do... Jean!
É sério, a Miriam estava me irritando com aquele chove-não-molha.
O que ela estava pensando? Que teria todo o tempo do mundo? Que ele leria os pensamentos dela e facilitaria o encontro?
Nem em filme essa receita está dando certo. Atitude é uma palavra que fica bem melhor quando colocada em prática.
Falei enfim com o amor platônico dela. Foi que nem quando abri o jogo com o Tadeu, apenas dei o primeiro passo e o restante foi pura consequência da ousadia.
― Oi! — Acenei tratando-o como se ele já me conhecesse, esmagando os possíveis indícios de timidez que viessem a comprometer a minha estratégia, diga-se de passagem, improvisada.
― Oi. — Respondeu ele, bem assertivo.
― Você é o Jean?
— Você me conhece?
― Bem... sim... nós... nós temos amigos em comum!
— Ah... legal... ― Ele ficou sondando o ambiente, a Tita e o Adolfo estavam ao fundo, nos esperando.
— E aí, você está muito ocupado?
― Para falar a verdade, o treino acabou agora...
— Que ótimo, pois não vou tomar seu tempo tanto assim.
— Imagina gatinha, é um prazer perder meu tempo com você ― Ele abriu um sorrisinho com o canto do lábio. — Quer beber alguma coisa? Que eu te acompanhe até o ônibus?
― Na verdade, eu queria conversar com você.
― Não se acanha, fala...
Joguei uns verdes dizendo que acompanhava os treinos dele, que tinha uma amiga minha que era bem afim dele. Jean não era bobo, tratou logo de me pressionar um pouquinho mais para saber mais a respeito dessa gatinha misteriosa.
— Ela é bonita?
― Ô, pode apostar que sim!
— Estou vendo que sim! ― Jean balançou a cabeça voltando os seus olhos para a Tita que conversava com o Adolfo. Se não bastasse, ele queria por contra própria sondar o ambiente, o que em outras palavras queria dizer apenas uma coisa: problemas. Adolfo ficaria muito enciumado e a minha amiga na maior saia-justa com a Miriam.
— Ela vai ficar muito de cara se eu chegar nela?
― Bem... ela... ela...
― Ela é tímida?
— Ela é muito tímida...
― Eu vou cumprimentá-la, o que acha? — Sugeriu o garoto. ― Assim eu pego o número dela para telefonar mais tarde, quem sabe convidá-la para sair, o que acha? Pareço muito oferecido?
Ele se empolgou pensando que a minha amiga misteriosa era a Tita e por isso não fez nenhuma objeção, falando comigo e de quando em vez lançando um olhar para admirar a Tita usando um macacão jeans e um chapéu jeans além do allstar de cano alto com estampas florais. Se eu não agilizasse, era bem capaz de o Adolfo se estranhar com o seu (futuro ou não) cunhado.
— Minha amiga não está aqui agora, mas você a conhece...
― Ela não está aqui?
O sorriso de Jean murchou um pouco.
― Não...
— Mas você disse que era a sua amiga? Eu a conheço? De onde?
― Ela estuda com você.
— Estuda? E como é que eu nunca a vi?
Eu consegui fazer uma propaganda da Miriam dizendo que ela é uma promessa olímpica, ganhou medalha de honra ao mérito no último bimestre e consegui apanhar o número do telefone dele.
Miriam ficou mortinha de ciúmes.
— Por que não disse que era eu? ― Ela ficou muito revoltada porque eu não a mostrei para o Jean e veio o trajeto inteiro do CM até em casa sem trocar uma mísera palavra comigo, aí só amansou um pouco porque eu puxei papo com a Tita (ficar ignorada é que eu não ia) e disse que não consegui falar com o Yohann.
— Você conseguiu mesmo o telefone dele?
― Não estava de mal comigo, é?
— Anda, fala! ― Pressionou Miriam, puxando a alça azul da minha regata. — O que é que você fez para conseguir o telefone dele, guria?
― Eu fiz o que você nunca fez: falei com ele!
— E aí, ele é bonito assim de pertinho? Como é que ele te tratou? Como é que a voz dele, tipo assim? Ele sabe assim por cima que sou eu?
— Eu disse que era uma amiga minha.
― Mas dizer que era uma amiga sua é muito vago... Ele pode ter pensado que era a Tita! ― Disse Miriam torcendo as mãos, visivelmente aflita.
— O importante é que eu consegui o telefone dele. — Entreguei o bilhetinho para Miriam: ― Agora o resto é com você.
Miriam ficou olhando para o telefone como se ele fosse alguma senha especial para o paraíso.
— Falar pelo telefone pode ser uma boa alternativa para você ir perdendo a timidez e ganhando confiança... Agora você precisa conhecer o Jean para investir.
― Eu já o conheço. — Ela me interrompeu.
― Você o vê.
— Mas isso já não é o suficiente para conhecer? ― Rebateu a garota.
— Claro que não, Miriam. Você vê o Jean de longe e pode pensar dele o que bem quiser. Somente conhecendo e convivendo com o Jean que você pode saber de verdade se vocês realmente combinam. Isso eu não posso fazer por você.
― Juro que hoje mesmo vou ligar.
Eu não pagava para ver, mas ela ligou e ficou um tempão pendurada no telefone. O Sérgio não implicou, já se o Adolfo ficar de namorico com a Tita na linha ouve um sermão de dez horas.
Fiquei triste ao final do dia, não porque não vi o meu gatinho lindo e maravilhoso Yohann, mas porque se a Miriam estivesse mesmo apaixonada pelo Jean, não ficaria muito feliz se, por exemplo, ele comentasse alguma coisa a respeito da Tita. De certa maneira eu o fiz acreditar que a gatinha que estava afim dele era a namorada do Adolfo, pois quando a Miriam passou bem pertinho dele, não houve nenhum olhar, nenhuma química, o dito-cujo nem notou a existência dela!
Miriam e Jean se falaram ao telefone por vários e vários dias até ele tomar a iniciativa de convidá-la para ir ao boliche. Ela queria arrastar a gente junto (Adolfo, Rayanna, Tita e eu), mas eu disse que era um encontro a dois, o primeiro encontro dela, e não dia de fazer bagunça entre amigos. No entanto, pensando que Jean poderia levar a tiracolo um amigo, sempre me vinha à mente a imagem do Yohann o acompanhando. Eu tinha que apagar essa mentalização, especialmente se levasse em conta que apesar de saber algumas coisinhas interessantes sobre o Yohann, ele mal sabia que eu existia, ainda mais depois de ser informada que o encontro da Miriam foi tudo, menos romântico. Jean de príncipe virou mero babaca, nem para sapo serviu.
O surpreendente é que quem ficou deprê fui eu por não mais ter notícias do Yohann, pois Miriam superou muito bem a decepção e voltou a escrever cartinhas quilométricas para o Justin Timberlake. Agora comenta que está mesmo afim é do Marinho, um menino do oitavo ano lá do CM que, segundo ela, é mil vezes mais lindo e interessante que o Jean, ou seja, começou tudo outra vez. Promessas e mais promessas, milhares de expectativas, relatos minuciosos de encontros casuais, entrelinhas refeitas. Mudou o possível galã, pois a ladainha é a mesma. Toda paixão, até que se prove o contrário, é para valer.
E sabem de uma coisa?
Eu adoro isso!
Sempre fico na torcida por uma novidade, não nego que me sinto importante quando as pessoas se abrem comigo. Ser a conselheira não infla o meu ego, sempre me ajuda a engolir meu próprio choro e oferecer um lenço a algum anjinho inconsolável.
Melhor amiga merecia remuneração. Alguém mais concorda?
Diz minha mãe que eu sofro por antecedência, imagino um monstro de sete cabeças e no fim das contas assustadora mesmo é a minha imaginação. A realidade, apesar de cruel, também tem seus coelhinhos brancos na cartola.
Ora essa, esse cupido trabalha voluntariamente, qual é?
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