Aline por Aline

16 Capítulo 16 - Inferno astral generalizado


Tem fases em que tudo, praticamente tudo, absolutamente tudo, decide desandar, falhar, se quebrar, um verdadeiro deus nos acuda!

Alguns chamam isso de inferno astral, outros de urucubaca, tipo o meu vô.

Eu acho que está sendo o caso, embora ainda alimente as esperanças de ser só uma época chatinha para vir outra legal, lembrando também que já estamos no último bimestre e sem querer me gabar, não vou precisar de recuperação e posso comemorar porque também não vou precisar de conselho de classe.

Assim como no ano passado, a Tita está matematicamente aprovada, o Adolfo também, mas a Cássia, o Erick e seus seguidores energúmenos estão com a corda no pescoço. Não tenho um pingo de dó, pois oportunidades de estudar eles têm, não precisam trabalhar, não têm nenhuma outra responsabilidade, sem contar que os professores, praticamente todos, sem exceção, dão muitos trabalhos em classe, deveres de casa, dão muitas chances, agora eles não têm culpa nenhuma se tem gente folgada que não acorda.

Essa maré de azar começou faz alguns sábados quando fomos fazer um trabalho de matemática na casa do Adolfo e a D. Sônia nos convidou para jantar porque trouxe lasanha do mercado e tudo o mais. O Sr. Sérgio, no entanto, passou à tarde inteirinha entornando goles e mais goles de cachaça, tanto é que pouco antes das 20h00min, quando a Miriam e a madrasta terminaram de arrumar a mesa, o homem já estava podre de bêbado e a recomendação nesses momentos é tentar ao máximo manter a calma, evitar um contato visual mais profundo com ele, tampouco inserir assuntos os quais ele possa interpretar de um jeito que o irrite, ou seja, o melhor que se faz é tentar até não fazer barulho enquanto mastiga a comida.

Todos jantavam em silêncio. A princípio, se qualquer um de vocês observasse, os Hass pareciam uma família como qualquer outra. Os pais sentados nas respectivas pontas da mesa, os irmãos um de frente para o outro e eu de frente para Tita, as amiguinhas. Foi justamente na ferida de Adolfo que o padrasto resolveu tocar. O fato de ele não ter nenhum amigo da idade, apenas amigas.

Adolfo respirou fundo para evitar uma briga, mas Sérgio provocou a ponto de o meu amigo não suportar as investidas e perder a paciência junto com a razão.

Nunca senti tanto medo quanto naquela noite.

Sérgio agrediu a esposa na nossa frente, desferindo um murro certeiro no olho dela, derrubou a cristaleira, quebrando as louças, perseguiu o Adolfo, que o ameaçou com a faca. Eles se espancaram, mas é claro que o menino levou a pior e os Hass fingem ser uma família perfeita para os outros, portanto, ninguém nem sequer imagina o que se passa debaixo do teto daquela casa.

Sérgio tem um revólver escondido, já que é militar (mesmo em processo de aposentadoria por invalidez, segundo o que escutei um dia desses a D. Sônia comentar com a minha madrinha) e eu temi muito que ele tentasse matar alguém, então me escondi no lavabo com o telefone sem fio, quase tremendo para discar o número dos meus padrinhos.

O Tio Alípio conseguiu apartar o Sérgio e a Tia Marlene cuidou dos ferimentos da Sônia, que não quis delatar o marido e inventou qualquer outra desculpa para o olho machucado. A Tita fez xixi nas calças de tanto medo. Pensei que a coitada ia ter um ataque cardíaco porque chegou a lhe faltar o ar e tudo o mais, então concordei que não seria bom colocar a D. Meire nessa história, por questão de bom senso, assim minha amiguinha iria pousar na minha casa como se aquele tivesse sido um sábado qualquer.

Na segunda-feira o Adolfo não veio à aula e o sinal de alerta começou a piscar. Tita começou a se sentir culpada por algo que não fez. Ninguém tem culpa se o Sr. Sérgio bebe e não consegue controlar o próprio vício. É triste ver que uma pessoa cheia de vida se entrega ao álcool e parece não enxergar que está se matando aos pouquinhos. Ele está cego demais para aceitar que precisa de ajuda e não se pode ajudar a quem não quer ser ajudado, é pior forçar uma situação que afaste ainda mais esse alguém do convívio, porque tem a questão do orgulho, de querer manter a ideia de que se é forte, sem ser visto como coitadinho. Um fato é certo: ninguém gosta de quem se faz de coitadinho, de vítima.

De repente vem a Tita com uma revista que ganhou da mãe em que uma atriz mirim dessas que fazem um papel na novela das Oito, repetem algum bordão fofinho e viram as queridinhas dos adultos? É bem o perfil da Cecília Prato. Ela tem a mesma idade que eu, 12 anos, e faz uma novela atrás da outra. Eu, francamente, sou mais eu, não fico com ciúmes nem inveja de atriz nem cantora alguma porque elas não fazem parte da minha realidade. Gosto do trabalho de algumas pessoas, porém não queria ser igual a mais ninguém, tampouco pesar o que uma criança de oito anos pesa, 28 kg. Eu tinha esse peso quando estava na segunda série, por Deus!

Eu tenho 40 kg e a minha primeira menstruação ainda não chegou, no entanto não tenho pressa e nem penso em perder peso, mesmo que nas páginas da revista cliquem a Ceci que é a sensação do momento por estar tendo um affair com o Júlio Pedroso (seu “par” romântico na novela do final de tarde) em milhares de posições que a favoreçam.

Eu quero passar por esse mundo sendo mais que um rostinho bonito ou pernas finas. Quero mais que ser “magra de ruim”. Aquele número que aparece na balança não reflete em nada o que eu sou. Quero mais do que ser invejada por ter um cabelo muito liso. Meus sonhos não cabem nas páginas de um editorial feito por alguém que com certeza só está pensando no lucro, não nos olhinhos que se orientam por aquelas linhas todas, a exemplo da Tita que agora está sendo influenciada por aquela piranha mirim da Maria Clara a emagrecer.

Uma menina que tem 1.56 de altura não pode pesar somente 28 quilos. Não é saudável, não é bom para quem está na fase do famoso estirão, não cabe na lógica. É o mesmo que eu querer entrar no macacão que usei no meu batizado.

Tita pensa que quando atingir 28 kg será feliz. Na teoria dela, ao chegar a esse peso, tudo vai ser perfeito, só que não vai!

Não importa o quanto ela pese, os idiotas vão continuar idiotas.

Adolfo está ainda envergonhado com o que ocorreu em sua casa e é orgulhoso demais para pedir desculpas à Tita.

Eu fico espremida entre os dois, tentando pisar em ovos para não parecer uma mensageira, uma leva-e-traz.

Maria Clara exerce uma influência muito forte sobre a Tita. Não sei qual é a satisfação dela ao ver a prima sofrendo, deixando de se alimentar, se odiando, se culpando...

Choro todas as noites orando a Deus para que Tita e Adolfo façam as pazes, que a Meire descubra o que está acontecendo e intervenha. Nesse momento eu necessito que um adulto me oriente, um adulto consciente, inteligente.

Meus padrinhos dizem que a Tita vai acordar, mas me parece que não, que a cada dia, a cada quilo perdido, minha amiga fica mais e mais obcecada em ficar magra.

Não aguento mais tentar fazer a Tita entender que o Adolfo e eu gostamos dela exatamente do jeitinho que ela é!

Magra para quê?

Magra para quem?

Magra por quê?

Magra por querer?

Ser magra é o mesmo que ser feliz?

Eu gosto muito de conversar com a Naná. Já que convivo com ela fora da escola, tenho a autorização de chamá-la somente de Naná.

Ela é uma pessoa bastante prestativa em qualquer sentido. Uma amiga. Dizem que adultos e crianças não podem ser amigos. A julgar, por exemplo, por algumas pessoas da minha idade, isso pode ser uma grande verdade, pois o choque de gerações e ideias é muito grande. Eu já estou cheia de gente vazia e acabo mesmo é nessa divisão entre tentar ser uma menina “normal” de 12 anos e a mulher que por dentro eu sou.

Naná é minha amiga e os seus conselhos sempre muito bem aplicados têm uma grande serventia. Eu gosto das suas tiradas inteligentes, das suas reflexões poderosas, como naquela aula em que ela discursou tão arduamente sobre os valores da nossa sociedade.

Tem muita gente que se acha acima do bem e do mal e julga tanto sem saber que o destino dela é ser pó. A morte apanha a todos nós, sem distinção. No entanto, o modo como levamos a nossa vida é que faz toda a diferença.

Tem muita gente que apenas existe porque só cumpre o fluxograma (coisas da Naná) imposto pela sociedade sem questionar.

Tem gente que sonha e abandona tudo para viver esse sonho.

Tem quem abandone o sonho para viver.

Tem quem sonhe com os olhos bem abertos para a realidade.

Tem quem sonhe desconsiderando a realidade.

Tem eu, que sonha em enfrentar a realidade sem deixar necessariamente de acreditar.

Nas pessoas.

Nos ideais.

Nas mudanças mais representativas.

Que o ano que vem vai ser melhor.

Que eu serei alguém melhor.

Que as pessoas, uma a uma, terão essa consciência de não serem eternas e sentirão vontade de deixar uma contribuição para a humanidade.

Mas tem quem só semeie desgraça, tipo a Maria Clara, que só se nutra de sentimentos negativos como a inveja, a vingança, a cobiça.

Tem quem só lute pelos seus próprios interesses. De todo, não é errado, porém tem quem não consiga ver nada além do próprio umbigo.

Tem quem simplesmente não consiga ver quão especial é, tal qual a Tita.

Tem que se ache mais especial do que realmente é, a exemplo da Cássia!

Os idiotas lá da escola apelidaram a Naná de Catifunda (por causa de uma personagem da televisão), vivem tirando sarro das vestes simples com que Filomena se apresenta em público, debocham das aulas dela, vivem incomodando e ainda reclamam quando ouvem os sermões. Se realmente ouvissem e troça não fizessem, muito provavelmente teriam vergonha de serem conhecidos como os analfabetos funcionais de egos inflados.

— Preciso muito ajudar a uma amiga, mas não sei mais o que fazer.

― É algum problema com a Tita? Algum garoto?

Servi Naná com um pedaço do bolo prestígio, o meu sabor preferido.

Eu contei que sei cozinhar? Não sou nenhum Mestre Cuca, mas até hoje ninguém cuspiu fora.

― Tem um pouco a ver com um garoto, mas é um pouco mais sério do que isso.

Às vezes a Naná vai visitar os meus padrinhos e às vezes nós vamos a casa dela. Foi esse último caso.

— Eu queria entender o que é que leva uma menina tão inteligente e instruída como a Tita a acreditar naquela baboseira toda que chamam de revista...

― Eu falo, falo, mas dá no mesmo que não falar nada. A Tita não está me ouvindo e é está se acabando nessa angústia, fechada no casco, não aceita a opinião de ninguém, acredita na invejosa da prima dela que vive a colocando para baixo, falando bobagem. Parece que todo mundo vê que a Maria Clara não presta, menos ela.

— E você está sofrendo porque seus esforços não estão sendo recompensados?

― Como é que você sabe?

— Percebo que está cansada e preocupada com alguma coisa — observou Naná.

― E estou mesmo. — Confirmei com os olhos rasos de lágrimas.

— A Tita vai acabar acordando.

― E se isso não acontecer?

— Ela vai entender por conta própria que não está indo pelo caminho certo, mas agora você tem que ficar mais perto dela do que nunca.

― A verdade é que por mais que eu goste muito da Tita, ficar perto dela está me fazendo muito mal.

— Você já pensou em ver as coisas de outro jeito?

― É que não posso cruzar os braços e aceitar que a minha melhor amiga se mate por causa de uma bobagem. Naná, ela está falando em se matar.

— Como? Como é que é? ― Naná tirou seus óculos de grau, limpou-os com um lenço que tirou do bolso do casaco e refez a pergunta utilizando um tom de preocupação e estarrecimento.

— Ela diz que a vida não tem nada pra ela, que tudo estranho, esquisito, que só acorda porque tem que acordar ir à aula, mas que nada faz sentido, além de, é claro, também dizer que é gorda em nove de cada dez palavras que abre a boca pra falar... Eu não sabendo como me comportar numa situação dessas porque se eu falo da Meire, aí é que ela fica nervosa, ameaça cortar a amizade comigo, mas se as coisas piorarem, eu não tenho outra saída a não ser me afastar dela e isso me machuca porque não quero ser tão drástica...

Quem chorou foi a Naná porque eu já estava me acabando de tanto chorar.

― Tita é muito nova para pensar em suicídio. Ela tem o quê? Doze?

― Vai fazer doze... — Dei de ombros soluçando e aceitando o lenço que Naná me emprestou: ― Ela vai fazer aniversário daqui a alguns dias...

— Meu Deus, ela ainda é uma criança. ― Lamentou Naná. — Não tem nem doze anos e já está falando desse jeito? Mas o que diabos essas revistas estão fazendo com essas meninas?

― É por isso que eu só leio as letras de música.

— Eu não acho errado ler uma revista, mas diz um sábio ditado japonês que se você acredita em tudo o que lê, é melhor que não leia.

― Eu falo tantas coisas, mas a Tita não me escuta.

— Tem gente que tem audição seletiva, só escuta o que lhe interessa.

Como é que alguém pode chegar a esse extremo de odiar a comida, de culpar os alimentos pela sua infelicidade?

Como é que alguém tem coragem de rejeitar uma refeição sabendo que tem tanto bebê no agreste nordestino morrendo de fome!

Eu vejo nos noticiários aquela situação triste provocada pela estiagem prolongada na região nordeste e sinto um nó na garganta por pensar que muitas vezes não agradeço o bastante por tudo o que eu tenho, que crianças mais novas do que eu morrem de FOME.

Quantos bebês morrem antes de abrirem os olhos para a vida?

Quantas pessoas definham até o coração se entregar ao profundo sono?

Quem de nós se importa?

Eu sei que isso não é culpa minha, que é responsabilidade do governo repassar as verbas para as regiões afetadas pela seca e cumprir o que promete durante a campanha, mas todos nós sabemos que muitos governantes desviam os investimentos para o próprio benefício e o povo mais inocente é o que continua sendo ignorado e sofrendo as consequências da má administração.

Tem menina chorando de raiva porque tem olhos castanhos enquanto tem gente aguardando por anos nas filas de transplantes para poder enxergar. Eu fico muito triste por pensar que tem pessoas ruins que nos julgam por conta de uma parte do corpo quando somos muito mais do que isso.

Mais do que a cor do olho, o que fala é o olhar. É a ele que devemos prestar atenção.

Será que ser perfeita fisicamente é mais importante que o caráter, que um bom papo, que ser uma boa amiga?

Será que ser magra é ter tudo ou eu é que me importo demais e por isso acabo carregando os pesos dos outros nos meus ombros?

Nessas horas eu agradeço tanto por ter a mãe que tenho porque sempre ouvi dela para não confiar tanto assim na televisão e nas revistas. Eu assisto a muitas coisas, mas gosto mesmo é de quando desligo a TV e ligo o rádio, me enrolo no cobertor e fico curtindo o silêncio da noite na varanda pensando nas histórias de amor, nas linhas dos livros que leio sem ficar me fazendo de CDF, nas coisas que escrevo para que um dia meus filhinhos possam ler e saberem quem eu fui.

Quando a Tita entra nessas crises, fico pensando se sou realmente uma boa amiga. Ultimamente me vem à cabeça que apesar de dizer que sou a sua melhor amiga, ela queria mesmo era estar no grupinho da Cássia Reis, assim não apanharia nem seria xingada. Se por um lado esse pensamento de fraqueza é normal, por outro eu me sinto mal por ter chegado a essa conclusão...

Minha amizade não é o bastante para Tita!

Eu sou apenas a idiota com quem ela anda porque a Cássia não a aceita. Eu não pretendo “dar” para qualquer moleque, não vou sair por aí me portando com indecência para ser notada por um bando de idiotas, tampouco vou envenenar o meu corpo ingerindo álcool e drogas. Dizem por aí que o novo namorado da Cássia (desde aquela festa ela já teve três) fuma maconha.

Ou os valores se inverteram e eu não os acompanhei ou o mundo é que caminha para o seu triste fim... De duas, uma...

Notas finais
Viram só como a Aline está abrindo o coração? Em ST nós conhecemos o que a Tita mostra, mas a Aline tem a verdade dela também.