Alice in the sky with angels
3 Sobre anjos e um tapa.
Notas iniciais
A Irmandade é alguma coisa que eu ainda não entendia, mas Miguel prometeu explicar depois que as coisas se acalmarem.
Vi aquele mesmo senhor da festa, ele estava na sala nos encarando, ou melhor, meencarando, com a maior carranca do mundo no rosto.
– Oi, Dimas! – Miguel disse sorridente, não se importando ou não notando seu mau humor – Lembra que eu te falei dela?
– Você e todo mundo... – ele resmungou enquanto se aproximava e apertou minha mão. – Alice, né?
– Sim, prazer em lhe conhecer, seu Dimas – vi ele reprimir uma gargalhada, enquanto Miguel fazia o mesmo ao meu lado.
– Ah, deixa disso, todo mundo aqui me chama só de Dimas. – ele se virou para o corredor e gritou – Crianças! Venham conhecer a garota do Miguel.
E então quase que imediatamente todas as portas se abriram e uma enxurrada de pessoas surgiram falando alto, vindo em nossa direção.
– Vem, vamos lá pra sala – Miguel me puxou atrás dele até lá e se sentou ao meu lado em um sofá de couro marrom. Várias pessoas foram aparecendo e se sentando, todos jovens. Miguel parecia estar prestes a ter um píti do meu lado.
– O que foi? – perguntei baixinho enquanto todo mundo sentava nas poltronas, no outro sofá e alguns até no chão sob o tapete cinza.
– Falei pra não fazerem isso – ele revirou os olhos e passou um braço por cima dos meus ombros, e eu estava prestes a perguntar de novo quando vi uma cabeça morena com olhos verdes entrando na sala junto de uma garota ruiva cheia de sardas no rosto, e ela estava me encarando surpresa.
– Ela existe mesmo! – ela disse sorrindo e se sentando no chão perto da parede e Marcos a seguiu.
– Claro que existe! Eu te falei sobre ela.
– Não acredito em você desde que chegou aqui, Marcos.
– Há quase dois anos! Tá na hora de superar.
– Vá se foder. – ela cuspiu, furiosa.
– Gente, gente! Se acalmem. – Dimas gritou por cima de todas as vozes e automaticamente todos se calaram. – Essa é a Alice. A tal garota. E ela é importante, então vamos ser educados e nos apresentar para ela. Rosa, quer começar?
A garotinha que estava sentada ao meu lado no sofá abriu um sorriso de orelha à orelha e ergueu uma mão para me cumprimentar.
– Oi, meu nome é Rosa. – ela tinha cabelos pretos e olhos claros um pouco grandes demais para seu rosto. A garota que nos pegou no flagra estava sentada no braço do sofá, entre nós duas, ela sorria ironicamente e acenou para mim.
– Manuela – ela disse simplesmente e então, de um por um, todos eles foram se apresentando. Aquela garota ruiva de antes, seu nome era Annelise, Marcos sorriu para mim como se compartilhássemos um segredo e eu vi quando Miguel revirou os olhos ao meu lado, bufando, e não pude deixar de rir.
Samuel, Lys, Maya, Valentim e Sérgio. Cada um deles se apresentou e logo Dimas estava falando de novo, e ele me encarava fixamente.
– Miguel me contou que pode ver o futuro, é verdade?
Encarei Miguel, com a boca seca, sem conseguir formular uma palavra. Ele me encarava de volta com expectativa.
– Não, e-eu não posso. – virei para Dimas de novo, e ele ergueu uma sobrancelha. Engoli em seco e respirei fundo. – Ok, eu acho que posso, mas não sei como funciona...
Então como se estivesse planejado, estava acontecendo de novo, senti minha visão ficar turva e tudo ficou escuro, então eu pude ouvir um estalo e cachos ruivos balançando. Olhei para Annelise e ela estava discutindo com Marcos, e todos seguiram meu olhar.
– Marcos... – eu chamei, mas ela já estava com a mão levantada. Aquele estalo. E Marcos com a mão no rosto, e todos olharam pra mim de novo.
– Puta merda. – disse alguém, acho que foi Sérgio. Dimas sorria, com os braços cruzados, ele ainda estava me encarando.
– Eu sabia. – ele disse e então se aproximou, se abaixando até ficar de joelhos na minha frente e pegou minhas duas mãos. – Há quanto tempo faz isso?
– E-eu não sei. – a sala agora parecia pequena demais e eu não conseguia respirar direito. – Acho que desde sempre.
Senti Miguel passando a mão pelas minhas costas e aquilo me acalmou.
– Acha que ela é como nós? – Annelise agora perguntava, parecendo preocupada.
– Eu tenho certeza – Dimas murmurou e se levantou, e a maioria dos garotos fez o mesmo. – Vamos lá pro sótão.
Miguel levantou, ainda segurando minha mão, e seguimos Dimas.
– Agora? Não acha cedo demais? – ele perguntou, parecendo preocupado.
– É mais fácil se explicarmos logo pra ela, não lembra como a Rosa passou dias achando que tava louca? – Dimas respondeu, fazendo Miguel bufar.
Subimos as escadas para o segundo andar de novo e fomos até o quarto de Miguel, então Dimas se aproximou da cama e puxou um cordão pequeno que estava pendurado no teto e um quadrado se deslocou do teto, e uma escada pequena surgiu.
– Por que querem que eu conheça o sótão de vocês? – perguntei para Miguel, que subia logo atrás de mim.
– Você já vai ver. – ele respondeu simplesmente.
Parecia um escritório, com uma mesa de madeira grande e uma cadeira de couro escuro. As paredes pareciam velhas com a tinta manchada e havia coisas antigas e esquisitas por todo o lugar, parecia um museu. Sem contar os livros, eles estavam por toda parte, livros com aparência antiga e desgastados.
Havia vários quadros nas paredes, retratos de pessoas e pareciam ter sido pintados à mão, reconheci um deles enquanto nos aproximávamos da mesa.
– Aquele é Beethoven? – perguntei alto e Dimas concordou com a cabeça. – Quem são os outros?
– Alice, o que você sabe sobre anjos? – ele perguntou com um sorriso brotando em seu rosto.
– Tipo, anjos? Anjos de verdade? – disse e Miguel riu ao meu lado.
– Conhece a bíblia? – ele arqueou a sobrancelha.
– Não muito, minha avó costumava me contar umas coisas quando era menor...sobre anjos e uma guerra.
– O que ela te falou? – Miguel parecia entretido e curioso em saber de verdade.
– Houve uma guerra no céu, logo depois da...criação – clareei a garganta e respirei fundo, tentando me lembrar das palavras da vó Angela – Lúcifer era um anjo, e ele não gostava dos humanos quando Deus os criou, ele sentia inveja. Então ele queria destruir os humanos, e Deus viu isso e então começou a guerra celestial, tinha um monte de anjos lutando contra um monte de anjos, Lúcifer tinha conseguido convencer outros anjos pra se juntar a ele.
– Só que ele perdeu – Miguel disse, cruzando os braços sobre o peito.
– É, e ele foi banido para a parte sombria do mundo, abaixo da terra, o inferno. – continuei, ainda encarando Miguel. – E os anjos que apoiaram ele também foram, chamados de anjos caídos.
– Pois é... – Miguel murmurou do meu lado.
– Mas o que isso tem a ver? – perguntei, desejando que não fosse o que eu estava pensando.
– Bom, é o que somos. – Marcos disse com um sorriso sarcástico ao lado de Dimas agora.
– Quê? – pisquei várias vezes, esperando que alguém risse e falar que era brincadeira.
– Você sabe quem lutou contra eles? Quem foi o primeiro a se erguer e lutar? – Marcos estava com um sorriso ainda maior agora, e eu tentei lembrar se vovó tinha me falado.
E ela tinha.
– Arcanjo Miguel – saiu mais como um sussurro, e Miguel ainda estava lá, imóvel do meu lado. Virei para Dimas – Mas como?
– Quando fazemos alguma coisa grave o suficiente, eles nos mandam pra cá como punição, e então ganhamos o título oficial de caídos. – foi Marcos quem respondeu, e Miguel se moveu ao meu lado, puxando a camisa para cima e virando de costas para mim, a luz era forte o suficiente para ver as duas cicatrizes grossas em suas costas, que iam de um pouco abaixo do pescoço até quase a base das costas, elas formavam um V invertido e havia outras cicatrizes pequenas ligadas a elas. – Pegamos uma forma humana e aqui estamos.
– Mas o que eu tenho a ver com isso? – perguntei, observando Miguel colocar a camisa de novo, com os olhos fixos em mim.
– As vezes quando os anjos caídos vêm pra cá, eles conhecem humanas e...reproduzem – Dimas disse, tentando não rir – E esses são o que chamamos de nefilins. Metade anjo, metade mortal. Muitos deles existem e estão por aí, são especiais porque há Luz no sangue deles, a matéria-prima que constitui os anjos. E essa Luz que dá alguns dons à essas pessoas.
Ah.
– Então... – comecei, já sabendo a resposta.
– Você é uma nefilim, Alice.
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