Alice in the sky with angels
2 As flores do jardim da frente.
Notas iniciais
As coisas estavam normais no salão, exceto pelo fato de Berenice estar rindo loucamente na pista de dança enquanto Henrique tentava esconder o riso com uma mão, do outro lado estava mama e tio Jorge, e ela estava com as bochechas vermelhas e gritando com ele.
Não pensei duas vezes e corri até eles, com Miguel logo atrás de mim.
— O que aconteceu? — gritei por cima da música romântica que estava tocando.
— Eles estavam dançando juntos — Henrique gargalhava à plenos pulmões — Aí, meu deus Lice, você tinha que ver! Ele beijou ela! Ele finalmente beijou ela.
Virei a cabeça para os dois do outro lado da pista, surpresa.
Havia mais de dois anos que Henrique e eu tínhamos notado que tio Jorge e mamãe estavam tendo certa... afeição um pelo outro, e tio Jorge estava caidinho por ela.
— E ela? — perguntei, ainda com uma expressão de surpresa idiota na cara.
— Ela deu um tapa nele, aí começou a gritar.
Olhei para mamãe de novo, e ela estava se virando e veio andando em nossa direção.
— Vamos embora. — ela estava com aquela carranca que costumava fazer quando papai era vivo e nunca aparecia em casa. Passou por nós como um raio, pegou sua bolsa na mesa e estava indo em direção a porta. Henrique e Berenice estavam seguindo ela, com as cabeças baixas.
Berê estava murmurando alguma coisa e Henrique a pegou pela mão e foram andando.
Olhei para trás e Miguel ainda estava lá, me olhando com expectativa.
Dei um beijo em sua bochecha e passei por ele, andando de costas ainda olhando nos seus olhos.
— Desculpa! Temos mesmo que ir. Meu nome é Alice Lima, procura no Facebook ok? — sorri para ele e virei, correndo atrás de Henrique, que já passava pela porta de vidro.
Mas ele não procurou.
Pelo menos não nos dois dias que se passaram.
No início da tarde da terça-feira, quando estava almoçando em casa depois de um dia de aula, ouvi a campainha tocar e estava me levantando para atender quando tocou de novo.
— Já tô indo! — gritei, tentando sair da mesa, mas acabei tropeçando no moletom que eu joguei do lado da mesa quando sentei e teria caído de cara se não tivesse dobrado os braços a tempo.
A campainha continuava tocando insistentemente.
— Caralho eu já ouvi! — gritei me levantando e ajeitando o óculos, com o cabelo caindo no rosto e cambaleando como uma bêbada pela sala até a porta — Esqueceu a porra da chave de novo, Henr... — parei na mesma hora.
Não era Henrique.
— Oi — ele sorria, com as mãos em volta de um buquê pequeno com florzinhas amarelas. Seus cabelos estavam uma bagunça, e ele estava usando uma camisa preta com desenhos de dinossauros e bermuda cáqui.
— Ah... Éééé...Oi — sorri, ignorando meu coração, que naquele instante parou, errou uma batida e depois continuou mais rápido. Passei as mãos pelo cabelo, tentando domar ele o quanto era possível. — Oi Miguel.
— Oi Alice — ele riu nervoso e coçou a nuca. — Então, ah, essas flores são pra você. Desculpa por ser tão...simples, eu colhi do jardim da frente. — ele me entregou o buquê e nossos dedos se tocaram por um segundo, e aquela corrente reapareceu.
— Eu adorei, — sorri tímida — mas o que você tá fazendo aqui? Como sabe onde eu moro? — senti meu rosto esquentar. Pelo calor que estava fazendo naquele dia, obviamente.
— Eu não sabia na verdade, vi você passando na rua ainda pouco e vim dizer oi. Nos mudamos faz pouco tempo, ontem na verdade.
E então lembrei que Berenice tinha me falado ontem que um senhor com muitos filhos tinha se mudado para a casa roxa ao lado da nossa, e que ela tinha conhecido uma garotinha que seria filha dele.
— E eu queria fazer isso do jeito certo, queria pedir desculpa por ter te...hm... beijado na festa, daquele jeito — ele parecia nervoso, com as mãos nos bolsos da bermuda.
— Ah, tudo bem, quer dizer, não tem problema... tipo, ah você entendeu!
Ele solta uma risada silenciosa, que sacode os ombros e faz ele parecer cheio de vida.
— Bom, eu queria te conhecer melhor, nós meio que somos vizinhos agora então...
Um estrondo alto nos fez olhar ao redor, assustados. Um caminhão branco estava entrando na rua e agora parava na frente de sua casa.
— Ah, eu acho que tenho que ir agora, Dimas vai ficar doido atrás de mim se eu não for ajudar. — ele suspirou e se aproximou para me dar um beijo na bochecha.
— Vamos ficar pela bochecha agora? — soltei, não conseguindo conter as palavras que estavam se formando na minha cabeça. Ele sorriu, aceitando o desafio.
— Podemos começar por ela, tá bom assim? A gente tem tempo.
— Seu idiota. — revirei os olhos reprimindo um sorriso, pronta pra fechar a porta.
— Até depois, Alice — ele ainda sorria quando fechei a porta.
Entrei na cozinha de novo, com as flores nas mãos e tentando não sorrir, quando vi Henrique, com os braços cruzados parado aos pés da escada.
— Ele é aquele garoto da festa, né? — eu sabia o que ele estava fazendo. O tal interrogatório de sempre. Por algum motivo, Henrique sempre foi capaz de tirar das pessoas toda a verdade que ele queria ouvir.
— É — disse, seca.
— E ele sabe onde você mora... — ele apertou os olhos, procurando alguma emoção em meu rosto.
— Ele mora na casa do lado. — me mantive séria e dura, já tínhamos feito isso um milhão de vezes.
— Você sabe o que mama vai falar se descobrir que você está namorando de novo. — Ele comentou, pegando sua mochila em cima do sofá da sala.
— Eu não estou namorando de novo, e o que você acha que ela vai falar da sua tatuagem nova? — sorri, me dando por vencida, ele congelou onde estava e se virou na minha direção de novo.
— Você não falaria pra ela — ele parecia nervoso, e é claro que estava, Henrique tinha feito uma tatuagem no dia do seu aniversário de 19 anos, na parte de dentro do braço direito, onde dava pra esconder muito bem se usasse camiseta sempre quando mamãe estivesse por perto.
— Experimenta. — joguei um beijinho para ele e me virei para lavar a louça que tinha deixado em cima da mesa na cozinha.
— Volto 22hrs, tchau Lice! — ouvi Henrique gritar, com a porta da frente batendo com força, um pouco antes de terminar e subi as escadas para o quarto.
É uma casa pequena, com só dois quartos. Berê e eu dividimos um e Henrique ficou com o outro, como mamãe nunca está em casa, improvisamos o quarto dela no sótão, ela mal o usa de qualquer jeito.
Passei aquela terça-feira fazendo absolutamente nada, e o outro dia foi a mesma coisa, as aulas tinham acabado e eu estava de férias, com o calor de julho ameaçando me derreter.
Depois de um banho gelado e escolher uma roupa mais leve, fico sendo improdutiva pelo resto do dia, não há muito o que fazer e o clima da cidade não ajuda muito, já que está fazendo 35°C lá fora.
Passa das cinco da tarde quando Berenice chega da aula, feliz da vida e ela vai tomar banho enquanto eu armo a rede na sacada.
A sacada não é grande coisa não, mas tem espaço para a rede e uma vista legal do jardim da casa da vovó Angela do outro lado da rua.
Estou deitada na rede com os olhos fechados há um bom tempo quando escuto a voz dele de novo.
— Então, vem sempre por aqui?
Abro os olhos assustada e sigo a direção de onde sua voz veio. É claro. A sacada dele e a nossa são niveladas, e separadas por um muro baixo que bate um pouco acima da minha cintura.
E lá estava ele, com a mesma roupa de antes, só um pouco suado.
— Sabe que essa é minha casa né? — fecho os olhos de novo e tento esconder um sorriso.
— Sabe que você fica linda ao pôr do sol né?
— Está dando em cima de mim, Miguel? — olhei para ele, conforme sua insinuação de sorriso foi aumentando.
— Estou relatando um fato e acho que não estou conseguindo êxito no que quero.
Levantei da rede e fui até ele, tão perto que só o muro nos separava naquele momento.
— E o que você quer? — disse com toda a confiança que eu em meu 1,65 metro poderia fazer contra aquela parede que era Miguel.
— Bom, acho que seria melhor se eu lhe mostrasse, minha jovem moça. — ele se inclinou para frente, com uma mão debaixo dos meus joelhos e outra nas minhas costas, me erguendo do chão como se eu não pesasse mais que uma pena.
Estávamos a cerca de dez metros do chão e eu sou muito nova pra morrer, então fiz o que era mais coerente e me agarrei ao corpo dele enquanto ele me levava pra sua parte depois do muro.
Ele estava me carregando pela sacada da sua casa e passando pela porta de vidro que dava para um quarto com paredes escuras e piso de um material claro, e então percebi que ele havia fechado uma outra porta com um dos pés no caminho e estava me levando para uma cama enorme.
— Miguel... — comecei, mas então ele me colocou delicadamente na cama e se deitou ao meu lado, olhando para o teto.
— Relaxa, não é o que você tá pensando, só quero ficar um pouco perto de você. — ele se virou para mim, apoiado em um cotovelo e ficou me observando.
— Ok, e não poderia ter feito isso lá na sacada? Você na sua e eu na minha? — perguntei, lembrando que estava praticamente de pijama na frente do garoto que andei pensando nos últimos três dias.
— Não, na verdade não — ele se aproximou, na verdade me aproximou dele, puxando meu corpo para cima do seu, de modo que eu fiquei meio sentada, meio deitada em cima dele, ele passou os braços ao meu redor e colocou a cabeça no meu pescoço, inspirando fundo. — Nossa, como eu senti sua falta.
— Você fala como se nos conhecêssemos há muito tempo — murmurei contra seu ombro, inebriada pelo cheiro dele.
— Eu me sinto assim. Sei que nos conhecemos há pouco tempo, e conversamos por três horas antes de eu te beijar, mas eu gosto de você, Alice. Não como só uma ficada.
— Eu... também, Miguel. — suspirei, frustrada por não conseguir mentir pra ele — Então, — beijei seu pescoço e senti ele todo ficando mais rígido embaixo de mim. — como foi esses dias pra você?
— Horríveis, uma bagunça. Minhas irmãs não falavam em outra coisa senão a mudança, e eu ficava pensando em você — ele inspirou de novo, sentindo meu cheiro, e então puxou meu cabelo com uma das mãos para trás e começou a distribuir beijos pelo meu pescoço, fazendo meu ventre se contrair com força, várias vezes.
Então ele começou a me fazer cócegas e me virou no colchão, ficando por cima enquanto eu esperneava/ria tentando me livrar dele, até que a porta de madeira se abriu e uma garota que poderia ter uns 13 ou 14 anos apareceu, com algumas toalhas nas mãos.
Miguel saiu de cima de mim no mesmo segundo, se sentando ao meu lado, e eu fiz o mesmo.
A garota nos olhou e abriu um sorriso.
— Olha, eu esperava isso do Marcos ou do Samuel, mas ok. — ela abriu a porta de um guarda-roupa que, só então eu notei a existência, e jogou as toalhas lá dentro — Acho melhor você apresentar ela pro Dimas, ele não gosta muito de...estranhos dentro de casa. — ela falou e saiu do quarto, fechando a porta.
— Desculpa, essa é a Manuela, uma das irmãs que eu te falei. — ele suspirou e levantou da cama, me levando com ele. — Vem, você tem que conhecer o resto da família, eles estão falando de você desde domingo.
— Não, Miguel! Eu não tô... vestida pra conhecer sua família — disse, analisando meu short de algodão estampado com pequenos cup cakes e a camisa de flanela cinza. O melhor que eu podia falar das minhas roupas é que pelo menos eu estava de sutiã.
— Você tá linda, eles não vão notar. — ele já me levava porta a fora em direção de uma escada de madeira parecida com a que tem em casa.
— Não pode ser outro dia? Ou mais tarde? — tentei, sabendo que não ia dar em nada, já estávamos quase no fim da escada.
Agora eu me encontrava em uma cozinha, que dava para um quintal nos fundos, entre a sala e a cozinha havia um corredor razoavelmente grande, com várias portas de madeira decoradas de jeitos diferentes com tintas coloridas.
— Bem-vinda a Irmandade, Alice — anunciou Miguel gesticulando para tudo ao redor.
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