Alias: Psycopath
1 O Homem Nasce Bom
Notas iniciais
‘’. Ninguém nasce odiando outra pessoa, para odiar, as pessoas precisam aprender, e se elas aprendem a odiar, podem ser ensinadas a amar. ’’
Durante parte de minha vida (talvez a mais inocente) acreditei nisso, pois segundo esse principio, o mundo poderia mudar, me agarrei a isso, e lutei por isso, desejava ser uma heroína. Não, não queria usar um colã com capa, não queria uma armadura de ferro, nem poder me tornar verde e gigante quando ficasse zangada; nunca quis nada disso para mim, apesar de Trish insistir na parte do colã, queria apenas andar pela cidade, olhar ao redor e ajudar quem quer que precisasse, não queria uma máscara ou um codinome para me esconder, seria Jessica, mas ao mesmo tempo não sairia por aí egocentricamente anunciando meu nome como se fosse uma marca de Whisky ou coisa do tipo, não, eu seria apenas eu, salvando vidas, fazendo a diferença.
Mas um ano atrás toda essa convicção foi arrancada de dentro de mim da mesma forma que se arranca a casca de uma ferida, e minha existência foi dividida em duas partes:
Então havia a vida antes de Kilgrave, essa era a que eu mais gostava, vivia com minha irmã de criação, tinha empregos terríveis e salva pessoas de vez em quando, e havia a vida depois de Kilgrave... Uma das piores vidas que qualquer um poderia imaginar, cheia de arrependimentos por coisas das quais não sou culpada, tentando reconstruir alguma espécie de normalidade depois do que aquele animal fez comigo.
Pensar em tudo isso é difícil, mas agora dentro do taxi de volta para ‘’casa’’ sou obrigada a considerar sua proposta. Com o poder daquele homem o mundo poderia tornar-se um lugar menos repugnante, mas isso significaria vender minha alma ao diabo. Dizem que o homem nasce bom, e o mundo o deixa ruim, mas é difícil imaginar Kilgrave saindo por aí em Nova York brincando de super-herói. O que ele ganharia com isso afinal?
Ah, lembrei, aparentemente ele nutre algum tipo de sentimento amoroso obsessivo destrutivo por mim, e aceitar o acordo significaria ficar ao lado dele, e ensina-lo o que seus pais sádicos não ensinaram. Como ser bom. Se é que alguém como aquele homem pode aprender algo assim a essa altura do campeonato.
Tudo isso soa extremamente egoísta em minha cabeça. É minha vida contra um mundo melhor, acho que qualquer idiota saberia para qual lado a balança pende, talvez uma pessoa diferente pudesse escolher mais rápido e de maneira mais inteligente, talvez uma pessoa diferente não fosse tão cheia de si e aceitaria a proposta sem nem pensar duas vezes, afinal, o que é uma vida contra um planeta com mais de sete bilhões delas? Uma pessoa diferente talvez fizesse essas coisas, uma pessoa diferente talvez pusesse o bem dos outros acima do seu próprio. Mas aquele louco não ‘’ama’’ uma pessoa diferente, por alguma razão o carcereiro do mundo escolheu justo a mim como prisioneira favorita. Que sorte a minha, não?
Minha cabeça doeu com aquele monte de informações, porque eu não só pensava nos prós e contras quanto a minha decisão, mas também sobre toda a ‘’vida depois de Kilgrave’’:
Aquela noite, os homens batendo em um pobre coitado.
O cheiro de sangue, o desespero, a briga.
O homem estranho, as mulheres, a primeira ordem.
Em mim: a resistência, a luta a derrota.
O restaurante, a lingerie, o hotel.
O nojo, a impotência.
O começo.
Todas estas coisas pesavam como rochas em minha mente, pois hoje mesmo concedi uma segunda chance a um sociopata, por que então não posso fazer o mesmo por outro? Talvez seja porque é impossível esquecer como era querer morrer, como era estar completamente impotente contra aquele canalha.
Ele quer mudar, não só mudar a si mesmo, ele afirma querer mudar o mundo, o que de fato não seria problema algum para sua pessoa. Mas isso não altera a história, isso não ''desmata'' todas aquelas pessoas, isso não diminuí meu asco por ele.
É claro que não confio naquele verme, na verdade boa parte de minha consciência acha que chuta-lo até quebrar todos os ossos de seu corpo seria uma solução bem eficiente, contudo mata-lo não me trará nem um benefício (nenhum além da egoísta satisfação pessoal), muito pelo contrário, a morte de Kilgrave poderia gerar muitos problemas para mim, e entre eles o mais alarmante seria Hope ser obrigada a passar o resto da vida apodrecendo numa cadeia, por algo pelo que não é culpada. Infelizmente o que nos daria mais prazer nem sempre é a solução nem sempre é a solução.
Então o que eu faria? O que vou fazer? Com o taxi chegando tão perto o que vou fazer? Ir para Europa, Ásia ou África e nunca mais voltar seria uma alternativa, mas o desgraçado é inglês, vai me caçar por todo o velho mundo e deixar um rastro de sangue pelo caminho. Também não posso fugir, não a essa altura, não com tantos negócios pendentes nessa maldita cidade.
O carro virou a esquina e parou em frente à casa, tenho segundos para decidir, paguei o motorista, e ele saiu cantando pneus, andei em direção a porta, senti meu sangue gelar em minhas veias quando os empregados a abriram, eles pareciam extremamente aliviados em me ver. Oh claro, provavelmente o miserável fez com que eles passassem por algo horrível, de novo. E só o fato de considerar dar uma segunda chance para alguém assim me dá calafrios.
Passei pela porta, e vi Kilgrave descer a escada, meus segundos tornaram-se milésimos, e depois até estes foram levados como fumaça ao vento. Ele desceu o último degrau com um sorriso descarado no rosto, o que o fez parecer por um segundo ser humano normal, numa casa normal, com uma vida normal, um péssimo gosto para cores, mas mesmos assim normal, um desavisado cairia facilmente em sua lábia, mas eu não uma desavisada, sei bem com quem estou lidando, ou pelo menos sei o bastante para não ser comprada por qualquer sorrisinho, ou suposta jura de ''amor''.
–Você voltou. Por quê voltou?
–Porque você iria matar esses pobres coitados se eu não voltasse. Disse apontando para os empregados.
–Detalhes. Então, considerou a ideia? Perguntou enquanto minha mente dividida em duas lutava para escolher uma resposta.
Sim ou não?
Ecoava em minha mente. Com uma tenho minha liberdade, que custará um mundo com o qual meus pais sonharam, um no qual meu irmão mereceria viver, um no qual Trish merece viver.
Sim ou não?
Me perguntei de novo. Com a outra seria quase que literalmente um pacto com o diabo, minha vida não seria mais minha, ou pelo menos não seria inteiramente minha, eu teria de compartilha-la com a pessoa que mais odeio nesse mundo. A ‘’balança moral’’ que acredito que todos têm dentro de si já não mais pesa as situações, pois elas são igualmente boas e ruins para mim.
–Então, Jessica. O que vai ser? Perguntou o homem vestido em purpura, mal sabendo ele de minha confusão mental.
Sim ou não?
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