Aliada da Morte
2 Parte 2
Faz seis messes que eu não vejo a Morte. E, por mais estranho que pareça, não sinto a sua falta. Não mais. Acho que, inconscientemente, escolhi a vida quando tirei aquele garoto do túmulo, na noite inesquecível do meu aniversário...
E, para falar a verdade, acho que fiz a escolha certa. Quando não se esta ocupada conversando sobre coisas sombrias com a sua “amiga” Morte, se tem muito mais o que viver. Quero um pouco de luz e vida agora. Nem que seja uma pequena centelha de calor.
Quando cheguei em casa depois da noite do meu aniversario, já estava amanhecendo, e eu me sentia demasiadamente confusa e perdida. Logo eu percebi, enquanto ignorava as broncas dos meus pais por ter desaparecido e deixado todo mundo preocupado, que eu tinha agora novos poderes. Mas a parte assustadora é que eu não sei exatamente no que me transformei.
Tem a parte que eu aprendi a controlar rápido, como a velocidade e o tato delicado. O mais difícil foi me adaptar a minha nova super visão, a audição extra sensível e a minha força sobre-humana, que aumentam quando necessárias.
O resto eu fui levando. Sabe, sei que isso vai surpreender você, mas eu tenho amigos agora. Parece impossível, mas eu, Katrina, a antiga aliada da Morte, fiz amizade com humanos quase normais.
Tenho três amigos na escola agora. Tenho a Elisa, um tipo de garota engraçada e “fofa”, mas que não parece ter muito raciocínio lógico. Também tem a Diana, a gótica fixada por histórias de vampiros e rock pesado. E também tem o Vic, outro solitário esquisitão, mas um amigo leal. Somos as ovelhas negras do colegial. Do tipo pra quem o resto da escola torce o nariz e ignora, sabe? Mas a gente nem liga.
Começou de novo em um dia aparentemente normal no colégio. Eu e meus amigos estávamos sentados na mesa de sempre, a mais isolada e longe dos “populares”, ou seja, as garotas ricas e burras e os garotos atletas e idiotas.
Eu estava comendo uma maça que trouxe de casa, Diana se satisfazia com sua Coca-Cola diet e os outros dois, Vic e Elisa, comiam batatinhas. Diana começou a cantar um rock qualquer, bem baixinho, enquanto tamborilava os dedos na mesa, e eu a acompanhei. Vic começou a jogar batatinhas para o alto, e Elisa revelou uma habilidade incrível para pegá-las com a boca. Estava tudo muito bem.
Então, um grito.
Vinha do andar térreo, provavelmente de uma das salas de aula vazias. Éramos os mais próximos de lá, então fomos os primeiros a correr na direção das salas, seguidos por uma multidão de curiosos. Nas duas primeiras salas não havia nada, mas a terceira nos aguardava com uma surpresa bem desagradável: o cadáver de uma das serventes. O cheiro de ferrugem entrou pelas minhas narinas, e só eu podia senti-lo.
A sala de aula parecia ter se tornado uma cena de filme de terror, e eu praticamente esperava que algum monstro ou assassino aparecesse ao meu lado a qualquer minuto.
O sangue dela ainda estava bem líquido, escorrendo pelo piso em uma poça vermelha. Ela havia sido esfaqueada na garganta, e depois arremessada contra a parede. Diana cambaleou e saiu correndo, com as mãos na boca. Elisa começou a gritar, desesperada, e Vic a puxou para fora da sala. Pude escutar a multidão entrando em pânico lá fora.
Não me importei, e continuei parada onde estava, com os olhos fixos na parede no fundo da sala. Letras de sangue haviam sido rabiscadas lá, e eu não conseguia parar de olhar para a mensagem, decorando cada palavra:
Prepare-se, Katrina, pois a próxima será você. Morte.
Viaturas da polícia chegaram, os vídeos de segurança foram revisados, mas ninguém havia entrado ou saído da sala além da faxineira. A direção da escola teve que dispensar todos os alunos, e não teríamos aula naquela semana, para não prejudicar o trabalho da perícia. Fui até escoltada para casa, todos temendo pela minha segurança.
Mas tudo aquilo era perda de tempo. A Morte carregou aquela mulher, só para me mostrar o quanto estava perto. Mas não era isso o que mais me assustava. A Morte não pode assassinar uma pessoa. Seu trabalho era carregar almas, não destruir vidas. A maldita tinha um novo aliado. Alguém que estava fazendo esse serviço negro com o apoio dela. Alguém que ela simplesmente transportou para aquela sala, sem precisar atravessar a entrada ou o corredor da escola. Mas quem?
Quando cheguei em casa, meus pais se mostraram preocupados, mas eu os ignorei. Até mesmo minha irmãzinha de cinco anos, Angélica, demonstrou preocupação. E eu até cheguei a abraçá-la para tranqüilizá-la, aquela menina que parecia mesmo um anjo de luz.
– Espero que você fique bem. – me disse ela, com um doce sorriso.
– Vou ficar. – digo, querendo acreditar nas minhas próprias palavras.
Antes de subir para o quarto, olho para a minha família. Mamãe e Angélica são louras e radiantes como rainhas, papai é grisalho e charmoso, e eu sou pálida e sem vida. Uma intrusa naquela família perfeita e normal.
Me tranquei no quarto e me deitei. Como a Morte era teatral! Ela não podia deixar um bilhete em cima da minha cama, avisando que quer a minha alma? Precisava tirara a vida de um inocente por isso?
Enterrei minha cabeça no travesseiro, ouvindo meus pais discutindo aos sussurros no andar de baixo. A Morte nem sempre foi assim. Antes ela só realizava seu trabalho com vontade e destreza. Que aconteceu com ela? Por que ela ainda pretendia abrir um tal portal para os espíritos? Pensei tanto nessa questão, que adormeci.
A névoa cobria meus pés. Estava em um lugar escuro, cheio de colinas e vales. Me parecia familiar, mas ao mesmo tempo eu sabia que nunca havia estado ali. Comecei a caminhar e tropecei em uma cruz. Estava no cemitério, mas ele parecia muito diferente.
Comecei a ouvir vozes. Me encolhi atrás de um túmulo e agucei minha audição, de acordo com o meu poder.
– Aceita ser minha nova aliada, totalmente fiel e leal a mim? – disse a voz rouca da Morte, em algum lugar ali perto.
– Aceito. – disse uma voz que eu não reconheci. – Aceito o compromisso da imortalidade, do poder, e também aceito ajudá-la a abrir o Portal do Além, oh, Morte!
– Sendo assim, eu a faço minha eterna aliada. – diz a Morte, e juro que consigo perceber um sorriso em sua voz seca. – Que matemos Katrina, nossa inimiga!
– Sim, morte a Katrina!
Acordei com um grande sobressalto. Não foi um simples sonho. Isso estava acontecendo nesse exato momento, no cemitério. Olhei para o relógio do quarto. Já eram onze e cinqüenta e cinco da noite. Em cinco minutos, a Morte e sua nova aliada irão abrir o Portal do Além, e eu sou a única que pode impedi-las!
Calço minhas botas pretas de caminhada e visto meu casacão de couro preto. Saio de casa correndo, me sentindo trêmula. Com o meu novo poder, minha velocidade é tão grande, que penso que vou chegar a tempo. A esperança aperta tanto o meu coração, que chega a doer.
Sem pensar, derrubo a porta do mausoléu principal, onde sei que a Morte deve estar me esperando.
– Não! – é tudo o que consigo gritar.
A Morte se volta para me encarar, surpresa. Seu rosto de caveira não era tão mal assim antes. O pequeno vulto ao lado dela também se volta para mim, com uma expressão aborrecida.
– Katrina?! O que você está fazendo aqui? – pergunta Angélica, fazendo um beicinho de zanga. – Você sempre tenta estragar tudo! – ela começa a bater os pés no chão, e a chorar, birrenta. – Por que você se mete? Por quê?! Você sempre foi a melhor não é? Mas agora a Morte é a minha amiga!
– Controle-se, criança. – diz a Morte, olhando para ela. – Sua irmã está no lugar certo. Hoje vamos acabar com ela.
Mal posso me manter em pé, de tão bambas que ficam minhas pernas. Angélica, minha irmã, é a nova aliada da Morte.
– Angélica? — balbucio, sem querer acreditar.
Ela recomeça a bater os pés, e seus olhos ficam vermelhos.
– Não me chame de Angélica! – grita ela, com uma voz mais grave do que deveria ser. Olhando suas faces meigas deformadas pelo ódio, enxergo tudo. Posso facilmente visualizar minha irmãzinha maldita matando aquela mulher no colégio a sangue frio, e depois se rindo disso. – Meu nome agora é Anjo Negro, ouviu? Eu sou a nova amiga eterna da Morte!
A Morte me abre o mais cruel dos sorrisos.
– Eu nunca deveria ter escolhido você, Katrina. – declara ela. – Sua irmã sim é o que eu sempre procurei. Uma aliada verdadeira. E agora, realizaremos a antiga profecia do Portal do Além!
Angélica dá um sorriso demoníaco, e encaixa um a chave de osso em um orifício na rocha do mausoléu, que começa a se abrir devagar, trazendo um vento gelado carregado de medo.
– Você teve a sua chance. – diz ela, olhando inocentemente para mim. – Mas agora eu cumprirei a profecia.
– Isso está errado! – grito. – Almas não devem conviver com vivos!
Tento me lançar contra ela, impedir minha irmã de realizar o mal enorme que eu mesma me recusei a causar. Mas a Morte me bate com sua mão de osso, me lançando para longe.
Caio na relva fria do cemitério, sabendo que logo estarei morta e sepultada ali mesmo. Meu espírito vagará desolado pela terra, assim como todas as almas, agora que o portal está aberto.
Morte e Angélica estavam comemorando o seu triunfo, e logo as duas se lembrariam de mim, e viriam para me destruir... Foi então que um facho luminoso surgiu de repente, ao meu lado, me transmitindo força e calor com seu toque.
Parecia uma bela mulher, com um brilho sem fim, mas logo vi que aquela maravilhosa criatura não podia ser humana. Ela sorriu.
– Olá, Katrina. – disse ela. – Eu sou a verdadeira face da Morte. Estou aqui para ajudá-la. Precisamos impedir aquelas duas, mas primeiro você tem que descansar um pouco...
Antes que eu possa esboçar qualquer reação, minha visão começou a embaçar.
Tudo ficou escuro.
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