Acordei com o sol batendo no rosto e sentindo a maciez do meu travesseiro e das cobertas. Me espreguicei lentamente, imaginando o que eu poderia fazer naquela manhã de sábado. Eu podia telefonar para Elisa e...

De repente me sobressaltei. O que eu estava fazendo em casa? Eu havia desmaiado no cemitério, depois que a Morte abriu o Portal do Além e... Angélica!

Devagar, nas pontas dos pés, abro uma fresta da porta do quarto. Escuto mamãe batendo um bolo na cozinha e papai falando no telefone. Dou uma espiada na sala. Angélica está sentada no sofá com suas bonecas, assistindo um desenho qualquer e comendo bolachas.

– Foi tudo um sonho. – suspiro. – Um sonho muito terrível e real.

Angélica me escuta e sua cabeça loura se volta para mim. Volto a prender a respiração. Seus olhos são vermelhos, cheio de crueldade. Ela abre um sorriso macabro, e percebo que os incidentes da noite passada não foram sonhos porcaria nenhuma.

– Escapou por um triz, Katrina. – murmura ela, em um tom seco. – Mas sua sorte não durará muito.

– Veremos, maninha. – respondo. – Já venci a Morte uma vez; não será difícil repetir a manobra.

Os olhos dela se estreitam, mas minha mãe entra na sala nesse minuto.

– Kat já acordou, mamãe!!! – exclama ela, voltando a seu tom doce e inocente. – Ela disse que ia pentear meu cabelo, não é, Kat?

Forço um sorriso.

– Claro, Angel. – respondo, revidando o ridículo “Kat”. – Vou me vestir e já venho.

Fecho a porta e me apoio nela.

Que ótima maneira de começar um final de semana: tem uma criança malévola na minha casa que eu tenho que tratar como se fosse um anjo!

– Deus! Por que eu não posso ser uma garota normal? – murmuro, fechando os olhos. – Do tipo que os únicos problemas são uma nota baixa em biologia, dúvidas sobre que vestido usar na próxima balada ou se um dos gatinhos veteranos está a fim de mim ou não?

– Por que isso não teria a menor graça para uma menina especial como você, minha filha. – diz uma voz tão inesperada que meu coração quase salta pela boca.

Sentada no peitoril da minha janela, sorrindo de uma maneira que iluminava todo o quarto estava a mesma mulher que apareceu no cemitério na noite passada.

Seus cabelos escuros e longos emolduravam o bonito rosto quadrado, destacando os olhos violetas. Usava um vestido preto de tecido não identificável e era ainda mais pálida que eu.

– Olá! – murmura ela com sua voz musical. – Se lembra de mim?

–Sim, me lembro. – digo, ainda confusa. – Você é...

– A Morte. – responde ela. – Sou a verdadeira Morte.

É informação demais pra minha cabeça.

– Mas se você é a Morte, quem é a caveira que eu conheço desde bebê?

Ela suspira com um sorriso triste.

– Sei que é confuso, então vamos começar pelo início.

“Desde que existe Vida no mundo, a Morte também existe. Somos irmãs e amigas, complementos uma da outra. A Vida não existiria sem a Morte e vice-versa. Somos o equilíbrio.

“Porém, as coisas começaram a se complicar quando os homens surgiram. Desde os tempos mais remotos, os homens têm dificuldade pra me aceitar. Agarram-se a Vida como se eu fosse uma espécie de monstro, um ser maligno e cruel... Como a sua inimiga, Katrina.- A Morte que você conhece foi criada assim. – continuou ela. – Milênios e milênios de pessoas que não me aceitavam, e criavam em suas mentes o ser sombrio que é a Morte Obscura.

“Porém, se não fosse por um motivo especial, essa Morte não teria tanta força. A razão principal para que a Morte Obscura esteja cada vez mais forte, chama-se assassinato. Todos os dias a Morte chega para pessoas que ainda tinham muito para viver, mortes causadas por homicidas egoístas e cruéis. Tento ajudar essas almas, mas é a Morte Obscura que acaba alimentando-se delas. Mas, o tempo todo, a verdadeira Morte fui eu: a Morte de Luz.

Fiquei encarando a Morte de Luz quando ela terminou seu relato.

– Eu entendi. – disse por fim. – Mas como posso impedir a Morte Obscura de continuar seus atos de maldade? E... que realmente ela fez ontem a noite?

– Venha comigo e veja, filha.

A Morte de Luz estendeu sua mão para mim, e duas graciosas asas de anjo se desdobraram de suas costas. Não sei exatamente o que aconteceu, só sei que estávamos flutuando suavemente pelo céu azul. Olhei para baixo. Pessoas iam e vinham pelas ruas, sem poder nos ver.

De repente notei vultos estranhos passando pelas pessoas, arrastando-se pela calçada e parecendo que também não podiam ser vistos. Eram Almas.

– A Morte Obscura abriu o Portal do Além com a ajuda da sua irmã, Katrina. – Me explicou a Morte de Luz. – Ela gosta de ver sofrimento, e agora todas essas almas sofrem, pois o mundo delas não é mais esse.

Um bolo se formou em minha garganta, e tive que engoli-lo para poder falar.

– E o que eu posso fazer? – pergunto baixinho.

– Descubra o verdadeiro significado da Morte, Katrina, para que eu possa guiar essas almas para a luz e para que a Morte Obscura desapareça. – ela me deu um beijo na testa. – Fique de olho em Angélica. Conto com você, filha...

Fecho os olhos, sentindo o calor e a força me tomarem. Quando os abro novamente, estou sozinha em meu quarto. Sem hesitar ou fraquejar, me visto e vou até a sala, desligando a TV que Angélica assistia.

– Eu estava assistindo, maldita! – diz ela, me mostrando o dedo do meio.

A olho, horrorizada.

– Então além de encapetada minha irmã caçula também é mal educada? – digo, pegando-a pelo braço e arrastando-a até a cozinha. – Vamos, peste. Tenho algumas lições para te dar.

Assim que vejo minha mãe, abraço delicadamente Angélica.

– Mamãe – começo. – Angel e eu vamos ao parque, tudo bem?

Ela sorri de um jeito que me faz sentir culpada (mamãe adora quando saímos juntas).

– Tudo bem, Katrina. – responde ela. – Tomem cuidado e não se atrasem para o almoço.

– O que você vai fazer comigo? – pergunta Angélica assim que cruzamos o portão da rua. – Daqui a pouco a Morte vai chegar e você vai morrer, desgraçada!

– Cale a boca ou leva um tapa, fedelha. – digo, arrastando-a rua a baixo. – Sendo aliada da Morte ou não, você ainda é uma pirralha irritante eu sou a irmã mais velha: posso muito bem te dar uns tabefes, ouviu?

Chegamos em uma praça pouco movimentada.

Despejo Angélica em um dos bancos de madeira e espero. Elas logo aparecem. Almas caminham em nossa direção, vindas de todos os lados, sentindo na presença de Angélica a pessoa que as puxou para esse mundo que é tão doloroso para elas.

– Está vendo todas essas almas? – pergunto para minha irmã. – Veja como sofrem. E é por culpa sua que elas estão assim!

Eu esperava que Angélica ficasse apavorada e arrependida, mas tudo o que ela fez foi rir sinistramente.

– Acha que eu tenho medo ou remorso? – pergunta. – Essas almas não podem me tocar, já que são espíritos. Para mim, não há diferença se elas estão contentes ou não!

Recuei dois passos, chocada. Como minha doce e terna irmãzinha havia se transformado em um monstro impiedoso, egoísta e horrível? Continuei recuando, com as gargalhadas de Angélica ressoando, até trombar em uma coisa dura.

A Morte Obscura me abriu um sorriso.

– Finalmente poderemos acertar as contas, hein, Katrina...

Me afasto dela, assustada e me sentindo desprotegida e solitária.

– Mate-a! Mate-a! – gritou Angélica, batendo palmas.

A Morte se voltou para ela.

– Quanto a você, criança, já não me é mais útil. Cansei de ser sua babá. – dizendo isso, A Morte Obscura levou sua foice a cabeça dourada de Angélica. Gritei e me lancei para frente, mas não pude impedir que a Morte matasse friamente Angélica.

O corpo pequeno e dourado da minha irmã não tocou o chão, pois foi amparado pelos braços alvos da Morte de Luz. Não me aproximei. Angélica estava em boas mãos agora. A Morte de Luz me lançou um olhar penetrante.
Eu já sabia o que tinha que fazer.

Comecei a correr, com a Morte Obscura em meu encalço. Corri na direção do rio, onde um penhasco imenso o beirava. Parei na ponta do penhasco e me voltei para encarar a Morte Obscura.

Só havia uma maneira de compreender totalmente o significado da Morte.

Morrendo.

E eu estava pronta, por que não ia me matar por covardia, ou tentar compreender a Morte matando outra pessoa. Eu ia morrer para salvar milhões de almas. Ia morrer... Ia morrer por amor.

Olhei para as rochas e a água escura do rio muitos metros abaixo de mim.

– É o seu fim. – disse a Morte Obscura.

– Não. – respondi. – É o seu fim, Morte Obscura.

Sem deixar de sorrir, me lancei para o vazio.

***

Acordei com o sol batendo no rosto e sentindo a maciez do meu travesseiro e das cobertas. Me espreguicei lentamente, imaginando o que eu poderia fazer naquela manhã de sábado. Eu podia telefonar para Elisa e...
Espera aí! Estou tendo alguma experiência de dejá-vu ou foi tudo um sonho em cima de outro sonho?

Devagar, abro a porta do quarto.

A casa está silenciosa, a não ser por murmúrios e choros no andar de baixo. Paro na ponta da escada. Praticamente minha família toda está lá embaixo. Todos tristes e vestidos de preto, velando o corpo inerte de Angélica.

Percebo que eu estou vestindo um vestido preto simples, e segurando uma rosa vermelha em uma das mãos, que eu coloco no caixão. Um vento estranho entra pela janela da sala, e um papel praticamente pousa em minha mão. É um bilhete.

Katrina,
Você se saiu muito bem em sua tarefa, e lhe agradeço por isso, minha filha. Eu e todas as almas que foram recolhidas.
A Morte Obscura foi destruída, e agora o mundo está em paz. Abençoada seja, querida.

Obs: Não se preocupe com Angélica. Ela está bem.
Um abraço, Morte de Luz.

Então é isso aí.
A Morte não passa de uma etapa natural da Vida por qual todos nós vamos passar. Seja uma pessoa do bem, lute pelos seus sonhos e depois morra em paz.
É o que vou fazer agora. Você também deveria fazê-lo.
Afinal, a vida foi feita para que?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!