Alguém Disse Poesia?

33 Pensamentos Aleatórios 3


O que melhora a sua escrita não é a prática, não é a leitura, não é o talento acima da média que julga ter. O que te torna escritor vai muito além dos textos ou poemas que escreveu, muito além dos amores que perdeu, dos porres que tomou ou da luz que repentinamente se apagou.O que te torna escritor é a morte lenta e contínua da sua sanidade e dos seus sentimentos. Amor, paixão, amizade, são todos sentimentos nobres que até podem servir de incentivo vez ou outra em sua escrita, mas quem gosta de ler esse tipo de melosidade o tempo todo? É da dor que estou falando, da solidão e da loucura, é isso que leva um homem a escrever, de foder com a porra toda, de empilhar palavras sem sentido aparente, afinal não conheço e creio que nunca irei conhecer alguém que em pleno uso de suas faculdades mentais se jogou de cabeça nesse abismo sem fim, e caso conheça faça-me um favor, diga a esse indivíduo que ele não é um escritor de verdade.

Estava em um impasse daqueles, nem feliz, nem triste, apenas indiferente. Poucas vezes estive assim, com o barco acorrentado a essa calmaria, mas no fim o vento sempre soprava, onde estaria ele agora? Por Deus, já não me interessava por alguém de verdade há um bom tempo, precisava comprar um barco novo, sim, um novinho, daqueles com um motor bom e um casco bonito, iria lhe pôr um nome de mulher, um nome forte e furioso, desses que te atingem como um raio. Com sua fúria rasgaria esse oceano ao meio, iria ensinar aquele vento sacana uma lição de verdade, ah se iria.

Não encontrava motivos dentro de mim que justificasse tal revolta e isso estava me deixando louco, puto de verdade. Pensava demais e esse era o problema. Começou quando criança, talvez antes disso, sempre pensando, foi ali que começou minha verdadeira desgraça. O mundo era um lugar feio, as pessoas no geral eram feias, então me isolava, apenas eu, meus livros e meus pensamentos. Lá fora era verão e as crianças brincavam, eu apenas lia, devorava contos e estórias, muitas vezes inadequadas para minha idade. Foi uma infância pobre e difícil, dura pra cacete, aos dez anos já era quase adulto, rígido demais para um mundo inflexível. As coisas não melhoraram muito com a puberdade, todo mundo diz que se fica meio estranho nessa fase, bobagem, vocês não reconheceriam um estranho caso topassem com um, poucas sãos as pessoas que alcançam esse status, um mal que apenas um entre milhões pode carregar. Quando a idade adulta chegou já não havia muito a amadurecer, tudo que me restava eram os pensamentos, os malditos pensamentos. Ninguém gosta de pensar, essa merda deixa um homem maluco, louquinho de pedra, e a loucura como todos sabem é apenas uma designação idiota para aqueles que simplesmente não se encaixam no quebra-cabeça. Ninguém nunca me disse que era preciso se encaixar, que era preciso ser parte de algo maior, então criei o meu mundo, o meu jeito, as minhas merdas e defeitos, podia estar mal com o mundo, mal de verdade, mas estava bem comigo, então o resto todo podia ir se foder.

Havia uma parte de mim que queria lhe dar uma chance, era uma parte boa, sensível, ingênua até, um pedacinho bobo e teimoso que insistia em viver. O problema era o restante da estrutura que já enrijecida pelos baques da vida continuava a se isolar, era uma batalha sem sentido, um coração sem sentido e a tua incerteza assustava todos os soldados, em toda minha vida nunca havia travado uma guerra tão cruel.

Volta e meia topava com alguém que me chamasse a atenção, podia ser na rua, na padaria, num bar enchendo a cara ou mesmo nesse mundo maluco e desprovido de cabos, não era comum, mas esse tipo de pessoa sempre aparecia. Por vezes puxava assunto, por vezes me interessava, por vezes até mesmo algo aflorava, mas no fim sempre as deixava ir, sempre. Não que fossem pessoas ruins de se lidar mas não encontrava nelas problema algum, tudo em suas vidas era sempre tão belo e perfeito que tive medo de ficar doente, de me afogar em sua perfeição, algo imperdoável para um sujeito inepto como eu.

Estava confuso acerca de um sentimento em especial e pensava a respeito com certa frequência. No fim, depois de tanto pensar resolvi que o melhor mesmo era deixar pra lá, podia ser grave, podia ser nada, eu já não me importava.

Havia tanta solidão e melancolia no mundo que quando me ofereceram um abraço não soube como reagir.

Quando as coisas chegam ao ponto de eu já não me importar se haverá outra conversa ou não é sinal de que de sim, eu estou pouco me fodendo.

Não é preciso muito para se tornar escritor, basta possuir em mãos um diagnóstico de inaptidão mental, uma boa garrafa de bebida e uma dúzia ou mais de desilusões amorosas, coisa que qualquer perdedor pode conseguir pelas esquinas da vida. Saber escrever? Isso nunca foi necessário.

Não escolhemos nascer e a porra toda começa a dar errado antes mesmo de você existir, após o nascimento querida é só queda livre, só desilusão. Você não é dono de suas crenças, não é dono de seus desejos, quem dirá dos seus sentimentos, engolindo tudo que te empurram a torto e direito nada irá te salvar daquilo que se tornou. Você é o que te ensinaram a ser, uma merda que foi feita para obedecer e não adianta se revoltar, dar uma de maluco, é apenas questão de tempo até endireitarem um prego torto. Onde quer que vá, o que quer que faça irão sempre arrumar uma sela e um cabresto adequado para você.

Você não passa de um assassino em série e nada que faça irá mudar isso. Doí não é? A verdade foi feita exatamente para isso, cutucar aquela ferida purulenta que nunca cicatriza, só pra te lembrar o quão ruim você é. Cadê a criança que um dia aqui viveu? Morta! E aquele passarinho alegre que cantava todas as manhãs? Morto! Onde se encontra aquele amor que por aqui costumava dançar? Este já morreu faz tempo. Precisa de mais? Olhe pra você, apenas olhe, tão jovem, tão belo, tão cheio de vida, morto antes mesmo de alcançar a senilidade.

Não havia nada de interessante em escrever, um ofício que não valia a pena investir o seu tempo, quem dirá sua vida. Livros são apenas palavras impressas em papel frio, perderam seu charme, perderam seu público, perderam sua magia. Você tem mãos perfeitas não tem? Use-as para tocar uma guitarra, levantar um copo, acariciar alguém, dar um soco, um tapa, em minha cara se quiser, mas não use-as para escrever, essa é uma tarefa que somente os apáticos podem suportar.

Todas eram parecidas e não encontrava em nenhuma algo especial, algo que me fizesse perder a cabeça e isso começava a me assustar. Sim ainda era jovem e havia muito a viver, tal fato não devia me incomodar, mas incomodava, e o que podia fazer? Convida-las pra sair? Tocar o foda-se sábado a noite? Qualquer que fosse a escolha o resultado era quase sempre o mesmo, um gosto amargo na boca e uma ressaca do cão no dia seguinte, por vezes não me lembrava sequer o seu nome, faria alguma diferença? A resposta é não, sempre não, e começava a me questionar se um dia seria sim, ainda era cedo pra dizer e a noite havia apenas começado.

Era um saco ter de andar na linha sempre, ser pontual, ter um corte de cabelo bacana, vestir algo aceitável, fingir estar bem quando a porra toda estava pra lá de fodida, era simplesmente um saco. Era preciso extravasar de vez em quando, sair pra encher a cara, devorar um maço de cigarros, fazer algo ilegal, se perder na noite com alguma maluca, afundar na merda de verdade para então se lavar pela manhã e retornar para a mesma vida e suas rotinas maçantes, não como um novo homem, mas como o velho idiota de sempre, afinal de contas algumas coisas nunca mudam.

Havia um certo charme em não se apegar a nada com facilidade, a matemática era simples, quanto menos vínculos, menos decepções. Não que fosse uma vida exatamente feliz, mas tinha lá os seu encantos. Constantemente era rotulado como frio, insensível, idiota, talvez retardado, não descartava essa possibilidade, na verdade não descartava possibilidade nenhuma. O que eu não compreendia era o motivo de eu, um ser tão desinteressante continuar atraindo o interesse das pessoas, era um mistério para o qual não havia resposta e de certa forma gostava que permanecesse assim, era mais interessante.