Alguém Disse Poesia?

34 Crônicas de um Perdedor/Conto


Notas iniciais
Sei que foge um pouco da categoria mas achei interessante postar, apreciem.

Deitado na relva contemplo o céu estrelado sob o refúgio de uma velha e desfolhada castanheira urbana. Era mais uma daquelas noites frias de Julho e não estava devidamente agasalhado. A grama lentamente começa a se encharcar devido a formação típica de neblina comum a essa época do ano. Deus como estava frio, iria morrer como um cachorro congelado se ficasse mais uma ou duas horas estendido ali. Havia perdido a noção do tempo, a única coisa que sabia era que estava bêbado e a madrugada engolia tudo em sua gula voraz. Pouco a pouco a cidade ia se apagando, luz por luz, em breve seria apenas eu e o doce lamento do silêncio. Uma motocicleta passa a todo vapor pela avenida, sobre ela apenas mais um casal perdido na noite. Olho para os lados e não encontro mais sinais de vida ao meu redor, até mesmo os patos que fazem espalhafatosa algazarra no pequeno lago do parque se encontram agora perdidos e não serão mais encontrados. Como pode uma cidade tão barulhenta de uma hora para outra ser engolida assim pela tranquilidade?

Tento me mover, esforço em vão, bêbado demais até mesmo para respirar. Alguma coisa protesta em meu estômago e então percebo que o pior está por vir. Viro a cabeça para o lado em um esforço de vida ou morte, mas nada sai de dentro de mim. Ainda assim me sinto um pouco melhor, um pouco mais leve, um pouco menos bêbado quem sabe. Começo a pensar em como diabos havia chegado até ali, uma tarefa pra lá de ingrata diga-se de passagem. Entre pensamentos aleatórios e crises de vertigem algumas coisas antes dispersas como a fumaça de um cigarro barato começam agora tomar forma.

Eram por volta de dez horas quando acordei de um sono inquieto e perturbador. Estava suado e com uma aparência nada animadora. Em cima da mesa as dívidas se multiplicavam como se tivessem vida própria. Água, luz, aluguel, telefone, cartão de crédito, lojas de conveniência e eu desempregado há mais de um mês. Caminho até a geladeira a procura de algo que pudesse aliviar ainda que minimamente esse fardo maldito. Não encontro nada além de uma garrafa de vinho barato praticamente vazia. Abro-a e tomo o restante de seu conteúdo em único e prazeroso trago. Me jogo desajeitadamente sobre o meu sofá velho e cheio de furos de cigarro. Um dia de merda me aguardava e o que podia fazer a respeito? Nada, não há nada que um homem possa fazer a respeito.

Caio novamente no sono. São duas da tarde quando acordo, ainda suado, ainda perdido. Decido que é preciso fazer algo, um homem precisa fazer algo, mas o quê?

Lembro que é dia de Poker, na verdade todo dia é dia de Poker, a única diferença é que na segunda apenas os fracassados se reúnem pra jogar lá no inferninho, se ao menos tivesse alguns trocados poderia tentar, afinal um homem tem de tentar.

Reviro o meu muquifo de pernas pro ar, em algum lugar deve haver alguns trocados, nem que seja dentro da privada. Passo horas e horas vasculhando e para quê? Encontro apenas sete reais, sete míseros reais, até um maldito mendigo pustulento se encontrava em melhores condições financeiras que eu. Resolvo tomar uma medida desesperada, vender o relógio de bolso que havia herdado do meu avô há um punhado de anos atrás, não era nada excepcional mas deveria valer algo. Visto minhas calças surradas e minha camisa manchada de vinho e ganho as ruas da cidade, já eram por volta de quatro da tarde.

Entro em desatada correria na primeira loja de usados que encontro, já estava prestes a fechar.

— Ei velhote, quanto me dá nessa porcaria? — consigo falar jogando o relógio sobre o balcão quase pondo os bofes pra fora.

Um velhinho de cabeça redonda e olhos miúdos me olha com ligeira desconfiança, mas que merda, as pessoas sempre me olham assim.

— Deixe-me dar uma olhada meu amigo.

O senhor envolve o objeto com as mãos encarquilhadas e com um óculos que mais parecia uma luneta daquelas de observar estrelas analisa a peça por alguns bons segundos.

— Setenta pratas.

— Qual é companheiro! Esse relógio vale mais que isso, é uma peça genuína.

— Aqui ele vale setenta pratas.

— Escuta aqui velhote, na falta de papel higiênico enfia essas setenta pratas bem no meio do teu rabo enrugado e limpa com vontade até sair sangue dessa porra.

Pego o meu relógio das mãos do senhor que me olha perplexo e tomo novamente as ruas, a noite começa a engolir o dia, era preciso se apressar.

Encontro uma espécie de bazar escondido por entre os prédios e entro assustando os poucos presentes como se a qualquer momento fosse anunciar um assalto, era possível. Me dirijo ao balcão onde um homem enorme e obeso fuma desassossegadamente um cigarro barato. Jogo o objeto a sua frente.

— Ei companheiro, quanto me paga nesse relógio?

O homem pega com seus dedos gordos o objeto e o examina pelo que parece ser não mais que cinco segundos.

— Cinquenta.

— Só isso?

— Só.

— Amigo esse relógio é uma preciosidade, artigo de primeira, datado de mil novecentos e catorze, o ano da primeira guerra mundial, pode conferir companheiro, faça um preço melhor para um camarada desesperado.

— Cinquenta e mais uma porcaria qualquer da loja.

Estava derrotado, afundado em merda de verdade, daquelas que quanto mais se mexe mais sujo fica.

— Qualquer coisa?

— Qualquer coisa.

Quando saí daquele pardieiro já era noite, levava comigo cinquenta e sete pratas no bolso e um chapéu esquisito na cabeça. Por que raios havia escolhido um chapéu? Não fazia sentido, nada em minha vida fazia sentido, era um idiota e permaneceria assim, e como tantos outros idiotas iria acabar na lona, o único destino aceitável para escórias como eu.

Caminhei umas boas quadras até finalmente chegar ao inferninho, um lugar sujo e fedido nos subúrbios esquecidos da cidade. Entrei e para minha surpresa o lugar estava relativamente bem movimentado para uma segunda-feira. Perdedores, um monte deles se amontoavam pelo lugar, tomando cerveja, jogando bilhar ou se engraçando com uma prostituta qualquer. Olhei em volta procurando o meu lugar e lá estava ele. Em um canto mal iluminado do bar quatro homens empunhando suas cartas sagradas jogavam Poker e tomavam uns tragos. Me aproximei determinado.

— Estou entrando no jogo seus vadios.

Um homenzinho de cabelos lambidos e cara amassada me fitou por um momento, mascava um palito e fedia a cachaça.

— As apostas são de cinco reais, se não tiver dinheiro cai fora.

— Relaxe amigo, você está precisando desestressar, por que não vai dar uma volta com alguma das meninas aí e quem sabe tirar uma fodinha, acho que pra você elas fazem pela metade do preço.

Alguns risos abafados se espalham pela mesa. O pequeno homem me lança um olhar fulminante, digno de um pugilista, pensei que iria brigar mas não passava de um pobre covarde. Por fim disse.

— Vai jogar ou ficar a noite toda com essas piadinhas sem graça?

Me junto a mesa e nela havia Fausto, Cobra, Quasímodo e Arthur, o pequeno homem.

— Uma vodca no capricho! — Grito ao garçom.

A noite avança entre doses e cigarros. Estava em uma maré boa, ganhando boa parte das rodadas. Em determinado ponto já havia acumulado uma boa bolada, o suficiente para me manter vivo por mais alguns dias, deveria ter parado, um homem deve saber a hora de parar. Infelizmente a ganância é um veneno capaz de entorpecer a mente até do mais nobre dos homens. Decidi avançar jogando e foi aí que caí em desgraça. A maré mudou de lado, agora era Fausto quem mandava na mesa, um homem tão frágil em seus cinquenta quilos que qualquer garotinha conseguiria facilmente dar um cacete. Não havia explicação lógica para aquilo, qualquer que fosse a rodada aquele maldito possuía um jogo perfeito, sempre com um flush, quadra e não muito raro um full house em mãos. Pouco a pouco o meu dinheiro foi minguando e minguando até praticamente acabar, estava acabado e não era a primeira vez que isso acontecia em minha vida.

De repente sem saber o porquê veio a explosão.

— VOCÊ ESTÁ ROUBANDO SEU PUTO! — As palavras escorregando de minha boca.

Fausto me lança um olhar de superioridade e diz.

— Perdedor.

Foi o suficiente. Pulei da cadeira como um gato e o acertei em cheio no queixo com um soco já debilitado pela bebida, não foi tão forte, mas teve força o suficiente derruba-lo da cadeira e nocauteá-lo em um estrondo magnífico. Um homem precisa lutar.

Quasímodo um idiota tão feio quanto o corcunda em pessoa me agarra pelas costas enquanto Cobra se aproxima e me acerta em cheio um soco no estômago.

— Ei fica frio cara — dizia entre um soco e outro — você perdeu amigo, é apenas isso, conforme-se.

Cobra batia tão fraco que nem compensava gemer a cada pancada, nunca esteve em uma briga de verdade. Arthur por outro lado estava socorrendo o amigo ainda inconsciente quando me lançou mais um daqueles olhares de pigmeu raivoso.

— Soltem esse maluco, não compensa se sujar com um merdinha desses.

Quasímodo me arremessa para o outro lado do bar. Caio perto do balcão entre gritos e risadas. Me levanto com dificuldade e olho de volta para aqueles perdedores, não os encontro, de certo haviam levado o magrela para o hospital. Cuspi no chão um cuspe pegajoso e rajado de sangue. Procuro nos bolsos entre níqueis, recibos e balas algum dinheiro de verdade. Encontro vinte mangos, era todo o dinheiro do mundo que possuía.

— Garçom, manda um conhaque e um cigarro! — Grito quase em súplica.

Sentado ao balcão degusto minha bebida e meu cigarro enquanto a noite avança mais e mais. Pouco tempo depois o dinheiro se acaba e tomo amargamente minha última dose. Uma garota se aproxima procurando algo mais. Ainda é jovem, muito jovem. Tem olhos castanhos e um belo par de pernas.

— Ei bonitão, se estiver a fim de se divertir você pode comprar uma passagem para o paraíso agora mesmo.

— Estou quebrado.

— Qual é, vai dizer que é veado? São apenas trinta reais a hora, é um dinheiro bem investido, não vai se arrepender — diz pegando minha mão e levando de encontro ao seu seio.

— Estou quebrado — repito quase fora de si.

— Te chupo todinho pela metade do preço, o que me diz campeão?

Levanto com dificuldade e tomo o caminho da rua, atrás de mim apenas os gritos de uma garota raivosa.

— MAS É UM VEADINHO MESMO, CORRE PARA OS BRAÇOS DA MAMÃE SEU FROUXO, VELHO BROXA DO CARALHO!

Se locomovo com dificuldade, cambaleando ganho as ruas da cidade. Persistir, um homem deve persistir. Em determinado ponto paro nas escadarias de uma igreja para tomar um fôlego. É Julho, faz frio e o céu está lindo. Começo a tremer e a suar frio, havia perdido aquele chapéu idiota. Sem me dar conta um casal de namorados troca carícias bem ali do meu lado. Por um momento sinto inveja daqueles jovens e seu amor incandescente, já havia me esquecido da última vez que havia sentido algo parecido. Me inclino para vomitar mas nem isso consigo fazer direito, nada sai de dentro de mim. O casal me olha assustado, normalmente as pessoas se afastariam ao topar com uma figura apavorante como eu, mas por algum motivo o rapaz de cabelos compridos se aproximou.

— Noite difícil?

— Você não sabe como.

Tremo como se estivesse sofrendo de uma abstinência severa.

— Dá um tapa, vai se sentir melhor — disse me oferecendo um cigarro de maconha.

Eu nunca havia fumado maconha, mas o que tinha a perder?

O rapaz acende meu cigarro e dou uma longa tragada. É um pouco forte e diferente dos cigarros comuns, dou uma ou duas roucas tossidas.

— Devagar ou vai acabar se engasgando — diz rindo.

— Como se fosse possível se engasgar com fumaça de cigarro — Repentinamente retruca sua namorada ao se aproximar, uma garota de sardas e grandes olhos azuis — Aqui, dá um trago, vai te fazer bem — Me alcança uma garrafa de um vinho qualquer quase no fim.

— Acho que já bebi o suficiente.

— Aceite ou ela vai ficar puta com você.

— Idiota, como ousa me chamar de puta? — Rebate fechando o tempo- Não é preciso beber se não quiser.

— Passe isso pra cá, um homem deve saber beber.

Tomo o restante da garrafa em um trago só. O casal me olha maravilhado, para eles eu sou uma espécie de herói. Para mim sou apenas mais um perdedor se afogando nesse oceano chamado vida. Passo algum tempo com os dois conversando e dando um tapa, de alguma forma me sinto entorpecido e isso é bom. O nome dela era Tifa, o pai era um bêbado qualquer que vivia lhe batendo, passava a maior parte do tempo na rua. Chester o seu namorado não era muito diferente, abandonado pelo pai teve de aprender a se virar logo cedo. O meu se bem me lembro nem cheguei a conhecer. Será meu Deus que em toda essa merda de mundo não existe sequer um pai de verdade?

Me despeço e saio cambaleando pelas ruas mais uma vez, sem destino certo, apenas vagando. Chego ao parque onde começo a perder o controle sobre meu corpo. De todos os truques que a bebida nos prega o pior é este, o raio, ela começa devagar como uma chuva de verão e de repente quando você menos espera ela te atinge com tudo, como um maldito raio, e você só vai perceber os estragos muito depois de ter tomado a primeira dose.

Encontro uma velha castanheira perto do lago e me deito sobre a relva, não sabia no momento mas nunca mais sairia dali. Acordo algum tempo depois, a cidade apagada, está frio, faz muito frio e meu corpo treme violentamente. Tento me mexer, mas meu corpo simplesmente não responde. Por Deus nem emitir um som eu conseguia. Dentro de mim há uma bagunça sem tamanho, sentimentos e reações fisiológicas travam uma batalha voraz em minhas entranhas enquanto o suor escorre frio pelo meu rosto. Os primeiros raios de sol começam a beijar o dia clareando tudo ao meu redor. Por um breve momento me sinto feliz, um homem deve se sentir feliz. Um instante depois tudo é interrompido por uma palpitação forte e ardente dentro do meu peito. A luz agora tocava o mundo, mas não dissipava a escuridão dos meus olhos, e, enquanto tudo lá fora brilhava dentro de mim algo se apagava. E foi se apagando bem devagar, cada vez mais devagar, meus olhos turvos e cansados a contemplar a última estrela no céu. Então de repente vem o vômito, de repente o susto, e então o suco gástrico indo direto para os pulmões, não uma, mas várias vezes. É noite novamente e um homem deve saber quando desistir.