Além da superfície.
45 Twloha.
Notas iniciais
Por Rachel
Depois de um banho quente, abro o armário da cozinha, me sentindo um pouco estranha por estar mexendo em uma casa que não é minha, mas logo relaxo sabendo que Santana não se importa. Escuto Quinn falando com a latina ao telefone, enquanto tento inventar algo para comermos. A maioria das vezes que ficamos a sós, a loira é quem fica a cargo da comida. Então, aproveito a ocasião para torna-la ainda mais especial. Toda vez que Quinn abaixa seus escudos e me deixa ver o tempo que não estávamos juntas, algo cresce aqui dentro.
É incrível o quanto ela confia em mim e fala tudo numa calmaria, sem pensar duas vezes. É estranho também, porque eu quis tanto a amizade dela, cheguei a me humilhar diversas vezes, antes de ser vencida pelo cansaço e pela raiva. Talvez ela tenha razão, tudo tem seu tempo para acontecer.
– O que está fazendo? – Eu viro no som de sua voz e a vejo enxugando o cabelo na porta da cozinha, em um roupão branco.
– Não quero que você adoeça de novo, Q. – Coloco o chá em uma xícara. Ela franze a testa. – Sua mãe me mataria.
– Minha mãe não te mataria, ela te ama. – Vira os olhos. Eu rio.
– Pense nas injeções que você teria que tomar outra vez. – Ela se encolhe. – Ou nos beijos que teríamos que evitar.
– Deus, eu tomo. Eu tomo. Me dê isso. – Ela segura a xícara, me fazendo gargalhar. – E viva a chantagem emocional, Berry.
– É pro seu bem. – Sussurro, abraçando-a.
– Então tome também. Eu tampouco quero que você adoeça. – Diz, delicada. Sorrio, colocando uma xícara para mim. – O que tem no fogão? – Ela aponta.
– Oh, eu... – Limpo a garganta. – Eu fiz uma lasanha. – Dou os ombros. – Digo, é vegetariana. Foi a única coisa que eu consegui pensar.
– Não me importo, Rach. – Ela me puxa. – Desde que você coma comigo, tudo bem.
– E se estiver ruim? – Provoco-a.
– Daí eu finjo que está boa para não perder a namorada. – Sorri. Eu mordo seu braço. – Auush! – Ri. – Estou brincando. Se estiver ruim, eu aviso. Mas, tenho certeza que não está.
– Idiota, agora eu não acredito em você. – Viro. Ela me abraça por trás, nos levando para sala. – Você não vai me comprar, Fabray.
– Hmm... – Choraminga, beijando meu pescoço. Eu fecho os olhos, aproveitando o carinho. – Te amo.
– Golpe baixíssimo. – Resmungo. Ela solta uma gargalhada sonora. E um trovão soa, nos assuntando.
– Essa chuva não estava em meus planos. – Faz um pequeno bico.
– Sério? Porque eu tenho bons planos. – Aperto seus braços ao meu redor. – Ficarmos assim, quietinhas no sofá. – A loira senta e eu me encosto em seu peito, me encolhendo.
– Você sempre me fazendo de casaco. – Brinca. Eu viro os olhos, descansando a cabeça em seu abraço.
– O que Santana queria? – Lembro-me da ligação.
– Ela e Brittany discutiram, mas já estão bem.
– Britt aceitou a ideia?
– Sim. – Suspira. – Eu só espero que isso não dê confusão.
– Eu também. – Admito.
Nós ficamos em silêncio, apenas nos sentindo. Eu nunca pensei que a respiração de Quinn em minha nuca fosse me trazer uma calma tão grande. O simples fato de tê-la comigo, já é tanto. Estou completamente entregue.
– Estão sumindo... – Quinn sussurra, passando os dedos levemente por minha cintura.
– Foram cortes mais fracos. – Encolho em seu peito. – Você acha que... – Viro os braços. – Você acha que essas podem... Sumir?
– Não sei, meu amor. – Beija meu pescoço, agora traçando meus punhos. – Talvez algumas. – Diz, tristemente. Eu assinto. – Mas, daremos um jeito nisso, ok?
– Eu só não queria ter que olhar mais na frente e lembrar cada pessoa que me julgou. – Suspiro.
– Eu entendo. – Me abraça. – Eu tenho cicatrizes de julgamentos também. Felizmente, nenhuma delas é visível, mas doem igualmente, sabe?
– Você está falando de seu pai? – Inclino um pouco a cabeça para olhá-la.
– Principalmente. — Ela morde o lábio. – Mas, não só dele. Eu achava que tinha vários amigos, que todos estavam comigo. Quando eu engravidei, não importava mais. Eu tinha os mesmos gostos, tinha os mesmos hábitos, eu era a mesma pessoa, mas e daí? Todos me olhavam estranho, se afastavam de mansinho.
– Mas você nunca deixou de estar rodeada de gente. – Ela ri fraco.
– Talvez não. – Suspira. – E os julgamentos em silêncio eram os que mais me machucavam. Lógico que muitos ficaram. No fim de tudo, eu sou Quinn Fabray, a capitã das Cheerios. Meu nome falou mais alto e tiveram que engolir, calados. Já os outros... – Ela entrelaça nossas mãos. – Arrumaram mil desculpas idiotas e saíram sem assumirem que o fato de eu estar grávida aos 16 anos os incomodavam.
– Por que as pessoas simplesmente não cuidam de suas próprias vidas? – Pergunto, frustrada. Ela sorri, encostando nossas testas.
– É mais interessante apontar os outros. – Engole seco. – Eu posso falar bem sobre isso.
– Mas você mudou. – Digo, rapidamente.
– Mudei, Rachel. Só que eu aprendi da pior forma, entende? Infelizmente, poucos conseguem ir além da superfície. Não importa se você tem o mesmo sangue, ou se você convive com alguém a anos, às vezes, só te dão valor quando se está sorrindo e por cima. Então, você se sente como um...
– Lixo. – Falamos em uníssono. Ela assente.
– Isso é horrível. – Sussurro. – Bom, eu nunca estive por cima, então...
– Desculpe, eu... – Viro em seus braços, juntando nossos lábios.
– Q, eu estou com medo. – Murmuro.
– Do que você tem medo, Rach? – Pede de olhos fechados.
– Você sabe que tudo isso voltará, não sabe? Todos os olhares, todos os julgamento, todo o preconceito. Não que isso tenha ido embora, mas quando souberem sobre nós...
– Shhhh... – Alisa meu rosto. – Eu estou pronta para enfrenta-los. Eu aprendi muito com tudo isso. Ninguém vai me rebaixar. Ninguém tem o direito de fazer isso se eu não der motivos. Eu amo outra mulher, é um amor como qualquer outro. – Ela beija meu nariz. – Dane-se quem pensa que é errado. No fundo, para a maioria, é apenas inveja por não terem alguém para amar.
– Como você pode ser tão forte? – Sussurro, hipnotizada.
– Você está comigo, não está?
– Claro que estou.
– É o que me interessa. – Diz, firme. – É o que me faz bem, me faz feliz. Eu não posso deixar que os outros me façam mal, Rach. Não mais.
– É tão... Difícil. – Ela me aperta. – Machuca...
– Eu sei. – Suspira. – Mas, você é a minha namorada, é quem tem que saber o que está certo ou errado. Estamos juntas nessa. Superaremos juntas. Mostraremos que podemos ser felizes, sim... Juntas.
– Danem-se eles? – Imito-a, fazendo um sorriso iluminar seu rosto.
– Danem-se eles. – Repete. – Dane-se o mundo lá fora.
– Eu te amo. – Beijo-a. – Quando você fala assim, parece que nada pode me atingir.
– E nada vai. – Garante. – Eu não deixarei. Quem tiver que ficar, ficará. Tenho certeza de que, mais na frente, teremos pessoas melhores nos rodeando.
– Soa bem. – Sorrio, querendo acreditar no que ela diz.
– Pague pra ver, meu amor. – Fala, divertida. – Rachel? Que cheiro é esse?
– MERDA. – Levanto do sofá. – A COMIDA.
Por Quinn
Para alguém que sempre teve costumes diferentes, Rachel cozinha muito bem. Eu poderia virar vegetariana fácil se tivesse algumas comidas assim sempre. Depois de tirar brincadeira com a morena, nós fomos assistir filmes na sala. Nós tiramos alguns lençóis e trouxemos para o sofá. Os trovões ecoavam pela casa grande, fazendo-a se encolher em meus braços. Isso me faz lembrar a primeira que ela dormiu lá em casa e nós nos abraçamos por causa dos sustos que tomávamos. Ou para ficarmos perto uma da outra. Abro um sorriso torto, mexendo no cabelo da pequena, que agora olha minha máquina. Ela solta um suspiro arrastado.
– O que houve? – Beijo sua cabeça.
– Essas... – Se afasta. – Por favor, não se chateei.
– Com o que? – Franzo a testa, sem entender.
– Eu quero que você apague essas fotos. – Sussurra.
– O que? Por que? – Ela dá zoom em seus braços. – Rachel...
– Por favor, Quinn. – Se encolhe. – Você pode deixar as que estamos juntas. Mas, apague essas. – Sua voz é tão curta que eu sinto meu corpo estremecer.
– Tudo bem, não tem problema. – Digo, sincera, fazendo o que ela pede.
– Me desculpe.
– Não! – Viro para ela. – Eu que errei. Você não queria tirar e eu tirei mesmo assim.
– Amanhã... – Ela morde o lábio. – Eu deixo que você me fotografe. – Segura minha mão, timidamente. – Mas, eu estarei vestida, tudo bem?
– Tudo bem. – Sorrio. – Perfeito.
Ela se aconchega de volta em meu peito. Eu pego seu braço, encarando a cicatriz escrita. Perdedora. Sinto um nó em minha garganta. Me afasto um pouco para poder me levantar. Rachel choraminga, perguntando onde vou. Mas, eu a ignoro, subindo para o quarto e revirando minha bolsa atrás de uma caneta pilot. Sorrio ao acha-la e desço, correndo.
– O que é isso? – Pergunta, confusa.
– Me dê seu braço. – Peço. Ela estende, desconfiada. – Se arder, você me avisa, ok?
– O que você vai fazer, Quinn?
– Vou escrever amor em seus braços.
Tiro a tampa da caneta vermelha e traço por cima de seus cortes. Olho para ela, pedindo permissão para continuar. A morena assente.
– Por que você está fazendo isso?
– Você já ouviu falar sobre o TWLOHA?
– Sobre o que? – Ri. Eu viro os olhos.
– É uma sigla. – Explico. – Significa: To Write Love On Her Arms.
– Hmm... – Ela olha para o braço. – E o que é isso?
– Bom, uma menina chamada Renee Yohe, de 19 anos, tentou se suicidar. Nessa tentativa, ela escreveu Fuck Up em seu braço, com o sangue. Cinco dias após o acontecido, surgiu essa campanha. Escrever amor nos braços dela. É um movimento bem famoso, onde o objetivo é apenas... Prezar pela vida. Ele incentiva as pessoas a buscarem ajuda. Fazem festivais, camisas incríveis. Rach, você precisa ver como são lindas.
– Eu nunca tinha ouvido falar nisso. – Ela encosta no sofá, prestando atenção.
– Você pode não ter ouvido falar, mas certamente já viu alguma banda, ou cantor vestindo essa camisa. No inicio, o dinheiro obtido com a venda delas, de ingressos e tal, era usado para ajudar Yohe em seu tratamento. Mas, o movimento cresceu muito rápido. Muitas pessoas procuraram falando sobre seus problemas parecidos.
– Muitas eu’s? – Sorri, incerta.
– Sim, muitas você. Centenas. – Concordo. – Yohe terminou o tratamento dela, mas a campanha continua firme. Ela já escreveu um livro e fez um filme recente, chamado Day One, que conta a história dela.
– Você tem como acha-lo? Eu gostaria de assistir.
– Claro, nós procuraremos, ok? – Ela assente. – A história dela é triste, forte. Mas, se você der uma olhada na campanha, é bem bonita. Depois você pesquisa mais, tem bastante coisa. Acho que seria bom.
– Como você encontrou isso, Q? – Eu sorrio.
– Eu já conhecia, na verdade. – Suspiro. – Só não tinha te ligado, até agora. – Balanço a cabeça. – Você já ouviu Anberlin?
– Acho que sim.
– Como acho, Rachel? – Jogo uma almofada nela. – Você não pode namorar comigo e achar que ouviu Anberlin.
– Tudo bem, eu já ouvi sim. – Vira os olhos, rindo.
– Enfim, eu já tinha visto o vocalista com uma dessas camisas. Depois eu vi a Hayley, do Paramore. Fiquei curiosa, então fui atrás. Descobri muitas bandas apoiando, achei surreal. É só você jogar no google que encontra.
– Parece ser incrível mesmo. – Ela se aproxima, pegando a caneta. – É louco pensar que tanta gente passa por isso. Digo, eu sei que não cometi nenhuma tentativa de suicídio, mas... – Suspira. – É assustador.
– Gostaria que todas essas pessoas tivessem a ajuda que precisam. – Encosto a cabeça no sofá, enquanto a morena segura meu braço.
– Se todas elas tivessem uma Quinn... – Sorri.
– Hmm... – Rio. – Esse é um mérito só seu.
– Acho bom. – Pisca um olho. – Que você seja só minha, quero dizer.
– Eu sou. – Sorrio, olhando meu braço. Eu te amo. – Eu também te amo.
Puxo sua nuca, unindo nossos lábios. A morena se deita por cima de mim, aprofundando o beijo. Não tem pressa, nem excitação. Apenas carinho. Ela se separa, deitando a cabeça em meu peito. Eu começo a cantar Saving You a música oficial To Write Love On Her Arms. Como eu não tinha pensado nisso antes? É absolutamente tudo o que eu tinha pra dizer pra Rachel. Ela vira a cabeça, sorrindo doce. Eu continuo cantando, encarando seus olhos, querendo que ela entenda tudo o que eu estou cantando.
– Você não existe.
– Claro que existo. – Brinco.
– Falo sério. – Suspira. – Eu não sei o que teria acontecido se...
– Não fale. – Interrompo-a. – O importante é que você está melhorando, meu amor.
– Eu gosto quando você me chama de meu amor. – Acaricia meu ombro.
– Eu gosto de você.
Fale com o autor