Notas iniciais
https://www.youtube.com/watch?v=SpxtEfuJn9o

Por Quinn

Minha cabeça dói. Estou cansada, mas não consigo dormir. Olho para o meu lado e fico um pouco mais aliviada ao ver Rachel entregue ao sono. Suas mãos seguram o meu braço, como se quisesse me prender na cama com ela. Sua expressão é suave, mesmo que o rosto esteja um tanto avermelhado. Escuto a porta se abrir e viro, encontrando o olhar atento de Santana. Ela franze a testa ao olhar para o chão e acena para mim, quando percebe que estou acordada.

Solto meu braço lentamente, ouvindo minha namorada choramingar. Ela muda de posição, mas não acorda. Dou um beijo em sua testa e levanto. Apanho os objetos do chão, indo para fora do quarto. Brittany sorri de lado, abrindo os braços. Eu aceito o abraço da dançarina, me sentando junto a ela. Santana aparece com um copo de água e um comprimido, como se lesse meus pensamentos e me procurasse um remédio para dor de cabeça, antes que eu pudesse pedir.

Depois de tomá-lo, a latina leva o copo de volta e senta no banco a nossa frente. Eu respiro fundo...

– Sinto muito pela gritaria. – Digo, envergonhada.

– Não tem problema, só estamos nós aqui.

– Mesmo assim, é sua casa e...

– Quinn. – Me interrompe, mandando um olhar sério. Eu assinto. – O que houve? Rachel se cortou outra vez?

– Não, mas... – Suspiro. – Ela ia. – Brittany se encolhe no sofá e Santana bate no joelho, com raiva. – Eu a impedi, está tudo bem.

– Eu a deixei ficar sozinha no meu quarto. — Cobre o rosto com as mãos.

– Não foi sua culpa, San. – Puxo suas mãos.

– Só fiquei tão... Chateada, sabe? – Levanta. – As coisas que ela falou... Eu me sinto um monstro horrendo.

– Você não é assim, amor. – Britt abraça a namorada. – Ela estava fora do controle, não quis dizer.

– E quando Rachel fica fora do controle sempre solta o que pensa. – Afundo na almofada.

– Espera, Britt tem razão. – A latina senta novamente. – Não podemos nos chatear com coisas que ela falou no calor do momento.

– Não estou chateada por isso. – Balanço a cabeça. – Não só com isso.

– Você quer conversar?

– Não, Brittany. – Sorrio fraco. – Eu quero ir para casa.

– E Rachel? – Santana arqueia as sobrancelhas. – E quando ela acordar?

– Ela acordará mais calma. – Esfrego os olhos. – Por favor, fiquem de olho nela, por mim. Eu preciso... Respirar um pouco.

– Claro. – A latina responde, enquanto Britt assente, apertando meu ombro. – Amor, você leva ela?

– Não precisa. – As meninas fazem uma careta. – Eu quero andar. São só alguns quarteirões.

Despeço-me das duas, pedindo para que elas me liguem, caso aconteça algo de errado. Tiro o meu tênis da mochila e os coloco, indo para a rua. Começo a andar, pensando nas coisas que aconteceram hoje. Foi tudo muito rápido. A notícia, Rachel me gritando, nós discutindo, os giletes... Eu sei que eu não fui uma pessoa modelo no passado. Continuo não sendo, mas não faço mais o que fazia antes. Eu mudei.

É ruim ouvir de alguém que eu amo o quanto eu já fiz mal para as pessoas, principalmente para ela. Dói o inferno dentro de mim. Apresso o passo. Saber a reação que os estúpidos tiveram com Karofsky me deixa mais furiosa. Qual o problema deles? Eu realmente achei que nós estivéssemos seguras o suficiente. Eles não fariam isso comigo, ou fariam? Eu sinto medo. Sinto medo por ele, por mim, por Rachel, por Santana, por Brittany... Por qualquer pessoa que tenha que se esconder pelo simples fato de amar alguém.

Só percebo que eu estou correndo quando minha respiração começa a ficar pesada demais. Ponho as mãos em meu joelho, inspirando fundo. Limpo o suor em minha testa, sentindo vontade de gritar. Entro em casa e Frannie me acompanha com o olhar. Minha irmã acena para a garagem, jogando as luvas de boxe para mim. Eu pego no ar, vestindo-as. Ela não fala nada, apenas me observa.

Eu dou o primeiro soco, lembrando das palavras de Rachel, de sua insegurança, de sua raiva, lembrando sua falta de atenção comigo. O segundo soco vai por minha fraqueza, por não ter recebido a noticia bem, por não ter reagido de forma certa, por precisar de alguém pra me abraçar. O terceiro soco, que logo é seguido de outro e outro e outro, são por não ter tido o abraço que eu queria. A fúria toma conta de mim e eu agarro o saco de pancadas, desesperada, sentindo minha garganta arder.

Sinto uma mão em meu ombro e giro nos braços de minha irmã, deixando o choro correr livremente. Um peso sai do meu corpo. Ela nos senta no chão, passando os dedos em meu cabelo, enquanto os meus soluços ecoam por toda a parte. Não tenho mais forças pra sentir raiva por estar assim. Eu tenho me cobrado dia e noite uma força que não existe todo o tempo. Eu sou uma droga de uma humana, que sente tudo igual.

Suspiro demorado, enxugando o rosto. Frannie se afasta um pouco, me ajudando. Dou um sorriso pequeno e ela me retribui, beijando minha cabeça. Voltamos para a sala, de mãos dadas.

– Eu soube sobre o rapaz que tentou se matar. – Avisa, me fazendo estremecer. – O que aconteceu, Quinn?

– Estou cansada. – Sussurro. – Eu só quero dormir.

– Certo... – Ela franze a testa, preocupada. – Está tudo bem com Rachel?

– Sim, ela está com Santana e Brittany.

– Ok, por que ela está lá e não aqui?

– Porque eu estou cansada. – Repito, frustrada. – Quero ficar sozinha.

– Q, você precisa...

– Eu preciso ser forte. – A encaro. – Estou sendo forte, não está vendo? – Ela morde o lábio.

– Eu ia dizer que você precisa comer algo antes. – Eu desvio o olhar. – Mas, já entendi o que está acontecendo. – Suspira. – Você não quer falar, né? – Nego. – Te respeito. Coma algo, ok? Quer que eu prepare uma vitamina?

– Eu vou tomar um banho. – Suspiro. – Você me leva?

– Levo. – Sorri. – Quinn... – Eu viro para ela. – Não se cobre demais.

Abraço minha irmã com força, agradecendo por não precisar falar nada. Talvez eu só precisasse disso.

Por Rachel

Santana e Brittany preparam o jantar, enquanto eu passo alguns canais da televisão, alheia ao que realmente está passando na tela. Acordei sem Quinn na cama e ela não atendeu aos meus telefonemas, nem mesmo me retornou. Britt disse que ela já deve estar dormindo. Mas, eu conheço minha namorada, ela deixaria, no mínimo, um bilhete. Ela está chateada comigo e eu não tiro sua razão.

Encosto a cabeça no sofá. Os pais da latina avisaram que não voltarão hoje e ela me convidou para ficar a noite. Eu gostaria de ir embora, na verdade. Quero conversar com o meu pai ou dormir abraçada com minha loira.

– Rachel? – Eu me assusto. – Hey, você está bem? Faz uma hora que estamos de chamando. – A dançarina se aproxima.

– Estava pensando. – Suspiro. – O que houve?

– San já terminou de fazer a pizza. – Sorri. – Está com uma cara deliciosa.

– Eu não estou com muita fome. – Digo sincera.

– Mas, vai comer, Berry. – A latina aparece na porta da cozinha. – Venham para cá.

– Promete me levar para casa assim que comermos? – Sento a mesa.

– Prometo, prometo. – Resmunga.

– Ou para a casa de Quinn. – Sussurro.

– Melhor sua casa, ok? – Eu franzo a testa. – Foi um dia cheio, precisamos descansar.

– Ela está com muita raiva de mim? – Pergunto, quase sem voz. – Ela vai terminar comigo? – Olho para baixo, sentindo as lágrimas queimarem meus olhos outra vez.

– Ela está chateada, mas não vai terminar com você. – Santana suspira, sentando ao meu lado. – Já disse que ela não consegue ficar assim por muito tempo.

– Quero falar com ela. – Imploro com o olhar.

– Rachel... – Morde o lábio. – Você sabe por que ela está assim?

– Porque eu falei um monte de merda pra ela? – Falo, angustiada.

– Você falou um monte de merda pra mim e pra Britt também. – Lembra. – Acho que você deve pensar um pouco mais antes de ir atrás dessa conversa.

– Olha, eu sinto muito, ok? – Levanto. – Me desculpe, Brittany, eu não queria machucar ninguém. Por favor, Santana.

– Eu sei. – Cruza os braços contra o peito.

– Mas, não fala em código. – Passo a mão na testa. – Me ajude. Eu preciso dela. – Brittany me abraça e eu escondo o rosto no ombro da dançarina.

– Rach, nós não podemos resolver uma briga que é de vocês. – Fala, esfregando minhas costas.

– Pensei que nós estivéssemos bem. – Fungo.

– Ah, e você acha que pode gritar o que quiser e ficar por isso mesmo?

– Santana! – Brittany bronqueia a namorada, enquanto eu encolho em seus braços. – Rachel, não é o momento pra brigar. Eu vi como Quinn ficou no colégio, ela precisava de você. Deixa que ela fique no canto dela hoje, amanhã vocês conversam com mais calma.

– Mas, e se...

– Não tem “e se”. – Sorri. – Pode ser o primeiro, mas não será o único desentendimento no namoro de vocês. Está na hora de você ser a quem resolve.

– Está. – Concordo. – Você tem razão, Britt.

– Podemos comer? Eu estou com fome. – Santana acena. Nós rimos, concordando. – Ótimo.

Me sinto mal pelo que Brittany falou. Me sinto mal por pensar em Quinn mal e eu não ter estado pra ela. Como o pedaço pizza servido, a força. Eu realmente não estou com fome. Depois de jantarmos, Santana cumpre o prometido e me dá carona para casa. Ela estaciona na frente.

– Me desculpe pelo o que eu falei pra você. – Sussurro, sem jeito. – Eu não estava pensando.

– Eu sei, Rachel. – Sorri fraco. – É justamente por eu gostar de você, por te considerar uma amiga, que eu não vou passar a mão na sua cabeça hoje. – Eu assinto. – Descanse, ok? Se precisar de alguma coisa, por favor, me liga. Não faz besteira.

– Eu não farei. – Garanto. – Obrigada, meninas.

Meu pai abre a porta, já com os braços abertos. Eu deixo que ele me conforte por alguns minutos. Nós conversamos bastante. Leroy tem sido cada dia mais incrível comigo. Talvez nós nunca tivemos uma relação tão forte, nem mesmo antes de tudo acontecer. Ele fala sobre Karofsky e como as coisas funcionaram no tempo dele. Conheço meus avós, eles sempre foram legais com a gente, apesar de morarem longe. Já da parte de Hiram, nunca tivemos contato, não sei dizer o nome deles, pra falar a verdade.

Conversamos sobre Quinn. Meu pai me bronqueia pelo que fiz. Acho que eu mereço todas as reclamações que já recebi hoje. Mas, nenhuma me dói tanto quanto minha namorada me ignorando. Brittany está certa. Eu preciso fazer algo. Seguro meu celular, verificando novamente as ligações. Nenhuma. Suspiro, digitando uma mensagem.

Sei que nós precisamos conversar, que eu errei, que eu te machuquei. E eu sinto muito por tudo. Queria dormir com você, te abraçar forte e dizer que eu estou contigo, como tantas vezes você já fez comigo. Foi um dia desgastante, certo? Que você descanse, meu amor. Eu não vou deixar você ir pra longe por muito tempo, então aproveite essa noite, porque amanhã você volta pro meu lado.

Eu te amo demais. – Rachel.

Abraço meu travesseiro, me encolhendo na cama. Inferno de dia. Me assusto com o celular vibrando ao lado do travesseiro e o desbloqueio, depressa.

Passarei na sua casa antes de irmos para o colégio amanhã. Durma bem, Rach. Eu te amo. – Quinn.

Sorrio, me sentindo mais calma. Adormeço pelo cansaço, acordando às vezes por alguns pesadelos insistentes. Quando o despertador toca, eu pulo da cama para tomar um banho rápido. Meu pai ainda está dormindo. Fico no sofá, olhando para a porta, brincando com o meu celular e me segurando para não ligar para ela. Meu coração dispara ao ouvir a campainha.

Engulo seco, percebendo suas olheiras e expressão cansada. Dou passagem, meio sem jeito. Quinn dá um pequeno sorriso, entrando em minha casa.

– Bom dia. – Arrisco, olhando para baixo.

– Bom dia. – Devolve. – Como você está?

– Melhor. – Sussurro. – E você?

– Bem. – Eu assinto, me aproximando para beijá-la, mas a loira vira o rosto e meu beijo acerta sua bochecha. Fico paralisada no lugar. – Onde está Leroy?

– Ahn... – Limpo a garganta. – Dormindo. – Respiro fundo. – Posso te abraçar? Por favor.

– Você não precisa pedir para me abraçar, Rachel.

Eu envolvo seu corpo, apertando-a contra mim. Seu cheiro me invade rapidamente. Sinto a loira amolecer em meus braços e tiro proveito disso, nos sentando. Encosto nossas testas.

– Quinn, eu...

– Está tudo bem.

– Não. – Coloco um dedo em sua boca, calando-a. – Eu errei. Errei e não sei o que fazer pra você me perdoar. – Minha voz falha. – Lembra quando me pediu pra confiar em você? – Ela assente. – Eu preciso que você confie em mim agora. Eu quero ser uma namorada de verdade.

– Preciso que você seja minha amiga além de tudo.

– Eu prometo. – Me apresso. – Eu vou mudar. Me dê essa chance, por favor. Não termina comigo.

– Eu não vou terminar com você, Rachel. – Sussurra. – Vamos esquecer isso, ok? Já passou. – Eu beijo seu lábio, temerosa. Ela deixa. – Professor Schue pediu para nos reunirmos antes das aulas. Vá pegar suas coisas.

– Quinn. – Passo a mão no rosto. – Era para conversarmos... Direito...

– Você tem algo mais para dizer?

– Eu... Não, mas... – Suspiro. – Você não vai falar nada?

– Acho que já resolvemos isso. – Sorri de lado. – Vamos, se não iremos nos atrasar.

Eu assinto, frustrada, e subo para buscar minhas coisas.

Por Quinn

Eu tenho certeza que ela está arrependida pelo que fez, por mais que eu ainda esteja magoada, nós não precisamos estar brigadas. Vejo Leroy descer a escada e sorrio, envergonhada. O homem me dá um abraço carinhoso e me chama para cozinha, enquanto prepara um café.

– Rachel me contou tudo o que aconteceu ontem. – Eu balanço a cabeça, feliz por ela ter feito. – Fico muito triste pelo rapaz.

– Eu também. – Digo, sincera.

– E por vocês terem discutido. – Me encara. – Rach ainda não consegue se controlar. Parece que o egoísmo a cega nos momentos de raiva. – Suspira. – Mas, não te dou os problemas dela como desculpa. Pelo contrário, eu acho que Rachel sempre foi desse jeito.

– Estamos juntas. Ela precisa entender isso.

– Ela aprenderá. – Garante. – Não é um namoro como com Finn, que eles se beijavam e ensaiavam juntos e pronto. Você está ensinando muito pra ela, Quinn. Sei que às vezes te custa muito, mas ela te ama.

– Não me custa. – Corrijo. – Eu sou apaixonada por ela, Leroy. Isso não tem preço algum.

– Eu sei. – Sorri, segurando minhas mãos. – Você só precisa de um pouco mais de paciência. É confuso, novo... Além do mais, Hiram contra isso tudo. É difícil para ela, ente...

– Hiram contra tudo o que? – O interrompo.

– Papai! – Rachel repreende, entrando na cozinha. – Vamos, Q...

– Espera. – Franzo a testa. – O que está acontecendo, Rachel?

Notas finais
Ok, confiem em mim, tá? Eu precisava fazer um capítulo de consequência ao anterior. Bom final de semana pra vocês. http://ask.fm/FlorDeLins_ Até o próximo ;**