Além da superfície.
62 Regras.
Notas iniciais
Por Rachel
– Mas, eu estou de volta, Rachel. Eu sou seu pai e você precisa me respeitar.
– Papai, faz alguma coisa. – Imploro para Leroy, que está recuado, com uma mão no rosto.
– Desculpe, estrelinha, mas ele tem razão.
– Ótimo! — Eu me jogo no sofá, frustrada.
– Amor, talvez seja melhor eu ir... – Quinn segura minha mão.
– Sim, é o melhor a se fazer, Fabray. – Hiram responde por mim, fazendo minha raiva aumentar. – Vocês já ficaram juntas durante o fim de semana. – Abro a boca para contradizê-lo, mas a loira me segura.
– Rach. – Deixa um pequeno beijo em minha testa. – Tudo bem, não vamos criar problemas, certo?
– Mas, eu quero que você fique comigo. – Choramingo.
– Eu também, pequena. – Sorri triste.
– Você pode ficar, Quinn. – Eu olho para o homem, esperançosa. – Desde que fiquem com a porta aberta.
– EU NÃO SOU MAIS CRIANÇA. – Explodo.
– Rachel! – Quinn puxa meu braço. – Boa noite, senhores Berrys. Eu já estou indo. – Meus pais acenam para ela, enquanto vamos para frente de casa. – Rachel, por favor. Eu sei que é chato, mas não podemos ir contra isso. Temos que fazer certo.
– Ele voltou pra fazer da minha vida um inferno outra vez.
– Não diga isso. – Me abraça. Eu aconchego minha cabeça em seu peito. – Está tudo bem. Ele só se preocupa com você.
– Oh, eu preciso avisá-lo que eu não vou engravidar? – Ironizo, conseguindo uma gargalhada da loira. Meu corpo relaxa instantaneamente. – Era só o que me faltava termos regras agora.
– Boba. – Desliza o nariz no meu. – Será por pouco tempo. Logo estaremos longe dessa cidade.
– Hm... – Fecho os olhos. – Em nosso quarto em NY?
– Sim. – Sussurra. – Com uma cama enorme.
– Só nós duas?
– Sozinhas.
– Sem regras?
– Só as minhas. – Abro os olhos e encontro Quinn mordendo o lábio.
– Eu acho que... – Engulo seco. – Você deve ir, senão...
– Estou indo. – Sua voz sai rouca. – Te vejo amanhã.
– Amanhã. – Repito, sem tirar os olhos de sua boca. – Você me liga quando chegar?
– Claro. – Minha namorada alisa minha bochecha suavemente. – Linda.
– Fica. – Imploro.
Ela encosta nossos lábios com urgência. Eu sinto um misto de alivio e desespero. Fui apaixonada por Finn por muito tempo e em nenhum dos nossos namoros eu senti essa necessidade de tê-lo tão perto. Claro, gostava de ficar com ele, gostava de sua companhia, mas não o queria em mim direto. Não tinha carência da sua pele, do seu cheiro, do seu toque. Saber que existe isso tudo dentro de mim agora é realmente desesperador. É loucura. Nós paramos o beijo e deixamos nossas testas encostadas, respirando devagar.
– Eu te amo. – Ela solta. Um sorriso toma o meu rosto e eu preciso levantar a cabeça e encarar a sinceridade transbordando em seus olhos verdes. – O que? – Sorri, sem graça.
– O que, o que? – Levanto uma sobrancelha.
– Você me olhando assim. – Vira os olhos.
– Eu te amo de um jeito que nunca pensei que fosse amar alguém. – Admito.
– Pra quem duvidava do amor até uns dias atrás, acho que está de bom tamanho. – Brinca.
– Está além de um bom tamanho. – Ela estremece. – É mu...
– Meninas, está ficando tarde. – Eu solto um gruindo em direção a voz na sala. – É perigoso ficar ai essa hora.
– Então nos deixe subir. – Suspiro.
– Não estou impedindo, mas você sabe as regras.
– Eu quero que essas regras se...
– Rach. – Quinn ri, tapando minha boca. – Dessa vez é sério, estou indo. – Beija minha testa demoradamente. – Eu também te amo além de um bom tamanho. – Sorri grande.
– Besta. – Abraço-a. – Até amanhã.
– Até, meu amor.
Espero minha namorada entrar no carro e tranco a porta, suspirando. Leroy aparece com uma expressão culpada e Hiram cruza os braços. Meu sorriso desaparece. Vou para a cozinha, pisando forte, coloco água no copo e tomo irritada. Sinto meus pais me seguindo, mas não me viro.
– Rachel...
– Olha, se o senhor queria que começássemos bem, não funcionou.
– Eu só quero fazer certo dessa vez. – Sua voz sai um pouco embargada, mas não me atinge.
– Você tem uma visão distorcida do que é certo pra mim. – Balanço a cabeça e beijo a bochecha de Leroy. – Boa noite.
Deito na cama, procurando meu celular para esperar a ligação de Quinn. Uma nova mensagem.
Diva, o que você fará amanhã depois da aula? – Kurt.
Por Quinn
Apesar de saber que isso pode nos atrapalhar futuramente, não sinto raiva de Hiram. Leroy conversou comigo, me pediu calma. Não que ele precisasse, mas foi bom para eu saber como agir agora que Hiram voltou. Talvez ele só esteja tentando achar um jeito de suprir a atenção não dada nos anos anteriores. Fazer Rachel entender isso é que é mais difícil. Um passo de cada vez.
As aulas hoje passaram rápidas e Sue já estava grudada na porta para nos levar para fora do colégio. Eu não sabia para onde iríamos, então não tive como dizer para Rachel, que ficou um pouco chateada, mas acabou entendendo. Depois de quase duas horas dentro de um ônibus, nós descemos no que parece ser uma granja.
Brittany correu, levando Santana pelas mãos, em direção ao lugar onde estavam vários cavalos. Eu sorrio, observando as duas. A vista daqui é linda. O gramado verde e bem cuidado.
– Meu amigo me emprestou. – Sue aparece por trás de mim.
– É lindo. – Admito.
– Sim. – Sorri. – Tem o espaço e a tranquilidade perfeita para treinamos. E claro, é distante de qualquer pessoa que possa espionar nossos passos.
Eu assinto, passando os olhos em tudo. Santana e Britt estão se beijando perto do haras. Suspiro, querendo que Rachel tivesse vindo. Ela e Kurt saíram mais cedo e também não disseram para onde iriam. Sei que ela fez de propósito, por não saber onde seria o treino de hoje, mas eu confio na minha namorada. Ela não faria nada errado.
– Sozinha? – Eu me assusto. – Bonito lugar, não?
– Sim. – Resmungo, arrumando as coisas.
– O que achou da nova coreografia?
– Loucura.
– Mas, podemos fazer, você sabe.
– Eu sei. – Encaro a menina ruiva na minha frente.
– Precisa de ajuda? – Se aproxima.
– Preciso, Lena. – Aponto para as lideres espalhadas pelo campo. – Junte-as todas elas aqui no meio. Quanto mais cedo começarmos, mais cedo iremos embora.
– Sim, capitã. – Faz reverencia. Eu viro os olhos.
Nós começamos o treino com um aquecimento rodando no enorme gramado. Os primeiros saltos foram tranquilos. Depois foi ficando complicado. Como co-capitã, Santana treina comigo. Os saltos em dupla são mais difíceis. Sue berra em seu megafone, enquanto tentamos fazer o nosso melhor. Algumas meninas reclamam e recebem mais gritos. Sabemos que o melhor é aceitarmos. Em uma de nossas tentativas, San desequilibra e cai de mau jeito no chão.
– Merda. – Sussurra, segurando o punho.
– Machucou? – Me abaixo. Ela assente, fazendo uma careta. – Treinadora? – Grito.
– Resolva isso. – Sue acena.
Balanço a cabeça e ajudo a latina a se levantar. Nós sentamos em um banco distante das lideres. Ela toma um pouco de água e eu passo spray no seu punho, enfaixando-o em seguida. Quedas são completamente normais nos nossos treinos. Tenho certeza que Sue sabia que isso aconteceria, por isso nos trouxe para treinar fora da quadra, para cairmos sem nos machucarmos mais seriamente. Sigo o olhar de Santana e encontro Brittany executando um salto com perfeição. Ela sorri.
– Pelo visto, vocês estão bem outra vez. – Digo. Ela solta um suspiro, mexendo os dedos da mão.
– Sim.
– Sim? Agora não tenho mais tanta certeza.
– Estamos bem. – Me encara. – Só estou cansada de brigar. Estamos no final do ano. Falta pouco pra tudo isso acabar. – Gesticula. – Não sabemos como será ano que vem. Então... Só quero aproveitar.
– San, vocês não irão acabar.
– É o que nós queremos. – Sorri triste. – Depois de tudo, não quero criar tanta expectativa. Como ela mesma falou: Estava indo rápido demais.
– Mas, não vai pensando no pior, tá? Preciso da Santana Lopez de sempre.
– Estou aqui. – Levanta uma sobrancelha. – Vamos treinar, Fabray. Foi só uma quedinha.
– Certeza? – Sorrio. – Podemos descansar um pouco...
– Absoluta. – Me puxa de volta. – Desse jeito você vai acabar perdendo o cargo de capitã e, oh! Adivinha quem irá assumir?
– Cala a boca. – Viro os olhos.
–
Rachel e Kurt entraram no estúdio, desconfiados. Várias pessoas os cumprimentaram. Pessoas... Estranhas. Tão parecidas com eles mesmos. Os dois sorriram com o pensamento. Uma menina surge entre os demais. Seu cabelo preto realçando os olhos claros. Azuis. Bonitos. Não tão quanto os de Quinn, Rachel pontua, observando a boina vermelha da menina, que é igual a sua.
– Boa tarde, meu nome é Harmony. – Estende a mão. – Vocês devem ser...
– Rachel Berry. – Devolve o aperto, sorrindo.
– Kurt Hummel. – Cumprimenta. – É aqui que vocês ensaiam?
– Sim. – Acena. – Não é grande coisa, mas...
– É incrível. – A morena sussurra.
A ideia tinha sido de Kurt. Ele havia descoberto o grupo de cantores que estavam ensaiando dia e noite para as audições de NYADA. Quis ir lá com Blaine, mas seu namorado estava ocupado. Então, ninguém melhor do que Rachel para avaliar como são seus adversários. Ou futuros colegas de classe.
– Sentem.
– Oh, nós não...
– Acho melhor vocês sentarem. – Aconselha.
Os dois sentam, segurando o riso. As pessoas são mesmo esquisitas por aqui. De repente, todos se posicionam no palco. São tão rápidos quanto o ND. A música começa a tocar e... Os sorrisos dos amigos vão se desmanchando aos poucos. A voz inesperada de Harmony soa, surpreendendo os visitantes. Eles balançam a cabeça, tentando não se abalar. Rachel engole seco, vendo os passos se transformarem em um sapateado incrível, com diversos saltos e uma afinação impecável.
Harmony encara a morena, sem deixar de cantar. Os olhos firmes e intensos fazem a menor estremecer. A outra sorri, vitoriosa. Harmony sempre foi a líder do coral de seu colégio. Eles ganharam vários prêmios e todos estão espalhados pelo estúdio agora. Esse ano, ela decidiu não competir e se entregar aos ensaios para entrar em NYADA. Alguns de seus amigos a seguiu, mas os outros ela encontrou em bares cantantes. Todos aqui têm o mesmo sonho.
Quando eles acabam a música, Kurt e Rachel batem palmas, incertos, e correm para fora do lugar, não dando tempo de alguém os chamarem. Eles se trancam no carro e respiram com dificuldade.
– Eu... – Kurt abre a boca e fecha.
– Puta. Que. Pariu. – Deixa escapar.
Os dois amigos se olham, com lágrimas brilhando e ameaçando transbordar a qualquer segundo. Rachel encosta a cabeça no banco do carro e desvia o olhar para a rua. Tinha sido muito. Pra ambos. Aquelas pessoas estão mesmo dispostas a entrarem em NYADA, a serem profissionais na Broadway. Aquelas pessoas têm talento, criatividade e capacidade para conseguirem isso, fácil. Rachel havia perdido muito tempo. Ela deixou de ensaiar todos os dias por quase três meses. Ela não cantava. Sua voz é boa, mas não treinada o suficiente. Nova York, de repente, voltou a ser aquela realidade distante que costumava ser.
Kurt deixa um soluço escapar, tirando Rachel de seus pensamentos. A morena coloca uma mão no joelho do menino e aperta suavemente. Quando amigos, eles dividiram grandes sonhos e ideias. Lógico que ela sabia que ele estava sentindo o mesmo que ela: desesperança.
– Nós... – Engole outro soluço. – Nós passaremos, Rachel. Você vai ver. – Ela sorri fraco e impede uma lágrima de descer.
– Você é um menino muito talentoso, Kurt. – Sussurra.
– Você também! – Exclama, limpando o rosto. – Sua voz é divina. É... Surreal. Eu nunca ouvi nada mais maravilhoso. Nem mesmo essa tal de Harmony. Ela é realmente muito boa, mas você é Rachel Berry. – Diz com sinceridade.
– Obrigada. – Suspira. – Você pode me levar pra casa agora? Estou cansada.
– NÃO. – A morena se espanta. – Digo... Você está bem? Eu não posso te deixar assim. Eu prometi a Quinn que te deixaria em ordem e...
– Eu estou bem, Kurt. – Interrompe. – Não se preocupe. Só estou cansada.
– Rachel...
– Por favor, me leve embora. – Ela quase implora.
O menino vê a necessidade na voz da amiga. Ele liga o carro, contrariado. Rachel morde a boca e põe as mãos por baixo das pernas, sentindo os braços queimarem. Ela não recebeu a carta de aprovação da primeira etapa ainda. Ela não terá chance de tentar nem a audição. Claro que ela deveria ter desistido desse sonho estúpido de estudar em NY. Ela é só uma perdedora.
Quando o carro para na frente da casa da morena, ela não deixa que Kurt diga algo. Dá um beijo na sua bochecha e dispara para fora do carro. Leroy e Hiram se assustam com a filha entrando correndo, sem cumprimentar nenhum deles. Leroy levanta, seguindo-a.
– Rachel? – Bate na porta. – Rachel, estrela, abre pra mim.
– Rachel, o que eu falei sobre portas fechadas?
– Agora não, Hiram. – O marido repreende. – Meu amor, você está bem? – Silêncio. – Rachel, por favor, me responde.
– Estou bem, papai. – Sua voz sai fraca. – Eu quero dormir. Me deixem sozinha.
– Nós te deixaremos sozinha. Mas, antes deixa nós entrarmos.
– Só... Só quero você. – Sussurra.
– Seu pai também está preocupado, Rach. – Ela não responde. Hiram abaixa a cabeça e sai lentamente. – Tudo bem, estou só.
Ele escuta a porta destrancar e abre. A morena o abraça forte, deixando os soluços dominarem seu corpo. Leroy passa as mãos em suas costas, confortando-a. Os dois deitam na cama, agarrados. E Rachel adormece em seus braços, não vendo as ligações da namorada preocupada.
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