Além da superfície.
17 O amor não existe.
Notas iniciais
Por Rachel
Depois do que pareceram duas horas, nós deitamos no chão da garagem, exaustas. Um cansaço bom, na verdade. Eu sinto um grande alívio dentro de mim. Ainda não posso dizer que foi melhor que meus métodos, mas certamente foi melhor que correr. O que não é ruim também. Talvez um pouco de exercício físico não caia mal, afinal. Confesso que eu me assustei com Frannie agindo como se eu fosse uma pessoa que sempre frequentou a casa delas, mas ela parece ser uma grande pessoa. Ela e Quinn começaram a contar histórias sobre os treinos das duas, me arrancando bons sorrisos, que há tempos eu não dava.
Vê-las assim, cumplices uma da outra, é bem bonito. Só que eu não posso controlar uma parcela de inveja que toma meu peito. Solto um suspiro forte, chamando mais atenção que eu pretendia. Sinto meu rosto arder um pouco.
– Quinn, aquela nossa vitamina iria muito bem agora, certo? – A loira mais velha pergunta, sentando.
– Rachel é cheia de frescura. – Eu olho para Quinn, incrédula. Ela disse mesmo isso? – O que é? Você é mesmo.
– Não sou. – Murmuro. – Eu só tenho meus próprios costumes. – Defendo.
– Ok, Rachel, o que você come? – Frannie pergunta, rindo.
– Eu... – Limpo a garganta. – Qualquer coisa que não seja de origem animal. Eu sou vegan.– Ela franze a testa e Quinn gargalha alto.
– Auuush! – Geme, passando a mão no braço que eu acabo de bater. – Uou, você não pode mais treinar, definitivamente. – Ri.
– Você é vegan por escolha ou porque foi mesmo um costume imposto? — Sua irmã me olha, curiosa. Abro a boca, pensando um pouco.
– Segunda opção, eu acho. – Sussurro. – Mas, eu sempre tive cuidado com minha comida. – Dou os ombros.
– Frescura, você quer dizer. – Quinn provoca. Eu levanto a mão, mas a loira se senta, indo para trás da irmã. – Brincadeira. Ela comeu a torta de chocolate do Breadstix e ficou apaixonada, Fran.
– Claro! É a melhor torta do mundo. – Deus, como elas são parecidas... – Se ela comeu a torta, ela pode muito bem tomar nossa vitamina.
– Na verdade, não precisa se incomodar. – Eu sento, envergonhada.
– Não será incômodo, Rach. – Sorri.
– Se eu fosse você, não recusava, viu? – Quinn avisa. — É muito boa, mesmo.
– Nunca duvido de você, Fabray. – Brinco. Ela levanta uma sobrancelha, orgulhosa.
– Ei, não esqueça que somos duas Fabrays hoje. – Frannie aponta, nos fazendo rir.
– Estou em minoria.
– Não mais, Berry. – Ouço uma voz atrás de mim. Não preciso virar para saber quem é. – Hey, vocês, Mone me deixou entrar. Nossa, vocês parecem terríveis.
– Cala a boca, Santana. – Quinn ri, virando os olhos. – Vem cá pra eu te dá um abraço.
– Só depois de um chuveiro, Q. – A latina senta ao meu lado. – Vocês compraram?
– Eu comprei. – Frannie responde, animada. – Perfeito, não é?
– Eu prefiro meus treinos. – Santana ri. – Você bateu? – Ela olha pra mim, com as sobrancelhas arqueadas.
– Você quer um abraço? – Imito Quinn, fazendo-a ir mais pra longe.
– Enfim, eu estou morrendo de fome. – Fran levanta. – Eu vou fazer nossas vitaminas. Você quer uma, San?
– Sempre, maninha. – As duas batem as mãos e Quinn bufa.
– Já podem parar com essa cena fraternal? Eu também estou com fome. – Finge ciúmes.
– Lamento informar, mas Santana ficará comigo enquanto vocês duas tomam banho.
Eu congelo. Eu preciso urgentemente de um banho, até porque eu suei com essa blusa comprida terrível. Só Deus sabe a vontade que eu estou de levantá-la um pouco. Não posso tomar banho aqui. Não tenho roupa. O que Frannie pensará de mim se vir meus braços? Quinn coloca uma mão no meu joelho. Eu a encaro, sabendo que ela percebeu meu medo.
– Eu posso te emprestar uma roupa, Rachel. – Diz, suave.
– Mas... – Sussurro. – Quinn, eu...
– Uma de mangas, eu prometo. – Fala baixinho. Eu assinto. – Nós desceremos logo.
A loira avisa, me puxando para dentro de casa. Nós duas subimos para seu quarto. Ela abre seu guarda roupa imenso. Engulo seco. Eu não tenho nem um terço dele. Então, ela tira uma blusa longa e sorri, juntando-a com um short.
– Eu me esqueci de colocar minha roupa reserva. – Comento.
– Você não precisa mais delas, Rachel. – Quinn suspira.
– Sempre precisamos. — Ela balança a cabeça, incerta.
– Toalha, sabonete, shampoo, condicionador, tem tudo aqui. – Aponta para o armário em seu banheiro. – Você precisa de mais alguma coisa?
– Não, obrigada. – Encolho os ombros. Ela dá um sorriso de lado e me surpreende com um beijo na bochecha.
– Santana está certa. Precisamos de um chuveiro. – Quinn faz uma careta, se afastando antes que eu possa ter a chance de reagir.
Por Quinn
Antes de ir para o banheiro de Fran, eu desço as escadas correndo e entro na cozinha, vendo Santana conversar com minha irmã. As duas viram na minha direção.
– Obrigada. – Sussurro. – Ela precisava disso.
– Tudo bem. Foi uma jogada de sorte. – Frannie sorri. A latina nos olha, confusa.
– Ela sabe, San. – Aviso. Ela assente.
– Ótimo, então eu posso dizer que você foi demais voando em Mercedes hoje? – Nós rimos. – Eu queria me juntar a vocês, mas...
– Mas, você estava chateada pelo que Finn falou. – Completo. Ela balança a cabeça, soltando um suspiro. – Não tem problema.
– E se eu me juntasse, eu seria suspensa também. Basta uma por vez, certo? Não seria bom.
– É verdade. – Murmurmo. – Mamãe disse algo, Fran?
– Ela estava confusa. Fazia tempo que você não se metia em confusão. Mas, não está chateada. Eu converso com ela se você precisar, ok?
– Você é a melhor irmã do mundo. – Abraço-a por trás.
– Sim, eu posso adotá-la? – Santana brinca.
– Cale-se, Lopez. – Rio. – Então, o que você achou? Sobre Rachel...
– Ela parece distante, perdida. – Fran vira, encostando na pia. – Vocês precisam entender que ela perdeu sua identidade, seu jeito de ser. Ela precisa de ajuda para voltar, para se conhecer.
– Por que você perguntou aquilo da comida?
– Lembra o que você me contou sobre os pais dela? Que eles são desatenciosos...
– Parecem robôs. – Eu concluo, olhando para Santana. – Você precisava ver, San. É horrível. Eles acham que o Glee é super unido, que Rachel tem várias amizades, que ela continua namorando Finn.
– O fato é... – Frannie diminui o tom de voz. – Às vezes, pessoas quem não têm atenção em casa, se apegam ao máximo de detalhes para poder chamar essa atenção, ou para orgulhar. – Eu encolho. – Sabemos como é isso, certo?
– Certo. – Suspiro. – Então, a comida é algo assim?
– Não sei. Mas, pode ser que sim. Eu só perguntei por que eu sei o que está passando. Aliás, questionar as coisas é muito bom. Isso se ela se sentir a vontade para responder. Não forcem nada.
– Aw, Frannie cuidando da cunhada. – A latina fala depois de alguns segundos de silêncio. Meu rosto queima.
– SANTANA. – Bronqueio. – Cale a boca.
– Bem, eu adoraria ajuda-la. – Fran ri. – Mas, por enquanto, fica por conta de vocês, ok?
– Ok. – Sussurro. – Eu vou tomar banho.
Subo outra vez, pensando no que Frannie falou. Deus, eu ainda não consigo acreditar que Rachel está assim. De todas as pessoas, ela era a que mais tinha personalidade. Tinha muita até, que nos irritava. Lavo o cabelo, respirando fundo. Ao menos se cortando ela não está mais. O que é bom, certo? É um avanço. Deixo todo o cansaço do dia ir junto com a água. Coloco uma roupa leve e desço. Rachel já está com elas, encostada em Santana. Quando eu entro em seu campo de visão, a morena dá um sorriso tímido que enche meu coração. Eu devolvo, chegando perto.
– Seu lábio está inchado, Fabray. – Santana zomba. Eu viro os olhos.
– Aquela idiota. – Cuspo. – Tenho certeza que o estrago foi maior nela. – Nós rimos. – Tudo bem? – Sussurro para a pequena.
– Sim. Suas roupas são confortáveis. – Ela levanta os braços, mostrando a blusa grande nela. Eu rio.
– Certo, estávamos esperando você chegar. Todas temos que presenciar o primeiro gole de Rachel na vitamina Fabray.
– O que tem aí dentro? – A morena pergunta baixo. Nós gargalhamos.
– Você confia na gente? Eu posso te garantir que é muito saudável. – Fran diz suave, acalmando-a. Rachel assente. – Pode tomar.
– Quanta pressão. – Ela ri, com todos os olhares para ela. Então, vira um pouco o copo na boca. Eu sorrio para a marca que ficou seus lábios. – Delicioso. – Nós pulamos da cadeira, comemorando.
– Não liga para essas duas, elas são idiotas. – Ouço Santana falar.
– Acabamos de viciar mais alguém na nossa vitamina. Você e Brittany adoram. – Fran bate no ombro da latina, que concorda. – Se você quiser mais, pode colocar, Rach. – Sorri.
– Obrigada. – Diz, tomando o seu copo.
– Vou deixar vocês sozinhas agora. Preciso ler uns trabalhos. – Fran deixa seu copo na pia. – Qualquer coisa, estou no meu quarto. – Ela pisca para mim e sobe.
Nós ficamos conversando um pouco. Rachel repetiu o copo, como eu e Santana. Depois nós fomos para o meu quarto. A latina senta na minha cadeira, com as pernas na cama. Eu deito, encostando na parede e Rachel deita ao meu lado. Seu cabelo está com o cheiro de meu shampoo.
– Santana, eu posso te fazer uma pergunta? – Sussurra. San levanta uma sobrancelha para a morena.
– Só se você parar de perguntar se pode perguntar. Apenas pergunte, Berry.
– Oh, ok. – Assente. – Você e Brittany estão juntas de novo?
– Não tecnicamente. – Suspira. – Brittany não vai deixar de ficar comigo por causa de Artie.
– Mas, isso é traição. – A morena franze a testa.
– Ela não sabe. Bem, eu falei que não era e ela acreditou. – Dá os ombros.
– Britt não é boba. Ela sabe o que faz. – Realço.
– Não entendo. – Murmura Rachel. – Vocês se gostam, querem ficar juntas, por que não ficam logo?
– É complicado. – Vejo os ombros de Santana descerem. Ela passa a mão no rosto. – Ela precisa de alguém que possa estar ao lado dela.
– Você pode estar ao lado dela. Você a ama, ou não?
– Amo. – Sorri de lado. – Amo tanto, Rachel, que você não faz ideia. Nós já conversamos sobre isso. – Sussurra.
– Eu não sei se eu acredito mais no amor. – A morena se encolhe. Eu troco um olhar assustado com Santana.
– O que? Por que?
– Porque eu achei que amava o Finn, no entanto me sinto vazia. Ele também não me ama, como eu achei que ele amasse. Meus pais não me amam.
– Não diga isso. – Repreendo. – Seus pais te amam sim.
– Claro. – Ri sarcástica. – Eles podem amar um ao outro.
– Então, você acredita no amor. – Santana fala.
– Não acredito no amor para mim. – Explica. – É impossível.
– Não é. – Digo firme. – Você é linda, simpática, talentosa, qualquer pessoa ficaria louca pra estar com você.
– Eu não fico porque já tenho Britt. – Santana sorri, mas a morena continua quieta. Eu suspiro.
– Eu sei que você não acredita no que estamos dizendo, mas você vai voltar a acreditar. – Ela assente devagar. Levanto seu queixo, para que ela me olhe nos olhos. – O amor existe, até pra você.
– Agora você tem amigas. – A latina diz. Eu sorrio. – Existe amor entre nós.
– Você me ama, Santana? – Rachel ri.
– Claro, Berry. Você não me ama? – A pequena morde o lábio. – Ok, você não acredita no amor. – Vira os olhos.
– Eu também te amo, Rach. – Sussurro. Ela me encara, fazendo minha pele arrepiar.
– Eu... Eu... Não consigo acreditar. – Abaixa o olhar novamente. Eu deito, sentindo um peso no peito. – Eu sinto muito.
– Tudo bem, nós fizemos isso. – Santana fala. – Você acredita que nós gostamos de você, pelo menos, né?
– Acredito. – Balança a cabeça rápido, fazendo meu sorriso voltar.
– Ótimo. Já é algo. – A latina ri, levantando. – Eu tenho que ir. Vejo vocês amanhã.
– Eu vou também. – A morena sussurra, levantando.
– Não. – Seguro seu braço. – Fique um pouco mais. – Peço.
– Quinn, eu... – Ela olha o relógio e suspira. – Tudo bem. – Sorri de lado.
Nós deixamos Santana na porta e voltamos para a cama. Eu sento em frente a ela, respirando fundo.
– Eu entrei no boxe porque foi uma maneira que encontrei de fugir daqui. – Começo. Ela me encara, confusa. – Eu odiava ter que fingir que estava em uma família feliz, onde ninguém se conhecia. – Rio irônica. – Eu e Fran não tínhamos a amizade que temos hoje, mas sentíamos as mesmas coisas. Então, resolvemos ter essa fuga, que liberava nossas raivas, nossas frustrações. Eu também duvidei do amor. – Suspiro. – Eu ouvia Russel falar coisas horríveis para minha mãe. Que merda de amor era esse? Meu pai não me ama, mas ele também não amou a minha mãe, entende? Eu nunca tive essa referencia. – Limpo uma lágrima teimosa. – Daí tudo aconteceu. Beth aconteceu. Eu senti o maior amor que eu poderia sentir. Senti o amor de minhas amigas, voltei a sentir e a conhecer o amor de minha mãe e o da minha irmã. – Sorrio de lado.
– Eu sinto muito. – Sussurra.
– Tudo bem. – Seguro suas mãos. – Agora estou conhecendo o amor de verdade. Você também o fará. Voltará a sentir todos eles.
– Você está amando alguém? – Pergunta curiosa. Sinto meu peito congelar. Oh, meu Deus.
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