Além da superfície.
32 Não decepcione.
Notas iniciais
O fim de tarde já está chegando. Santana olha o relógio e choraminga, sem querer sair dos braços da namorada. A latina vira o rosto para o lado e sorri ao encontrar Rachel e Quinn deitadas, com os rostos próximos. Ela não tinha certeza se estavam se beijando, mas já era o suficiente. Brittany acompanha seu olhar e imita seu sorriso, levantando. Santana limpa a garganta para chamar a atenção das duas. Rachel se afasta, com o rosto levemente corado e sem coragem para encarar as meninas em pé.
– Já está ficando tarde. – Brittany explica ao ver a testa franzida de Quinn. – Professor Schue já deve estar a nossa procura.
Dito isso, a morena levanta em um pulo, assustando as três. Ela limpa sua roupa, tirando a areia. Quinn faz o mesmo, confusa com sua reação. Santana segura a mão de Brittany e segue na frente, dando privacidade ao outro casal.
– O que houve? – A loira sussurra.
– Perdemos a hora.
– Tudo bem. – Sorri doce. – Eles não iam nos deixar, sabe? – Brinca, mas não consegue um sorriso.
Quinn queria perguntar algo mais, mas Rachel apressa os passos, indo para longe. Santana troca um olhar curioso com a amiga, que abaixa a cabeça e caminha olhando para os pés até chegarem no grupo do Glee. Finn pergunta a Rachel onde ela esteve e recebe um leve inclinar de ombros como resposta. Depois de garantir que todos estavam lá, professor Schue os chama para dentro do ônibus. Antes que peçam para que ela sente junto, a morena quase corre para o banco de trás, ignorando todos os olhares.
Por Rachel
Por Deus, o que eu estou fazendo? Perdi completamente a noção. Encosto a cabeça na janela, me bronqueando. Eu não posso me deixar levar. Só vou me machucar e machuca-la. Faço a contagem que Santana me ensinou, tentando me acalmar. Meus braços coçam como o inferno. Fecho os olhos, querendo forçar um sono inexistente. Alguém senta ao meu lado, mas eu não me movo.
– Eu sei que você não está dormindo. – A voz de Santana sentencia. – O que você está fazendo aqui?
– Tentando dormir, mas você não deixa. – Resmungo.
– E por que não está com Quinn ao invés do Puck estar lá? – Eu abro os olhos, procurando-os. A latina ri. – Perdeu o sono? – Ironiza.
– O que você quer, Santana? – Suspiro.
– Saber por que você está aqui.
– Porque eu estou cansada.
– Cansada? Mas, estávamos deitadas até agora. – Diz, incrédula. – Ou Quinn te cansou mui...
– Shhhh... – Repreendo. – Fale baixo.
– O que é isso? – Franze a testa. – Você está com vergonha?
– Ah, Santana, eu não sou você, ok? – Cuspo. Ela abre a boca, surpresa. Sinto meu coração afundar quando ela assente. – Desculpe, eu não...
– Já entendi. – Interrompe. – Você virou o humor outra vez e está na fase de atacar todo mundo. Ok, melhor você ficar sozinha um pouco.
– Não, por favor. – Seguro seu punho, parando-a. – Fique. – Ela senta outra vez e eu esfrego os olhos com a mão. – Eu só... Estou confusa.
– Sobre Quinn?
– Sobre tudo. – Respiro fundo.
– Olha, Rachel... – Santana vira na direção da loira e, ao vê-la com o olhar distante, decide continuar. – Quinn gosta de você. – Mordo o lábio, mexendo meus dedos. – Se você acredita ou não, eu entendo. Mas, eu não vou deixar que você brinque com isso.
– Eu não estou brincando. – Me defendo. – Não estou brincando e também não estou com vergonha. – Minha voz é firme. – Eu fico com Quinn porque me dá vontade, me dá segurança. Eu gosto, ela é... Incrível. – Suspiro. A latina dá um pequeno sorriso. – É incrível e eu tenho... Medo... – Faço uma careta com meu pensamento. – Tenho medo de perdê-la. Tenho medo do que isso pode se tornar. Tenho medo do que eu posso sentir. Tenho medo de decepcionar, de não ser o bastante. – Sento de lado, virando para ela. – Olha para mim, Santana. Sou eu, ManHands, Hobbit, a anã... – Ela abre a boca, mas eu não deixo ela me interromper. – Brincadeiras idiotas e de mau gosto que ficaram para trás, eu sei! Eu sei. O que eu faço para tirá-las da minha cabeça? Pra esquecer? Pra achar que ninguém pensa isso mesmo de mim? Que todas aquelas pessoas me olhando torto e me xingando, na verdade, pensam diferente? O que...
– Pare. – Eu me assusto com suas mãos prendendo as minhas. – Pare, você está se machucando. – Olho para os meus braços, irritados.
– Eu não... – Franzo a testa. – Eu não percebi. Eu...
– Tudo bem. Você está nervosa. – Alisa minha mão, delicada. Eu respiro fundo. – Rachel, eu não faço ideia de como seja difícil para você. Mas, você precisa se acalmar. Acabou, ok? Estamos aqui, você não está mais sozinha. Não deixaremos nada te acontecer. Quinn muito menos. Eu conheço minha amiga, sei quando ela gosta de alguém de verdade. E posso te garantir que, nem mesmo por Puck ela ficou desse jeito. – Automaticamente, meus olhos procuram pelos dois. A loira está dormindo no ombro dele. – São amigos.
– Eu não...
– Sim, você sim. – Levanta uma sobrancelha. – Você está com ciúmes.
– Não seja idiota. – Rio, irônica.
– Eu que te peço isso, Rachel. – Fala séria. — Não seja idiota. Você pode estar passando por coisas muito difíceis, mas nada te dará o direito de passar pelos sentimentos dos outros.
– Eu não quero fazer isso, Santana. – Cuspo, irritada.
– Eu também não queria machucar Britt quando preferia esconder nosso namoro. Não queria machuca-la quando tentava convence-la, e me convencer, que Artie seria alguém melhor para ela, que eu não era o suficiente. – Suspira. – A gente sempre acha que não vai ser o bastante para a pessoa que gostamos, porque para nós, ela vai ser melhor que todo o mundo.
– E você diz isso para uma pessoa que tem problemas com autoestima. – Brinco. Nós rimos fraco.
– Você vai ficar bem, Rach. – Aperta minha mão. – Vai se cuidar, vai ser cuidada. – Sorri. – Só não vai ser idiota, como eu fui. Às vezes, fazemos coisas sem percebermos.
– Você acha que... – Limpo a garganta. – Que ela está chateada comigo?
– Não... – Vira os olhos. – Q não consegue ficar chateada com você. – Empurra meu ombro. – Talvez magoada.
– Deus! – Choramingo. – Eu...
– Veja. – Acena com a cabeça na direção da loira. Brittany toma o lugar de Puck. – Minha mulher já está falando com ela. – Diz, orgulhosa.
– O que ela vai falar?
– Não importa. – Dá os ombros, sorrindo. – Descanse um pouco. Posso soltar suas mãos?
– Pode. – Respondo, constrangida.
– Se eu pegar você se arranhando outra vez, corto todas as suas unhas sem piedade. – Avisa.
– Eu não farei. – Me encolho, deitando em seu ombro. – Vai me deixar dormir?
– Se você conseguir calar a boca...
Sorrio, fechando os olhos. Agora, com sono de verdade.
Por Quinn
– Eu entendo sabe, Britt? Ela está confusa. – Suspiro. – Mas, não deixa de... – Engulo seco, olhando para as mãos.
– De doer. – Completa. Eu assinto, sentindo meus olhos arderem. – Infelizmente, não tem muito o que fazer, a não ser confiar nela.
– Nem ela confia nela, B. – Encosto a cabeça no banco. – Estávamos bem na praia. De repente, ela me ignora. – Franzo a testa. – Não consigo entender.
– Eu vi o seu bem. – Provoca. Eu rio, negando, sei que ela quer me distrair e agradeço isso. – Pareciam namoradas.
– Não foi pra tanto. – Sorrio.
– É verdade. Eu e S também tínhamos nossas aventuras da época de solteiras. – Brinca, buscando o olhar da latina, que sorri, como se soubesse o que ela está falando. – E também tivemos nossos tempos difíceis.
– Fico feliz que vocês estejam bem agora.
– Eu também. – Me encara, suspirando. – Eu sei que nosso relacionamento não é o melhor exemplo, mas... – Inclina a cabeça, pensando. – Existiam dúvidas e medos também, que foram superados. Digo, estão sendo ainda, aos poucos.
– Você acha que isso pode dar certo? Seja sincera, Britt.
– Claro que sim. Depois do que eu vi hoje, tenho certeza.
– Como assim? – Pergunto, um pouco constrangida.
– Rachel já está entregue a você. – Arqueia as sobrancelhas. – Mas, por algum motivo, não quer e nem vai admitir isso agora. Posso te pedir algo?
– Claro...
– Não desista dela.
Eu assinto, voltando o olhar para os carros ultrapassando nosso ônibus. Sorrio, me lembrando da tarde. Parecia ser tudo um sonho, tudo tão perfeito. Eu gostaria de ter ficado mais lá, talvez o resto da vida. Suspiro pesado, vendo o tempo passar.
– Posso sentar com minha namorada, Fabray? – Alguém me tira do transe. Olho para o banco de trás. Rachel está dormindo sozinha agora. Santana levanta a sobrancelha. – Está demorando...
Entendo seu recado e levanto, caminhando para o lado da morena. Ela se remexe, sonolenta e abre os olhos devagar. Puxo-a para meus braços. Rachel se encaixa, deitando em meu peito.
– Eu sinto muito. Eu...
– Shhhh... – Mexo em seu cabelo. – Durma, minha pequena.
Sinto sua respiração tranquila e fecho os olhos, encostando nossas cabeças. Baixinho, eu começo a cantar Smile de Charles Chaplin, para que só ela me escute. Sua mão segura meu braço, enquanto seus dedos fazem círculos na minha pele. Aperto-a, sentindo seu cheiro.
– Obrigada. – Sussurra, quando eu termino a música.
Ao abrir os olhos novamente, percebo que já estamos chegando em Lima. Quanto tempo eu dormi? Sorrio ao ver Rachel, ainda dormindo, em meu colo. Tento me espreguiçar sem acorda-la. Puck e Sam fazem piada de algo, arrancando risada de todos. Santana se mete, aumento ainda mais os risos. Sorrio. Latina besta... Tina prende o olhar no meu e eu aceno, chamando-a para perto.
– Tudo bem? – Pergunta, tímida.
– Sim, só estamos cansadas. – Me mexo um pouco e Rachel resmunga, puxando minha blusa. Tina ri. – Parabéns pela apresentação. Você cantou muito bem.
– Ah, Quinn... – Sorri, corada. – Você também cantou muito. Parabéns para todos, ok? – Eu assinto, concordando. – Só fico triste por Mercedes, sabe? Eu gostaria que ela estivesse aqui, apesar de tudo.
– Eu não posso dizer o mesmo. – Murmuro.
– Imaginei. – Ri, sem graça. – No fundo, é só um jeito que ela tem de se defender.
– Jogando tudo nos outros? – Bufo.
– Isso não te soa familiar? – Eu engulo seco, desviando o olhar. – Às vezes, ela só precisa de alguém que entenda.
– Você tem um coração muito bom, Tina. – Sorrio de lado. – Mercedes brincou com coisas que... – Solto o ar. – Que não deveria.
– Você gosta mesmo de Rachel, não é? – Paraliso.
– Eu... Ahn... – Limpo a garganta. – Claro. Eu... Faria isso por qualquer um.
– Eu acredito. – Morde o lábio inferior. – Principalmente por Rachel.
– Por que você está dizendo isso? – Pergunto nervosa. Será que ela viu algo?
– Não sei. Só vejo que é especial. – Diz, doce. – Você cuida dela como Santana cuida de Britt, como Mike cuida de mim. – Oh, meu Deus.
– Tina, eu...
– Não precisa dizer nada, Quinn. Está tudo bem. – Aperta meu joelho, compreensiva. – Só quero que saiba que eu estou aqui para qualquer coisa que precisarem.
– Muito obrigada, Tina. – Sorrio, sincera. – E, ah... Por favor, não comente isso com ninguém. É...
– Não comentarei. Foi apenas um pensamento alto. – Pisca um olho, levantando. – Que eu aprovo, por sinal. – Ri, indo para frente.
Tento fechar a boca, ainda em choque. O que diabos foi isso? Está tão na cara assim? Rachel geme baixo, trocando de posição. Seus olhos encontram os meus e ela abre um sorriso genuíno, aquecendo meu coração. Beijo sua testa, ajudando-a a sentar.
– Chegamos? – Pergunta, rouca.
– Sim, estamos perto do colégio. – Aponto para a rua.
– Nossa, eu dormi isso tudo? – Se espreguiça.
– Dormiu, preguiça. – Ela vira os olhos. – Rachel, eu... Eu vou dormir em casa hoje, tudo bem?
– Oh... Sim... – Sorri falso. – Você... Você está com raiva de mim? – Sua voz falha no final.
– Não estou, eu...
– Está magoada? – Me interrompe, com uma expressão preocupada. Eu sorrio, tranquilizando-a. Tiro uma mecha do seu cabelo de seu rosto, puxando-a para detrás da orelha.
– Você precisa ficar sozinha um pouco. – Suspiro. – E eu também. Tem muita coisa acontecendo, certo? – Ela assente. – Quero que você tenha seu espaço. Olha, eu faço isso porque confio em você. Sei que não vai fazer nada demais. Eu posso confiar, não é? – Ela abaixa a cabeça. – Rachel...
– Pode, Quinn.
– Se você precisar de mim, eu juro que eu corro para sua casa, o mais rápido possível. – A morena sorri. – E eu sei também que seus pais vão querer falar com você. Eu já estive ontem, acho melhor vocês terem um tempo em família.
– Duvido muito. – Bufa, balançando a cabeça.
– Não faça isso. – Repreendo. – Esteja disposta para essa conversa, por favor. – Encolhe os ombros. – Seja sincera com eles.
– Eu vou tentar, Q. – Sussurra. – Seja sincera comigo também. – Suplica. – É só por isso mesmo?
– Estou sendo. – Garanto. – Fiquei chateada sim, mas eu já entendi, ok? Tanto que vou te dar esse espaço.
– Não se afasta de mim. – Choraminga.
– Não estou me afastando, Rach. Só não vou dormir contigo. Eu quero te ajudar, mas não quero que você fique dependente de mim. – Explico. – Quero que você tente sozinha também.
– Eu não consigo. – Vira o rosto, limpando uma lágrima.
– Ei... – Seguro seu rosto, fazendo-a me encarar. – Você consegue. É lógico que consegue.
– Eu não...
– São seus pais, lembra? São os mesmo ainda.
– Os que não se importam comigo? – Cospe.
– Os que te amam, Rachel. – Ela nega. – Pensa neles como antigamente e se abra.
– Impossível. – Eu respiro fundo. – Está tudo bem, não importa.
– Rach...
– Não importa, Quinn.
– Importa. – Falo um pouco alto, conseguindo a atenção de alguns. Fico calada, confrontando-a com o olhar até que virem novamente. – Importa. – Falo mais baixo. – Importa, porque eu te amo e não quero que nada de mal te aconteça. – Suspiro. – Confie em mim, como eu confio em você. Por favor.
– Eu confio. – Segura minha mão em seu rosto. – Eu confio.
Por Rachel
Despeço-me de todos no colégio. Quinn me abraça forte antes de ir embora. Eu não posso decepciona-la. Respiro fundo, entrando no carro. Dirijo devagar, adiando um pouco mais chegar em casa. É diferente agora. Eles sabem o que está acontecendo. Estaciono na garagem, criando coragem. Me olho no retrovisor e sorrio ao ver a marca no meu pescoço. Tiro a maquiagem da bolsa e passo, cobrindo-a. Não posso decepcionar. Não posso.
– Rachel, precisamos conversar.
Escuto, assim que coloco o pé em casa. Assinto. Eu não posso decepcionar.
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