Além da superfície.
25 Mau pressentimento.
Notas iniciais
Por Rachel
Já tem uma hora que Brittany foi atrás de Santana, ontem a dançarina não a encontrou, depois do ensaio. Deito no chão da auditório, esperando que o treino das Cheerios comece. Quinn senta em uma cadeira do platéia, com as pernas viradas para outra. Nós não falamos nada, mas o silêncio é totalmente agradável. Eu sei que ela está preocupada com as meninas, os dedos inquietos dela são a prova disso. A loira percebe que estou olhando para ela e vira, me encarando. Sorrio sem graça, recebendo um sorriso de lado dela. Eu não sei o que é ter amigos. Passei a minha vida toda tendo pessoas com interesse em algo, que convivam comigo por obrigação. Sempre quis saber como era conversar sem medo, ter alguém para abraçar quando estivesse mal, ou só para dar risada. Finn é uma pessoa muito importante para mim. Talvez ele tenha sido o único que me proporcionou bons e verdadeiros sentimentos. Eu o amo. Não do jeito que eu achei que amasse, mas ainda é amor.
Eu sei que ele também gosta de mim. Infelizmente, tem uma cabeça movida pela gana de ser popular e respeitado no colégio. Não o julgo. Só quem sabe o que acontece quando não se é assim pode dizer alguma coisa. É terrível. É assustador. Suspiro, com os olhos esverdeados com um tom de confusão em mim. As meninas estão do meu lado agora. Elas são minhas amigas. Estremeço. Apenas amigas. Quinn é somente minha amiga. O que eu sinto é isso: amizade. Por isso minha cabeça é uma grande loucura. Eu não conhecia, não fazia ideia de como era ter alguém próximo. Por isso eu quero tê-la sempre por perto. Porque ela me dá segurança. Certo? Vejo a loira abrir a boca, tentando falar, mas é interrompida. Santana e Brittany entram de mãos dadas. Eu sorrio para a cena, vendo Quinn pular nas duas.
– Estamos juntas. – A latina anuncia. – Você não vai nos abraçar também, Berry?
– Desculpe. – Murmuro, levantando. – Que bom que vocês se entenderam. – Abraço-as, sem jeito.
– Vocês merecem. – Quinn vibra. – Como vai ser?
– Eu vou contar a todos lá em casa primeiro. – San fala um pouco tensa. Britt põe uma mão em seu ombro, dando força. A latina respira fundo, antes de continuar. – Se tudo ocorrer bem...
– Vai ocorrer bem. – A dançarina corrige. Santana assente, mordendo os lábios.
– Amanhã já chegaremos como namoradas. – Sorri grande.
– E quanto a Artie? – Pergunto baixo.
– Nós terminamos, Rach. – Brittany explica. – Ele é uma boa pessoa, mas não tinha muita paciência comigo. – Um traço de decepção cruza o rosto da loira mais alta, fazendo meu coração apertar. – Você sabe... É meio complicado conviver comigo, meus pensamentos...
– Seus pensamentos são incríveis e você também. – Santana interrompe, puxando Brittany para perto. – Você é a pessoa mais linda que eu conheço. Sua imaginação, sua inocência, tudo isso faz você ser especial. Não é preciso ter paciência, mas consciência. Eu me sinto importante por ter você comigo.
Abro a boca, surpresa pela demonstração de afeto de Santana Lopez. A latina cora ao lembrar que ainda estamos aqui. Ouço uma risada baixa de Quinn e um suspiro apaixonado de Brittany.
– Por isso que eu tenho que ficar com você. – A dançarina sussurra, fazendo um sorriso bobo tomar conta do rosto da namorada.
– Eu concordo com San, Britt. Você é muito especial. E eu quero que vocês sejam felizes juntas. – Quinn entrelaça os braços entre elas.
– Falta sua parte. – Santana fala baixo, enquanto Quinn arregala os olhos. Levanto a sobrancelha, desconfiada. – Oh, ela disse que ia lutar pela pessoa que ela gosta também. – Explica.
– Santana. – Bronqueia. Eu sorrio sem graça.
– Espero que ela também consiga. – Murmuro. Eu realmente espero, mesmo que eu sinta essa coisa puxando meu coração ao admitir isso.
– Ela vai conseguir. É Quinn Fabray. Quem não cairia aos pés dela? – Eu engulo seco, assentindo para a latina.
– Para, San. – A loira pede, constrangida. Percebo seu desconforto e desvio o olhar. O toque soa pelo o auditório. – Ahn... Nossa hora, vamos?
Eu seguro os cadernos contra meu peito, fazendo o caminho de sempre, para a quadra. Enquanto as meninas treinam, eu adianto alguns exercícios. Costumava fazer isso na biblioteca, mas a arquibancada é um lugar que eu realmente gosto e agora as pessoas me tratam como se eu não existisse. Bom, é melhor que ter os xingamentos com raspadinhas. E, aqui, eu posso vê-las. É incrível como as três saltam, o equilíbrio que elas têm. Mas, o que mais me fascina, é ver a confiança que existe entre elas. Quem faria esses movimentos se não confiasse na pessoa que vai segurar?
Abro o livro mecanicamente. Não consigo me concentrar. Já se passou meia hora de treino e nenhuma Cheerio demonstra cansaço. Estava tão vidrada no circulo comandado pela Sue, que nem percebi alguém sentar ao meu lado.
– Você deveria entrar para a equipe. Aposto que já sabe todos os passos decorados. – Escuto. Viro os olhos.
– Já não basta eu estragar o Glee? – Digo sarcástica.
– Sério, Rachel? – Santana bufa. – Pensei que você tinha parado com isso. – Eu encolho os ombros. – O que foi?
– Nada. – Suspiro. – É tão lindo ver vocês treinarem. – Sorrio boba.
– Uh, você está olhando para o treino ou para as pernas das meninas? – Ri, eu a encaro, incrédula. – Brincadeira. – Empurra meu ombro. – Eu sei que é só para a de Quinn. E olha, são de tirar o fôlego.
– Santana, eu não estou olhando para pernas. – Resmungo envergonhada, enquanto ela gargalha. – Não sou como você.
– Não é mesmo, eu admitiria. – Balança a cabeça. – Berry, nos aproximamos tem só um mês e meio, mas eu te conheço o suficiente para notar que você está estranha. – Eu desvio o olha para o chão da quadra.
– Eu sinto muito. Eu... – Suspiro. – Eu sei que você está feliz por Brittany e tudo mais. Digo, eu também estou feliz por vocês e...
– Seja direta, por favor. – Me corta.
– Estou com um mau pressentimento. – Confesso, baixando a cabeça.
– Como assim? – Franze a testa.
– Não sei explicar. Só... Sinto algo... Ruim. – Esfrego a mão no peito. – Aqui.
– Oh, Deus. – A latina fica tensa, me puxando para perto. – Você...
– Não. – Respondo prevendo a pergunta. – Mas, eu estou com vontade. – Sussurro.
– Rachel...
– Olha, eu não vou fazer, ok? – Me afasto. – É só nervosismo por causa do final de semana.
– Por causa das Seccionais? Nós não perdemos seccionais, Rachel. Não somos tão ruins. – Zomba, rindo. Eu continuo séria. – Nós ensaiamos bem para isso.
– Como nas nacionais. – Falo para mim, mas ela escuta.
– Vou ficar encarregada de manter o Finn longe de você. – Eu fecho os olhos. – Ah, Rach... Pare. Não podemos ter você assim. Precisamos de sua auto estima, precisamos da nossa líder.
– Eu não sou mais a líder.
– Sim, por isso precisamos de você. – Esfrega o rosto. – Você é a alma do clube.
– Santana, não fale isso, está piorando. – Murmuro angustiada.
– Desculpe. – Ela cruza os braços, chateada.
– Eu não posso cuidar de um clube quando eu não consigo cuidar nem de mim. – Sinto um nó se formar na minha garganta.
– Somos um grupo. Nós nos ajudaremos. – Segura minha mão. – Nos cuidaremos.
– Não somos assim, Santana. Você sabe disso. – Cuspo. – Eles estão ali por eles mesmos.
– Eu gostava quando você conseguia acolher a todos.
– Pra eles me pisarem e me apunhalarem? Pra eles me usarem para conseguirem boas notas e roubarem meus solos? – Falo com raiva. – Estou cheia dessa merda.
– Está soando como a Rachel de um mês atrás. – Arqueia a sobrancelhas. – Onde foi que nós regredimos?
– Eu não regredi. – Levanto as pernas, prendendo-as. Eu afundo a cabeça no joelho. – Só não progredi.
– Deus. – Ela parece desesperada agora. – Olhe para mim. – Nego. – Berry. – Obedeço. – O que você está falando é muito sério. Você não consegue ver nenhuma mudança?
– Consigo. – Ela suspira. – Me perdoe. Eu não deveria ter falado isso. Estou realmente nervosa.
– O Glee não tem as melhores pessoas, os melhores amigos. Mas, nós estamos crescendo juntos. Sinto vontade de soca-los a maior parte do tempo. – Sorri de lado. – Quando cantamos, as diferenças vão embora. É clichê, mas o professor Schue tem razão quando fala isso. Somos um grupo forte, temos você.
– E você. – Sorrio. Ela assente. – E Britt.
– E Quinn. – Completa. Eu mordo o lábio, procurando-a pela quadra. Meu coração dispara quando a vejo se alongando. – E todo o resto. – Continuo olhando para a loira. – As pernas de Quinn também.
– Ah, cale a boca.
Coro, colocando o cabelo na frente do rosto, ouvindo a risada estridente de Santana. Eu queria rir junto, mas há algo me incomodando. Respiro fundo, sorrindo falso. A latina me abraça. Encosto a cabeça em seu ombro, tentando relaxar. Quinn vira para nós, acenando. E um conforto imediato invade o meu peito, me permitindo respirar.
Por Quinn
Rachel dormiu mal essa noite. Teve vários pesadelos e tremeu muito. Talvez seja a falta dos cortes que estejam causando esses efeitos. Fran avisou que ela poderia ficar assim. O psicológico dela está reagindo. Me sinto mal por não saber como ajudar. Minha irmã saberia. Nos arrumamos, em silêncio. Suas olheiras são evidentes. Ao chegamos ao colégio, vejo Britt correr em direção ao carro. Rachel se posiciona atrás de mim, assustada. Olho para a dançarina, confusa.
– O que está acontecendo? – Pergunto.
– Eles sabem. – Sussurra. – Eles sabem que Santana e eu estamos namorando.
– E daí? – Franzo a testa, irritada. – Eles não podem fazer nada com a gente.
– Quinn, eles estão tirando brincadeiras chatas. – Murmura nervosa.
– Onde está Santana?
– Escondida em algum lugar.
– Vamos encontra-la. – Seguro a mão de Rachel, puxando-a, mas ela não se mexe. – Rachel?
– Eu não quero entrar.
– Por quê? – Suavizo o tom. – Ei, está tudo bem.
– Isso não tem nada a ver com você, Rach. – Britt se aproxima.
– Eu não quero entrar. – Repete, angustiada.
– Não vou deixar que algo te aconteça. – Aliso seu rosto. – Precisamos ir, hoje é quinta e nós precisamos ensaiar para o sábado.
Puxo-a outra vez, agora sendo bem sucedida. Dou um olhar tranquilizador para ela, que não adianta muito, já que ela está com os olhos fixos e assustados no chão. Quando entramos, vários sussurros começam a soar. A morena estremece em meus braços, enquanto eu tento fazer minha melhor cara de líder de torcida, indiferente a eles. No fundo, estou morrendo de medo.
– Como Quinn anda com essa menina? Que mal gosto. – Ouço alguém. Viro na direção, fuzilando a pessoa.
– Ouvi dizer que elas se pegam no banheiro. – Apresso o passo.
– Eu sempre soube.
– CALEM A MALDITA BOCA DE VOCÊS, IDIOTAS. – Estouro. – VOCÊS QUEREM O QUE? RASPADINHAS TODA SEMANA? QUEREM ALGUNS MURROS? QUEREM A VIDA SOCIAL DE VOCÊS ACABADAS DURANTE O COLÉGIO? EU POSSO ARRUMAR TUDO, É SÓ PEDIREM. — Todos se calam, virando para as salas. Eu respiro fundo, segurando Rachel. – Tudo bem?
– Você me assusta. – Sussurra, afundando meu coração.
– Oh, meu Deus, me perdoe. – Aperto-a. – Eu não quis te assustar, eu só queria que eles ficassem quietos.
– Eu sei. – Esconde a cabeça em meu peito. – Eu costumava sair correndo quando ouvia seus gritos.
– Rachel. – Fecho os olhos, sentindo o cheiro de seu cabelo. Não quero mais desculpas. Sempre acabamos nessa conversa. – Vamos atrás de Santana, ok?
Caminhos para o auditório, achando a latina sentada, com os fones no ouvido. Sentamos ao lado dela. Brittany entra, desconfiada. Santana sorri de lado, abrindo os braços. A dançarina solta um suspiro aliviado, sentando no colo da namorada.
– Você achou que eu ia desistir de você? – San pergunta, divertida.
– Fiquei com medo. – Admite a loira.
– Não fique, amor. – Sussurra. – Eu enfrento tudo por você.
– Deus, vocês são tão meigas. – Brinco. – Olha o mel escorrendo entre elas, Rachel. – Silêncio. – Rachel? – A morena sai do transe.
– Oi? – Levanta as sobrancelhas. – Sinto muito, eu não estava prestando atenção. – Se encolhe. – Como você está, Santana?
– Estou com raiva. Quero mandar todos para...
– San... – Britt repreende. – Não faça isso. – Ela troca um olhar comigo e eu assinto. Brittany também não quer assustar Rachel.
– Logo eles esquecerão. – A latina dá os ombros. Rach balança a cabeça e encosta na cadeira. – O que ela tem? – Sussurra para mim.
– Estão falando sobre nós. – Coloco a mão na testa.
– O que? Estão... Não. – Levanta. Eu seguro seu punho. – Eles não podem...
– Santana, pare. – Mando, sem chamar a atenção da pequena. – Não precisamos disso agora.
– Rach, toque uma música. – Britt pede.
– Eu não...
– Por favor?
Eu sorrio para a dançarina. Seus olhos convencem quem ela quiser. Rachel levanta devagar, sentando no banco do piano. Ela começa com uma música triste, lenta. Mas, com as brincadeiras, a morena volta a se soltar. Com as risadas ecoando, puxo Rachel para dançar comigo, ao som da música vinda do celular de Santana, que tentava acompanhar os passos de Britt. A pequena tira o moletom, revelando os braços maquiados. Nós ficamos assim, matando duas aulas.
Brittany tira Rachel de mim, ensinando-a um passo para a nossa apresentação. Santana me abraça, brincando. Fico paralisada ao ver a morena rodando no ritmo da música. Tão linda... O barulho da porta batendo nos faz saltar.
– É aqui que vocês se escondem?
– Dá o fora, Karovski. – Cuspo. – Leve seus amiguinhos também.
– Por que eu sairia, Quinnie? – Se aproxima. – Nossa, você escolhe mal.
– Ela mandou sair. – Santana vai para frente de Rachel.
– Lopez, acabou os meninos do colégio e você partiu para as mulheres? – Ri.
– Karovski. – Brittany fala grossa. – Sai.
– Vem aqui, Rachel. – Uma menina aparece. – O que é isso? Quinn é tão selvagem assim? – Viro para a morena, que está encolhida no piano. Oh, não... Meu coração dispara.
– VÃO EMBORA. – Grito. – SAIAM. AGORA.
– Deixa eu ver, Rachel. – Karovski empurra Santana, segurando o braço de Rachel. Ela suou, tirando a maquiagem. As cicatrizes estavam à mostra. – Uau... Isso não foi Quinn.
– Seu idiota. – Santana tira a morena de perto dele, jogando-a nos meus braços. Eu seguro-a, protegendo. Ela está tremendo loucamente. – Você está fodido. Eu sei sobre você, estúpido.
– O que... O que...
– Quer que eu fale agora? Ou você escolhe nos deixar em paz? – Ele se cala, dando passos para trás. — Se um de vocês abrirem a boca, eu falo.
– Você não sabe de nada.
– TENTA. – A latina encosta no menino e os dois se encaram, furiosos.
– Parem. – Brittany segura a namorada. – Vão embora, por favor.
O grupo sai, como olhos desafiantes. Eu suspiro, passando a mão na cabeça da morena, que solta um soluço alto, nos assustando.
– Shhhhh, está tudo bem. – Procuro os olhos de Santana, mas eles estão assustados como os meus. – Calma.
– Acabou. – Sussurra, com a voz falha. – Acabou.
– Nada acabou, Rach. – A latina põe uma mão nas costas dela. – Eles não falarão.
– Acabou. – Repete. – Acabou. Acabou...
– Pare. – Peço.
– Acabou.
– Rachel. – Tento segurá-la. – Rachel, calma.
– ACABOU. – Grita, se soltando. – NÃO TOQUE EM MIM.
– Por que você está gritando comigo? – Pergunto destroçada. – Eu só quero te ajudar.
– Ninguém pode me ajudar.
– Não se feche. Você não pode se fechar agora. – Brittany avisa.
– Eu não preciso.... Eu... Eu quero ficar sozinha.
– Não vai. – Digo decidida.
– VOCÊ NÃO ESCOLHE POR MIM. – Tenta sair, mas nos colocamos na frente da porta.
– Se acalme e nós deixamos. – Santana fala. – Rachel.
A morena corre, nos desviando e sumindo no corredor.
– MERDA. – Corro atrás. – ONDE ELA ESTÁ?
– Calma, Quinn.
– QUE CALMA, SANTANA? – Corro para o estacionamento. – Oh, meu Deus. Eu deveria protegê-la. Onde ela foi, San?
– Vamos atrás dela, ok? – Sussurra nervosa, me abraçando. – Vamos acha-la, apenas... fique calma.
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