Além da superfície.
82 Contratempos.
Notas iniciais
Por Rachel
Cada dia marcado no calendário é uma ansiedade a mais. Minha rotina de ensaios tem sido agitada. Às vezes, gostaria de poder ficar no galpão virando a madrugada. Mas, nem meus pais, nem Quinn e nem mesmo Harmony concordaram com a ideia. Bem, ansiedade é a palavra certa. Não posso mentir e dizer que não existe nervosismo, porque sim, ele existe, mas não tão quanto o que Kurt, Blaine, Santana e, principalmente, o que minha namorada vem sentindo.
– Amor, você já comprou a passagem para amanhã porque não tinha outro vôo. – Seguro seus ombros. – Eu não vou te deixar pagar uma fortuna por minha culpa.
– Eu posso procurar de novo, talv...
– Quinn. – A interrompo. – Está tudo bem. Você viajará, eu farei minha audição, e breve estaremos indo para NY juntas. Ok? – Ela balança a cabeça, sem me olhar. – Ok, Quinn?
– Ok, Rach. – Sussurra.
– Hey, você não confia em mim? – Levanto o seu rosto.
– Eu confio. Confio muito. E você?
– Lógico que eu confio em você, será menos de um dia...
– Rachel, você entendeu. – Me olha, séria. – Você confia em você?
– Eu... – Prendo o lábio inferior entre os dentes. – Eu preciso confiar.
– Você irá conseguir. – Me abraça. – Você irá cantar maravilhosamente, como sempre, e vai deixar quem vier te assistir enlouquecido.
– Sabe o que está me enlouquecendo? – Sussurro, perto do seu ouvido. Sinto seu corpo estremecer levemente.
– O que? – Devolve no mesmo tom.
– Você nesse uniforme. – Ela ri, baixo. – Eu estava morrendo de saudade dele.
– Eu também estava. – Segura minha cintura. – Será minha ultima apresentação.
– Ow, baby. – Beijo o pequeno bico que ela formou. – Aproveite. – Me aproximo. – Será a ultima vez que deixarei todo mundo ficar te olhando daquele jeito.
– Que jeito? – Sinto seu riso em meu pescoço.
– Do jeito que te olham quando você está apresentando, Quinn. Como se quisessem te comer. – Ela gargalha. – Digo, isso acontece quando você apenas respirar, mas quando está apresentando é mais desconfortável, porque eu escuto os comentários e...
– O que comentam? – Se afasta, levantando uma sobrancelha.
– Hm... Coisas... – Limpo a garganta. – Coisas de adolescentes virgens que têm fetiche nas lideres de torcida do colégio.
– Rach...
– O que?
– Você é tão exagerada. – Ri.
– Você acha que é fácil namorar Quinn Fabray. – Cruzo os braços.
– Não é, né? – Estala a língua e eu nego. – Deve ser bem complicado mesmo. Será que vale a pena? – Se aproxima, passando os lábios nos meus, levemente.
– Um pouco. – Fecho os olhos.
– Só um pouco?
– Unhum...
Quinn empurra a cabeça para trás, enquanto corre os olhos pelo meu rosto com pura adoração. Automaticamente, meu coração dispara, acelerado. Vale a pena, Q. Vale tanto. Estar com ela é como se tudo ao meu redor desaparecesse. Tudo o que me importa está aqui, na minha frente, em meus braços. Inclinando-se, a loira deixa um beijo suave em minha boca e tenta se afastar. Eu prendo seu lábio inferior entre os dentes e puxou-a de volta para mim, para um beijo mais profundo.
Suas mãos descem por minha cintura e agarram o cós da minha calça. Com cuidado, minha mão afasta-se para trás de sua coxa, e brinca com a parte inferior de sua saia, ousadamente, tocando-a um pouco mais e correndo ao longo da pele cremosa da perna da minha namorada. Quinn se afasta do beijo, enquanto ofega para fora um gemido baixo.
– Devemos parar. – Ela sussurra, controlando a respiração e sorri quando eu solto um suspiro desapontado. – Eu adoraria continuar, mas eu preciso ir para o vestuário, antes que Sue venha atrás de mim. – Beija minha testa. – E não seria muito agradável ela nos encontrar... Hm... Com você com as mãos embaixo de minha saia.
–
O campo está lotado. Pela primeira vez, a William McKinley será a escola do encerramento das competições do futebol americano. Bem, pela primeira vez, os meninos conseguiram chegar em uma final, desde que estudo aqui. A treinadora Beiste caminha de um lado para outro, gritando alguns nomes, enquanto os jogadores vão aparecendo. Vejo Carole e Burt na arquibancada e os dois acenam para mim, não me deixando outra opção, a não ser a de sentar perto deles. Não que eu não goste, pelo contrário, sempre amei os dois e nos relacionamos muito bem, mas eu queria ficar um pouco mais perto do campo, para que eu pudesse ficar com Quinn.
Coloco minhas coisas ao lado da mulher, depois de conversamos e desço. As Cheerios estão aquecendo e os garotos estão se arrumando.
– Veio me ver jogar? – Eu viro em direção a voz.
– Na verdade, eu vim ver a Quinn abrindo o jogo. – Sorrio. Ele assente. – Mas, também te assistirei.
– Menos mal. – Dá os ombros.
– Está nervoso?
– Eu acho que sim. – Coça a nuca. – Estamos em uma final. Isso é completamente estranho para nós.
– Você sempre quis tanto. Mereceu chegar onde chegou.
– Ainda não cheguei. Mas, chegarei. Nós iremos ganhar. – Fala, confiante. – Como capitão da equipe, preciso garantir isso.
– Capitão é uma coisa que você sabe ser. – Garanto. – Eles estão em boas mãos.
– Eu marcarei e dedicarei todos os pontos para você. – Finn sorri.
– Faça isso e eu corto o pouco que você tem entre as pernas. – Uma voz atrás de mim faz o garoto alto arregalar os olhos e levar a mãos para baixo, protetoramente. Eu rio, me deixando ser abraçada por Quinn.
– Eu posso dedicar para você também, já que faz tanta questão. – Zomba, colocando os equipamentos.
– Dedique a Sugar. – Acena com a cabeça para a menina sentada na arquibancada, olhando em nossa direção. – Tenho certeza que ela se emocionará bem mais com seu maravilhoso gesto.
– Idiota. – Finn vira os olhos e nós rimos.
– Boa sorte. – Quinn joga a bola para ele, que segura a tempo. – E ganhe essa droga, Hudson.
– Pode deixar. – Ele sorri.
– Bom jogo, Finn. – O abraço.
– Obrigado, Rach.
Nos afastamos para um canto mais vazio e eu aponto para o lugar que eu ficarei, para que ela saiba pra onde olhar.
– No que está pensando? – Sussurro.
– Nos muitos jogos que abrimos aqui. Não eram importantes como esse, mas... Significaram muito.
– Está nervosa? – A aperto.
– Ansiosa. – Corrige. – E nostálgica. – Sorri.
– FABRAY. – Sue grita, nos assustando. – Está na hora.
– Já vou. – Me olha. – Me deseje sorte.
– Boa sorte, meu amor. – Beijo-a delicadamente e ela suspira.
– Te vejo depois.
Ela corre para o grupo e eu tenho tempo de abraçar Santana e Brittany, que parecem estar igualmente nostálgicas. Aliás, até a Sue parece estar. Elas fazem uma roda, abraçadas, e eu agradeço por Quinn ser a capitã e estar entre treinadora e a co-capitã, que é Santana. Lena está bem longe de minha namorada, como tem que ser. Volto para meu lugar, recebendo sorrisos do casal. Não demora muito para elas começarem a apresentar. O discurso chato do diretor foi bem mais rápido do que eu esperava.
As meninas entram e eu sorrio largo, vendo minha namorada executar os passos mais difíceis e ficar no topo de todas elas. Como previa, os idiotas começam a sussurrar pensamentos indecentes com elas. Envio um olhar mortal para eles, que dão os ombros e se calam. Balanço a cabeça, voltando a me concentrar. Tudo dá certo. O público fica em pé para aplaudi-las. Percebo os olhos cristalinos da maioria das Cheerios. Quinn sorri para mim e eu solto um beijo para ela, desejando abraçá-la fortemente. As outras lideres começam a apresentar, mas eu realmente não consigo prestar muita atenção.
–
Apesar de ter namorado o Finn durante um tempo, eu nunca consegui entender bem esses jogos. Mas, pelas caras, e levando em conta todos os xingamentos e palavrões que o Burt já falou, sei que não estamos indo muito bem. Meu celular vibra em meu bolso e eu franzo a testa com a mensagem.
Rachel, sou eu, Jane. Será que você pode vim aqui, por favor? – Harmony.
Aconteceu algo? – R
Preciso de sua ajuda. – Harmony
Meus olhos correm pelo campo, a procura de Quinn. Quando a encontro, seu olhar cruza o meu e, pela sua expressão, ela percebe que eu preciso falar com ela. Vejo-a sussurrar para Santana, que assente e a abraça. Quinn joga a mochila nas costas e sai despercebida entre a multidão na arquibancada. Eu levanto também, peço licença ao casal e vou para fora do campo.
– O que houve? – Pergunta, preocupada.
– Eu tenho que ir ao galpão. Aconteceu alguma coisa com Harmony. – Ela balança a cabeça, devagar.
– Você quer que eu vá também? – Eu assinto. – Ok, tudo bem. Vamos lá. – Segura minha mão, puxando-me no corredor.
– Obrigada.
Eu dirijo rapidamente para o local, sentindo algo estranho no peito. Quinn aperta meu joelho, como se, mais uma vez, ela soubesse o que está acontecendo e me conforta com um olhar. Nós descemos do carro, praticamente correndo para dentro do galpão. Estranho ele não estar cheio essa a hora. Vejo Jane no canto, de cócoras, em frente a uma cadeira.
– Harmony? – Me aproximo. – Ei, o que houve?
– Ela chegou aqui assim. – Jane dá os ombros. – Ela chamou por você. – Sinto Quinn segurar minha cintura.
– Harmony. – Tento novamente. A cantora levanta o olhar e dá um sorriso. Seus olhos estão pequenos. – Está tudo bem?
– Sim... – Sussurra. – Oi, Quinn. – Minha namorada acena com a cabeça.
– O que aconteceu?
– Eu me inscrevi para NYADA.
– Eu sei. – Franzo a testa. – O que...
– Eu me inscrevi de novo. – Sua voz sai estranha.
– Como assim?
– Ano passado eles me recusaram.
– Você já... Você já tentou uma vez? – Pergunto, surpresa. – Por que nunca me disse isso?
– Porque não é prazeroso contar. – Ri. – Mas, eu me inscrevi de novo. E dessa vez eu irei ensaiar o dobro e...
– Harmony... – Troco um olhar com Quinn, que parece tão confusa quanto eu. – Você já ensaiou muito. Tenho certeza que irá passar nas audições de amanhã.
– AMANHÃ? – Ela levanta. – As audições são amanhã? – Anda de um lado para outro. – Eu não ensaiei nada.
– Ela está bêbada? – A loira sussurra em meu ouvido.
– Harmony! – Seguro seu ombro, parando-a.
– Eu me sinto tão cansada, no entanto. – Boceja, sentando-se na cadeira novamente. – Como eu irei ensaiar?
– Você fez, não foi? – Me solto dos braços de Quinn, me abaixando em sua frente, como Jane estava antes. – Você tomou os remédios.
– Hm... – Sorri. – Foi apenas um, ok? Eu estou bem.
– Não mente pra mim. – Peço. – Quantos você tomou?
– Dois, três. Ah, Rachel, eu não sei. – Dá os ombros. – Hey, você é tão bonita. – Escuto um grunhido atrás de mim, mas ignoro.
– Por que você fez isso? Deveria ter me procurado.
– O que você faria? – Seus olhos estão quase fechando.
– Não sei, conversaria com você, te...
– Beijaria? – Tenta sorrir com malicia, mas ela soa como uma criança. Quinn, no entanto, não vê igual e me puxa para perto de seu corpo outra vez.
– Harmony, presta atenção, você precisa ir deitar.
– Eu preciso ensaiar. – Tenta levantar, mas eu a impeço. – Rachel, me deixe. Se você não quer ficar comigo, me deixa ensaiar.
– Você já ensaiou muito.
– Eu não vou... Eu não vou conseguir cantar... Eu... Rachel, eu preciso ensaiar... Eu... – Suas mãos tremem. – Que música eu vou cantar? E se eles...
– Harmony, por favor...
– Se eles me recusarem de novo, eu...
– Quinn. – Viro para minha namorada, que encara a menina de olhos azuis com um semblante sério. – Eu preciso que você me faça um favor.
– O que? – Me olha, agora preocupada.
– Você lembra aquele restaurante que eu te levei para experimentar o frapê? – Ela assente. – Procure uma garota chamada Lexy.
– NÃO. – Harmony segura minha blusa. – Não faça isso.
– Fica calma. – Peço. – Você pode, Q?
– Não é melhor você ir e eu ficar com ela? – Pergunta, desconfiada.
– Ela não tentará nada, eu prometo.
– Ok. – Sussurra. – Eu já volto.
Quinn beija minha testa e deixa o local.
Por Quinn
Por sorte, o restaurante está pouco movimentado. Eu entro, olhando para os lados. Um homem mais velho aparece no caixa e descansa o rosto em uma das mãos.
– Boa tarde. – Digo. Ele me olha.
– Boa tarde. Possa ajudá-la?
– Onde eu posso encontrar a Lexy? – Pergunto no balcão.
– Ela está ocupada. – O senhor resmunga.
– Pode apontá-la, por favor? – Ignoro-o.
O homem faz o que eu peço e eu o agradeço, indo em direção a garota de cabelo curto, atendendo uma mesa distante. Espero que ela termine de anotar algo e me aproximo.
– Lexy. – Ela levanta a cabeça, franzindo a testa.
– Eu conheço você?
– Não... – Suspiro, erguendo uma mão. – Meu nome é Quinn Fabray.
– Prazer. – Aceita o aperto. – O que gostaria?
– Lexy, eu estou vindo do galpão de música aqui perto... – Seu corpo tenciona. – Eu não sei como te falar isso, mas eu preciso que você venha comigo.
– O que aconteceu? – Sussurra.
– É a Harmony. – Ela fecha os olhos. – Será que você pode vim?
Encaro a garota, esperando-a. Ela abre os olhos e solta um suspiro longo, antes de assentir.
– Eu te espero em meu carro. – Aponto.
Em menos de cinco minutos, ela estava travando o cinto ao me lado. Eu dirijo em silêncio, sabendo que a garota está nervosa.
– De onde você a conhece? – Pergunta, olhando pela janela.
– Minha namorada a conheceu faz uns meses. – Explico. – Ela também irá tentar para NYADA.
– As audições... Serão amanhã, certo? – Eu assinto. – Eu ouvi o pessoal comentar. Ela... Ela fez, não faz? – Me encara. – Ela tentou se dopar.
– Sim... – Lexy solta um riso falso e limpa uma lágrima, com força.
–
Chegamos no galpão e Harmony parece agitada, enquanto Rachel tenta acalmá-la, mas ao notar a presença de Lexy, a cantora de olhos azuis paralisa. Minha namorada vem para o meu lado, me agradecendo outra vez. Escuto o suspiro forte de Lexy, antes dela se aproximar.
– Eu sinto muito. – Harmony olha para baixo.
– Vem aqui. – Abre os braços.
Harmony abraça Lexy com força, deixando os soluços sacudirem o seu corpo. A outra a embala, como se ela fosse uma criança indefesa. Rachel esconde o rosto em minhas costas, virando em outra direção. Sinto suas lágrimas e aperto sua mão.
– Me descu... Me desculpe...
– Harmony, shh... Calma.
– Eu não queria te decepcionar de novo.
– Tudo bem, não decepcionou, ok? Vamos para casa?
– Eu não quero ir. Eu preciso ensaiar. – Suspira, se acalmando.
– Lá em casa você ensaia.
– Na sua casa? – Enxuga o rosto.
– Sim. – Beija o topo da cabeça dela. – Vamos? – Harmony assente. — Vocês podem nos levar? Eu não vim com o carro...
– Claro. – Concordo. – Essa é Rachel, minha namorada.
– Eu já te vi antes...
– Já. – A morena sorri, com os olhos avermelhados. – Sinto muito ter te chamado, mas...
– Você fez o certo. Obrigada!
– Lexy. – Jane a cumprimenta, um pouco rude. A de cabelo curto apenas assente, virando para Harmony de novo. – Rachel, eu preciso de ajuda para fechar o galpão. Está tudo uma bagunça. – Lamenta.
Minha namorada me olha, sem saber o que fazer.
– Eu posso ir na frente e você me encontra lá. – Sugiro. – Você pode deixá-la, Jane? Sabe onde é?
– Sim. Já fui buscar Harmony lá várias vezes. – Lembra. – E em nenhuma delas ela estava bem. – Acrescenta.
– Eu encontro você lá fora. – Lexy fala, puxando a cantora.
Rachel suspira, me abraçando.
– Desculpa ter te metido nisso, amor. Sei que tínhamos planos melhores para hoje.
– Não se preocupe. – Falo, sincera. – Fico feliz em estar ajudando.
– Eu te amo.
–
Lexy apóia a cabeça de Harmony no travesseiro e faz um pequeno carinho em seu cabelo. Eu tenho quase certeza que ela esqueceu a minha presença no quarto, então apenas assisto a cena a distancia. A garota solta um suspiro longo e enxuga sua bochecha, timidamente.
– Você gosta dela. – Sussurro. Ela sorri.
– Eu gosto muito. – Morde o lábio. – Eu... Eu sou apaixonada por ela.
– E por que vocês não estão juntas? Ela gosta de você também. – Sento na beira da cama. – Ficou claro assim que você chegou.
– Porque eu não tenho força, porque eu sou covarde. – Abaixa a cabeça. – Eu não sei se eu aguentaria isso. Eu não posso ser forte por mim, Quinn, imagina ser forte por nós duas.
– Não é assim que acontece. Vocês serão fortes juntas, irão somar uma na outra.
– Eu vi os punhos de Rachel. – Me encara. – Você está com ela mesmo assim. Você ama a Rachel a ponto de aceitá-la com todos os seus problemas. Você tem força para isso.
– A gente não pode simplesmente separar as pessoas dos problemas delas. – Dou os ombros. – Assim como eu a aceitei, ela também me aceitou. Não importa quão grande sejam esses problemas, nem o quanto eles são pequenos. Elas podem se cortar, tomar remédios ou terem uma simples dificuldade com uma matéria no colégio. A gente ama por inteiro. Será assim com qualquer pessoa que você arrumar.
– Isso é bonito, Quinn. – Sorri triste, voltando a enxugar as lágrimas. – Na teoria isso é bem bonito. Na prática é tão difícil. – Traça o rosto da cantora deitada, que dorme com um semblante tranquilo. – Eu sou egoísta, certo? Ela me chama de egoísta e é exatamente o que eu sou. – Põe a mão na boca, para abafar um soluço.
– Vamos lá pra fora. – Peço, segurando seu ombro. – Depois você volta e fica com ela, mas agora você precisa se acalmar.
Lexy assente, deixando um beijo demorado na testa de Harmony, que sorri em resposta e vira, agarrando um travesseiro. Nós duas sorrimos também, involuntariamente. Quantas vezes eu vi Rachel fazer isso? Balanço a cabeça e tento espantar os pensamentos. Não é hora para comparação. Lexy me guia para fora do quarto. Nós sentamos nas cadeiras do corredor.
– Você não é egoísta. – Ela ri, sarcástica. – Está tudo bem ter medo. É normal.
– Nós ficamos juntas durante um tempo. – Respira fundo. – Eu não... Eu...
– Você não me conhece, eu não te conheço, se você quiser falar, pode falar, porque eu não vou te julgar em nada.
– Eu não sou gay. – Solta. Eu levanto uma sobrancelha. – Digo, eu sou, mas eu não queria ser. Harmony é uma pessoa maravilhosa, entende? Ela é encantadora e não tem como alguém não se apaixonar por ela. – Meu corpo tenciona e a menina percebe, soltando uma risada baixa. – A não ser que esse alguém já esteja apaixonado, claro.
– Claro. – Repito, sem graça por sentir ciúmes.
– E eu a detesto por fazer isso comigo. Pode passar mulheres lindas, com corpos incríveis em minha frente, eu não irei me importar. Mas, ela... – Esfrega o rosto. – Nós estudávamos juntas e nunca fomos as mais populares do colégio. – Eu assinto. – Isso sempre me incomodou muito. O fato de todos me tratarem mal por nada. Mas, Harmony sofreu bem mais.
– Eu sinto muito. – Sinto a necessidade de dizer. Ela me encara, parecendo me entender e assente.
– Já estávamos ficando quando eu percebi o que ela estava fazendo. Havia dias que eu precisava arrastá-la para longe do colégio, porque ela simplesmente não conseguia abrir os olhos.
– Eu não consigo imaginar isso. – Admito. Ela sorri.
– Posso falar o mesmo sobre Rachel. – Inclina a cabeça. – Nosso terceiro ano foi muito... Conturbado. Brigávamos direto, fazíamos as pazes, ela tinha muitas crises, eu a evitava na frente dos outros. No dia das audições eu... – Fecha os olhos. – Eu esqueci. E... Quando me disseram que estava havendo, cheguei a tempo de vê-la tentar...
– O que aconteceu? – Seguro sua mão.
– Ela estava dopada. – Suspira. – Eu percebi isso assim que ela falou seu nome. Sua voz estava estranha, enrolada. Ela não conseguiu cantar. Eu corri para o palco, mas Harmony me olhou de um jeito que eu nunca vou conseguir esquecer. Era como se eu não estivesse ali. Eu falava, ela não ouvia. Eu tocava nela, mas ela não me sentia. – As lágrimas voltam. – Ela pegou suas coisas e saiu de perto de mim, sem dizer uma palavra.
Eu fico calada, absorvendo sua história, enquanto ela tenta recuperar a respiração normal. Meu celular vibra e eu vejo uma mensagem de Rachel avisando que já está chegando.
– Nesse dia eu percebi que ela merece alguém que se levante por ela. Alguém que não tenha medo ou vergonha de amá-la. Alguém que vai cuidar dela, que vai protegê-la como ela merece... Eu não sou essa pessoa, eu nunca fui.
– Eu vi o jeito que você segurou ela hoje, Lexy. Você...
– Se eu fosse essa pessoa, eu não teria deixado isso acontecer, em primeiro lugar. O que adianta chegar sempre depois?
–
Os meninos ganharam de virada. Isso nos fez relaxar um pouco, depois do dia conturbado que tivemos. Como o combinado, Rachel veio comigo para a minha casa, passar a noite, já que amanhã cedo eu irei pegar o avião para NY. Ou pelo menos é o que eu tenho que fazer, só que eu não consigo me sentir tranquila com isso. Por mais que ela peça, por mais que eu saiba que ela capaz, eu me sinto no dever de estar por ela. Sei que Santana estará apoiando-a, mas, ainda assim, não é a mesma coisa. Durante todo o ano, prometi que estaria segurando sua mão nesse dia, porém estarei a horas de distância. Parece tão errado.
E agora, a história de mais cedo roda na minha mente a cada segundo.
– Durma, Quinn... – Ela sussurra com os olhos fechados.
– Eu não consigo. – Confesso, no mesmo tom. Ela abre os olhos, devagar. – Você não está nervosa?
– Estou, amor. – Passa a mão no meu rosto. – Mas, não tanto assim... E nós precisamos dormir. Você viaja amanhã cedo e...
– Você está certa. – Puxo o lençol. – E você precisa descansar. Vamos dormir, Rach.
– Você ficou mexida, não foi? Essa história de Harmony te deixou mais preocupada do que estava.
– Não, claro que não.
– Quinn... – Suspira.
– Ok, talvez eu tenha ficado, sim, mas... Droga, eu que deveria estar te acalmando e não o contrário.
– Tudo bem. – Ri baixo. – Vai acontecer o que tiver que acontecer, certo? – Eu faço uma careta. – Hey, é sério.
– O que vai acontecer vai ser você brilhando naquele auditório e conseguindo o seu melhor, como eu disse mais cedo.
– É uma opção.
– É a opção. – Corrijo. – Eu confio em você.
– Mesmo?
– Sim. – Beijo sua boca, delicadamente. – Desculpa se eu fiz você duvidar, eu só estou nervosa.
– Eu não duvidei. – Encosta nossas testas. – Tudo dará certo.
Sim... Tudo precisa dar certo... Eu espero.
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